Parábola dos Lavradores Maus

Rodolfo Calligaris

"Havia um proprietário, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou ali um lagar, edificou uma torre e depois a arrendou a uns lavradores, ausentando-se para longe. Ao aproximar-se o tempo dos frutos, enviou seus servos aos lavradores, para receberem os frutos que lhe tocavam. Estes, agarrando os servos, mataram um, feriram outro e a outro apedrejaram, recambiando-os sem coisa alguma. Enviou ainda outros servos, em maior número do que os primeiros, e fizeram-lhes o mesmo. Por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Hão de ter respeito a meu filho. Mas, vendo-o, os lavradores disseram entre si: este é o herdeiro; vinde, matemo-lo e ficaremos senhores de sua herança. E lançando-lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e o mataram. Quando, pois, vier o Senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe: Destrui-los-á rigorosamente, e arrendará a sua vinha a outros lavradores, que lhe paguem os frutos há seu tempo devidos". (Mateus, 21:33-41).

A interpretação desta parábola é extremamente fácil, tão precisos são os caracteres de suas personagens e os fatos a que se reportam.

O proprietário é Deus; a vinha é a Religião do Amor que deverá ser implantada na Humanidade terrena; e os lavradores á quem a vinha foi arrendada são os sacerdotes de todas as épocas, desde os que sacrificavam animais para oferecer em holocausto nos altares do judaísmo até os de hoje, que oficiam em suntuosos templos e catedrais. Os frutos são a piedade cristã, o progresso moral, e os servos incumbidos de recebê-los são os missionários enviados por Deus a Terra, de tempo em tempo, a exemplo dos profetas da Antigüidade, João Hus, Savonarola, Lutero, etc., os quais, por reclamá-los à casta sacerdotal, verberando-lhes incúria no trato das coisas divinas, foram por ela perseguidos, injuriados e mortos.

O filho do proprietário é Jesus, cujo martírio ignominioso na cruz foi, também, obra exclusiva do sacerdotalismo.

A herança é o reino dos céus, de que o sacerdócio hierárquico pretende ter a posse, constituindo-se seu único dispensador.

Arrogando-se os poderes inerentes ao herdeiro, os sacerdotes, ao invés de cultivarem a vinha, abandonaram-na, esqueceram-na; favoreceram o desenvolvimento de plantas daninhas, deixando, assim, o proprietário sem os frutos devidos.

De fato, após séculos e séculos de influência absoluta sobre as consciências, que resultado têm a apresentar ao Senhor da vinha? A indiferença religiosa, o ateísmo e toda a sorte de males decorrentes dessa estagnação espiritual.

O domínio desses lavradores maus, porém, está a findar-se.

Por toda a parte, suas organizações pseudo-religiosas, dogmáticas e obscurantistas, eivadas de formalismos, cerimônias culturais, ritos e pompas exteriores, estão em franca decadência.

Sim, os dias desses rendeiros relapsos estão contados.

Durante muito tempo, a pretexto de combater heresias e apostasias, eles torturaram, massacraram e queimaram os enviados do Senhor, que lhes vinham cobrar os frutos da vinha. Já agora, a última parte da parábola começa a realizar-se: estão perdendo todo o prestígio que gozavam junto aos governantes e a ascendência que tinham sobre a.s massas populares, assistindo, apavorados, à deserção de suas igrejas; estão sendo destruídos rigorosamente aqui, ali e acolá, sofrendo na própria carne aquilo que fizeram a outrem padecer.

Entrementes, eis que surge o Espiritismo (a falange de novos lavradores), a substituí-los na sublime tarefa de que não souberam dar boa conta.

Profligando todos os sectarismos estreitos e antifraternos, e oferecendo à Humanidade um novo lábaro, em que se lê: "fora da caridade não há salvação" o Espiritismo está ganhando, rapidamente, a simpatia e a adesão de todas as criaturas de boa vontade, e há realizado, em apenas alguns decênios, um extraordinário revivescimento espiritual, a par de uma obra social verdadeiramente impressionante, numa demonstração inequívoca de que os novos rendeiros saberão, de fato, cumprir os seus deveres para com o Senhor.

Quem tiver "olhos de ver", veja.