O melhor é crescer em família

André Henrique

"Há no homem alguma coisa a mais, além das necessidades físicas há a necessidade de progredir. Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família mais apertados tornam os primeiros. Eis por que os segundos constituem uma lei da Natureza. Quis Deus que, por essa forma, os homens aprendessem a amar-se como irmãos."
Allan Kardec

sociedade moderna soçobra. Quando Oswald Spengler apresentou ao mundo a derrocada dos valores da civilização na sua obra "A Decadência do Ocidente", ele vislumbrou na história uma sucessão cíclica de ascensões e declínios que culminavam sempre no ponto de início. Suas preocupações em interpretar e definir os elementos diretores da história permitiram-lhe identificar as causas fundamentais do processo histórico do homem e da sociedade. E quando olhamos para a modernidade social, com suas dificuldades e problemas, somos igualmente convidados a questionar o porquê das questões que nos afligem, individual e coletivamente.

Will Durant, um dos mais renomados historiadores do nosso século, posiciona o mundo moderno numa perspectiva de perplexidade singular. Afirmando:

"(...) sentimos a nossa vida moral ameaçada e a nossa vida intelectual ampliada excessivamente pela desintegração dos antigos costumes e da antiga fé. Tudo é novo e experimental nas nossas idéias e ações; nada estabelecido e certo. A complexidade, a variedade e a marcha da mudança operada hoje não têm precedentes (...); em redor de nós, todas as formas estão alteradas, desde os instrumentos complicadores do trabalho e das engrenagens e rodas que nos mantém num perpétuo movimento sobre a terra, até as nossas inovações na vida sexual e a áspera desilusão das nossas almas."

De fato. A mesma tecnologia que nos tirou das cavernas e nos lançou na lua foi capaz de exterminar populações inteiras em fração de segundos. As mesmas conquistas que nos proporcionam uma vida mais confortável, roubam-nos as oportunidades de convivência e diálogo. E nessa parafernália tecnológica em que a modernidade nos introduziu, a família, sobretudo, perdeu suas dimensões mais íntimas e transformou-se numa mera agregação de corpos que compartilham um mesmo teto, embora em horas diferentes...

A expressão "a áspera desilusão das nossas almas" encerra de maneira muito profunda a surpresa que o espírito humano logrou com o advento do século de luzes e sombras que, conforme assinalou Durant, elevou a necessidade acima do contentamento e nos posicionou atônitos face as profundas mudanças de nossos valores e atitudes perante a sociedade.

Dentro deste contexto de dificuldades e progressos, é na família, célula primeira da sociedade, que precisamos centrar nossas atenções para identificar as causas - e soluções - para os problemas que nos afligem.

Desde que a revolução industrial transformou as cidades em metrópoles e trocou a bucólica vida agrária pela movimentação e rebuliço da sociedade tecnológica, assistimos a desagregação familiar ocorrer de formas acelerada e inaudita, ocasionando dificuldades que só o tempo logrou demonstrar. O antigo aconchego doméstico foi substituído por uma ausência contínua, primeiro dos pais trabalhadores, depois dos filhos estudantes e, por fim, dos "bebês-internados-em-creche" que povoam o dia a dia de nossas cidades. Como conseqüência da busca de realizações externas e da contínua ausência de convívio entre os membros do grupo familiar, o diálogo se fez escasso, a afetividade teve sua manifestação dificultada e a família, em si mesmo, permanece ameaçada.

É preciso, então, rediscutir o papel da família. Não apenas das bases do pensamento social, mas preciso é considera-lhe igualmente as bases espirituais. Estudá-la com todas as dimensões sociais e econômicas que o academicismo aceita, mas acrescida dos referenciais espirituais, por ora distanciados da interpretação oficial das ciências humanas. Nesse estudo, o Espiritismo vem trazer referenciais de extrema profundidade uma vez que estabelece no Espírito uma das potências da Natureza e pretende introduzi-lo como uma variável determinante na interpretação da vida. Portanto as considerações em torno da família e suas funções ganham no pensamento espírita uma dimensão a mais: a espiritual.

E surge a pergunta: - O quê é a família?

Definindo família como "Pessoas aparentadas que vivem em geral, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos"; ou ainda "pessoas do mesmo sangue" Aurélio Buarque, pretendeu relacioná-la com sua função marcadamente social e biológica. Mas a família traz interpretações mais amplas quando observada sob outros pontos de vista.

No entendimento de Wilfred Anderson e Frederick Parker:

"A família é a instituição primária das sociedades. Entre suas principais funções podemos citar: a reprodução biológica, o sustento econômico, a socialização e a educação, e a transmissão de propriedade e cultura."

Assim, no âmbito sociológico encontramos a família como "a instituição primária" e como um instrumento da sociedade para sustentação do seu próprio equilíbrio. Ainda nas palavras de Anderson e Parker:

"a família é a mais eficiente estrutura de relação humana criada pela sociedade para a realização de certas funções essenciais."

Essa opinião de que a família é um instrumento da sociedade para sustentação de suas bases não é exclusiva desses autores. Will Durant compartilha da mesma idéia e afirma que:

"A família tem sido o veículo dos costumes e das artes, das tradições e da moral.", e acrescenta "A essa função da família como centro moral e integrador da sociedade veio somar-se a função econômica: a família tornou-se uma unidade, um núcleo de produção."

Ao demonstrar que o homem é na realidade um Espírito em aprendizado na Terra, a Doutrina Espírita ampliou o conceito de família. Kardec tornou muito clara esta dimensão de família espiritual quando analisou o problema em O Evangelho segundo o Espiritismo. Assentando a família em bases espirituais o Espiritismo apresenta a família como instrumento fomentador do progresso. No entendimento do Espírito Emmanuel, a família recebe uma interpretação transcendente:

"Temos, dessa forma, no instituto doméstico uma organização de origem divina, em cujo seio encontramos os instrumentos necessários ao nosso próprio aprimoramento para a edificação do Mundo Melhor"

Essa função evolutiva que desempenha a família vai além do indivíduo e atinge mesmo as bases da organização social. Uma análise detalhada das funções específicas da família, conquanto de enorme interesse, está fora do escopo deste texto. Mas poderíamos sintetizar essas funções no seguinte quadro esquemático:

FUNÇÕES DA FAMÍLIA

Uma visão sociológica

Função BIOLÓGICA Procriação de filhos para manutenção da espécie
Função de Socialização* Tarefa de transformar um ser biológico, que tem a capacidade de reagir, aprender e crescer, num membro socializado e participante da sociedade.
Função Econômica* Regula o direito de propriedade e herança e ao mesmo tempo fornece os elementos de sustentação econômica das sociedades
Função Cultural* Embora não seja exclusividade da família, a transmissão de cultura encontra nela uma das mais fortes aliadas na perpetuação da herança cultural dos antepassados.
Função PSICOLÓGICA A família é a base na qual se cria a nossa natureza como pessoa e, além disso, desempenha o papel de satisfazer as necessidade psicológicas básicas para o indivíduo.
Função ESPIRITUAL
  • Educação do Espírito;
  • Formação de valores regenerativos;
  • Oportunidade evolutiva
  • Desenvolvimento da afetividade e do amor para atingir a dimensão da família universal.

* Podem ser resumidas como um grupo de funções SOCIAIS.

A Perspectiva Espiritual

As funções da família são determinantes na manutenção da civilidade. Mas dentro da observação espírita esses papéis se estendem para a sociedade espiritual pois vemos que o Espírito participa, na verdade, de uma cosmossociedade espiritual na condição de cidadão do universo que exercita na Terra o aprendizado dessa função. E a família consangüínea se lhe apresenta como a oportunidade primeira de exercitar o aprendizado do amor ao próximo como a si mesmo, lei áurea que regula as relações espirituais superiores.

O Espiritismo oferece ao homem um programa de desenvolvimento que pretende enfocá-lo em suas dimensões biológicas, psicológicas, sociais e espirituais. E dentro desse programa são definidos como objetivos gerais:

Aqui a família desempenha um papel fundamental. Primeiro como veículo de reeducação do espírito reencarnado que experimenta na infância uma oportunidade de redefinir seus valores pessoais, seus pensamentos e hábitos para com a vida. Depois, por ser no ambiente familiar que o indivíduo vai experimentar nova oportunidade de integração com o próximo, através da qual vai igualmente se integrando consigo mesmo para finalmente integrar-se com Deus.

Quando em "O Livro dos Espíritos" Kardec dialoga com os prepostos espirituais acerca da lei de sociedade recebe deles o esclarecimento de que:

"O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contato com os outros homens. No insulamento ele se embrutece e estiola."

O desenvolvimento dessas faculdades pelo contato social tem início no ambiente doméstico aonde o Espírito dá continuidade ao seu processo de aprendizado intelecto-moral. O Espírito reencarnado no seio familiar não é concebido como uma "tábula rasa" sem conhecimentos ou experiências anteriores, mas é tido como uma individualidade que traz consigo seus valores e problemas conquistados nessa ou em anteriores existências. Por isso o processo de desenvolvimento não é começado, mas continuado a cada nova experiência de renascimento.

A perspectiva de integração global do ser consigo mesmo, com o próximo e com Deus, traz para a sociedade uma dimensão profundamente mais ampla no que diz respeito à família. Traz uma concepção que estabelece o conceito da Família Universal, o qual supõe a interrelação fraterna entre todos os Espíritos, encarnados e desencarnados, num processo de mútua cooperação objetivando o crescimento comum dos seres e das coisas. Esse conceito, uma vez implantado no indivíduo, fa-lo-á proceder como cidadão cósmico que zela e respeita sua morada e os que a compartilham com ele. As conseqüências destas idéias têm grave repercussão sobre a ordem social, por esse motivo Allan Kardec, após finalizar o insólito diálogo com os Espíritos da Codificação, estabeleceu na parte quinta da conclusão de "O Livro dos Espíritos "que:

"Por meio do Espiritismo, a Humanidade tem que entrar numa nova fase, a do progresso moral que lhe é conseqüência inevitável."

E nesta "Era do Progresso Moral" a família desempenha o papel de catalisadora das experiências sociais e, como tal, contribuirá de maneira decisiva para o êxito do processo. Suas funções bio-psico-socio-espirituais são o sustentáculo da estrutura social que aos poucos vai nascendo das experiências humanas ao longo dos séculos. Graças a ela o homem desenvolveu o sentimento de fraternidade, exercitou o amor e construiu a civilidade e temos razões para supor que através dela a humanidade irá se transformar mais.

Por isso, quando nos deparamos com a conclusão de Spengler a respeito dos processos diretivos da história em "A Decadência do Ocidente" e vemo-lo afirmar que:

"Não somos livres de obter isso ou aquilo. Mas (que) temos plena liberdade de fazer o necessário ou de não fazer nada. " - e conclui que - "Os problemas que cria a necessidade histórica sempre se resolvem ou com o indivíduo ou contra ele". - Somos forçados a considerar que neste mesmo processo histórico, que cria necessidades e circunstâncias para a experiência de crescimento dos indivíduos e das sociedades, persiste uma proposta mais ampla de progresso e ascensão social. Trata-se de uma proposta de dimensões espirituais visando a sociedade espiritual e os indivíduos que as compõem. Mas, ao contrário do que afirma Spengler, nós somos livres para tomar nossas decisões e obter resultados de transformação individual e coletiva. Entretanto, para isso ocorrer é preciso que o indivíduo e a coletividade tenham consciência dos objetivos e processos a que estão submetidos na escalada do progresso.

Ao Espiritismo cabe, então, a tarefa de ampliar o sentido da sociedade humana e fazê-la entrar nessa nova era de progresso moral em que os problemas criados pela necessidade histórica se resolvam não contra o indivíduo mas com e para ele. E que isso se dê no sentido espiritual do seu crescimento, isto é, rompendo as barreiras milenares do seu egocentrismo e levando-o a uma visão sócio-espiritual da vida.

Fazendo com que a sociedade perceba que "Há no homem alguma coisa a mais, além das necessidades físicas" vem o Espiritismo convidar o indivíduo à vivência do amor verdadeiro cujo exercício começa no ambiente familiar. O carinho, a amizade, a solução de conflitos e o diálogo franco e aberto são instrumentos de burilamento que na oficina doméstica edificam o progresso espiritual. Exercita-se o perdão, a compreensão, o silêncio, a cooperação, o respeito e a liberdade em circunstâncias múltiplas porque "há no homem a necessidade de progredir" e o Espiritismo entende que "Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família mais apertados tornam o primeiro. (...) Quis Deus que, por essa forma, os homens aprendessem a amar-se como irmãos."

A Doutrina Espírita vem, dessa forma, contribuir de maneira fundamental para a ação do homem no sentido de valorização da família como instrumento de ascensão individual e coletiva. Ao demonstrar que o Espirito em experiência da carne precisa de elementos propulsores do seu progresso nessa sua difícil e árdua escalada rumo ao amor universal o Espiritismo convoca a humanidade a uma postura diferente diante de si mesma e particularmente convida o homem a uma ação mais educativa no contexto da família.

Poderíamos indagar: Mas de que maneira podemos colocar tais idéias em nossa prática diária? - pergunta de vital importância já que o Espiritismo é uma doutrina de caráter transformador.

A prática do Espiritismo é decorrente do seu estudo. Nele vemos esclarecidos os problemas centrais da existência, os valores reais da vida e os motivos pelos quais sofremos e podemos nos libertar do sofrimento. Além disso, a Doutrina Espírita apresenta o recurso profilático da prece; o passe e a reflexão elevada aliada à nossa transformação íntima como de inestimável valia para superação de dificuldades. Não só. Por esclarecer os aspectos morais do Cristianismo sob nova ótica, o Espiritismo nos coloca a necessidade do diálogo nas bases do "sim, sim - não, não"; a prudência de não apontar o argueiro no olho do próximo quando no nosso encontra-se uma trave; a urgência de utilizarmos o perdão como um veículo para manutenção do nosso próprio equilíbrio, etc. A esse respeito, inclusive, a bibliografia espírita é de inequívoco valor. Obras como A Vida e Sexo, Veredas Familiar, Jesus no Lar, Renúncia, Conduta Espírita, A Vida Conjugal, O Evangelho segundo o Espiritismo , e a Família e Espiritismo- dentre outras que recomendamos a leitura para aqueles que enfrentam problemas no ambiente familiar - trazem em seu conteúdo orientações muito seguras para tornar bastante claro que à luz da Doutrina Espírita O MELHOR É CRESCER EM FAMÍLIA.