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Profissionalização da Arte Espírita

Mauricio Keller Tamioso

Para melhor entendermos e discutirmos sobre a profissionalização ou não da arte espírita, se faz necessário nós nos fundamentarmos sobre alguns conceitos, para que haja assim uma melhor compreensão.

  • Doutrina
    É o conjunto de princípios em que se baseia uma religião, um sistema político ou filosófico.
  • Princípio
    Preceito moral, lei, regras fundamentais ou gerais.
  • Profissão
    Exercício habitual de uma atividade econômica como meio de vida; ofício; emprego; modo de vida.
  • Profissional
    Relativo a profissão; que é regularmente remunerado pelo trabalho que executa ou atividade que exerce. Pessoa que tem conhecimentos da sua profissão, especialista (em oposição a amador).
  • Profissionalização
    Ato ou efeito de profissionalizar ou profissionalizar-se.
  • Profissionalizar
    Tornar profissional; dar caráter profissional; tornar-se profissional; integrar-se numa profissão.
  • Remuneração
    Ato ou efeito de remunerar; recompensa; prêmio; compensação; salário; paga.

Na página da Federação Espírita Brasileira, exposta na Internet (http://www.febnet.org.br, coloca que a DOUTRINA ESPÍRITA é o conjunto de princípios e leis, revelados pelos Espíritos Superiores, contidos nas obras de Allan Kardec, que constituem a Codificação espírita.

Coloca que, entre outros princípios, toda a prática da doutrina espírita é gratuita, dentro dos princípios do evangelho: "Daí de graça o que de graça recebestes".

Em Obras Póstumas (pag 285) Allan Kardec reforça que:

Quando a comissão estiver organizada, faremos parte dela como simples membro, com uma parte na colaboração, sem nenhuma supremacia, título ou privilégio. Embora com parte ativa na comissão, não pesaremos no orçamento, nem por emolumentos, nem por despesas de viagens, nem por qualquer título. Se nada temos até aqui pedido, menos pediremos daqui em diante. O nosso tempo, a nossa vida, todas as nossas forças físicas e intelectuais pertencem a Doutrina. Declaramos pois formalmente que nenhuma parte dos recursos, de que dispuser a comissão, será desviada para o nosso proveito.

Isso é bastante claro, declaramos formalmente que nenhuma parte dos recursos, de que dispusermos será desviada para o nosso proveito. Se Allan Kardec coloca nestes termos, então será para o proveito de quem? Observem que momentos antes ele afirma que o nosso tempo, a nossa vida, todas as nossas forças físicas e intelectuais pertencem a doutrina. Aqui fica bem evidente o comprometimento de Allan Kardec, cujo amor e dedicação à doutrina era a sua vida, compreensível pelo peso inquestionável de sua missão. É claro que para as características de nossa época, colocarmos que o nosso tempo, a nossa vida, todas as nossas forças físicas pertencem a Doutrina, seria uma posição por demais extrema, já que possuímos missões diferentes uns dos outros. Possuímos responsabilidades em outros setores igualmente importantes de nossas vidas como a família, a profissão, em fim. Atualmente uma dedicação exclusiva seria inviável, se observada a prática espírita da gratuidade. Nos tempos atuais, para se ter dedicação integral à atividade espírita é impreterível a remuneração, o sustento de vida, o que é incompatível com a prática espírita legítima, fundamentada na doação.

Como então aliar o desejo da dedicação integral à doutrina sem ferir a sua base, o seu princípio fundamental? Isso é mais simples do que parece, basta a instituição contratar os serviços do candidato como profissional, não para fazer os trabalhos assistenciais, filantrópicos, e de evangelização é claro, mas para compor a equipe administrativa da instituição, nos trabalhos burocráticos, nas atividades de manutenção, os quais exigem uma constância e eficiência, que o voluntariado dificilmente daria cabo. Ao ser contratado, ao ter a sua paga, o candidato deve ficar consciente que aquela função deixou de ser uma prática espírita, por mais amor, carinho e dedicação que deposite nela. A partir daí esta pessoa será exigida e monitorada no que faz, cobrada em sua eficiência e responsabilidade, podendo ser punida em seu salário, ou despedida caso negligencie suas tarefas. O que não ocorre em cargos e funções voluntárias. Observem que o grau de exigência entre essas duas condições são muito diferentes. O indivíduo terá de saber separar essas duas coisas, encarar seu emprego dentro da instituição de forma profissional, e ter os seus momentos de dedicação extra, exclusivos a doação. Doar é dar sem receber.

Quando, no texto acima, Allan Kardec explicita que não pesaremos no orçamento, ele se refere a comissão central da época, o que para o nosso contexto atual são representados pelos dirigentes e trabalhadores espíritas. No entanto nada impede que haja pessoas contratadas e remuneradas dentro da casa espírita, mas repito, são empregados, independente do cargo que exerçam. Quando se refere a não pesar no orçamento implica em evitar retirar do caixa da instituição despesas que gratuitamente poderíamos assumir por ela, sem qualquer prejuízo, é claro. No entanto, existem atividades, viagens, em fim, que muitas vezes o trabalhador não tem como dispor do recurso, então nada mais lógico, a casa ou grupo poderá doá-los ao trabalhador que estará, afinal, representando a própria instituição ou a doutrina, caso haja recurso destinados ou à disposição.

Aqui está exposto apenas uma maneira de solucionar esse problema, e cada instituição ou grupo acabam achando as suas formas, segundo suas possibilidades e realidades. O que não se deve, em hipótese alguma, é, os integrantes serem beneficiados pessoalmente pelos recursos obtidos do trabalho espírita. Fora isso, dentro de cada caso, pese o que é justo.

Dentro de tudo o que foi exposto a realidade da arte também se encaixa. Devemos distinguir claramente o que é profissão e o que é doação. Se for doação é uma prática espírita em toda a sua concepção, se for profissão, se é uma arte remunerada deve ser declarada e conduzida como tal. Nada impede no entanto que o trabalho profissional leve os princípios espíritas, que divulgue a prática espírita e a realize em sua profissão, porém, não é uma prática espírita.

A prática espírita colocada por Allan Kardec é que fora da caridade não há salvação, é o princípio da gratuidade. Mesmo que uma parte da verba arrecadada em um espetáculo seja revertida para a casa espírita, ou instituições de caridade, ou obras assistenciais mantidas pela organização artística, o trabalho remunerado para o sustento descaracteriza o princípio espírita, porém o ato de reverter parte da verba angariada pela ação profissional a essas instituições ou obras administradas pela organização é um ato espírita.

Vejam, o momento artístico, o espetáculo, o show em si, essa ação, se remunerada, não é uma prática espírita, é profissional, mas a doação de parte dessa energia de trabalho é uma outra ação distinta, independente da anterior, que se classifica como uma prática espírita legítima. Assim, a apresentação remunerada, mesmo sedimentada em condutas individuais e coletivas pela doutrina, em si mesma é profissional, e carrega todos os ônus e bônus dessa condição, mas a segunda ação, de manter obras assistenciais, atividades doutrinárias, essa sim é uma prática espírita, e isso é muito bom. A Segunda ação é uma prática espírita não somente pela caridade em si, muitas doutrinas possuem este mesmo princípio. É uma prática espírita por se fundamentar em todos os princípios que identificam a nossa doutrina. Se qualquer um dos princípios espíritas forem negados, ou "esquecidos", esse trabalho não é espírita. Pode ser qualquer outra coisa: espiritualista, filantrópico, esotérico, etc.

O nosso posicionamento diante da nossa doutrina deve ser sim, sim! Não, não! Existem muitos "espíritas" pela metade que discordam de pontos básicos do espiritismo, embora concordem com outros. Existe isso? Espírita pela metade?

Há muitas pessoas que possuem a sua própria religião, fazem uma salada de filosofias e ensinamentos, uma mistura de princípios e se dizem espíritas. E outras só porque acreditam em reencarnação. Isso é certo?

Existem grupos, dentro da nossa doutrina, que fazem as duas coisas, apresentam gratuitamente, sem recompensas materiais, seja para lucro ou sobrevivência, e também fazem a segunda ação, só que toda a verba, ou seja, o uso integral dos recursos, para doação. Doam-se em uma e outra atividade.

Com isso tenho a minha posição favorável a profissionalização da arte que leve os princípios espíritas, mas não a profissionalização da atividade espírita, que se sustenta no princípio da doação. Podemos ter excelentes profissionais levando a nossa doutrina, mas jamais profissionais sustentados por ela. No livro conduta espírita Emmanuel coloca que o espírita deve jamais deve prevalecer-se das possibilidades de que disponha no movimento espírita para favoritismos e vantagens na esfera profissional (pág. 8). E continua dizendo que quem engana a própria fé, perde a si mesmo.

Em outra página (18) nos diz a agir de tal modo a não permitir, mesmo indiretamente, atos que signifiquem profissionalismo religioso, quer no campo da mediunidade, quer na direção da instituições, na redação de livros e periódicos, em traduções e revisões, excursões e visitas, pregações e outras quaisquer tarefas. A arte também se encaixa nesse contexto, como instituição ou trabalho, onde não devemos agir de modo, mesmo indireto, que signifique profissionalismo religioso. E mais adiante reforça que a exploração da fé anula os bons sentimentos. Isso nos diz que por maior que seja o nosso amor, a nossa dedicação, a nossa intenção, se exploramos a fé, nós os anulamos. Nos fala também que é natural efetuarmos compromissos apenas no limite das próprias possibilidades, buscando solver os enganos assumidos, inclusive os relacionados com as simples contribuições e os auxílios periódicos às instituições fraternais. Não somos obrigados, no entanto, a servir exclusivamente a doutrina, devemos assumir compromissos nos limite de nossas possibilidades. Se almejamos a dedicação integral, convém pensar com responsabilidade nos demais compromissos que podemos penalizar, penalizando a nós mesmos. Seja qual for a decisão, fica claro que pela doutrina ninguém deverá ser sustentado. O sustento dentro de uma instituição deverá seguir os moldes do profissionalismo. A caridade jamais será um objeto de comércio, nas mãos de oportunistas, ou até mesmos de necessitados.

Muitos defendem a profissionalização da arte espírita, o que é louvável, se vista pelo ponto de vista da qualidade, da perícia técnica, mas não pelo ponto de vista da remuneração do trabalho. Muitos se fundamentam no aspecto de que, para a qualidade existir, ou que o propósito espírita se dissemine mais rapidamente e a um público maior, tenha que haver dedicação integral dos participantes. Onde tenham tempo e oportunidades de sobra para pensar, criar, agir e se dedicar com exclusividade. Não acho isso errado, só que jamais pode ser declarado como uma atividade espírita, religião não deve ser ganha pão de ninguém como disse Kardec e Emmanuel em outras palavras. Não se deve esquecer que por maior que seja o nosso ideal, de levar a doutrina, esse não deve passar por cima de seus princípios, a não ser que se queira fundar uma nova doutrina. Ou, o que é preferível, fundar uma outra organização, que seja profissional, ou não governamental (ONG), ou uma fundação, ou o que seja , onde se possa livremente exercer a profissão artística vinculada a obras assistenciais espíritas ou filantrópicas.

O verdadeiro espírita é fiel aos preceitos da sua doutrina. Muitas vezes renuncia a si mesmo e seus interesses em função desta integridade. Sabe que mesmo o ideal de fortalecê-la jamais deve ser motivo para corrompê-la.

FECEF 2000

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