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O incerto vôo da águia feridaSemyramis Gomes de Albuquerque
No caso em tela é necessário que se tenha muita cautela para tomar qualquer atitude. É preciso que se ponha a inteligência para funcionar antes da força. Que não se deixem os Estados Unidos sair por aí, jogando bombas em países suspeitos de darem guarida a terroristas internacionais, pois, na verdade, nenhum país assumiu abertamente a culpa pelo atentado terrorista que destruiu o World Trade Center e uma boa parte do Pentágono. Punir os responsáveis é preciso, mas punir civis que, em geral, nada tem a ver com terrorismo não será uma atitude correta. Contudo, este perigo está se desenhando no seio do mundo político norte-americano. As diversas manifestações de seus atuais e ex-governantes revelam essa intenção. Os discursos eivados de ódio e desejo de vingança tem o mesmo tom e a mesma coloração: "Foi um ato de guerra perpetrado contra os Estados Unidos, que precisa uma resposta ampla, enérgica e definitiva." Henry Kissinger, o mais qualificado entre os políticos manifestantes, sintetizou esse consenso. Para ele, foi uma ação integrada. Não adiantaria apenas um golpe retaliatório. "Quem fez isso tem recursos substanciais, organização e apoio."Não bastaria caçar e punir os terroristas. Os Estados Unidos têm que neutralizar os governos que abrigam ou encorajam o terrorismo internacional”. Como se vê, o orgulho ferido transtorna até as mentes mais esclarecidas que passam a alimentar e a insuflar o desejo de vingança a qualquer custo. Ninguém dentro do mundo político norte-americano parece interessado em se perguntar: "Por que fomos atacados com essa virulência? Será que temos despertado aí pelo mundo afora ódios tão tenebrosos, que levam alguns homens a pensarem que têm o direito de nos agredir dessa maneira? Não será essa tragédia resgate cármico, por resposta às duas bombas atômicas que jogamos sobre o Japão, , e dizimamos milhões de criaturas? Não será isso uma resposta amarga aos embargos econômicos e às guerras que temos feitos ou simplesmente alimentado? Será que não temos de olhar pó outro ângulo os acontecimentos do mundo? Será que só o nosso ponto de vista é correto? Será que uma violência justifica outra?" A retaliação norte-americana, seja bélica ou apenas de ordem econômica, não extinguirá o terrorismo internacional, mas trará, não tenhamos dúvidas, muitos desconfortos ao mundo globalizado. Assim sendo, convém que os governantes mundiais analisem com muita atenção e cautela o vôo da água ferida. Olhemos agora o reverso dessa tragédia, que me parece positivo: a demonstração de ardente patriotismo do povo norte-americano é surpreendente. O sentimento de solidariedade que esse povo demonstrou também é algo extraordinário e exemplar. Milhares de voluntários vindos de várias partes do país acorreram incontinente para os locais, em que se consumou a tragédia com o objetivo de ajudar no resgate das vítimas. Igualmente vimos o mundo consternado e solidário com os Estados Unidos. De Norte a Sul, de Leste ao Oeste o injurioso ato terrorista foi condenado. Este lado bonito dessa indesejável ocorrência é que deveria ter sido destacado pelos holofotes da mídia internacional, mas infelizmente num mundo acostumado com os escarcéus o bem não dá "IBOPE". Se o mundo quer paz é preciso lembrar que o seu maior investimento não deve ser em estratégias e materiais bélicos. Pois a nação melhor preparada nesse sentido acaba de ser atacada por um punhado de homens armados com canivetes. O melhor que o mundo pode fazer é procurar melhorar o homem moralmente. Urge a necessidade de se equipar o homem com os valores morais, porque somente o homem preparado moralmente poderá implantar no mundo uma política sadia, sem preconceitos de raça, de credos religiosos, ideológicos etc. Só esse homem poderá desenvolver uma política internacional que enseje o desenvolvimento do amor entre os povos, e que leve os mais ricos a ajudar os menos favorecidos, que extingua, de vez, a exploração do homem pelo homem. Essa meta, porém, não será atingida pelas religiões tradicionais que aí estão há milênios, sem conseguirem os objetivos previstos em suas cartilhas sagradas. O Espiritismo, praticado segundo as regras de Kardec, sem o bolor de sacristia, tem tudo para ser esse instrumento educacional que poderá preparar esse novo homem que irá comandar a nova política internacional, a qual deverá trazer à tona valores esquecidos como estes: "Amai-vos como eu vos tenho amado "Ou este outro tão profundo quanto o primeiro: "O sândalo perfuma o machado que o fere". Esse será o verdadeiro homem de bem, que segundo a Doutrina Espírita, "é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Quando interroga sua consciência a respeito de seus próprios atos, pergunta-se não violou essa lei; se não fez o mal; se fez ao outro tudo o que queria que se fizesse por ele. Ele tem fé em Deus, em sua bondade, em sua justiça e em sua sabedoria. Sabe que nada acontece sem sua permissão, e submete-se à sua vontade em todas as coisas. Tem fé no futuro; é por isso que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais. Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem reclamar. O homem compenetrado pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar retorno. Devolve o mal com o bem; toma a defesa do fraco contra o forte, e sempre sacrifica seu interesse pela justiça. Ele se satisfaz com o benefício que espalha, com os serviços que presta, com os que torna felizes, com as lágrimas que seca, com as consolações que leva aos aflitos. Seu primeiro movimento é de pensar nos outros, antes de pensar em si mesmo, de ir atrás do interesse do outro antes do seu próprio. O egoísta, ao contrário, calcula os proveitos e as perdas de toda ação generosa. Ele é bom, humano, benevolente com todo mundo, sem distinção de raças nem de crenças, pois considera todos os homens como irmãos. Respeita no outro todas as convicções sinceras, e não lança anátemas àqueles que não pensam como ele. Em todas as circunstâncias, a caridade é seu guia. Os modelos educacionais e religiosos que vigem no mundo há séculos são arcaicos e insuficientes para formar esse homem de que o mundo precisa com urgência. Somente o Espiritismo, uma doutrina nova e inovadora, está apta para modelar esse homem de bem. (Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 369 de Outubro de 2001) |
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