Parábola do Tesouro Escondido e da Pérola

Rodolfo Calligaris

"O reino dos céus é semelhante a um tesouro que, oculto no campo, foi achado e escondido por um homem, o qual, movido de gozo, foi vender tudo o que possuía e comprou aquele campo. É semelhante, ainda, a um negociante que buscava boas pérolas, e, tendo achado uma de grande valor, foi vender tudo o que possuía e a comprou”. (Mateus, 13:44-46).

Nestas duas parábolas tão singelas quão expressivas, Jesus compara o reino dos céus a "um tesouro oculto no campo" e a "uma pérola de grande valor", dizendo que aquele que tem a ventura de achá-los, é tomado de tal gozo que não titubeia em dispor de todos os seus haveres para adquiri-los.

Esse tesouro ou essa pérola é bem de ver-se, não é senão a alma humana. "O reino dos céus está, dentro de vós", dissera de outra feita o Divino Mestre, deixando bem claro que o reino celestial significa, não um lugar no espaço, mas algo que se verifica no íntimo de cada um.

Geralmente, procura o homem edificar a felicidade sobre as posses materiais, a ascendência social, a fama ou a saúde, mas estas coisas são precárias e incertas, pois pode durar, no máximo, uma existência, quando um terremoto, uma enchente, um incêndio, os azares da fortuna, uns micróbios em seu sangue ou determinado humor em seus fluidos orgânicos não as arruínam por completo.

Jazem ocultas, a milhões de criaturas, coisas mais belas e grandiosas: os bens espirituais, que são, aliás, os únicos valores reais e duradouros, ante os quais aquilo tudo pouco ou quase nada importa.

Possuir esse bem espiritual, a virtude cristã é conquistar o reino dos céus, porque o conhecimento e o amor de Deus nos fazem desfrutar tal estado de paz e de alegria que nada e ninguém conseguirá destruir ou perturbar.

Por isso, como diz a parábola, quando alguém "descobre" no campo de si mesmo esse tesouro de tão subido valor, que é a própria alma, e a sabe imortal, e fadada a alcançar o mais excelso destino: sua integração à única Realidade Absoluta - Deus! - todas as ilusões da materialidade, todas as glorias do mundo, e até mesmo o bem-estar do corpo físico, se tornam de somenos importância. Então, cheio de júbilo, sabendo que a felicidade verdadeira depende, não daquilo que se tem, mas daquilo que se é, vai "vender tudo o que possui", isto é, desprende-se das pseudopropriedades e distinções terrenas, para cuidar principalmente do enriquecimento de sua consciência espiritual, a mais preciosa das pérolas, cuja posse vale o sacrifício de todos os bens de menos valor, de tudo aquilo que considerava importante e valioso em sua vida.

Não se entenda, o que seria errôneo, que a posse dos valores espirituais seja incompatível com a posse das coisas materiais. Não. O que se quer salientar é que para o nosso progresso espiritual faz-se mister vivermos mais intensa e sinceramente em função dos ideais superiores, dedicando-lhes maior atenção do que às aquisições materiais, que devem constituir-se apenas um meio de realizarmos os nossos objetivos, e não um fim em si mesmo.

(Quem se disponha a assim proceder, sobrepondo os interesses da alma a quaisquer outros, não deve temer que lhe venha a faltar o necessário à subsistência, porquanto Jesus nos assevera, no seu Evangelho, que, "se buscarmos primeiramente o reino de Deus e a sua justiça, tocadas das outras coisas nos serão dadas de acréscimo”).

Por menor que nos pareça vale a pena sacrificar todos os tesouros da terra para a conquista do Reino de Deus que nos é tão próximo (in e não ex).

Tem muito rico que sabe usar os tesouros materiais para alçar ao reino, assim como há muito pobre que além de não serem humildes não usam de forma inteligente a pobreza, para crescer.

Rico é quem se satisfaz com menos, mas isto não significa acomodação e muito menos que riqueza é sinônimo de salvação com nos fizeram crer no passado.