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Para uma Auto-Reflexão

Leda Matayoshi

Sobe o "O Espiritismo na arte, evolução do espírito, revolução no mercado"

Tudo no Universo acontece na hora certa. "Não cai uma folha de uma árvore sem a vontade de Deus...". É neste sentido que vemos a pertinência de se fazer tal discussão – em princípio um tanto controvertida – em torno da arte com temática espírita, suas ações e funções. É o momento certo de se trazer à baila tal abordagem pois uma das tônicas da atualidade é a questão da profissionalização do terceiro setor tendo em vistas melhorar a qualidade da prestação de serviços ao social atendido. Apenas para posicionamento das idéias a serem expostas, o chamado terceiro setor é formado por pessoas de outros setores, tanto do público, ou primeiro setor, quanto do privado, o segundo setor, que se organizam em sociedades civis, sem fins lucrativos, buscando atender aos segmentos sociais insuficientemente atendidos em suas necessidades básicas.

A profissionalização do terceiro setor surgiu de uma necessidade de se melhorar a sua comunicação junto aos seus públicos internos e externos: população em geral, doadores, apoiadores e outras organizações afins. Estamos assistindo à formação de um mercado formado por instituições de apoio ao social e que se torna cada vez mais competitivo portanto exigindo mais qualidade e competência nas ações. A profissionalização surge da necessidade de se sair do estágio "emocional", personalista, para o racional, coletivo ou o mercado. As organizações já não podem mais agir como se só elas e sua produção existissem deixando de olhar o macroambiente ditando as tendências de avanço. Boa ação é fator emocional. Disciplina é fator racional. Assim como o vôo sublime para a eternidade demanda o equilíbrio das "asas da razão e do sentimento" enunciado por Emmanuel em sua obra Roteiro, se ambas, boa ação e disciplina ocorrerem de forma concomitante teremos atingido o ideal cristão de fraternidade eficiente.

Um centro espírita não está fora dessa tendência profissionalizante que certamente também veio para conferir um caráter distintivo de mais uma etapa dentro do Espiritismo enquanto vanguarda revolucionária. Muitos espíritas já temem o termo profissionalização – conceito moderno estreitamente vinculado à moeda – com receio de estarem "mercantilizando o sagrado" como se o Creador do Universo tivesse outorgado tal poder às suas creaturas... Sim, porque é preciso ser muito poderoso para comercializar o intangível ou o ainda sequer compreendido!

É realmente um momento de parada de consciência, de repensar valores e princípios muitas vezes herdados ou interpretados sem muito juízo crítico e que se adequaram a determinado momento histórico tornando-se anacrônicos nos dias de hoje. Neste ponto, vale discutir a cultura espírita e seu grande conflito quanto ao uso do dinheiro. Herculano Pires, em sua obra O Centro Espírita, da Editora Lake, na página XXII, denuncia: "Associações espíritas, promissoramente organizadas, logo se transformam em grupos de rezadores pedinchões. O carimbo da Igreja marcou fundo a nossa mentalidade em penúria..." Parece que marcou-nos profundamente o fato de, um dia, poderes temporais terem cunhado no vil metal a possibilidade de virmos a cair em tentação e perder o céu eterno. Não estavam totalmente errados, previam a falta de escrúpulos inerente ao ser humano em baixo estágio de evolução e habitante de um planeta de expiação e provas. Todavia, é preciso antes entender que se somos filhos diretos da Creação, inteligentes e livres, é pouco provável que sejamos manipulados pelo dinheiro, algo que decididamente não pensa portanto jamais poderá comandar no sentido inteligente dessa ação. Precisamos repensar quem são o sujeito e o objeto de perdição ou salvação; quem efetivamente raciocina, conhece e decide, e o quê, em verdade, é apenas um facilitador de melhores resultados em ações positivas.

Lembremos também a prática do aconselhamento de Jesus: "Vivam a vida do mundo", ou seja, o Pai concede tecnologias aos seus filhos para fazer avançar suas mentes e seus corações rumo à perfeição. Os recursos materiais configuram-se como ferramentas perfeitamente passíveis de serem utilizadas no Bem da humanidade. Ou não. Ou seja, parece que não temos confiança em nós mesmos quanto à nossa capacidade de lidar com os recursos materiais segundo as orientações do Evangelho. Somos nós, os recursos humanos, os comandantes dos recursos materiais disponibilizados para fazer crescer a humanidade e podermos cumprir muito bem esta tarefa considerando-se o fabuloso manual de instruções denominado Evangelho!

Evolução e revolução são dois fenômenos intrínsecos. O primeiro refere-se a um processo que pode ter como resultado o segundo. O processo de evoluir compreende o fator mudança sendo que esta invariavelmente provoca uma revolução em algum nível. Toda vez que um indivíduo evolui significa que mudou de estágio ou de condição e esta modificação, por estar naturalmente vinculada a algum status quo, interfere ou revoluciona o contexto anteriormente estável.

Seguindo esta linha de raciocínio, é interessante admitir que a evolução espiritual implica em alguma revolução nas dimensões em que se insere, material e espiritual. Todavia, antes de prosseguirmos, atentemos a alguns detalhes importantes às nossas reflexões sobre esses temas. Espírito é o ser inteligente da creação, destinado à evolução a despeito de sua anuência ou não. Tal é a lei. Será perfeito pois esse é o escopo do Creador.

A partir desses postulados, surgem as questões: mesmo que não se queira "correr riscos" frente à evolução espiritual, ela o é? Vai acontecer cedo ou tarde à nossa revelia? É mesmo da vontade do Creador? É importante entendermos essa meta inexorável para alcançarmos um entendimento mais claro dos instrumentos que o plano divino disponibiliza para o avançar da humanidade. Nesse sentido, a arte com temática espírita é mais um legado da espiritualidade para nos conduzir à nossa destinação de seres perfeitos. É um instrumento de sensibilização de mentes e corações predispostos à uma modificação interior. Agora, não podemos nos esquecer que a arte, com temática espírita ou não, depende de agentes para se consubstanciarem no planeta. No Plano Espiritual, de onde efetivamente vem a maior parte das obras artísticas, depois complementadas com o quinhão do encarnado, os inspiradores certamente têm suas necessidades básicas supridas pelo próprio contexto em que vivem. Sobre este assunto, esclarece-nos o querido irmão André Luiz, no capítulo I, 2ª parte, da sua obra Evolução em Dois Mundos: "...o corpo espiritual, através de sua extrema porosidade, nutre-se de produtos sutilizados ou sínteses quimioeletromagnéticas, hauridas no reservatório da Natureza e no intercâmbio de raios vitalizantes e reconstituintes do amor com que os seres se sustentam entre si..." Os inspirados do Plano Material, ou artistas encarnados, agentes do ato criativo, também precisam ser supridos pelo menos em suas necessidades básicas de sobrevivência. Além do imprescindível investimento no saber segundo o "Amai-vos e instruí-vos" preconizado pelo Espírito de Verdade (Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VI). O que fazer? Cuidar do corpo ou do Espírito ou de ambos? "...Amai, pois, a vossa alma, mas cuidai também do corpo, instrumento da alma; desconhecer as necessidades que são indicadas pela própria Natureza, é desconhecer a lei de Deus..." (ESE, cap. XVII).

Talvez essa parada de consciência quanto ao uso das regras do mercado empresarial no contexto da produção artística com temática espírita seja realmente propícia. É prudente sim discutir que rumo tomar. Mas sem nos deixar levar por pontos de vista ainda temerosos, carecentes de discernimento de outras propostas evangélicas. Por exemplo, suponhamos que o Creador conceda a um dos seus agentes encarnados os dons do talento artístico e do amealhar a fortuna material. Sim , há pessoas, que mesmo sem se lembrarem de terem assumido compromissos junto ao Plano Espiritual, reencarnam com o talento de multiplicar a moeda terrena. E digamos também que este agente receie usar do segundo talento, enterra-o tentando evitar possível queda. E digamos também que o Plano Maior também lhe tivesse delegado a função de usar ambos os talentos, sem exclusão de nenhum, em benefício da humanidade e o seu próprio alavancar. O negar-se com certeza estaria abortando sabe Deus quantos projetos de progresso individual e coletivo! Atentemos mais uma vez para o Evangelho, no capítulo XVI: "...mas um dever igualmente imperioso, igualmente meritório, consiste em prevenir a miséria; nisso sobretudo está a missão das grandes fortunas, pelos trabalhos de todos os gêneros que podem fazer executar (...) o servidor que enterrou na terra o dinheiro que lhe foi confiado, não é a imagem dos avarentos entre as mãos dos quais a fortuna é improdutiva? Se, entretanto, Jesus fala principalmente das esmolas é porque naquele tempo e naquele país onde ele vivia, não se conheciam os trabalhos que as artes e a indústria criaram depois, e nos quais a fortuna pode ser empregada utilmente para o bem geral...".

Seguindo a sabedoria evangélica, por que não direcionarmos nosso pensamento para a utilidade da fortuna em termos de ação preventiva contra a decadência e não como elemento de contravenção das leis divinas? Quantas realizações em favor de um mundo melhor podem ser consolidadas por médiuns assumidamente agentes do social? Pensemos que em mãos de muitos medianeiros repousa a sublime tarefa de patrocinar, gerir projetos sociais e pessoas tendo em vistas um Brasil efetivamente Pátria do Evangelho: "Daí esmola quando isso for necessário, mas, tanto quanto possível, convertei-a em salário, a fim de que aquele que a recebe, dela não se envergonhe" (ESE, cap. XVI). Quantos empregos ou colocação de mão de obra podem ser efetivados ao invés de esperarmos pelo pior para depois prestar o devido auxílio? Parece-nos importante em nossa parada de consciência questionar também a extensão da palavra abuso ou falta de ética no uso dos talentos. Talvez pudéssemos chegar a melhor termo do que deixar de fazer conforme podemos observar na pergunta 642 de O Livro dos Espíritos: "...Bastará não fazer o mal para ser agradável a Deus e assegurar a sua posição futura?". Resposta: "Não, é preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada um responderá por todo mal que resulte do bem que não haja feito."

E quando falamos em revolucionar o mercado, qual é o perfil desse mercado? Quais são suas expectativas frente à arte com temática espírita? Que benefícios este mercado já reconhece nesse instrumento de renovação? Qual é o grau de aceitação da produção da arte com temática espírita? Entendemos ser importante conhecer, através de instrumentos científicos – como uma pesquisa de mercado – o que pensam os receptores dessa produção. Muitas vezes tomam-se decisões baseadas em "achismos" pessoais e nos esquecermos de conhecer o grau de satisfação de quem está do outro lado da questão. Pensar em mercado é pensar no público ou consumidor de idéias do mercado simbólico.

Mercado, em termos empresariais, é um local onde pessoas que compartilham de uma necessidade ou desejo específicos estão dispostas e habilitadas a fazer trocas que satisfaçam essas expectativas. Tanto o Espírito quanto o mercado, por suas características peculiares, são distintivos e qualificados conforme os perfis que apresentam. Assim, seria interessante buscar quantos nichos estão compondo o mercado que queremos revolucionar. Talvez com essa elucidação os artistas também tivessem a opção de escolher os segmentos que querem atuar: o contexto amador ou o profissional. Há lugar para todos e a padronização parece muito longe de dar certo pois a era da massificação, ou aceitação passiva sem opções, já ficou há muito no tempo e no espaço. As pessoas, ou os consumidores de idéias, são livres para escolher se querem cantar em um coral na casa espírita apenas por deleite, para integração no contexto ou se querem estar qualificados para apresentações profissionais. Em ambos os casos não deixará de acontecer a assessoria espiritual mas se na segunda situação o ganho se faz necessário é porque os compromissos são diferentes. No primeiro caso, os integrantes são "pacientes" em tratamento terapêutico pela música, têm um compromisso com eles próprios; no segundo, temos uma categoria de "médicos", ou seja, assumiram o compromisso de ministrar o remédio para outros, por isso precisam buscar a qualificação, precisam investir em si para oferecerem o melhor diante de uma coletividade.

Evolução do Espírito e revolução no mercado. Como dissemos anteriormente, é muito difícil perceber essas propostas separadamente. E quando são colocadas como duas vertentes em discussão, parece que estamos lidando com elementos arraigados de uma cultura. Talvez pelo fato do Espiritismo, por muito tempo, ter sido praticado no Brasil como um culto proibido, censurado e rejeitado, muitos representantes da cultura espírita, até nos dias de hoje, tendem a reproduzir esse mesmo comportamento de insulamento. Resistem às tecnologias disponibilizadas para o avanço e, consequentemente, relutam em assumir que toda melhoria no planeta implica também em investimento monetário. É próprio de um planeta material. E toda produção artística de qualidade não está fora dessa regra de mercado. Insistimos: vamos perguntar aos públicos o que gostariam de apreciar na arte com temática espírita. Quando películas do tipo Do outro lado da vida e Amor além da vida fazem grande sucesso de público e de arrecadação, devemos nos perguntar se sem aquela esmerada qualidade de produção cinematográfica teriam atraído tantas pessoas para as coisas do Espírito. Está certo que há um momento de grande busca espiritual mas imaginemos as estórias destes filmes contadas sem tais imagens magnetizadoras. É estar fora das expectativas do público que se quer atingir.

É hora dos Espíritas mais receosos entenderem que existem regras no mercado que não interferem nas questões morais mas são mecanismos reguladores de uma competitividade real. Por exemplo, em função da consolidação do conceito de Terceiro Setor, existe atualmente neste mercado a figura do profissional captador de recursos para essas organizações não lucrativas. Por convenção ética, essa figura não pode receber comissão sobre os resultados mas sim bônus, salário ou honorário. A maior favorecida é a instituição que conta com uma pessoa qualificada para buscar recursos de viabilização dos seus projetos. Considerável parte do mercado já não aceita mais a filantropia emocional; quem não aprender a "passar o chapéu" de forma profissional tem poucas chances de sobrevivência no mercado. E se os artistas espíritas pretendem uma ação evangelizadora eficiente e eficaz, é importante sair um pouco do microambiente e repensar também o macroambiente pois corre-se o risco de alcançar soluções que não mais se adequam à realidade atual. Podem servir apenas a interesses muito particulares onde o Bem da humanidade estará ignorada.

É assim que gostaríamos de deixar a nossa contribuição: discutir modernos conceitos mercadológicos perfeitamente aplicáveis tendo em vistas pensar a arte com temática espírita como ferramenta de crescimento e de revolução.

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