Reencarnação - Peça teatral

Reinaldo de Andrade

REENCARNAÇÃO

Personagens:

JÚLIO – Senhor cinqüentão, pai de Sérgio e de Marta. Ele se confessa agnóstico mas, no fundo, no fundo, tem lá uma crença particular numa divindade criadora de tudo o que existe. Parece ser mais do tipo de pessoa que está à espera de que algo aconteça ou de que alguém lhe prove a existência de Deus, para crer.

SÉRGIO – Rapaz de vinte e poucos anos. Sacerdote, está convicto de que tudo o que aprendeu no seminário é a mais pura Verdade. É tremendamente céptico quanto às novas ideologias, facções ou seitas religiosas, e mesmo quanto as mais controvertidas teses teológicas progressistas. Conservador nato.

PEDRO – Irmão de Júlio e cinqüentão, como ele. Muito brincalhão, é espírita convicto. Fala com entusiasmo e com conhecimento de causa sobre a doutrina em que acredita.

ANA – Quarentona, mãe de Sérgio e de Marta, abatida por causa de grave enfermidade. É a mais religiosa da família, católica convicta, embora vez ou outra lhe pinte uma dúvida passageira e superficial quanto aos dogmas da Igreja.

MARTA – Irmã de Sérgio, universitária, 20 anos. Culta, está absolutamente convencida de que a morte é o fim de tudo. Leitora assídua dos grandes materialistas históricos, tem neles os formadores de sua opinião, aliás, sob esse aspecto, bem fundamentada.

MENTORES ESPIRITUAIS, CONFESSOR, PADRE DIRETOR, REPÓRTER, MENINO – Figurantes.

CENA 1

(Sala de uma casa de classe média. Pai e filho jogam xadrez. A um canto, Marta folheia um livro enquanto vê televisão. O pai, Júlio, é um senhor grisalho, forte, saudável, mas um tanto cansado. Sérgio, o filho, tem vinte e poucos anos, corpo atlético, e está com uma camisa com colarinho fechado que denuncia a sua condição de padre católico)

JÚLIO – É a sua vez, filho.

SÉRGIO(depois de pensar um pouco) – O que o senhor faria se eu jogasse o bispo na quinta da torre?

JÚLIO(olhando alternadamente para o tabuleiro e para o filho que parece, discretamente, estar-se divertindo) – Eu tombaria o meu rei...

(Júlio levanta-se, desolado. O filho, amistoso, tenta animá-lo e encorajá-lo)

SÉRGIO – Ora, pai. Encare da seguinte forma: tudo não passa de uma brincadeira... (gesticulando em direção do tabuleiro) – Às vezes se ganha; às vezes se perde... (e percebendo que o pai não parece se divertir muito) – Preocupado?

JÚLIO – E não é para estar? Sua mãe lá no quarto, morrendo... E eu de mãos atadas, sem poder fazer nada para salvá-la...

SÉRGIO – Mamãe teve uma vida honrada, bela e muito digna. Está recebendo o melhor tratamento possível e, graças a Deus, não está sofrendo, agora.

JÚLIO – Confesso que não entendo como você pode ser tão indiferente e manter tanta calma diante da morte...

SÉRGIO – Calma, sim; indiferença, jamais! O mistério da morte é tão grande e desconhecido para mim – apesar dos anos de estudo de Teologia – quanto o é para o senhor. Mas não se preocupe. Mamãe está sendo assistida por um bom médico, já se confessou e recebeu a comunhão e os santos óleos.

JÚLIO – Invejo sua serenidade! Gostaria de acreditar tão piamente na vida após a morte, como você e sua mãe acreditam. Mas o dom da fé não me tocou. Pelo menos, não intensamente...

SÉRGIO(sorrindo, complacente) – Não obstante, o senhor sempre agiu com dignidade e me ensinou, sem o saber, os princípios cristãos que só mais tarde fui aprofundar no seminário.

JÚLIO – Isto, meu filho, você deve mais a sua mãe do que a mim. Tenho consciência das minhas limitações. Tudo o que ensinei a você e a sua irmã foram valores que, na minha ignorância, julguei oportuno transmitir a vocês.

SÉRGIO – Tenho certeza de que Deus, na Sua infinita bondade, levará isso em conta quando o senhor se apresentar diante d´Ele.

MARTA(tendo a atenção chamada por algo que passa na TV) – Ouçam isto! Uma edição extraordinária do Jornal Nacional. (ela se levanta e aumenta o volume de som do aparelho)

LOCUTOR – O plantão do Jornal Nacional informa em edição extraordinária: Vaticano – o papa João Paulo III acaba de divulgar, diante de uma multidão de fiéis na Praça de São Pedro, sua última e mais polêmica encíclica, “Reencarnatio et Salvatio in Providentia Dei”, que, em latim, significa “Reencarnação e Salvação no Plano de Deus”. Contrariando uma posição assumida desde os primeiros séculos da Igreja, o papa, através da encíclica, admite a doutrina da reencarnação, ou seja, o retorno dos espíritos dos mortos em novas vidas e em outros corpos. A doutrina da reencarnação é aceita e apregoada no ocidente principalmente pelo Espiritismo, e no oriente pelo Hinduísmo, Xintoísmo, algumas correntes do Budismo e uma série de outras religiões e seitas. A inesperada divulgação da encíclica Reencarnatio et Salvatio causou estupefação, ceticismo e até revolta nos meios religiosos do mundo todo. Líderes católicos, pegos de surpresa, preferiram não se pronunciar até o conhecimento do texto completo do documento. No Brasil, o cardeal primaz, Dom José de Castro, disse que aguarda informações mais precisas da Santa Sé quando, só então, fará um pronunciamento. O teor da nova encíclica, suas conseqüências para a religião católica, o depoimento das autoridades eclesiásticas e a repercussão em todo o mundo, você verá logo mais no jornal da noite. Voltaremos a qualquer instante com novas informações.

(Marta reduz o volume do som. Pai e filho acompanham o noticiário embasbacados)

MARTA(rindo) – Não acredito! O que é isto agora?

JÚLIO – Era só o que me faltava. Será que o homem enlouqueceu?

SÉRGIO – Meu Deus!

MARTA(divertindo-se) – Essa é boa! (para o irmão: ) – Parece que esse seu papa não se cansa de nos surpreender...

JÚLIO – Surpreender? Eu chamo a isso de “dar sustos”!

SÉRGIO(pensativo) – Primeiro, ainda há poucas semanas, foi aquela mensagem conclamando os fiéis à prática ecumênica, um assunto meio esquecido há bastante tempo... Agora, essa encíclica...

JÚLIO(que parece não se conformar) – E agora, meus filhos? Como é que vai ser? (olhando, agitado, para um e para outro) – Como vou contar isso a sua mãe? Como vou dizer a ela que, não só ela não verá a Deus como, ainda por cima, terá de voltar a essa vida miserável?

SÉRGIO(tentando organizar seus pensamentos) – Calma, pai! Tenhamos calma... Nada de desespero! Vamos raciocinar...

JÚLIO – Que absurdo! De onde o papa tirou essa idéia? Reencarnação! (gesticula, abre os braços, busca palavras) – Como pode? E a ressurreição dos mortos? E o Juízo Final? Como é que fica tudo isto?

MARTA(conciliadora) – Ora, pai, talvez seja apenas mais uma tentativa de conquistar novos adeptos... Ou de fazer média com as outras religiões... Sei lá...

JÚLIO – Filho, se essa notícia for verdadeira, se essa tal de reencarnação existir mesmo, pode estar certo de uma coisa: a partir de agora, nada no mundo será o mesmo. E eu tenho sérias dúvidas se essa mudança será para melhor. Escreva o que eu estou falando...

SÉRGIO(ainda atônito) – Deve haver algum mal-entendido, alguma confusão... Não é possível! Não pode ser!

MARTA – Ora, e por que não? Mano, me desculpe... Nós já conversamos muito sobre esse assunto e você sabe o que eu penso. Acho a idéia da reencarnação tão absurda quanto a idéia da ressurreição dos mortos. Aliás, tão absurda quanto a crença na “vida” depois da morte, no céu, inferno e tudo o mais... e que, para você, são verdades absolutas...

JÚLIO – Ora, minha filha! Não diga bobagens! Respeite a crença do seu irmão que, bem ou mal, também é a minha...

(Marta faz com as mãos um gesto de “não está mais aqui quem falou”)

JÚLIO – Madonna mia! Se já era difícil suportar a vida uma única vez, imagine agora... Reencarnação... Era só o que faltava...

SÉRGIO(aflito, andando de um lado para o outro) – Não pode ser. Sua Santidade não pode ter assinado um documento desses! Certamente houve um equívoco de alguém, e não foi do papa... A teoria da reencarnação é absurda! Vai contra toda a doutrina cristã, inutiliza todo o sacrifício de Cristo, lança por terra tudo o que se escreveu sobre Teologia, ignora todo o ensinamento contido nos livros dos doutores da Igreja...

JÚLIO(enfático, apontando para Sérgio) – Aí tem o dedo da CIA!

SÉRGIO – Ora, papai! O assunto é sério! Imagine o que essa história significa. P´ra começar, isso quer dizer que absolutamente tudo aquilo que aprendi no seminário acerca da bondade de Deus, da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, da importância dos santos sacramentos, etc., etc.... significa que está “tudo” errado. Quer dizer que a história não é bem assim... que a Igreja esteve enganada o tempo todo!... Não! Isso não é possível! Ouça o que lhe digo: nisso tudo há um terrível mal-entendido.

MARTA – Pessoal, posso dizer o que eu penso? (os outros escutam) – Penso que o mais sensato a fazer, agora, é aguardar o noticiário para sabermos exatamente o que aconteceu. Só então poderemos emitir uma opinião ajuizada sobre o assunto.

JÚLIO – Sua irmã está certa. Temos de ter paciência. Mas eu não consigo deixar de pensar... E agora? Como é que fica aquela história de céu, inferno, limbo e purgatório? Me responda: alguém pode sair do inferno e voltar à vida para atazanar os que ficaram? (pausa) – É, pensando bem, talvez até possa... Conheço um par de gente que se encaixa nessa situação... Mas, quem é que vai querer sair do céu e voltar para a Terra? Só se for um louco varrido...

MARTA(rindo) – Eu também conheço alguns do tipo...

SÉRGIO(absorto) – É... Esse papa sabe criar confusão... Queria estar agora lá no seminário... Fico só imaginando os meus superiores ouriçados, andando de um lado para outro e discutindo as implicações dessa encíclica na doutrina cristã...

JÚLIO – Quer dizer, então, que seu tio Pedro estava certo sobre esta questão... Será mesmo possível?

(Toca a campainha. Júlio vai atender)

SÉRGIO – Continuo achando que não, pai. Logo mais, no noticiário, o senhor verá que essa história não está bem contada...

CENA 2

(Flash back: a mãe de Sérgio, d. Ana, põe a mesa para quatro pessoas. Sérgio, então com cinco ou seis anos de idade, entra correndo)

ANA – Onde você estava, menino, que não me respondia?

SÉRGIO – Tava lá fora, brincando.

ANA – Algum de seus amiguinhos estava com você?

SÉRGIO(fazendo muxoxo) – Não, eu ´tava sozinho. Só depois é que o vovô veio brincar comigo.

(A mãe se assusta)

ANA – Vovô? Que vovô?

SÉRGIO – Mãe! Que vovô que podia ser? Vovô Zito, é claro!

ANA – Deixe de bobagem, Serginho. Seu vô Zito morreu faz mais de um ano.

SÉRGIO(dando de ombros) – Mas ele ´tava brincando comigo assim mesmo...

ANA – Vá, vá logo tomar seu banho e venha jantar antes que a comida esfrie...

(Sérgio sai correndo em outra direção. A mãe fica parada, intrigada com a história do menino. Fim do flash back)

CENA 3

(Júlio abre a porta. Entra tio Pedro, esfuziante)

TIO PEDRO – Mano, venha de lá esse abraço (abraça-o). Marta (beija-a no rosto. Para o sobrinho: ) – Oi, Sérgio! Você também está aqui! (para o irmão: ) – Como está Ana?

JÚLIO – Na mesma. Neste momento, está no quarto, dormindo.

SÉRGIO – Oi, tio. Estávamos falando do senhor neste instante.

TIO – Vocês ouviram o noticiário? Já sabem da grande novidade? Finalmente! A única barreira que nos separava foi, agora, definitivamente demolida.

SÉRGIO(abraçando o tio) – Calma, tio! Não festeje tão cedo essa “queda de barreira”. Ainda não sabemos dos detalhes, nem sequer conhecemos o texto oficial da encíclica.

MARTA – E tem mais uma coisa: além da reencarnação, existem entre vocês outras discordâncias doutrinárias. A questão dos dogmas, por exemplo.

TIO – Ora, não importa. São questões menores... Assim que ouvi o noticiário, decidi vir correndo até aqui para comemorarmos juntos.

SÉRGIO – Acho que é muito cedo para comemorarmos qualquer coisa. Não sabemos ainda se o que deu na televisão foi realmente o que aconteceu.

MARTA – Mano, raciocine comigo: você está apreensivo à toa! Se é mesmo verdade que a reencarnação existe, então ela sempre existiu. Não muda nada! O que muda é o entendimento que passamos a ter sobre o assunto. Eu, particularmente, não acredito sequer que o Ser Humano possui uma alma, como vocês dizem... Muito menos que essa alma possa reencarnar em outro corpo depois da morte...

TIO(para Marta) – Você diz não acreditar que o Homem possui uma alma. Pois então me responda: qual é a fonte do raciocínio, das emoções?

MARTA – Essa é fácil, tio: é o cérebro.

TIO – Você acredita, então, Martinha, que o pensamento é apenas o resultado de uma reação físico-química do cérebro?

MARTA – É isto mesmo!

TIO – Então me diga: por que é que as idéias resultantes dessas reações são tão diferentes de pessoa para pessoa? Sendo resultado de uma reação físico-química que ocorre igualmente no cérebro de todos nós, não deveriam essas idéias, portanto, ser comuns a pessoas de todo tipo: cultas e incultas, sábias e ignorantes?

MARTA – Ora, tio! Pessoas sábias devem ter o cérebro maior ou mais propenso a determinados tipos de reações; pessoas ignorantes, por algum motivo, devem ter o cérebro propenso a reações completamente diferentes.

TIO – E por que, então, não se descobriu até agora qualquer diferença física notável entre o cérebro de pessoas sábias e ignorantes?

MARTA – Eu sei lá! Talvez porque ainda não se tenha pesquisado direito.

TIO – Pois ouça, minha querida: o que eu lhe digo é que o cérebro é apenas o aparelho de que se serve a alma para se manifestar. E digo mais: a própria Ciência já chegou à conclusão de que não só a alma existe como sua existência pode ser comprovada em laboratório.

SÉRGIO – O tio está certo. Existem aparelhos – o Spiricom, o Vidicom e outros – que são capazes de detectar a presença de uma “energia” que se desprende do corpo humano na hora de sua morte.

MARTA – Mas quem é que garante que essa energia que se desprende seja a alma ou um princípio inteligente, e não outra coisa qualquer?

TIO – Existem registros de centenas de casos de indivíduos que tiveram morte clínica detectada e que foram revividos através de processos convencionais. Pois bem, esses indivíduos, além de relatarem todos praticamente as mesmas sensações experimentadas “do outro lado da vida”, foram capazes, na maioria dos casos, de descrever com riqueza de detalhes tudo o que ocorreu na sala de cirurgia enquanto estiveram “mortos”.

MARTA – Deve haver uma explicação racional para esse fenômeno.

TIO – Claro que sim! E a explicação racional é, justamente, a existência no ser humano de alguma outra coisa além do corpo físico; alguma outra coisa que permaneceu “viva” enquanto o corpo estava “morto”. A essa “alguma outra coisa” nós chamamos de alma; a Parapsicologia fala em “memória extra-cerebral”; já os cientistas russos, materialistas, deram-lhe o nome de “Corpo de Plasma Biológico”. A questão, hoje em dia, do ponto de vista da Ciência, não é mais saber se a alma existe. Isso já não é mais ponto de discussão. A questão que se discute, agora, é se essa coisa – energia, alma ou seja lá o nome que você queira lhe dar – pode ou não reencarnar.

SÉRGIO – Eu digo que não.

JÚLIO – Se a existência da alma já não é mais ponto de discussão, por que tanta gente, tanto cientista, não acredita nela?

TIO – Boa pergunta! Um escritor chamado Thomas Hudson disse, certa vez, o seguinte: “O homem que nega os fenômenos do espiritualismo hoje não merece ser chamado de céptico – é simplesmente ignorante”.

JÚLIO – Mas então eu pergunto: se a reencarnação existe, por que é que só agora a Igreja admitiu isso?

SÉRGIO – Será que admitiu mesmo? A idéia me parece tão absurda que prefiro aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

TIO – Mano, eu acho que a Igreja só admitiu a reencarnação agora porque não estava preparada para fazê-lo antes. Acredito que tudo vem a seu tempo.

SÉRGIO – Se for verdade, será o fim da Igreja.

TIO(para o sobrinho) – Não acredito. Poderá, isto sim, ser o fim da igreja dogmática, como nós a conhecemos. Mas, Sérgio, pense no que essa encíclica vai representar para a unificação de muitas igrejas! Ou, pelo menos, para a aproximação de uma infinidade de religiões que hoje aceitam e que não aceitam a reencarnação. Pense no fortalecimento das religiões cristãs; na melhoria da imagem que hoje se faz de Deus! Pense no ressurgimento da fé que essa boa nova acarretará em muitos corações; pense na reaproximação com Deus desses indivíduos que ficaram materialistas, descrentes das religiões e desiludidos da vida porque ensinaram a eles que Deus era implacável e vingativo...

MARTA – Mas, tio, se não se cultivasse a imagem de um Deus implacável e vingativo, quem é que respeitaria o poder da Igreja? Como os poderosos da Terra poderiam subjugar os fracos, senão pelo temor, pelo medo de uma justiça divina implacável?

SÉRGIO – Olha, tio, essa unificação de que o senhor fala é impossível, é uma utopia. Não estou pensando nos descrentes. Estou pensando é naqueles que, como eu, sempre acreditaram na ressurreição de Cristo, na remissão dos pecados. Se estamos condenados a voltar sempre a essa vida, qual então o significado da Paixão de Cristo? A troco de quê Ele morreu?

JÚLIO – E o nosso descanso eterno, como é que fica?

TIO – Calma, pessoal. Para começar, ninguém está “condenado” a voltar “sempre” a essa vida. Se tiverem um pouquinho de paciência, posso tentar esclarecer algumas de suas dúvidas.

MARTA(dirigindo-se ao aparelho de TV) – Vejam. Nova edição extra do jornal. (ela aumenta o volume. Ato contínuo, a um canto do palco, dentro da sala em que transcorre a ação, insinua-se uma figura humana, tenuamente iluminada. É o mentor espiritual de Ana que vai aparecer novamente na cena 11. Ele sorri e assiste a tudo, tranqüilo, até o momento em que Júlio desliga a televisão).

LOCUTOR – O Jornal Nacional informa em edição extraordinária. Da entrada do palácio episcopal, em São Paulo, fala ao vivo o repórter Pedro de Souza.

REPÓRTER(uma multidão de repórteres cerca um sacerdote com roupas e solidéu de cardeal) – Desde o anúncio da encíclica Reencarnatio et Salvatio in Providentia Dei, pelo papa João Paulo III, uma verdadeira multidão de jornalistas se postou em frente à residência do cardeal Dom Carlos Rocco, na expectativa de um seu pronunciamento. Sua Eminência acaba de aceder aos apelos da imprensa e veio até o portão para responder às perguntas dos repórteres. Vamos ouvi-lo.

CARDEAL(já no meio de uma frase, sorrindo, procurando parecer tranqüilo, paciente) – ... por isso, ainda é cedo para uma declaração oficial a esse respeito.

REPÓRTERES(perguntas se sobrepõem. Uma, mais nítida, se sobressai) – Dom Carlos, o senhor acha que pode ocorrer, agora, um cisma dentro da Igreja?

CARDEAL(sorrindo, meio constrangido) – Não, eu não creio. A Igreja está, mais do que nunca, unida em torno de seu pastor, o papa João Paulo III, e o que Sua Santidade divulgou, através da encíclica Reencarnatio et Salvatio, nada mais é do que a exteriorização de uma idéia que vinha há longo tempo amadurecendo e tomando corpo dentro da própria Igreja, através de seus doutores, seu colégio dos bispos, seus padres e até mesmo seu ministério leigo. Obrigado a todos vocês.

(O cardeal acaba sua frase enquanto se desvencilha dos repórteres e não responde a mais nenhuma pergunta)

REPÓRTER – Embora Dom Carlos não admita publicamente, sabe-se que pelo menos um peso pesado da teologia católica, o arcebispo de Baden, na Alemanha, Kurt Wenders, já manifestou seu repúdio pela divulgação da encíclica Reencarnatio et Salvatio que ele considera, abre aspas, “inoportuna, eivada de erros doutrinários e uma afronta a centenas de milhões de fiéis em todo o mundo”. Fecha aspas. Pedro de Souza, de São Paulo, ao vivo, para o plantão do Jornal Nacional.

LOCUTOR – Voltaremos a qualquer momento com novas informações.

JÚLIO(desligando a televisão) – Não sei, não. Acho que essa história ainda vai dar muito pano pras mangas.

TIO – Com certeza! Mas, alegria, pessoal! Parece que, finalmente, a Igreja acordou para um fato que somente ela não admitia.

MARTA – Um momento, tio! Não é bem assim. Além da Católica, muitas outras religiões não admitem a reencarnação.

TIO – É verdade, é verdade! Desculpem meus arroubos. É que eu estou tão emocionado e feliz que meus exageros, hoje, correm por conta disso.

MARTA – E tem mais! Essa história de reencarnação ainda tem muito o que ser discutida. Eu mesma nunca vi uma única prova sequer de que ela seja possível ou de que ocorra de fato.

TIO – Martinha, minha querida. Provas existem aos montes. O fato de nenhum de nós aqui jamais termos visto uma dessas provas não quer dizer que elas não existam.

MARTA – Essa é boa! Explicação bastante conveniente...

TIO – Me diz uma coisa. Alguém já lhe deu alguma prova de que existem os prótons, nêutrons e elétrons? Ou de que Plutão existe? Ou de que a altitude do Everest é de 8.848 metros?

MARTA – Corta essa, tio. Qualquer criança aprende isso na escola. Está lá, nos livros... É só pesquisar.

TIO – Pois é justamente isso: pesquisar. Eu acredito na existência dos átomos não porque tenha, alguma vez, visto um deles. Mas porque a razão me diz que eles devem existir e porque eu sei que pessoas sérias estudaram o assunto e dizem possuir provas de que existem. O mesmo se dá com a existência de Plutão, com a altitude do Everest e com uma infinidade de outras coisas.

JÚLIO – Quer dizer, então, que existem provas da reencarnação? Quem tem essas provas? Como conseguiu?

SÉRGIO – Vocês, positivistas, pensam ter provas de tudo. Tenho a firme convicção de que não se pode provar – senão por trapaças – o que é evidentemente impossível.

TIO(dando de ombros) – No entanto, as provas existem. E como se não bastassem as provas documentais, há ainda a razão a nos dizer que não pode ser de outra forma: a reencarnação existe, sim, e só ela responde a uma infinidade de questões práticas, existenciais, filosóficas, religiosas e científicas.

MARTA – Por exemplo?

TIO – Por exemplo, a questão da bondade e da justiça de Deus; a questão do conhecimento humano; a questão do sentido da vida; a questão da diversidade de valores morais nos homens; e muitas outras.

MARTA – Não entendi. Que relação existe entre a reencarnação e a bondade de Deus, o conhecimento humano e todas essas questões que o senhor mencionou?

TIO – Veja: através da reencarnação, Deus exercita Sua infinita bondade, dando-nos novas oportunidades para que a gente se aprimore e progrida, para repararmos, numa existência, os erros cometidos em existências anteriores. Só a reencarnação explica a questão do conhecimento inato das pessoas e a diversidade de valores éticos, morais e religiosos nos seres humanos. Só a reencarnação é capaz de dar sentido a nossa vida, aos nossos sofrimentos e angústias; só ela nos dá forças para enfrentarmos as dificuldades dessa existência com a cabeça erguida, confiantes no futuro que Deus nos reserva.

JÚLIO – Mas se Deus é infinita bondade, como você diz, por que é que Ele nos castiga fazendo-nos voltar a esta vida de sofrimento?

TIO - Um momento! Deus não castiga ninguém! Se nós sofremos, é por nossa própria culpa. O nosso sofrimento ou a nossa felicidade é o resultado de nossas ações pretéritas – é a lei de causa e efeito agindo em nossa vida. Além disso, o sofrimento não é um “castigo” de Deus, mas uma bênção que nos ajuda a harmonizar o que nós desarmonizamos com nossas atitudes insensatas.

MARTA – Quer dizer que, na sua opinião, quem sofre está “pagando” pelos seus erros do passado?

TIO – Eu não diria dessa forma. Diria que, quem sofre, está restaurando uma antiga harmonia perdida com seus atos impensados. A lâmina de aço, para adquirir têmpera, também sofre o calor do fogo e os golpes do martelo. O mesmo ocorre com o ser humano. É é através de nossas lutas, e de nosso esforço pessoal na superação das dificuldades, que nós vamos progredindo. E o nosso mérito, o nosso progresso, é tanto maior quanto menos revolta tivermos contra o sofrimento.

JÚLIO – Devemos “gostar” de sofrer? É isto?

TIO – Não, absolutamente! Devemos, até como uma forma de preservação da vida que Deus nos deu, fazer todo o possível para minorar os nossos próprios sofrimentos e os sofrimentos do nosso próximo. Mas, diante da impossibilidade de eliminarmos o sofrimento que nos aflige, devemos, aí sim, aceitar serenamente esse sofrimento – não como um castigo divino – mas como uma sagrada oportunidade de aprendizado que a vida nos dá. Cada tipo de sofrimento é um remédio específico que, geralmente, nós próprios pedimos antes de reencarnar, dependendo de nossas necessidades espirituais.

MARTA – Sabe de uma coisa, tio? Eu acho que essa história de reencarnação será somente mais um canal de fuga da realidade. A religião, na minha opinião, é apenas uma espécie de Supremo Tribunal para onde correm todos aqueles que se encontram em sofrimento e que já esgotaram as soluções e alternativas terrenas. É simplesmente um mecanismo de defesa. Quando nada mais dá certo, o homem reza. Sem este último recurso, o homem entraria em completo colapso, perderia completamente seu rumo, enlouqueceria diante da mais completa desesperança. Então ele pensa: “seria bom que existisse um Deus que tomasse conta de tudo; portanto, Deus existe”. Quer saber, tio? Enquanto o ser humano buscar a resposta a seus sofrimentos na “outra vida”, o mundo continuará sendo apenas um festival de horrores, onde os mais aquinhoados, os mais ricos, vão continuar tripudiando sobre os mais pobres.

TIO – Martinha, minha querida, assim você reduz o significado da nossa existência a apenas um fenômeno casuístico, uma sucessão de eventos fortuitos e a um valor no saldo bancário. E a vida não é isso.

JÚLIO – Olha, o que a vida significa, eu confesso que não sei. O que sei é que, com uma única encíclica, o papa acaba de tirar o pouco significado que a vida tinha para a maioria das pessoas. Se, antes, sofríamos uma única vez, agora teremos uma eterna repetição de um filme que, para a maior parte das pessoas, não passa de um terror classe B.

TIO(rindo) – Não seja trágico, mano. Nós não reencarnamos eternamente, como você diz. Apenas o número suficiente de vezes que nos possibilite evoluir o bastante para não precisarmos mais desse corpo denso e imperfeito que nos foi dado provisoriamente por misericórdia de Deus.

SÉRGIO(abanando a cabeça) – Eu não entendo. (com ênfase: ) – Juro que não entendo. Se for verdade, se o significado da encíclica for esse mesmo, então muda tudo. (pausa). – Tio, diga-me uma coisa: apresente-me uma, apenas uma vantagem da reencarnação sobre a doutrina da existência única.

TIO – Ora, Serginho! Não se trata de uma doutrina ser mais ou menos “vantajosa” do que a outra. Não é por aí. O que a gente precisa é discutir a questão racionalmente. Quer ver uma coisa? Estamos todos de acordo que Deus é infinitamente bom, misericordioso e justo?

JÚLIO – De acordo!

MARTA – Negativo. Ninguém jamais me provou sequer que Deus realmente existe.

SÉRGIO – Não lhe dê atenção, tio. Essa aí é o “bicho grilo” da família...

TIO – Não a culpo por isso. Eu mesmo, em minha juventude, não acreditava na existência de Deus.

MARTA(surpresa) – Ah, é? E o que fez com que o senhor mudasse de idéia?

TIO – Primeiro, a vontade sincera de conhecer a Verdade. Segundo, a humildade para admitir que eu poderia, eventualmente, estar errado na minha crença materialista. Assim, desarmei meu espírito e comecei a estudar. Li atentamente uma porção de livros que tratam da existência da alma, de sua imortalidade, da existência de Deus... A cada frase que eu lia, meditava longamente sobre ela. Procurava algum furo, algum erro, alguma incongruência, alguma coisa que fosse contra a razão, que não se encaixasse no que o bom senso considera como razoável ou possível. Desta forma, depois de muito meditar, cheguei à conclusão de que não poderia ser diferente: fiquei absolutamente convencido de que estivera errado o tempo todo em que defendi o materialismo.

MARTA – Desculpe, mas o senhor não me apresentou nenhum argumento convincente de que Deus existe.

TIO – Ora, Martinha! O maior argumento de que Ele existe está a sua volta, sobre sua cabeça, sob os seus pés. É o mundo que nos cerca, o universo em que vivemos. Diz a Física que não existe efeito sem causa. Procure a causa de tudo o que existe e você chegará forçosamente a Deus.

JÚLIO – Não adianta tentar colocar na cabeça dela idéia alguma que diga respeito à religião. Marta acredita que tudo o que existe se deve ao acaso, a uma suposta explosão que teria dado origem ao Universo. E, a partir daí, as coisas simplesmente aconteceram...

MARTA – É exatamente isso o que diz a Ciência.

TIO – E eu acredito na Ciência! Pois essa mesma Ciência diz que um efeito inteligente só pode ter tido uma causa inteligente. O acaso, segundo esse postulado científico, não pode produzir um resultado inteligente. Ora, sendo o Universo regido por mecanismos e leis inteligentes, disto se apreende que a causa do Universo só pode ter sido inteligente. Aí chegamos a Deus.

MARTA – Se é simples assim, por que muitos cientistas são ateus?

SÉRGIO – Só pode ser por orgulho e vaidade. A maior parte desses cientistas não admite a hipótese de que possa existir uma inteligência superior à deles próprios. Mas, felizmente, essa não é uma regra geral. Einstein, por exemplo, que acreditava na existência de Deus, chegou a afirmar: “ o Velho, lá em cima, não joga dados”. Com isso, ele quis dizer que o acaso, que você tanto defende e admira, simplesmente não existe.

TIO – E tem outra coisa. Você me pede provas de que Deus existe. Eu digo que as provas estão por toda parte, basta olhar para os lados. Mas, agora, sou eu que lhe peço: prove que Deus não existe, demonstre a impossibilidade da Sua existência que eu peço meu boné.

MARTA(confusa, não sabe o que dizer) – Ora, tio...

JÚLIO(divertindo-se) – Muito bem, Pedro! Você venceu! Ela pode até não aceitar as provas que você deu da existência de Deus, mas, em compensação, não tem prova alguma de que Ele não existe. Boa!

MARTA – ´Tá bom! Digamos que essa tenha sido uma vitória parcial sua, tio. Mas trata-se apenas de um recuo tático meu. Eu não desisto assim, tão facilmente.

TIO – O que é uma pena! Mas vamos voltar à nossa conversa anterior. Estamos todos de acordo que Deus é infinitamente bom e misericordioso?

SÉRGIO – Claro! Mas onde entra a reencarnação nisso?

TIO(fazendo sinal para que Sérgio tenha calma) – Se Deus é infinitamente bom, misericordioso e justo, Ele não há de gostar mais de uma de suas criaturas do que de outra; não há de privilegiar algumas delas ou querer a salvação de uma e a condenação de outra...

SÉRGIO(interrompendo) – Mas a salvação ou a condenação depende de nós, não d´Ele. Depende de nossa conduta, de nosso esforço em nos guiarmos pelo caminho do Bem.

TIO – E quando o indivíduo não tem sequer uma oportunidade de tomar conhecimento desse “caminho do Bem”? Me responda: quem tem mais possibilidade de salvação: um indivíduo que nasceu na favela, entre bandidos, e que foi estuprado pelo pai, roubou para poder se alimentar, nunca foi à escola ou ao médico, nunca recebeu carinho de quem quer que seja; enfim, um indivíduo que passou por todo tipo de privações, que foi desprezado pelos do seu meio, odiado e perseguido pela sociedade... Ou tem maiores oportunidades de salvação um outro que nasceu saudável, num lar bem formado, sem problemas de dinheiro, cercado de carinho, onde se alimentou três vezes ao dia, e que teve acesso às melhores escolas, à instrução religiosa, etc.?

SÉRGIO – Mas esse é um problema humano, não divino. Deus não tem nada a ver com isso. É a mesquinhez do homem, seu apego aos bens materiais, seu egoísmo, enfim, é tudo isso que faz com que existam indivíduos infelizes como esse que o senhor descreveu. Se dependesse apenas de Deus, todos seríamos iguais, com os mesmos direitos e com as mesmas regalias. É ao homem, e não a Deus, que o senhor deve atribuir toda a maldade, egoísmo, incompreensão, e toda a miséria existente no mundo.

JÚLIO – Concordo com meu filho. É muito cômodo culpar a Deus quando os verdadeiros culpados estão bem aqui, embaixo do nosso nariz, mamando nas tetas do governo às custas do contribuinte.

MARTA – Aí está, tio. Talvez tenhamos, agora, senão a prova, pelo menos um forte argumento em favor da tese de que Deus não existe. Afinal, que Deus é esse que deixa seus filhos sofrerem de tal forma e, depois, ainda por cima, brinda-os com o fogo eterno?

TIO(condescendente, num gesto de que seus interlocutores não estão entendendo nada) – Pessoal, vocês estão vendo apenas um lado da questão. É claro que eu também concordo com vocês quando afirmam que esse é um problema social, humano, e não religioso. (com ênfase: ) – Mas não se trata disso. A questão é: por quê é a alma do zé-da-esquina, e não a minha, ou a sua, que anima o corpo daquele infeliz? Que critérios Deus utiliza para distribuir as almas entre seus filhos, já que Ele conhece o futuro e sabe quais dificuldades e sofrimentos cada um de nós vai ter de enfrentar? E por quê, sendo infinitamente bom e justo, e sabendo com antecedência quem vai ser salvo ou condenado, Deus não cria somente as almas que serão bem-sucedidas nas provações da vida? Por quê criar aquelas que Ele sabe que vão sofrer na Terra enquanto aqui estiverem e, depois, pela eternidade, segundo algumas crenças, no fogo do inferno?

MARTA – Segundo os teólogos da Igreja, “Deus cria os pecadores para a glória dos santos”. Seja lá o que isto signifique.

SÉRGIO – Esse é um mistério cuja solução somente Deus conhece e que, portanto, somente Ele pode esclarecer.

TIO – Não, meu amigo. Deus já nos deu a resposta, e o sumo pontífice de sua religião, ainda que um pouco tarde, felizmente soube apreendê-la. A chave do mistério está, justamente, na doutrina da reencarnação, onde se aprende que toda criatura, através de múltiplas existências, neste e em outros mundos, vai evoluindo até alcançar a perfeição a que Deus nos destina.

JÚLIO – E o que tem isto a ver com a história do pobre coitado que você mencionou há pouco?

TIO – O que eu quero dizer é que tanto o pobre infeliz, vítima de todos os problemas que mencionei – miséria, estupro, fome, perseguição... –, quanto o outro que nasceu num lar bem resolvido, tanto um quanto o outro, repito, mais cedo ou mais tarde chegará ao estágio máximo de evolução espiritual. Ou seja, os dois se tornarão espíritos puros e estarão em completa harmonia com o Criador.

SÉRGIO – De que adianta, então, ser um homem de bem se o criminoso, o assassino, o bandido terá a mesma recompensa? Ora, faça-me o favor, tio!...

TIO – Eu não disse que ambos chegarão juntos ao estágio de angelitude. O maior ou menor tempo para que cada um chegue lá vai depender apenas de si próprio; dos esforços que fizer para superar suas imperfeições, lapidar seu caráter, e progredir ética, moral e espiritualmente. (para Sérgio: ) – Você me pergunta o que adianta ser um homem de bem? Adianta que você abrevia seu aprendizado e, portanto, chega mais rapidamente aos graus evolutivos superiores. Já aquele indivíduo que persevera no erro, no crime e na não observância dos ensinamentos de Jesus, ele terá que responder pelos seus atos e reparar todo o mal que praticar até que, regenerado, trilhe o caminho do Bem.

MARTA – Tio, eu conheço essa argumentação. Se me permite dizer, acho-a totalmente destituída de qualquer fundamento. Esse seu discurso, como todo discurso religioso, é apenas uma maneira de manipular as massas oprimidas, fazendo-as acreditar na falsa idéia de que, se estão sofrendo todas as misérias, é porque Deus assim determinou como expiação de suas faltas pregressas, de seus erros cometidos em vidas anteriores. Essa história de reencarnação, na minha opinião, não encontra respaldo científico algum.

TIO – Aí é que você se engana. Pesquisas sérias sobre o assunto são feitas desde o século dezenove. Se você quiser conhecê-las, vá atrás, procure, leia, informe-se. Eu mesmo possuo uma razoável quantidade de livros em minha casa sobre o assunto e, desde já, coloco-os a sua disposição. Agora, o que não dá para aceitar é um discurso contra uma idéia, qualquer que seja ela, proferido por alguém que jamais se informou sobre o assunto que critica.

MARTA – Aceito sua crítica e eu convite. Qualquer dia desses, vou a sua casa verificar esses livros.

TIO – Ótimo! É isso que deve ser feito – arregaçar as mangas e ir à luta atrás de informação. Nada cai do céu no nosso colo.

CENA 4

(Flash back. Secretaria de uma escola. Atrás da escrivaninha de diretor, um austero padre; a sua frente, Ana, mãe de Sérgio)

PADRE – Não se preocupe, minha cara. A partir deste momento, seu filho está sob nossa guarda. Em poucos meses, a vivência num ambiente de recolhimento e de oração fará do menino Sérgio uma outra pessoa, acredite.

ANA – E quanto a essa história dele ouvir vozes e brincar com meu finado pai? (ela se benze, instintivamente) – Que Deus o tenha...

PADRE(sorrindo, benevolente) – Bobagem! Coisas de criança! (doutoral: ) – Nessa fase da infância, a imaginação dos pequenos alça vôos altíssimos...

ANA – Mas ele fala com tanta convicção...

PADRE – Escute, dona... (tentando lembrar-se do nome)

ANA – Ana.

PADRE – Ana, claro! Vou lhe dizer uma coisa, minha cara, tão certa quanto estarmos aqui, agora, um diante do outro: não existe isso de conversar com os mortos. Quem afirmar o contrário estará mentindo. Os relatos de seu filho ficam por conta de sua imaginação fértil, talvez alguma confusão mental própria da idade. (enfático: ) – Os mortos não falam, minha senhora. A permanência de seu filho em nosso internato durante alguns meses confirmará a minha tese. Fique tranqüila.

(Ana, com semblante tenso, parece não ter tanta confiança nisso. Fim do flash back)

CENA 5

JÚLIO(para Sérgio: ) – Meu filho, estou me lembrando agora... Você se recorda de quando era criança e dizia conversar com seu finado avô?

SÉRGIO – Ora, pai! Devia ser imaginação minha; coisa de criança. Não se pode entrar em contato com os que já morreram.

TIO(surpreso) – Ora, e por que não?

SÉRGIO – Porque isso é impossível. Os mortos não falam...

TIO – Os “mortos”, certamente não! Mas os espíritos dos mortos, ah! Esses falam sim!

JÚLIO – Quer dizer que era tudo invenção sua?

SÉRGIO(desconfortável com o assunto) – Sei lá! Faz tanto tempo... O que importa é que agora eu sei que não é possível comunicar-se com os que já se foram.

TIO – Pois sim! Responda-me uma coisa: se não é possível entrar em contato com os “mortos”, como você diz, por que foi, então, que Moisés proibiu essas comunicações?

(Sérgio, pego de surpresa, não sabe o que responder por um instante)

TIO(voltando-se para Júlio: ) – Mano, você já viu alguém proibir uma outra pessoa de fazer alguma coisa impossível? Algo do tipo: “é proibido flutuar e ficar invisível neste recinto”, ou “é proibido navegar de navio nesta avenida”?

(Marta e Júlio riem)

SÉRGIO – Moisés estava se dirigindo a um povo supersticioso, que acreditava, em sua ignorância, estar falando com os mortos.

TIO – Mas não estava?

SÉRGIO – Não.

TIO – Então voltamos à questão inicial. Por que proibir?

SÉRGIO – Para mostrar autoridade.

TIO – E a aparição de Samuel a Saul, com o auxílio da necromante do Endor, relatada na Bíblia, não seria uma comunicação com os mortos? E a manifestação de Moisés e de Elias diante de Jesus, de Pedro, Tiago e João, no episódio da transfiguração? Você acha que Moisés, naquela ocasião, iria descumprir uma proibição dele próprio?

SÉRGIO(algo agitado e confuso) – Não sei, tio. Moisés deve ter tido bons motivos para aparecer a Jesus e seus discípulos. Mas isto não invalida a condenação bíblica dos contatos com os mortos. No episódio da transfiguração, Moisés e Elias apareceram por vontade própria; eles não foram evocados!

MARTA – Tudo bem, mano! Só que a Bíblia diz que apareceram! E se a gente partir da premissa que a Bíblia não está errada nesse ponto, então o tio está com a razão: é possível mesmo entrar em contato com eles.

TIO – Na primeira epístola de João, o apóstolo escreveu: “caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus”. Ora, essa instrução não faria o menor sentido se não fosse possível entrar em contato com eles. Qualquer pessoa que se dê o trabalho de ler a vida de alguns dos santos de sua Igreja, verá que são inúmeros os casos de comunicação entre esses santos e o além-túmulo. Só para citar um exemplo ligado à sua ordem religiosa: leia a vida de São Domingos Sávio. Ele e um amigo combinaram que, quem desencarnasse antes, deveria aparecer ao outro para contar como era a vida “do outro lado”. Pois bem, o amigo de Domingos, tendo falecido antes, apareceu como o combinado para dizer que estava muito bem...

SÉRGIO – Esse é um exemplo excepcional, que só pode ser atribuído à santidade de São Domingos Sávio.

TIO – Excepcional coisíssima nenhuma. Isso ocorre com muito maior freqüência do que você imagina.

MARTA – E tem também o caso da aparição do espírito do papa Pio X ao então cardeal Pacelli, avisando-o que ele seria eleito papa...

JÚLIO – (surpreso) – Ora! Que história é essa?

MARTA – É fato histórico, reconhecido pela própria Igreja! Aconteceu em fevereiro de 1939. Foi assim: dias após o falecimento do papa Pio XI, o cardeal Eugênio Pacelli, que então ocupava o posto de Secretário de Estado do Vaticano, encontrava-se recolhido em seus aposentos, trabalhando, quando lhe surgiu uma figura vestida de branco, envolvida numa auréola de luz, como ele próprio descreveu mais tarde. Nessa figura, o cardeal reconheceu o papa Pio X, falecido anos antes. Espantado, tudo o que Pacelli conseguiu exclamar foi: “Santidade”! “Sim, sou eu mesmo”, disse a aparição que, não só confirmou sua identidade como disse também que ele, o cardeal Pacelli, brevemente seria escolhido como o novo Vigário de Cristo. E mais, disse que o mundo seria sacudido por espantosos acontecimentos durante o seu pontificado. Dito e feito: Pacelli foi eleito papa já no primeiro escrutínio, e passou a se chamar Pio XII. E alguns meses mais tarde, em setembro de 39, eclodiu a Segunda Grande Guerra.

JÚLIO – Mamma mia! Mas essa é uma história impressionante! (para o irmão) – Então, mano, me diz uma coisa: se é mesmo possível essa comunicação, como parece ser, por que foi que Moisés a proibiu?

TIO – Imaginem a situação: àquela época, Moisés comandava uma tribo com aproximadamente 600 mil pessoas, vagando em pleno deserto. Já pensaram no que isto significa? 600 mil pessoas vivendo em tendas, cada qual com seus hábitos trazidos de diferentes países, suas opiniões pessoais, sua maneira particular de encarar a vida e a situação em que se encontravam, de interpretar a religião e de praticar seus rituais? Para controlar toda essa gente, era necessário ter pulso firme, autoridade. E como entre os hebreus havia muitos médiuns – que provavelmente utilizavam sua mediunidade de forma equivocada, em benefício próprio e de sua família, buscando apenas vantagens materiais – Moisés preferiu radicalizar e proibir qualquer tipo de contato com espíritos desencarnados.

MARTA – Como é que o senhor sabe que foi só por isso?

TIO – Pura dedução lógica! Moisés era rígido quanto aos costumes do seu povo e muito preocupado com o bem-estar de todos. No Deuteronômio, por exemplo, ele proíbe aos hebreus – por questões sanitárias e de saúde pública, já que não existia geladeira, nem panela de pressão – o consumo de sangue animal e de carne de porco. Moisés legislava até mesmo sobre questões mais simples e corriqueiras. Chegou, inclusive, a proibir às mulheres o uso de calças compridas, uma vestimenta tipicamente masculina. Já que a Igreja tomou ao pé da letra a proibição da comunicação com os mortos, deveria, por coerência, manter também essas outras proibições...

(Sérgio, a um canto, parece absorto. O tio se dirige a ele)

TIO – Sérgio, algum problema?

SÉRGIO – Não, não. Estava apenas me lembrando de algo ocorrido no Seminário...

CENA 6

(Flash back. Ajoelhado num genuflexório, um homem de batina – o próprio Sérgio – reza diante de um crucifixo, em sua cela. Rosto baixo, entre as mãos. De repente, o vulto de um senhor idoso surge de pé, ao seu lado. O vulto impõe, sem tocar, uma das mãos sobre a cabeça de Sérgio como se fosse acariciá-la. Sérgio, pressentindo a presença do outro, levanta o olhar em sua direção. Não se assusta, apenas se surpreende. Levanta-se e se afasta)

SÉRGIO – O que é isto? O que está fazendo aqui? Como entrou? Vade retro para as profundas do inferno!

VELHO – Sou eu, seu avô Zito. Não me reconhece mais?

SÉRGIO(como que recitando uma fórmula decorada) – Você não existe mais. Você morreu. Eu não estou vendo coisa alguma – é tudo fruto de minha imaginação.

VELHO – Eu não morri, não, Serginho! Estou bem vivo! Veja você mesmo! (e o velho apalpa o próprio braço, como a provar o que diz).

SÉRGIO – Vá embora! Seu lugar não é mais aqui! Você não é meu avô – é o Tinhoso!

VELHO – Estou tão confuso! Sua mãe, seu pai, sua irmã... ninguém me vê, ninguém me escuta... Você é a única pessoa de nossa família com quem eu ainda posso conversar e, agora, você me trata assim?

SÉRGIO – O que você quer? Enlouquecer-me? Levar-me para o inferno?

VELHO – Não! Não! Quero apenas certificar-me de que eu mesmo não esteja louco ou vivendo num inferno!

SÉRGIO – E o que você quer que eu faça?

VELHO – Gostaria que você rezasse por mim...

SÉRGIO – Como posso saber se você é mesmo meu avô Zito e não um demônio disfarçado?

VELHO(pensando um pouco, desolado: ) – Sei lá! Demônios não pedem oração, pedem? Talvez você deva se perguntar por quê Deus, que é infinitamente bom, permitiria ao demônio vir atormentá-lo e não permitiria a este velho e saudoso avô rever o seu neto querido?

(Sérgio surpreende-se com a observação do velho).

VELHO – Você se lembra de como brincávamos juntos quando você era criança?

SÉRGIO(algo inflexível) – Eu estava doente. Ainda estou! Mas vou ficar curado e não verei mais você. Nunca mais!

VELHO(triste) – Me perdoe se o incomodei. Não queria magoá-lo... Eu vou embora e não te perturbarei mais, fique tranqüilo. Só vim vê-lo porque a saudade era muito grande, mas já me vou... Adeus. Dê um beijo por mim na sua mãe, no seu pai e na sua irmã. Adeus, meu neto...

(Volta-lhe as costas e começa a desaparecer)

SÉRGIO(confuso) – Espere! Como o senhor está?

VELHO(sorri, triste) – Bem, eu acho... Só um pouco cansado e confuso... Mas ainda vou melhorar. Adeus.

(Desaparece lentamente. Sérgio fica parado, olhando. Fim do flash back)

CENA 7

TIO – Sérgio, você está bem? Não quer nos contar o que o preocupa?

SÉRGIO(refazendo-se do alheamento) – Não, não foi nada. Não tem importância. (reassumindo sua postura intransigente de minutos atrás) – Me diz uma coisa, tio: onde é que se encontra, na Bíblia, alguma referência à reencarnação? Como conciliar essa doutrina ao céu e inferno eternos pregados por Cristo?

TIO – Sérgio, as referências à reencarnação na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, são muitas, e essa doutrina em nada afronta a mensagem do Cristo. Muito pelo contrário. Mas, antes de mencionar algumas dessas passagens bíblicas, vale um esclarecimento. Quando Jesus esteve na Terra, há dois mil anos, nós, os humanos, éramos muito pouco esclarecidos e pouco evoluídos espiritualmente. Por esse motivo, Cristo teve de utilizar, nos seus ensinamentos, de parábolas, figurações, comparações sem as quais Sua mensagem não seria apreendida em profundidade.

JÚLIO – Quanto a isso, estamos de acordo. Mas, e o “castigo eterno” mencionado diversas vezes por Jesus?

SÉRGIO – Além do mais, sendo Deus eterno, uma ofensa a Sua pessoa teria, necessariamente, um caráter de falta eterna que, por isso mesmo, reclamaria um castigo também eterno.

TIO – Ora, por esse raciocínio, uma falta ou um crime cometido contra um governante, ou um cidadão ilustre, seria forçosamente mais grave do que a mesma falta ou crime cometido contra um cidadão comum. Isso é um absurdo! Matar o dirigente de um país qualquer, descontadas as implicações políticas, é tão criminoso quanto matar o último de seus habitantes, por mais desconhecido e humilde que ele seja.

SÉRGIO – No plano humano, sim. Mas uma ofensa a Deus é muito mais grave do que qualquer crime que se possa cometer na Terra.

TIO – Não estou isentando de culpa quem assim procede. Mas, daí a condená-lo pela eternidade vai uma grande distância... Você faz idéia do que seja a eternidade?

JÚLIO – É um bocado de tempo...

MARTA – A eternidade é apenas uma abstração. O tempo, a rigor, nada significa. Passado, presente e futuro são a mesma coisa. É tudo uma questão de referencial.

SÉRGIO – Maninha, não me venha com a sua Física Qüântica e sua Teoria da Relatividade.

MARTA – E por que não? Acaso elas te incomodam?

SÉRGIO – O que me incomoda é a arrogância desses cientistas que crêem compreender tudo e poder explicar todas as coisas.

MARTA – Ora, bolas! Se você mesmo, agora pouco, citava Einstein para argumentar a existência de Deus...

JÚLIO – Crianças, não briguem. Deixem seu tio falar. (para o tio: ) – E então, Pedro? Você dizia que a eternidade...

TIO – Escutem essa: o líder cubano, Fidel Castro, numa entrevista concedida a um colega seu, sacerdote, mencionou o relato que lhe teria sido feito, ainda no tempo de escola, por um religioso. “Imaginem”, disse certa vez esse religioso aos seus alunos, “uma bola de aço maciça do tamanho da Terra. Agora, imaginem um mosquitinho desses minúsculos, de fruta, que a cada mil anos se aproxime da bola de aço e a assopre, indo, depois, embora, para retornar só depois de outros mil anos, assoprar e partir, assim indefinidamente. Pois bem”, concluiu o padre, “quando essa bola de aço se consumir totalmente, desaparecer, gasta apenas pelo sopro do mosquitinho, diante da eternidade não se terá passado um segundo sequer.” Agora digam-me: poderia Deus, infinitamente bondoso e justo, ser tão cruel a ponto de condenar uma de suas criaturas a um castigo sem fim? Você faria isso com seus filhos, mano?

JÚLIO – Não, claro que não!

TIO – E por que deveríamos supor que Deus seja menos misericordioso do que seu pai? Como Deus poderia punir uma falta temporal com uma pena eterna? Além do mais, Jesus disse também que o criminoso, o pecador, “irá para a cadeia e não sairá de lá enquanto não pagar até o último centavo”. Isto quer dizer que, uma vez tendo pago a dívida, o indivíduo será libertado.

SÉRGIO – Deus dá ao homem o livre arbítrio para praticar o bem ou o mal. Se o homem escolhe praticar o mal, não é Deus quem o está condenando ao inferno, mas o próprio homem.

TIO – E se o homem, tendo sido condenado a esse inferno, mais tarde se arrepender de todo o mal praticado durante a vida? Ele terá nova oportunidade?

SÉRGIO – Deus não volta atrás num Seu julgamento. Isso seria contrário a Sua sabedoria infinita.

TIO – Então, está criado um impasse! Deus, que é infinito amor, não pode perdoar uma alma arrependida porque estaria se desdizendo. Ora, convenhamos! E como você explica a descida de Jesus aos “infernos” logo depois que expirou na cruz? Se as almas que lá se encontravam estavam condenadas pela eternidade, por que Jesus foi pregar-lhes o Evangelho?

SÉRGIO – Ora, para dar-lhes um pouco de conforto.

TIO(abrindo os braços, em tom de concordância) – Como queria demonstrar! Jesus sabia que aqueles espíritos – que segundo a epístola de Pedro teriam vivido encarnados ao tempo de Noé – estavam ali apenas temporariamente. Por isso foi levar-lhes uma palavra de conforto e de esperança, encorajando-os, restituindo-lhes a fé no futuro e a confiança em Deus.

SÉRGIO – Deus perdoa quem Ele quiser; pune ou recompensa segundo o Seu critério pessoal. A salvação e a condenação eternas são conseqüências de uma vontade e de uma decisão divinas.

JÚLIO – Meu filho, até eu que sou um pobre ignorante, quase sem estudo, confesso que não vejo muita lógica nesse seu raciocínio. O que você está afirmando é terrível! Você está dizendo que Deus é temperamental, que pune ou perdoa suas criaturas conforme o que lhe dá na veneta!

SÉRGIO – Pai, nós não estamos em condições de compreender a justiça divina. O que, agora, nos parece absurdo, no futuro, quando passarmos desta para a outra vida, nós compreenderemos sem dificuldade.

MARTA – Tio, estou tentando entender pela ótica do mano. Me explique uma coisa: se tudo o que o senhor diz é verdade, então, por que Jesus falava no céu e no inferno eternos?

TIO – Primeiro, temos de considerar o seguinte: a palavra “eternidade”, na Bíblia, vem da palavra grega “aionios”, que quer dizer um tempo muito longo, mas não infindável. Nos livros de Daniel e Salmos, por exemplo, encontramos a expressão: “de eternidade em eternidade”, o que quer dizer que essa “eternidade” é um período com começo, meio e fim, como o milênio, o século, o ano... E tem um outro aspecto a ser observado: quando a gente está educando uma criança que mal abandonou as fraldas, e que começa a mexer em tudo o que encontra pela frente, nós a amedrontamos com as mais terríveis ameaças: “Se você mexer com fósforos, a casa pega fogo”; “não põe o dedo na tomada que você morre”; “larga essa tesoura, senão você corta o dedo fora”...

SÉRGIO – Ora, tio! O senhor está me dizendo que Cristo mentiu? Que Ele nos enganou apenas para nos assustar?

TIO – Nada disso. Estou dizendo é que Jesus colocou a questão de uma forma que aquele povo, pouco esclarecido quanto à realidade espiritual, pudesse entendê-la. Não houve má-fé alguma por parte d´Ele; pelo contrário. Se Jesus dissesse às pessoas de sua época que todas as criaturas estão destinadas à salvação eterna, que tudo não passa de uma questão de tempo... O que aconteceria? Ora, se apesar da ameaça do fogo eterno apregoado pela Igreja nesses dois mil anos, o mundo se encontra nessa confusão, imagine se, àquela época, fosse dito com todas as letras que o ser humano tem tantas oportunidades de salvação quantas forem necessárias. Na realidade, essas Verdades eram ensinadas por Jesus apenas a uns poucos discípulos com capacidade de compreensão do problema. A todos os outros e ao povo, Jesus falava de forma figurada, por parábolas, mas sempre observava que quem tivesse olhos para ver e ouvidos para ouvir saberia tirar de suas palavras um ensinamento oculto. E quanto à sensação de eternidade das penas, considere o seguinte: para o espírito que temporariamente passa por um grande sofrimento, é como se, realmente, aquele sofrimento fosse eterno, é como se não acabasse nunca. Você já sentiu uma grande dor de dentes?

SÉRGIO – O senhor está simplificando a questão, tio. Essas infinitas oportunidades de salvação são muito cômodas para quem não quer assumir as responsabilidades da vida. Afinal, para quê se preocupar com a salvação nessa vida se você vai ter a eternidade para alcançá-la? Por quê não aproveitar ao máximo os prazeres da vida, sem se preocupar com o próximo, com a ética dos próprios atos, com o bem que se poderia praticar?

TIO – Pelo simples e bom motivo de que só um celerado ou um completo ignorante adiaria a felicidade eterna em troca de uma felicidade efêmera, fugaz, propiciada pelos prazeres do mundo. Além do mais, quem não aproveita essa sagrada oportunidade que tem de se aperfeiçoar, de progredir moral e espiritualmente; quem, além de não fazer o Bem, pratica o Mal, este reencarna em situação condizente com sua conduta na última encarnação.

SÉRGIO – O senhor quer dizer que volta para “pagar seus pecados”.

JÚLIO – É o conhecido “aqui se faz, aqui se paga”?

TIO – Não se trata de “pagamento”, nem de “castigo”, mas de uma reação natural às ações praticadas. “A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Quem não aprende pelo amor, aprende pela dor. Atualmente, temos no planeta pessoas nos mais variados graus de adiantamento moral e espiritual. E essas pessoas trouxeram de suas vidas pregressas experiências de todo tipo, felizes e infelizes, boas e más. E é por isso, também, que encontramos pessoas que sofrem muito pouco, e outras cujo sofrimento parece não ter fim. O sofrimento é, na verdade, um anjo de Deus que nos ajuda a burilarmos nosso caráter, a corrigirmos nossas imperfeições e a repararmos nossas faltas cometidas em encarnações anteriores.

MARTA – A capacidade do ser humano racionalizar a vida é, realmente, espantosa! Tio, estou convencida – até prova em contrário – de que a vida termina com a morte. E que tudo o que se diz acerca da continuidade da vida apenas esconde o terrível medo do nada que todo ser humano carrega consigo.

TIO – Ao contrário, minha querida. Na minha opinião, seria extremamente fácil e muito mais cômodo acreditar que tudo termina com a morte. Assim, nós não precisaríamos levar uma vida honesta, regrada, norteada pelo amor ao próximo e pela prática da caridade. Afinal, p´ra quê? Seria muito mais agradável vivermos nossa própria vida, sem nos preocuparmos com os outros, ou com a moralidade dos nossos atos. Cuidando apenas de aproveitar ao máximo todos os prazeres possíveis, todo o conforto que o mundo e que a vida desregrada nos podem dar.

SÉRGIO – O tio está certo. “Se Deus não existe” – não é assim que dizem os materialistas? – “então, tudo é permitido”. Tanto faz sermos dignos, honrados, ou criminosos e corruptos; o nosso fim será o mesmo...

MARTA – O problema, tio, é que as religiões estabelecem com Deus uma relação de troca: “eu fico bonzinho e Ele, em contrapartida, me leva pro céu”. Eu não acredito em Deus e nem por isso saio por aí matando ou roubando. E, na medida do possível, sou solidária com as pessoas que sofrem; procuro ajudá-las, esclarecê-las politicamente, mudar-lhes a forma de encarar a vida, incutir nelas o desejo de mudar a situação de miséria material em que vivem.

TIO – Sua atitude é nobre, Martinha, mas vazia. Todos nós devemos lutar, realmente, para mudar a situação das pessoas necessitadas, diminuir seu sofrimento, levantar seu ânimo, fazer com que tenham vontade de progredir. Mas, tudo isso, nenhum significado terá se não levarmos também a cada uma dessas pessoas a mensagem de amor e de paz que Jesus nos deixou. Nenhum significado terá se não dermos à vida dessas pessoas um sentido nobre, se não pudermos fazê-las compreender que seu sofrimento tem uma finalidade justa e válida.

SÉRGIO – Tio, me diz uma coisa. Que vantagem leva o indivíduo que, após a morte, reencarna num cachorro, num gato ou num pé de alface?

TIO(rindo) – Não, meu querido. A coisa não funciona assim. Deus nos criou espíritos simples e ignorantes. À medida que vamos evoluindo moralmente, nosso espírito também vai habitando corpos sempre mais evoluídos, que nos possibilitem experiências mais enriquecedoras, e que mais nos aproximem de Deus. Quando o espírito chega à fase hominal, isto é, quando anima um corpo humano, ele não retroage, não volta atrás. Aliás, não retroage nunca, em nenhum dos reinos em que habita. O máximo que pode acontecer é o espírito estacionar, não evoluir. Mas isso só ocorre pelo seu livre arbítrio, por seu comodismo e falta de vontade em vencer as próprias imperfeições.

JÚLIO – Mano, por mais que você explique, e por mais que eu me esforce para compreender, a idéia da reencarnação continua não respondendo a algumas questões fundamentais. Por exemplo, a questão do batismo. Como fica o indivíduo que é batizado numa vida e, na seguinte, morre sem receber esse sacramento? Será salvo ou condenado?

TIO – Digam-me uma coisa. Se o batismo é algo assim tão fundamental, tão indispensável, por que é que Jesus nunca batizou ninguém? E por que é que, dos quatro evangelistas, apenas um, Mateus, faz menção a sua obrigatoriedade?

JÚLIO – Eu não sei...

MARTA – A simbologia do batismo, da água redentora, se encontra em quase todas as religiões conhecidas. Vem de antigos rituais de purificação praticados desde a pré-história e que serviam para introduzir o indivíduo entre os membros de um grupo de iniciados.

TIO – Pois é! Por isso Jesus nunca batizou ninguém: justamente porque o batismo é um sinal exterior de adoção de uma crença e, para Ele, sinais exteriores não têm importância alguma. O que importa, e Jesus sempre disse isso com todas as letras, é a conduta do indivíduo, seu sentimento interior, a sua capacidade de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Cada um será julgado pelas suas obras, dizia Ele, e não pela agremiação religiosa a que pertenceu em vida. (pausa). – E o batismo só aparece no Evangelho de Mateus porque Mateus o escreveu na Palestina, dirigido aos seus compatriotas em geral e aos judeus convertidos, em particular. E todos nós sabemos quanto são importantes os rituais para os judeus. Foi só por isso...

SÉRGIO – Mas Cristo disse também que só aquele que crê e que for batizado é que será salvo.

MARTA – Bom, até aí, Ele pode ter-se referido simplesmente à conversão do indivíduo a sua doutrina, não ao “ritual” do batismo propriamente dito.

TIO - Ainda que Ele tenha se expressado exatamente dessa forma, é preciso considerar, como eu já observei antes, a época e a mentalidade das pessoas a quem Jesus se dirigia. Nos Evangelhos tem pelo menos uma passagem onde fica absolutamente demonstrado que o batismo não tem importância alguma para o indivíduo ser salvo.

JÚLIO – Essa eu quero saber.

TIO – É no episódio da crucificação de Cristo, em que Ele se dirige ao bom ladrão e lhe diz que, naquele dia mesmo, ambos estariam juntos no paraíso. E não consta que esse ladrão tivesse sido batizado. Aliás, não consta que qualquer dos apóstolos, ou dos antigos profetas tenham sido batizados. Nem sequer Maria e José, os pais de Jesus, e que eram judeus ortodoxos.

SÉRGIO – Deus detém toda a graça e faz dela o uso que lhe aprouver. Se Ele quiser conceder a salvação eterna a um indivíduo, mesmo que ele não tenha sido batizado, Deus é soberano o suficiente para que assim proceda.

MARTA – Mas... Que raio de justiça divina é essa? Como você, sendo padre, pode conceber ou aceitar a idéia de um Deus tão discriminador? Como pode acreditar que Deus, sendo perfeito como você diz, seja capaz de privilegiar algumas de suas criaturas em relação às outras?

SÉRGIO – Os desígnios de Deus são insondáveis.

MARTA(abrindo os braços) – Assim não dá...

JÚLIO – Você mencionou Nossa Senhora, e isso me levanta uma outra questão: ela e seu esposo, José, também tiveram outras vidas anteriores?

SÉRGIO – E Jesus? Vai me dizer que Ele, sendo Deus, também teve outras encarnações?

TIO – Vamos por partes. O mano me perguntou sobre Maria e José. A resposta é “sim”, eles tiveram outras encarnações, como todo mundo. Assim como você, ele, eu e todas as pessoas, ambos foram criados espíritos simples e ignorantes que se aperfeiçoaram, se elevaram moral e espiritualmente ao longo de incontáveis reencarnações. Quanto a Jesus, também Ele passou por um processo idêntico, só que em épocas remotíssimas, muitíssimo antes do nosso mundo ter sido criado. Jesus é um espírito perfeito, que atingiu o máximo grau de evolução possível, o estágio a que todos nós chegaremos um dia. Aliás, Ele é o governador do planeta Terra; foi Ele quem criou esse nosso mundo.

SÉRGIO(indignado) – Absurdo! Blasfêmia! Nós católicos sabemos que Cristo é a segunda pessoa da Santíssima Trindade sendo, Ele mesmo, o Deus uno que a tudo criou. Jesus, sendo Deus, não precisaria ter reencarnado coisíssima nenhuma!

TIO – Então, meu querido sobrinho, responda-me o seguinte: em que passagem da Bíblia está escrito que Jesus é Deus? Quando Jesus disse isso?

SÉRGIO – Ora, são muitas as passagens, desde o Antigo Testamento, em que Deus se manifesta e se refere a Jesus como sendo “Seu Filho muito amado”. Não vá me dizer que o senhor desconhece isso.

TIO - Não! Claro que não! Mas, como você mesmo disse, Deus sempre se referiu a Jesus como sendo “Seu Filho” e não como sendo uma parte de Si mesmo. O próprio Jesus, sempre que se referia a Deus, dizia “meu Pai” que está no céu. “Meu Pai”, ouça bem! Jesus sempre se colocou de forma submissa, subalterna em relação a Deus, e, até por uma questão de lógica, ninguém pode ser submisso ou subalterno a si próprio. Numa passagem, Jesus afirmou com todas as letras: “eu vou para meu Pai, porque meu Pai é maior do que eu”. Em outra, Jesus disse: “Eu não posso por mim mesmo fazer coisa alguma”. E ao se referir à hora do juízo, Jesus explicou: “Quanto àquela hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai”. Numa outra ocasião, em que o chamaram de bom, Jesus perguntou: “Por que me chamas de bom? Ninguém é bom senão Deus”. Não foi Jesus quem disse, ainda, “a minha doutrina não é minha, mas d´Aquele que me enviou”?

SÉRGIO – Isso só demonstra o quanto Jesus era humilde.

TIO – Jesus demonstrava sua humildade por meio de seu comportamento, de suas atitudes, da forma como servia ao próximo. Ele sabia ser incisivo quando era necessário: “Eu sou o caminho, a verdade, a vida”, disse certa vez. E quanto a ser Ele um Filho de Deus, nisso estamos de pleno acordo. Só que Jesus, segundo a própria Bíblia, não é o único Filho de Deus. Veja, por exemplo, o Livro de Jó. Ali está escrito que “os Filhos de Deus” – assim mesmo, no plural – “se apresentaram a Javé”. É evidente que o texto se refere a espíritos evoluídos, angelicais.

SÉRGIO – Mas Jesus disse também: “Eu e o Pai somos um”. Com isto, Ele quis dizer que é Deus.

TIO – Não, meu caro. Ele quis dizer que sua afinidade com Deus era tão grande e havia atingido um tal estágio, que já se podia considerar serem Ele e o Pai um único ser. Tanto isto é verdade que, logo em seguida, Jesus roga a Deus por aqueles que cressem n´Ele, dizendo: “para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós”.

JÚLIO – Quer dizer que nós também podemos ser unos com Deus?

TIO – Foi isto o que Jesus disse. Mas nem por isso Ele quis dizer que nós passaremos a ser o próprio Deus.

JÚLIO(pensativo) – Mano, muito do que você diz faz sentido... Estou me lembrando agora da oração do Pai Nosso, em que Jesus se coloca em pé de igualdade com a gente, e não com Deus, a quem Ele chama, justamente, de Pai...

TIO – Claro! E tem um outro detalhe: você acha, Serginho, que nós, seres humanos, podemos realizar obras mais grandiosas do que as do próprio Deus?

SÉRGIO – É claro que não, tio!

TIO – Ora, se Jesus é Deus e, segundo o próprio Jesus, nós podemos fazer tudo o que Ele fazia e ainda outras obras maiores, isto significa que nós podemos realizar obras mais grandiosas do que as que Deus realizou. Você acha isto possível?

(Diante desse argumento, Sérgio se cala, entre confuso e derrotado)

MARTA(para o irmão) – Fique você sabendo, mano, que o dogma da Santíssima Trindade só foi surgir muito tempo depois de Jesus, no Primeiro Concílio de Constantinopla, em 381. A própria divindade de Jesus só foi determinada no Concílio de Nicéia, em 325, e enfatizada no Concílio de Éfeso, em 431, quando se decidiu que em Jesus só havia uma pessoa, a divina.

TIO – E depois, em 451, o Concílio de Calcedônia mudou a história, ao afirmar que em Jesus havia duas naturezas, uma divina e uma humana.

JÚLIO – O que me parece mais razoável!

TIO – E esses dogmas todos só surgiram devido à dificuldade que parte do clero tinha em compreender uma série de passagens bíblicas, do Antigo e do Novo Testamento.

JÚLIO – E o Espírito Santo? Também não existe? É ficção?

TIO – Calma, não se trata disso. O Espírito Santo, na Bíblia, nada mais é do que um espírito desencarnado, da legião de espíritos evoluídos que sempre estiveram atuando na Terra, em todas as épocas. Aliás, na versão grega dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, a palavra Espírito aparece muitas vezes isolada. Foi São Jerônimo que lhe acrescentou o adjetivo Santo que, depois, foi incorporado à versão da Vulgata pelos tradutores franceses. Mas o mais importante é o seguinte: nos textos originais gregos do Novo Testamento, a palavra Espírito só aparece sem o artigo ou com o artigo definido – já que em grego não existe artigo indefinido. Portanto, nos casos em que não aparece artigo algum, a tradução correta é “um Espírito Santo” e não “o Espírito Santo”, como invariavelmente ocorre. Ou seja, a imensa maioria das traduções bíblicas está errada nesse ponto.

JÚLIO – E qual é a diferença entre se dizer “um” Espírito Santo ou “o” Espírito Santo?

TIO – Ora, é a diferença da água para o vinho! Note o seguinte: quando numa tradução da Bíblia encontramos, por exemplo, que Zacarias, o pai de João Batista, “profetizou repleto do Espírito Santo”, o texto original diz, na verdade, que Zacarias “profetizou, repleto de um Espírito Santo”. Notaram a diferença? Ainda com relação a João Batista, quando o anjo anuncia a Zacarias o nascimento do seu filho, o anjo diz – segundo as traduções convencionais – que o menino “será pleno do Espírito Santo, desde o ventre de sua mãe”, quando, na verdade, o texto original da Bíblia diz que João Batista “será pleno de um Espírito Santo desde o ventre de sua mãe”. Ou seja, o anjo estava-se referindo à santidade do próprio espírito de João Batista.

SÉRGIO – O senhor fala do Espírito Santo como sendo um espírito desencarnado. Só falta, agora, o senhor dizer também que os anjos não foram criados por Deus, mas que são espíritos de humanos que atingiram a perfeição!

TIO – Pois é isto mesmo! (Sérgio se sobressalta, diante dessa resposta. Vai dizer algo, quando o tio se antecipa para argumentar) – Um momento! Os anjos, nós, tudo o que existe no universo foi criado por Deus, sim! Só que os anjos não foram criados perfeitos como se diz por aí. São espíritos que, como os humanos, foram criados simples e ignorantes e que reencarnaram no plano físico incontáveis vezes, e evoluíram até alcançar o estágio em que se encontram hoje. E, antes que você afirme que eu estou delirando, sugiro-lhe consultar a Bíblia, no Livro de Tobias, capítulo 5. Ali você vai encontrar a narração de um episódio em que um “anjo de Deus” se diz “filho de Israel” e afirma chamar-se Azarias e ter sido filho de Ananias, um conhecido judeu. Ou seja, esse “anjo de Deus” era um espírito desencarnado; o espírito de um ser humano.

SÉRGIO(inconformado, balança a cabeça como quem diz que não é nada disso) – Que absurdo! Tio, se eu não conhecesse o senhor, diria tratar-se de um maluco delirante, um visionário declamando um punhado de sandices.

TIO – Meu querido sobrinho, eu não sou maluco, e você sabe disso. Aliás, maluquice é acreditar que Deus é esse ser repleto de imperfeições, essa figura terrível, de temperamento instável que, desde o berço, aprendemos a temer. Deus é infinito amor e, ao contrário do que a sua Igreja dizia até hoje cedo, é um pai amorosíssimo, capaz de nos dar infinitas oportunidades para a gente se aperfeiçoar, se purificar e evoluir até alcançarmos a condição de espíritos puros e podermos, assim, ser unos com o Pai, como Jesus nos exortou.

CENA 8

(Flash back. No seminário, Sérgio conversa com seu confessor, muito mais velho do que ele, enquanto caminham lentamente por um jardim)

SÉRGIO – Aconteceu, novamente! Fazia tanto tempo que meu avô não aparecia que imaginava já ter superado esse problema...

CONFESSOR(aparentemente tranqüilo diante da revelação) – Conte-me como foi.

SÉRGIO – Estava sozinho, em minha cela, fazendo minhas orações. De repente, surgido não sei de onde, ele – meu avô Zito – apareceu diante de mim.

CONFESSOR – E o que ele disse?

SÉRGIO – Disse estar triste, confuso, com saudades da família. Relembrou-me de quando eu era criança e ele aparecia para brincarmos juntos.

CONFESSOR – Satanás se utiliza de todos os artifícios para seduzir as almas desprevenidas...

SÉRGIO(inconscientemente, defendendo o avô) – Não! Ele me pediu orações!

CONFESSOR(levantando o sobrolho, algo surpreso) – Você tem certeza disso?

SÉRGIO(categórico) – Sim, claro! E ainda tem mais: ele me colocou a seguinte questão: se Deus permite ao demônio vir infernizar as pessoas, por quê, sendo Ele infinitamente bom, não permitiria também que os parentes falecidos viessem visitar seus entes queridos?

(O confessor nada responde. Pensativos, ambos seguem caminhando lentamente pelo jardim. Fim do flash back)

CENA 9

MARTA – Tio, vou lhe dizer uma coisa: não que o senhor tenha me convencido, mas, pensando bem, sua teoria está me parecendo menos absurda do que me parecia antes e, seguramente, é mais racional do que aquela defendida pelas outras igrejas, incluindo a do maninho.

TIO – A religião e a fé, como tudo o mais, devem passar sempre pelo crivo da razão. Tudo o que existe no Universo foi criado por Deus, inclusive as leis que governam os mundos e as criaturas que neles habitam. Ora, a Ciência é a busca do conhecimento dessas leis que regem o Universo, logo a Ciência não pode ser contrária a Deus. O raciocínio é simples: o conhecimento das leis que governam a criatura não pode servir de argumento para se negar a existência do criador.

MARTA – Assim, fatos aparentemente inexplicáveis ou explicações científicas insatisfatórias significam apenas que ainda não encontramos as respostas certas, mas não que essas respostas não existam... Podem apenas indicar que os nossos métodos de observação e pesquisa são insuficientes, imperfeitos ou inadequados... É! Não deixa de ser uma teoria interessante!

JÚLIO(para Sérgio) – Filho, uma coisa é certa. Por mais absurda que a situação pareça, o que eu percebo agora é que tenho, diante de mim, dois indivíduos: um espírita, afirmando que Deus é infinitamente misericordioso; e um sacerdote católico dizendo que Ele é misericordioso, sim, mas nem tanto. Confesso que estou, nesse momento, tendendo a acreditar mais no seu tio.

SÉRGIO – Mas, e as Escrituras? E os Evangelhos? Onde está escrito que nós temos de reencarnar depois de mortos?

TIO – Mortos... Que palavra mais pesada... Nós não morremos nunca, Serginho. Somos imortais. Aliás, isto está na Bíblia: fomos “criados à imagem e semelhança de Deus”. Olhe a sua volta, veja televisão, leia os jornais... Você já viu alguém que, mesmo de muito longe, pareça ter sido criado à imagem e semelhança de Deus?

SÉRGIO – Nós devemos buscar a perfeição de Deus através dos nossos atos, dos nossos pensamentos. É evidente que essa é uma meta inatingível.

TIO – Alguma vez Jesus disse algo sem sentido, algum absurdo? Alguma vez Ele nos deu algum conselho que não fosse razoável ou que não pudesse ser seguido? Alguma vez nos ditou normas impraticáveis?

JÚLIO – Claro que não. (Fazendo uma ressalva: ) – Eu acho...

SÉRGIO – Onde o senhor quer chegar, tio?

TIO – Se todos os conselhos que Jesus nos deu podem ser seguidos; se tudo o que Ele nos ensinou pode ser praticado; e se todas as determinações que nos deixou podem ser cumpridas, por que haveria de ser diferente com Sua ordem expressa para que sejamos perfeitos como o nosso Pai do céu é perfeito?

JÚLIO – Quer dizer que nós podemos ser perfeitos como Deus?

TIO – Foi o que Jesus disse: “Não está escrito: sois deuses?” Deus nos criou a Sua imagem e semelhança. Nós somos uma centelha da Divindade; temos Deus imanente dentro de nós. Jesus sabia disso e sabia também que nosso destino é a perfeição. Mas essa perfeição não nos é dada gratuitamente. Temos que buscá-la, temos que nos manter no caminho do Bem para alcançá-la. A ordem de Jesus, para que sejamos perfeitos como Deus é perfeito, não teria o menor sentido se isso não fosse possível e se não tivéssemos essa capacidade. Só depende de nós, do nosso trabalho, do nosso esforço, de nosso livre arbítrio.

JÚLIO – Então é isso! Somos como sementinhas que precisam germinar, desenvolver e dar frutos até atingirmos a perfeição...

TIO – Exatamente. E uma única vida na Terra, convenhamos, é um tempo muito pequeno para isso.

JÚLIO(pensando alto) – E esse desenvolvimento, esse progresso, só se alcança através das sucessivas reencarnações... Isso é fantástico! Agora, parece que tudo começa a fazer sentido!

MARTA – Calma, lá! Se é verdade que vivemos anteriormente em outros corpos, porque é que não nos lembramos de nada? Não deveríamos ter, ainda que tênue, uma recordação dessas outras vidas?

SÉRGIO(aproveitando o gancho) – E mais! Se a justiça humana exige que o réu castigado saiba por que é punido, não deveria Deus, quando envia as mais terríveis punições, informar àqueles que sofrem o motivo desses castigos? Poderia Ele tirar-nos de todo a recordação de nossos crimes? Que proveito alguém pode tirar da punição se não souber qual foi a sua culpa?

TIO – Primeiro, convém observar que Deus não pune ninguém. Somos nós, com nossas ações, que provocamos as reações contrárias da Natureza – que é governada pelas sábias leis do Criador. Quanto a não lembrarmos os erros que cometemos e que deram origem aos nossos sofrimentos, saiba que é justamente a natureza da “punição”, como você diz, que nos dá pistas sobre a natureza das faltas que cometemos. Se sou ferido na minha honra, pode ser porque desonrei alguém; se sofro de uma grave enfermidade, pode ser, provavelmente, porque causei um sofrimento semelhante a outrem ou a mim mesmo; se vivo na miséria sem condições de, pelo trabalho, sair dela, pode ser porque não soube fazer bom uso da riqueza; e assim por diante.

SÉRGIO – Desculpe, tio, mas eu acho absurda essa idéia de que Deus permite que sejamos castigados por uma falta da qual não nos lembramos.

TIO – No entanto, sua religião e algumas outras acham perfeitamente possível e razoável que esse mesmo Deus nos castigue por um crime que nem sequer praticamos. Estou me referindo ao pecado original cometido, segundo a Igreja, por Adão e Eva no paraíso, e pelo qual todos nós pagamos sem ter culpa nenhuma no cartório. Você acha isso mais condizente com a bondade divina?

MARTA(em tom de triunfo, gesticulando como se estivesse esgrimando) – Touché!

SÉRGIO – E o que o senhor me diz da carta de São Paulo aos Hebreus? Ali ele afirma: “está decretado que os homens morram uma só vez”.

TIO – Concordo plenamente! É claro que o homem morre uma só vez! Mas Paulo se referia ao homem fenomênico, material. Ele não poderia estar-se referindo ao ser espiritual que nós somos, porque esse não morre nunca. O corpo fisico, para morrer mais de uma vez, teria de ressuscitar, voltar a ganhar vida. Só que a reencarnação não é isso; na reencarnação, o espírito retorna à vida num outro corpo físico recém-formado especialmente para ele. E esse corpo, um dia, também morrerá uma única vez.

JÚLIO – Filho, se o homem morre uma só vez, como é que você explica a ressurreição de Lázaro? Ele não morreu novamente, depois disso?

SÉRGIO – Essa foi uma exceção. Como foram exceções, aliás, todas as ressurreições relatadas na Bíblia. Só não se encaixa aí a ressurreição de Cristo, já que Ele subiu aos céus com seu próprio corpo físico...

JÚLIO – Sei... Confesso que acho estranha essa teoria de que Deus fique, a toda hora, abrindo exceções às leis que Ele mesmo criou... (voltando-se para tio Pedro) – Existem pessoas que se lembram de suas vidas anteriores?

TIO – É um fato. Algumas pessoas, realmente, têm essa recordação.

SÉRGIO – E por que não todo mundo? Por que essa discriminação?

TIO – Você por acaso se lembra de quando tinha dois ou três anos de idade? (pausa) – Não! E, do fato de não se lembrar, podemos concluir que você nunca foi bebê? Claro que não! A maior parte das pessoas não se lembra nem do que almoçou ontem, ou que roupa vestiu quinze dias atrás. E isso não é uma prova de que há quinze dias elas não existiam. A principal razão desse esquecimento de nossas vidas anteriores, além de ser esse um processo normal de nosso psiquismo, é a de que nenhum proveito tiraríamos disto. Pelo contrário; a recordação de determinados fatos de nossas vidas passadas certamente nos embaraçaria, atrapalhando mais do que ajudando o nosso desenvolvimento.

MARTA – Não concordo. Se eu soubesse, por exemplo, que fui uma ladra na vida anterior, refrearia nesta vida minha natural tendência ao roubo.

TIO – Aí é que está. Não é necessário saber o que fizemos de errado numa outra vida para conhecermos as falhas que temos. É justamente nos nossos atuais vícios e fraquezas que precisamos nos corrigir, e é exatamente nesses pontos onde falhamos nas encarnações anteriores. Além disso, imagine se, por exemplo, você trouxesse a recordação de ter sido inimiga do seu pai, ou de sua mãe... Como seria o relacionamento entre vocês? Certamente seria difícil ou, no mínimo, haveria um grande constrangimento a ser vencido.

JÚLIO – E essas pessoas que, segundo você, têm recordação de suas vidas passadas? Não seria alucinação?

TIO – Muitos casos são comprovadamente verídicos. Existem pessoas que foram capazes de descrever locais ou relatar fatos e acontecimentos que teriam conhecido ou vivenciado em outra encarnação e que, posteriormente, tiveram sua história confirmada. Algumas são capazes de falar fluentemente uma língua com a qual jamais tiveram contato ou, até mesmo, uma língua morta, desaparecida há séculos.

MARTA(categórica) – Memória genética. A parapsicologia explica isso.

TIO – Alguns casos até poderiam ser atribuídos à memória genética, à telepatia, percepção extra-sensorial ou outros mecanismos sub-conscientes. Mas com um grande número de casos isso não ocorre. Algumas pessoas descrevem suas vidas em países por onde jamais nenhum de seus ancestrais passou, ou mesmo numa época tão recente que não seria possível estabelecer qualquer laço genético entre elas. Isso sem contar as que descrevem com exatidão – comprovada posteriormente – sua própria morte o que, por razões óbvias, não poderia ser transmitido geneticamente. Além do mais, creio ser bastante difícil explicar como é que essas recuadas memórias poderiam atravessar durante séculos, de célula em célula, hereditariamente, para emergirem de repente, com riqueza de detalhes, num único indivíduo.

SÉRGIO – Tudo pode não passar de uma capacidade dessas pessoas captarem do éter o que teria acontecido com outros indivíduos em épocas anteriores.

TIO – Ô, Serginho! `Pera aí! Essa hipótese é muito mais fantástica, muito mais fantasiosa e esdrúxula do que possa parecer a teoria da reencarnação. Se fosse assim, a pessoa que experimenta esse conhecimento não teria sua percepção limitada a um caso específico; pelo contrário, seria capaz de perceber também, por via extra-sensorial, outras memórias e outros fatos relacionados com diferentes pessoas. Mas isto não ocorre; é tudo relacionado sempre com uma só pessoa, que já existiu mesmo e que teve aquele tal nome, morou naquela tal casa e assim por diante. Parece-me ser muito mais lógico a alma de um indivíduo – que todos sabemos imortal – renascer num outro corpo e trazer reminiscências de uma vida anterior, do que imaginar que a história das pessoas possa ficar registrada no éter, como você diz, à espera de que alguém, muito tempo depois, venha captá-la com riqueza de detalhes.

SÉRGIO – Segundo a parapsicologia, as explicações possíveis para o fenômeno são várias: o indivíduo pode ter estado num local, ou vivenciado uma situação, inconscientemente, ainda no útero da mãe, por exemplo. Ou pode ter visto imagens do lugar num filme, ou em fotos de revistas; ou ler o inconsciente de uma outra pessoa; ou, ainda, dizer já ter visto algo quando, na verdade, viu apenas alguma coisa semelhante.

TIO – E como você explica as crianças prodígio, aqueles gênios que desde tenra idade se sobressaem nas ciências e nas artes?

SÉRGIO – Esse é um fenômeno puramente físico, explicado pela constituição genética de tais crianças. O que vocês chamam de “espíritos mais evoluídos” nada mais são do que indivíduos que se beneficiam de disposições orgânicas e fisiológicas que tornam seu aprendizado mais fácil, imediato e intuitivo.

TIO – O que você está dizendo é que Deus privilegia determinados indivíduos, fazendo com que eles nasçam com essa tal de “melhor disposição genética”, e depois, na hora da morte, julga a todos como se tivessem tido as mesmas oportunidades. Ora! Isso é outro absurdo!

SÉRGIO – Tio, Deus é soberanamente livre para criar quem Ele quiser e como Ele quiser.

TIO – Vocês teólogos fazem de Deus uma imagem muito mesquinha, atribuindo a Ele todas as nossas falhas, todas as nossas fraquezas e imperfeições. Se Deus privilegiasse uma única de suas criaturas, Ele não seria infinitamente justo e, portanto, não seria Deus.

MARTA – Mano, definitivamente a argumentação do tio é mais lógica e convincente do que a sua.

SÉRGIO – Há pouco o senhor me perguntou se conheço alguém que, mesmo de longe, pareça ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. A resposta é: não. Não conheço. Mas a culpa disso é o pecado. O homem se afasta de Deus quando peca.

TIO – Isso é verdade. Mas não lhe parece estranho que, em toda a história da humanidade, nunca ninguém sequer se aproximou da imagem e semelhança de Deus, além de Jesus? Por que será?

JÚLIO – Por quê?

TIO – Vivemos num mundo muito pouco evoluído. A Terra, até aqui, tem sido um planeta de expiação e de provas, uma espécie de hospital ou escola para espíritos pouco esclarecidos como nós somos atualmente. Mas no decorrer do Terceiro Milênio vamos entrar paulatinamente numa nova etapa, num novo estágio evolutivo. E a Terra passará a ser, não mais um mundo de sofrimento, mas de regeneração. Nosso planeta começará a abrigar espíritos mais evoluídos, mais dispostos a aprender e a praticar a caridade pregada por Jesus.

SÉRGIO – Já lhe perguntei e torno a perguntar: de onde o senhor tirou tudo isso? Onde, na Bíblia, está escrito que existe reencarnação?

TIO – Vou-lhe citar algumas passagens. Você se lembra do encontro de Jesus com Nicodemos?

SÉRGIO – Claro que sim. “Jesus lhe disse: em verdade, em verdade te digo que não pode ver o reino de Deus senão aquele que nascer de novo”. Mas é óbvio que Cristo se referia ao renascimento pelo batismo.

TIO – Não, meu querido. Assim, caímos novamente naquela discussão que tivemos há pouco sobre a importância do batismo, e que é nenhuma. Se Jesus se referisse ao batismo, Ele teria dito, simplesmente, que “não pode ver o reino de Deus senão aquele que for batizado”. Jesus não tinha dificuldade alguma de se expressar, de se fazer entender. Ele não diria uma coisa querendo, na verdade, dizer outra.

JÚLIO – Taí! Eu sempre me perguntei: será que Deus vai ficar na entrada do céu conferindo as almas para verificar quais as batizadas e as não batizadas, como se fosse o porteiro de um clube verificando quem é sócio de carteirinha e quem não é?

TIO – Pois é. Essa é uma imagem muito pouco lisonjeira que se faz de Deus. (para o sobrinho: ) – Ainda no mesmo trecho do Evangelho, Jesus diz a Nicodemos: “O que nasce da carne, é carne, e o que nasce do Espírito, é espírito”.

MARTA – Sei. E o que isto significa?

TIO – Exatamente o que Ele disse: que a parte física, a carne do Homem, nasce da parte física – do espermatozóide e do óvulo. E que a parte espiritual, o Espírito, nasce não da parte física – da junção do espermatozóide com o óvulo –, mas vem do plano espiritual, do mundo espiritual.

SÉRGIO – E o que tem a reencarnação a ver com isso?

TIO – Tudo! O espírito, segundo Jesus, não é criado no momento da concepção, mas vem pronto do mundo espiritual. “O vento sopra onde quer, e tu ouves o seu ruído, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que nasceu do Espírito”, ou seja, quando olhamos para uma pessoa, sabemos que há ali um espírito que a anima, mas não conhecemos sua história; não sabemos de onde ele vem e nem para onde vai após abandonar aquele corpo.

MARTA – E por quê Jesus não disse isto com todas as letras, claramente, para que não houvesse nenhuma dúvida?

TIO – Jesus apresentou um bom argumento para isto. Ele disse: “Se vos tenho falado das coisas terrenas, e não me acreditais, como me acreditareis se vos falar das celestes?”

JÚLIO – E o que foi que Nicodemos respondeu?

TIO – Nicodemos, a princípio, parece não ter entendido as implicações do que Jesus dizia. Ele quis saber como é que um homem, sendo velho, poderia voltar ao ventre da mãe para nascer de novo. Jesus, então, estranha que justamente ele, Nicodemos, um mestre em Israel, um estudioso dos textos sagrados, desconhecesse aquele fato.

MARTA – Nicodemos era um fariseu, não era?

TIO – Sim, era fariseu e poderoso membro do Sinédrio, a alta cúpula do clero na Palestina. E, como tal, era também um doutor da Lei e profundo conhecedor dos livros sagrados. Agora me digam: por que Jesus estranhou a ignorância de Nicodemos?

(Júlio dá de ombros, como quem diz que não faz a mínima idéia)

TIO – Porque Jesus sabia que esses livros – que hoje conhecemos como Antigo Testamento – estão repletos de citações que comprovam a doutrina da reencarnação. E Nicodemos, como estudioso da Lei e dos Profetas, deveria conhecer essas passagens.

SÉRGIO – Essa, para mim, é novidade! Onde é, no Antigo Testamento, que constam essas citações sobre a reencarnação?

TIO – Em inúmeras passagens. No primeiro mandamento, por exemplo, Jeová afirma: “Eu sou um Deus zeloso, que visita a iniqüidade do pai no filho, na terceira e na quarta geração daqueles que me aborrecem”.

MARTA – Eu sempre ouvi esse trecho de forma diferente: “Eu sou um Deus zeloso, que visita a iniqüidade do pai no filho ´até´ a terceira e a quarta geração daqueles que me aborrecem”.

TIO – Essa aí é a versão mais difundida, atualmente, mas não é a versão correta. Foi adulterada nas traduções modernas. O texto original da Vulgada latina, traduzida por São Jerônimo no século quarto, é “in” tertiam et “in” quartam generationem. “Na” terceira e “na” quarta geração. Essa tradução que você mencionou, além de deturpada – e, portanto, desonesta – é uma verdadeira heresia, porque faz de Deus um ser vingativo e injusto, que castiga num indivíduo os erros de outro. Que sentido teria alguém sofrer um castigo por causa de um pecado cometido por seu bisavô, que ele nem chegou a conhecer?

JÚLIO – E na tradução correta isso não ocorre?

TIO – Não! Quando Deus afirma que visita a iniqüidade do pai no filho, na sua terceira e na quarta geração, está dizendo que é o mesmo pai – o que pecou – que sofre as conseqüências de seus atos anos mais tarde, numa outra encarnação.

SÉRGIO – Mesmo que seja esta a interpretação correta, por que é que essa teoria não fica patente em outros trechos da Bíblia?

TIO – Aí é que você se engana. Em outra passagem, ao profetizar sobre a nova aliança com Deus, o profeta Jeremias declara: “ Nesses dias já não se dirá: os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se estragaram. Mas cada um morrerá por sua própria falta. Todo aquele que tenha comido uvas verdes, esse mesmo é que terá os dentes estragados.” Com isto, Jeremias deixou bem claro que a responsabilidade pelos próprios atos é pessoal e intransferível.

JÚLIO – É... Nesse trecho, a explicação fica mais clara. Então o primeiro mandamento é mesmo como seu tio menciona: é o próprio pecador que retorna mais tarde para pagar pelos seus erros!

TIO – Tem ainda outra passagem, do Livro de Ezequiel, em que Deus afirma: “Aquele que pecar, esse morrerá. O filho não sofre o castigo da iniqüidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniqüidade do filho.” E no Livro de Jó: “somos de ontem e não sabemos nada”. E, assim, existem outras citações bíblicas que mencionam a reencarnação, ainda que de forma velada.

SÉRGIO(irônico) – Mas agora, com as luzes do Espiritismo, tudo fica esclarecido e o véu se rompe, não é? Não lhe parece, tio, um pouco de pretensão achar que o Espiritismo traz respostas que nem mesmo Jesus podia dar?

TIO – Não há nisto pretensão alguma. O próprio Jesus disse, textualmente, aos seus discípulos: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não as podeis compreender agora. Quando vier, porém, o Espírito da Verdade, Ele vos guiará no caminho da verdade integral, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e anunciar-vos-á as coisas que estão por vir.” E ainda acrescentou: “Ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”.

SÉRGIO – Jesus se referia à vinda do Espírito Santo em Pentecostes. Quando seus discípulos estavam reunidos no cenáculo, após a ascensão de Jesus, o Espírito Santo desceu sobre eles e deu a cada um o dom das línguas e o completo entendimento da missão do Cristo.

TIO – Será? Então, por que Jesus disse que o Espírito da Verdade viria “para ensinar todas as coisas e recordar tudo” o que Ele, Jesus, havia dito?

SÉRGIO – Os discípulos, tocados pelo Espírito Santo, realmente foram agraciados com o conhecimento integral de todas as coisas – tanto que saíram a pregar em todas as línguas!

JÚLIO – Uma vez, numa firma em que trabalhei, um colega meu meio estranho, um dia, diante de todos, começou a falar uma língua que ninguém – nem ele próprio, pelo que confessou depois – conhecia. Ele garantiu que foi coisa de espírito...

SÉRGIO – Não misture as coisas, pai! Com os apóstolos foi o próprio Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, que se manifestou.

TIO – Pois eu lhe digo que tanto no caso do colega de seu pai quanto no caso dos apóstolos, o que ocorreu foi um fenômeno mediúnico. Quanto aos apóstolos, os espíritos se manifestaram nas línguas de todos os que se encontravam em Jerusalém, um importante centro comercial da época e que reunia gente de muitos lugares distantes.

MARTA – E por que Jesus falou que esse “Espírito da Verdade” viria “recordar” o que Ele havia ensinado?

TIO – Porque Ele sabia que suas palavras, ao longo do tempo, seriam deturpadas e esquecidas, o que realmente acabou ocorrendo. (Para o sobrinho: ) – Você não acha estranho, Sérgio, que, apenas alguns dias depois de Jesus dizer aos seus discípulos que eles não poderiam entender o que faltava ser dito, esses mesmos discípulos, de um momento para outro, já estivessem preparados para conhecer a “verdade integral” em Pentecostes? O que poderia ter ocorrido para capacitá-los a esse entendimento em tão curto espaço de tempo?

SÉRGIO – Ora! Esse entendimento instantâneo foi uma graça de Deus!

TIO – Não, meu querido sobrinho. Essa “graça”, como você chama, seria um privilégio concedido por Deus a apenas algumas pessoas. E isto vai de encontro a Sua soberana justiça.

SÉRGIO – Se a vinda do Espírito da Verdade não tem nada a ver com Pentecostes, quando foi, então, que Ele veio? Ou ainda não veio?

TIO – O Espírito da Verdade veio, sim. E o que Ele disse, basicamente, foi que Deus, na Sua infinita misericórdia, quer a salvação de todas as suas criaturas, e que essa salvação só depende do esforço pessoal de cada um e só é possível após um longo caminho de aprendizado, no decorrer de inúmeras reencarnações.

MARTA – Que Espírito da Verdade é esse? Quando foi que Ele veio? Onde?

TIO – Para responder a estas perguntas, eu teria de me estender um pouco, mas eu não quero aborrecê-la. Por isso, digo-lhe apenas que no século dezenove, um francês chamado Hippolyte Léon Denizard Rivail, um grande magistrado, pedagogo e advogado de muito conceito, intrigado pelo crescente sucesso em toda a Europa de uma brincadeira de salão na qual se conversavam com supostos espíritos através de pequenas mesas girantes, quis verificar pessoalmente se por trás dessa brincadeira havia algo de sério. Rivail, que tempos depois passou a assinar Allan Kardec, era um pensador positivista e, como tal, só se convenceu da realidade do fenômeno após exaustivos estudos e verificações. Mais tarde, utilizando-se da cooperação de muitos médiuns em diversas partes do mundo, formulou uma grande quantidade de perguntas aos espíritos. As respostas que lhe chegavam eram confrontadas umas com as outras e, as que se assemelhavam, que estavam concordes entre si, foram compiladas numa grande obra denominada “O Livro dos Espíritos”. O Espírito da Verdade mencionado por Jesus foi um dos que, no mundo espiritual, coordenaram esse trabalho.

JÚLIO – Você mencionou algumas passagens do Antigo Testamento que podem se referir à reencarnação. No Novo Testamento, além dessa conversa de Jesus com Nicodemus, tem alguma outra?

TIO – Tem várias. Uma dessas passagens é o que eu chamo de caso explícito de reencarnação. Foi no episódio da transfiguração, em que Jesus, acompanhado somente por Pedro, Tiago e João, subiu a um monte e se revestiu de intensa e maravilhosa luminosidade. Durante essa transfiguração, apareceram a eles Moisés e Elias, os dois desencarnados há muitos séculos. Os discípulos ficaram apavorados e, mais tarde, perguntaram a Jesus sobre Elias, ainda hoje um dos profetas mais estimados pelos judeus e que, segundo a tradição, deveria retornar à Terra. Jesus respondeu que Elias certamente haveria de voltar para restabelecer todas as coisas, mas que ele já havia vindo e não fora reconhecido. “Antes”, disse Jesus, “fizeram dele o que quiseram.” Só então os discípulos compreenderam que Jesus se referia a João Batista. Ou seja, João Batista havia sido o próprio Elias reencarnado.

SÉRGIO – Foi apenas uma figura de retórica utilizada por Jesus para explicar a afinidade entre os dois profetas, João e Elias. Não tem nada a ver com reencarnação!

TIO – E o que você me diz daquela outra passagem, do Evangelho de Mateus, em que o mesmo Jesus, referindo-se ainda a João Batista, diz com todas as letras: “E, se vós o quereis compreender, ele mesmo (João Batista) é o Elias que há de vir”? Ou seja, primeiro Jesus disse que Elias era João Batista e, em outra ocasião, num outro contexto, afirmou que João Batista era Elias. E, para arrematar, ainda acrescentou: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” – que quer dizer: o que vocês escutaram, foi isso mesmo que eu disse.

MARTA – Uau! Isso significa duas coisas: que João Batista não só era o profeta Elias reencarnado como esse mesmo Elias ainda deveria voltar novamente, depois de João Batista!

TIO – Exatamente! Numa outra passagem do Evangelho, Jesus, referindo-se aos escândalos existentes no mundo, diz o seguinte: “Se a tua mão ou o teu pé te escandaliza, corta-o e lança-o fora de ti; melhor te é ´entrar na vida´ com um pé ou mão a menos do que, tendo duas mãos e dois pés, ser lançado no fogo eterno. E se o teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor te é ´entrar na vida´ com um só olho do que, tendo os dois, ser lançado no fogo da geena.”

SÉRGIO – Jesus se referia à vida eterna. É claro que Ele usou apenas uma metáfora quando aconselhou que cortássemos o pé, a mão, ou arrancássemos o olho que pudesse ser causa de escândalo e de nossa condenação eterna.

TIO – Se esta tivesse sido a única referência de Jesus à reencarnação, talvez pudéssemos interpretá-la com esse sentido que você lhe atribui. Mas não! Quando Jesus disse que era melhor “entrar na vida” sem a parte de nosso corpo que nos escandaliza, ele se referia ao nascimento físico, mesmo, aqui na Terra!

MARTA – Ué, tio, e como pode ser dar isso? Por acaso o senhor está insinuando que podemos “escolher” nascer sem um pé, u´a mão, ou sem um olho?

TIO – Perfeitamente! Antes de reencarnarmos, fazemos uma avaliação de nossa vida anterior, analisamos nossos erros e acertos, planejamos a nova encarnação e, quando percebemos que nosso corpo físico nos levou a determinados vícios e erros de conduta, pedimos para nascer com limitações que nos dificultem a recaída naqueles mesmos erros e vícios. Foi isto o que Jesus quis dizer.

JÚLIO – É, faz sentido! Tem alguma outra passagem do Evangelho que fale da reencarnação?

TIO – Sim! Por exemplo, quando Jesus perguntou aos seus discípulos quem os homens achavam que Ele, Jesus, era. Pedro respondeu: “Uns dizem que és João Batista, outros, Elias, e outros, que ressuscitou um dos antigos profetas”. Ou seja, a idéia da reencarnação, que os judeus chamavam de ressurreição, embora não muito bem compreendida por todos, era perfeitamente aceita à época de Jesus.

SÉRGIO – Mas Jesus nunca a confirmou publicamente. Pelo contrário, chegou mesmo a negá-la no caso da cura do cego de nascença.

TIO – Ôpa! Isso não é verdade! Jesus confirmou, sim, essa crença, como acabei de demonstrar com exemplos. E no caso da cura do cego de nascença, mencionado por você, a conclusão que se chega é completamente oposta àquela que os adversários da doutrina da reencarnação querem tirar.

JÚLIO – Conte-nos essa história direito, mano.

TIO – Prefiro que Sérgio, primeiro, nos narre o texto do Evangelho.

SÉRGIO – Foi mais ou menos assim: Jesus e seus discípulos caminhavam por uma estrada quando encontraram um cego de nascença. Aí, então, os discípulos Lhe perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? E Jesus respondeu: (enfatizando a primeira parte da frase: ) – Nem ele, nem seus pais pecaram, mas foi para se manifestarem nele as obras de Deus. (em tom vitorioso: ) – Como vêem, Jesus nega a reencarnação!

TIO(com a calma de quem já esperava pela argumentação do outro) – Receio que você esteja equivocado.

JÚLIO – Por que equivocado? Agora sou obrigado a concordar com meu filho: a resposta de Jesus é mesmo contra a reencarnação.

MARTA – É, tio... Acho que o senhor tem um problema...

TIO(com bom humor) – Adoro resolver problemas. Vamos lá! Ignoremos, por um momento, a resposta de Jesus. Vamos, primeiro, analisar a “pergunta” feita por seus discípulos.

SÉRGIO – Tudo bem! “Os discípulos perguntaram-Lhe: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”

TIO(fazendo sinal para que Sérgio interrompesse) – Muito bem! Agora sou eu que questiono: por que é que os discípulos fizeram essa pergunta a Jesus? (e olha interrogativamente para os outros três).

MARTA – Bem, deve ser por causa daquele outro trecho da Bíblia sobre o qual falávamos há pouco, o do primeiro mandamento: “visito a iniqüidade do pai no filho, na terceira e na quarta geração daqueles que me aborrecem”.

TIO – Exato! (comenta, lisonjeiro) – Gostei! Para quem se considera atéia, você está-se saindo muito bem no quesito “catecismo”.

MARTA(alegre) – Tio, sou atéia mas não sou totalmente ignorante...

SÉRGIO(impaciente) – Bem, e daí?

JÚLIO – É, e daí?

TIO – E daí que os discípulos, com essa pergunta, deixaram absolutamente claro que acreditavam na reencarnação. E – o que é mais importante – Jesus sabia disso. Não só porque convivia diariamente com eles, como também porque conhecia o íntimo, o pensamento de cada um dos seus discípulos e de todos os que d´Ele se aproximavam.

JÚLIO(com expressão interrogativa) – E...

TIO – Ora, sabendo que seus discípulos acreditavam na reencarnação, Jesus poderia, simplesmente, negar essa crença e esclarecer de uma vez por todas que eles estavam errados. Seria uma oportunidade de ouro para transmitir aos discípulos e a todos os que se encontravam por perto tão importante ensinamento. Mas não... Jesus não negou a reencarnação. Ao contrário, esclareceu apenas que aquele caso era especial, uma exceção à regra geral. Respondeu-lhes que nem o cego de nascença, nem seus pais haviam pecado, mas que o homem nascera com aquela deficiência como missão, para que Ele, Jesus, pudesse operar sua cura fazendo, assim, manifestarem-se as obras de Deus.

JÚLIO – Isto significa que, na sua opinião, aquele homem foi usado por Deus? Não lhe parece um pouco forte essa afirmação?

TIO – Você é que está sendo duro com essa expressão. Ninguém foi “usado” por Deus. Aquele homem, muito provavelmente, ofereceu-se como voluntário para encarnar com deficiência visual, pois sabia que ia servir de instrumento para a conversão de muitas pessoas – o que, de fato, acabou ocorrendo.

JÚLIO – Quer dizer que ressurreição e reencarnação são a mesma coisa?

SÉRGIO – Para a Igreja, não. O que a Igreja ensina é a ressurreição dos mortos, ou seja, no dia do Juízo Final, os corpos dos mortos serão restituídos de seus túmulos, ficarão glorificados e voltarão aos espíritos que lhes deram vida anteriormente. Já o que tio Pedro defende é a idéia da reencarnação, isto é, o retorno dos espíritos dos mortos em outros corpos, ainda nesta vida.

TIO – Só que você se esquece de um detalhe: à época de Jesus o termo “reencarnação” não existia, mas a “idéia” da reencarnação não só existia como era aceita por muita gente. E essa idéia era expressa exatamente pela palavra “ressurreição”, que tanto significava o renascimento do indivíduo em novo corpo, ainda nesta vida, quanto seu ressurgimento no Dia do Juízo, só que, então, não mais num corpo físico, corruptível, mas num corpo espiritual, incorruptível, como bem explicou o apóstolo Paulo.

MARTA – Baseado em quê o senhor afirma isto?

TIO – Baseado nos Evangelhos. E a resposta de Pedro a Jesus – sobre quem o povo achava que Jesus era – é uma prova do que digo. Notem que Pedro disse que parte do povo achava que Ele, Jesus, era um antigo profeta que havia ressuscitado. Ora, se uma pessoa podia ressuscitar antes do Juízo Final, era que a idéia de ressurreição, naquela época, equivalia a nossa idéia atual de reencarnação.

SÉRGIO – Não acredito nisso.

TIO – Mas é verdade. O próprio Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, escreveu: “Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?” Notaram que ele usa a conjugação do verbo ressuscitar no presente? Isto significa que naqueles dias já havia espíritos ressuscitando – ou seja, reencarnando.

JÚLIO – E sempre reencarnando como ser humano...

TIO – Claro! É o que eu disse há pouco: o espírito não retroage nunca. O máximo que pode ocorrer é ele estacionar em seu processo evolutivo. Aliás, Paulo de Tarso esclareceu também este ponto quando escreveu aos Coríntios: “Nem toda a carne é a mesma carne, mas uma é certamente a carne dos homens, e outra a dos animais, uma a das aves e outra a dos peixes.” E Paulo fez questão de deixar bem clara esta diferença porque, como era grande conhecedor do pensamento grego, sabia que alguns filósofos daquela época defendiam a metempsicose: a ressurreição – ou reencarnação – de um espírito humano num animal. Se na opinião de Paulo a ressurreição ocorresse exatamente com o mesmo corpo que o indivíduo possuía ao morrer, não haveria a menor necessidade de esclarecer essa questão; Paulo não precisava explicar que ninguém ressuscita com o corpo de um animal, de uma ave ou de um peixe...

SÉRGIO – Tio, se fosse tão evidente assim, os doutores da Igreja teriam aceitado essa interpretação.

TIO – E foi isso mesmo o que ocorreu por mais de cinco séculos.

MARTA(para Sérgio ) – É verdade. A Igreja só rejeitou a doutrina da reencarnação no ano de 543, com a publicação dos anátemas do patriarca Menas, de Constantinopla. Antes disso, muitos teólogos dentro da própria Igreja defendiam abertamente a reencarnação, como Orígenes de Alexandria, por exemplo.

TIO – Na verdade, Marta, muitos teólogos, inclusive católicos, sustentam hoje em dia que a doutrina da preexistência da alma e, por conseguinte, da reencarnação, nunca foi condenada oficialmente pela Igreja.

SÉRGIO – Como não? De onde o senhor tirou esta idéia?

TIO – Tirei dos fatos históricos! Essa “condenação” mencionada por sua irmã e que teria ocorrido com os éditos de Justiniano, em 543, na verdade dizia basicamente o seguinte: “se uma pessoa acredita que as almas humanas existiam antes, como espíritos elevados, mas que um dia ficaram fartos de estar com Deus no céu, e que em conseqüência disso o amor desses espíritos para com Deus esfriou neles, e por isso passaram a se chamar almas humanas, e que foram castigadas de forma a serem mandadas a encarnar em corpos na Terra, seja essa pessoa que pensa assim excomungada.”

MARTA – Sério, tio? Ora, então a Igreja não condena mesmo a reencarnação! O que ela condena é a idéia de que as pessoas reencarnam por estarem cansadas do convívio com Deus.

TIO – Exatamente! Só que essa idéia é realmente absurda! As pessoas reencarnam para se aperfeiçoarem, para progredirem, nunca porque se cansaram do céu!

JÚLIO – E por que então a Igreja condenava, até agora, a reencarnação?

TIO – Segundo alguns historiadores e teólogos, por um lamentável equívoco histórico. Ocorre que Justiniano, o imperador de Constantinopla, era realmente contra a idéia da preexistência das almas. Então ele convocou um sínodo ainda em 543, que acabou condenando a preexistência das almas e outras doutrinas de Orígenes. Só que essas condenações, como haviam sido decididas num sínodo, só tinham validade local, ao contrário das decisões tomadas num Concílio Ecumênico, que têm validade para toda a Igreja. Por isso, Justiniano, com sua influência política, fez com que essas condenações fossem posteriormente anexadas às resoluções tomadas no V Concílio Ecumênico de Constantinopla II, em 553. E elas nem sequer foram apresentadas ao Papa Virgílio para sua aprovação. Ou seja, Justiniano conseguiu seu objetivo “no tapetão”, como se diz hoje. E a Igreja, depois disso, acabou com o tempo assimilando essas “condenações”, principalmente a que se referia à doutrina da preexistência das almas, apesar de elas nunca terem sido discutidas num Concílio.

SÉRGIO – Não sei, não, tio. Olha, eu confesso que essa história toda da encíclica está-me deixando maluco, confuso, com dificuldade para raciocinar. Mas, em outra circunstância, mais tranqüila, vamos voltar ao assunto, e aí o senhor verá que posso rebater ponto por ponto tudo o que está afirmando.

TIO – Serginho, me perdoe se o aborreci. Não foi minha intenção. Mas eu acho que você deveria serenar seu espírito e alegrar-se. Você verá mais tarde que há muito mais motivos para júbilo do que para tristeza.

JÚLIO – Vamos ligar a televisão para ver se há alguma novidade.

(Liga a TV. Está passando uma matéria sobre o assunto. O locutor lê o texto enquanto imagens o ilustram)

LOCUTOR – ... centenas de jornalistas e equipes de televisão de todo o mundo não param de chegar ao pequeno Estado do Vaticano. Todos os hotéis de Roma estão lotados e, agora, só se acha acomodação nas casas de família. Essa equipe da televisão estatal chinesa decidiu acampar em plena Praça de São Pedro. (pausa) – Enquanto a população católica de todo o mundo vive um dia de muita agitação, o clima na Santa Sé foi de aparente tranqüilidade e rotina. O papa, como de costume, saiu à sacada da basílica para a bênção aos fiéis. A Praça de São Pedro estava lotada. (pausa) – E atenção! Neste momento, o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Rocco, dá uma entrevista coletiva na entrada de sua residência. De lá, fala ao vivo o repórter Pedro de Souza.

REPÓRTER – Não há motivo algum para pânico. Assim pode ser resumida a fala de Sua Eminência, Dom Carlos Rocco, aos repórteres reunidos à frente de sua casa, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Vamos ouvi-lo.

CARDEAL – ... e, por isso, Sua Santidade resolveu antecipar a divulgação do documento. A encíclica Reencarnatio et Salvatio, repito, está inserida num contexto de “abertura” pastoral da Igreja Católica aos nossos irmãos de outras crenças, que têm na reencarnação um dos seus postulados doutrinários.

(Tumulto entre os repórteres, todos perguntando ao mesmo tempo. Uma das perguntas se sobressai)

REPÓRTER – Eminência, o senhor acha que poderá ser benéfica para a Igreja essa abertura? Ela atrairá os reencarnacionistas de outras religiões ou apenas afastará da Igreja aqueles católicos que não acreditam na reencarnação?

CARDEAL – Somente o tempo dirá o que vai ocorrer. Uma coisa, porém, é certa. O fato de a Igreja admitir, agora oficialmente, por meio do santo padre, a doutrina da reencarnação, coloca fim a uma antiga discussão existente no seio da própria Igreja, e jamais tornada pública. Refiro-me à discussão entre os teólogos tradicionais, mais conservadores, partidários da doutrina da ressurreição, ou seja, a de que todos nós ressuscitaremos uma única vez no dia do Juízo Final, e os teólogos mais progressistas, partidários da doutrina da reencarnação, estes em número cada vez maior.

REPÓRTER – E o que teria levado o papa a optar por essa doutrina, a da reencarnação, e não pela outra?

CARDEAL – Meu amigo, em 1594, a Igreja cometeu um grave erro, talvez o maior de toda a sua história, ao condenar Giordano Bruno e levá-lo à fogueira por ter defendido a idéia de que o sol, e não a Terra, era o centro do nosso sistema. E a Igreja assim o fez apesar de todas as evidências de que Giordano estava correto em suas afirmações. Em 1632, foi a vez de Galileu Galilei ser condenado pela Igreja por defender as mesmas idéias – e que ele acabou abjurando mais tarde para não ir para a fogueira da Inquisição. Hoje, a situação é mais ou menos parecida. De um lado, nós temos a doutrina da ressurreição, baseada apenas em textos bíblicos, alguns dos quais de interpretação bastante dúbia. De outro, o surgimento, a cada dia, de novas e fortes evidências da realidade da reencarnação, trazidas ao conhecimento público pela Ciência. A Igreja não queria, e não podia, cometer mais um equívoco tão grave. Portanto, a decisão do papa de divulgar essa encíclica foi, no nosso entendimento, absolutamente correta e oportuna. Obrigado a vocês todos.

REPÓRTER – O cardeal-arcebispo Dom Carlos Rocco afasta-se rapidamente dos repórteres. Nós continuamos a postos, aguardando novas informações.

LOCUTOR – Com a encíclica Reencarnatio et Salvatio in Providentia Dei, o papa João Paulo III inicia uma nova etapa da história da civilização ocidental. A partir de hoje, o Cristinismo e o próprio mundo não serão mais os mesmos. As implicações da doutrina da reencarnação na vida de 600 milhões de católicos existentes no mundo, a repercussão na Europa, Ásia, América do Norte e no Brasil, você verá logo mais na edição nacional.

SÉRGIO(desligando a televisão, pensativo) – Então aconteceu, realmente.

TIO – Sérgio, meu querido. Você ouviu Dom Carlos falar: o que o papa fez foi, apenas, oficializar uma opinião já difundida entre grande parcela dos teólogos da Igreja. Além do mais, existem, como Dom Carlos observou corretamente, as evidências científicas da reencarnação. E o que hoje são apenas evidências, amanhã serão provas irrefutáveis, você verá...

CENA 10

(Sem que ninguém percebesse, Ana surge à porta que liga a sala ao hall do quarto, cambaleante, apoiando-se no batente. Quando a vêem, correm para ampará-la)

JÚLIO – Querida, o que está fazendo aqui? Você não devia levantar-se. Vamos já para o quarto.

ANA – Não, eu estou bem. (arfando: ) – Eu ouvi... Ouvi tudo o que vocês disseram e o que a televisão disse...

SÉRGIO( preocupado) – Calma, mãe! A história ainda está muito confusa... Não se preocupe com isso, por favor!

ANA(sorrindo, moribunda) – Eu estou calma, meu filho. Bem mais calma do que você... Aliás, do que “vocês”... (breve pausa) – Reencarnar... A idéia não me desagrada, sabiam? ... Na verdade, essa história sempre me passou pela cabeça... Claro, não era uma idéia persistente... Ela surgia assim, de repente, depois de alguns anos sem que eu pensasse no assunto... Engraçado. É como se eu já soubesse... Ou como se alguém que eu não pudesse ver me assoprasse ao ouvido...

JÚLIO – Querida, você não deve se emocionar...

MARTA – Mãe, vamos deitar, vamos...

ANA(detendo-os, com um gesto) – Ora, não se preocupem, já disse. Eu estou bem... Creio que nunca estive melhor em toda a minha vida... (sorri) – Reencarnar... Então, ninguém vai para o inferno pela eternidade como, desde menina, eu ouvia minha mãe dizer... Pobre mamãe... Será que ela já reencarnou? Faz tanto tempo...

MARTA(preocupada) – Mãe, o doutor disse que a senhora precisa repousar...

ANA(serena, com infinita paciência) – Eu vou repousar daqui a pouco... Sinto que meus dias estão contados...

MARTA, JÚLIO, SÉRGIO, TIO(ao mesmo tempo) – Ora! Não diga isso! Bobagem!

ANA – Gozado, creio que esta é a primeira vez na minha vida que eu penso serenamente na morte.

SÉRGIO(tentando interrompê-la) – Mãe...

ANA(enérgica) – Deixe-me falar... Eu “preciso” falar... E você e sua irmã precisam me ouvir também... Talvez mais do que os outros. Eu ouvi a discussão de vocês e os argumentos que vocês utilizaram para criticar a atitude do papa. Será que vocês não percebem que o que esse papa fez foi dar um mínimo de sentido para a vida de bilhões de pessoas que sofrem todo tipo de privação, angústia, necessidade... Pessoas que nascem, crescem, vivem e morrem sem entender o significado disso tudo... o significado da vida? Pessoas que nascem, crescem, vivem e morrem sem esperança, sem vislumbrar sequer uma luzinha no fim do túnel?

(Sérgio e Marta vão dizer algo, a mãe os interrompe. Enquanto ela fala, em torno deles surgem alguns vultos, tênues, com as mãos impostas sobre o grupo, na direção de Ana)

ANA – Esperem... Eu preciso falar... Sinto que já não terei muito tempo... Meus filhos queridos, o que o papa acabou de fazer – e que o Pai Eterno o abençoe por isto – foi resgatar a idéia de um Deus infinitamente bom e misericordioso... Um Deus que é só amor, capaz de perdoar a qualquer falta de qualquer um dos seus filhos... Seu tio está certo, “sempre” esteve certo... Nós é que, na nossa cegueira, no nosso orgulho, não enxergávamos o óbvio... Parem para pensar.... Vocês verão que, agora, tudo faz sentido... Ninguém sofre de graça, sem motivo... O próprio sofrimento adquire um novo significado, muito mais sublime; não mais uma desgraça ou maldição, mas uma bênção divina; não mais uma interferência do demônio na nossa vida, mas, ao contrário, um “anjo de Deus” que vem em nosso auxílio para nos ajudar a corrigir nossas imperfeições, harmonizar nossos desequilíbrios, tornar-nos melhores, mais espiritualizados... Meus filhos, agora podemos ter certeza de que ninguém está desamparado pela misericórdia divina... Ninguém foi esquecido por Deus...

(Tio, pai e filhos escutam, agora sem coragem de interromper)

ANA(olhando um por um) – Meus queridos. Quero que saibam que, nestes meus últimos instantes de vida...

(Sérgio faz menção de interrompê-la; ela o interrompe antes, enérgica)

ANA – ... nestes meus últimos instantes, eu repito, quero que saibam que estou me sentindo imensamente leve e feliz. Agora, sei que posso morrer tranqüila. (corrigindo-se: ) – Morrer, não! Desculpe... (olhando para o tio que parece ser o único sereno, a entender perfeitamente o que se passa) ... desencarnar... Não é assim que vocês dizem? Desencarnar... Ninguém morre... Ninguém “nunca” morre... Meus filhos, essas lágrimas que vocês vêem em meu rosto são lágrimas de felicidade, de alívio, de gratidão a Deus...

(Júlio, Sérgio e Marta começam a chorar, baixinho)

ANA – Eu vou partir... Mas não se desesperem! Eu vou partir assim, serena, como quem vai para uma curta viagem... Um dia eu volto... Agora, estou certa de que nos veremos novamente, todos nós. Em circunstâncias melhores, num mundo mais tranqüilo, mais feliz... onde as pessoas não se vejam como adversárias ou inimigas umas das outras, mas como companheiras, viajantes num mesmo barco... E viajantes alegres, confiantes no seu capitão... Viajantes que trazem consigo a certeza de estarem rumando para um porto seguro...

TIO(comovido) – Ana, minha querida cunhada. Quero que saiba que estou muito feliz com a sua tomada de consciência e muito mais tranqüilo com relação a você. Sinto nas suas palavras a inspiração do Mais Alto, e vejo mesmo em seu redor uma auréola de luz. Estaremos sempre juntos entre nós e, todos nós, juntos do Pai Celestial. Fica tranqüila... Deus, na Sua infinita misericórdia jamais abandona qualquer um dos seus filhos...

(Ana desencarna)

TIO – Vai com Deus.

(Júlio e os filhos abraçam o corpo inerte, chorando. As entidades espirituais acercam-se de Ana, como que querendo levantá-la)

CENA 11

(Passou um tempo indeterminado. Ana, bem rejuvenescida, irradiando felicidade, veste roupas claras e alegres. Está num jardim extremamente bonito, celestial mesmo, acompanhada de um senhor igualmente jovial – seu mentor, ou guia espiritual)

GUIA – Feliz com as novidades?

ANA – Muito! Extremamente feliz! Primeiro, porque reencontrei meu querido papai Zito, que, aliás, está sendo muito bem assistido aqui na Colônia. Depois, porque não vejo a hora de levarmos o plano adiante.

GUIA – Calma! Antes, nós temos ainda que tomar uma série de providências. O processo de reencarne não é complicado, mas também não é tão simples quanto você imagina.

ANA – Ora, não importa. (suspirando) – Vou sentir saudades de você, dos amigos que fiz aqui e, por que não dizer, desse lugar maravilhoso.

GUIA(sorrindo) – Estaremos todos aqui, aguardando o seu regresso.

(Ana emociona-se. O guia a abraça, fraternalmente)

GUIA – Não se preocupe. A missão que você escolheu, tenho certeza, será integralmente cumprida. De qualquer forma, eu e nossos amigos espirituais estaremos sempre juntos a você, amparando-a, reconfortando-a, inspirando-lhe ânimo e coragem.

ANA – Tenho certeza que sim. Já na vida anterior eu sentia isso.

GUIA – Então! Além do mais, você encontrará agora um mundo muito melhor do que aquele que você deixou quando veio para cá. Você tem acompanhado o desenrolar dos acontecimentos na Terra?

ANA – Tenho, sim. A vida, lá, do ponto de vista da espiritualidade, está bem melhor. Mas os problemas sociais continuam muito grandes. E o número de sofredores ainda é enorme...

GUIA – Isso passa, você sabe. Esse período pelo qual atravessa o planeta é necessário para a sua evolução. Mas nosso divino Mestre Jesus está atento e tem enviado para a Terra, de acordo com a vontade do Pai Eterno, um número cada vez maior de fiéis discípulos, dispostos a trabalhar intensamente para o rápido aprimoramento dos nossos irmãozinhos encarnados.

ANA(sorrindo) – Não vejo a hora de estar novamente com meus filhos e com o meu querido Júlio.

GUIA – Mas você jamais os abandonou desde que veio para cá!

ANA – Ah, mas é diferente. Eles não me viam quando eu os abraçava, os afagava... Agora, vamos poder nos tocar, nos beijar, trocar palavras...

GUIA – Não se esqueça que Júlio, que agora será seu avô, muito em breve virá para cá, deixando-a ainda pequena nos braços de seu filho.

ANA – Sim, eu sei. Mas eu saberei, também, que ele vai estar bem. Lamento apenas não poder recebê-lo pessoalmente quando de sua vinda.

GUIA – Estou certo de que ele compreenderá a situação, perdoará essa sua “falta” e a amará ainda mais quando conhecer sua missão.

ANA(algo apreensiva) – Sabe, às vezes sinto um pouquinho – só um pouquinho – de medo de não cumprir todos os compromissos que estou assumindo aqui.

GUIA – Não se preocupe. Esse sentimento é perfeitamente natural. Quando lhe faltar forças, coragem, ânimo, não se esqueça.... Reze. Reze muito. Como lhe disse, eu e nossos amigos estaremos sempre ao seu lado, ajudando-a .

ANA – Bom, pelo menos meu filho – ou melhor, meu futuro papai (ri) – pelo menos ele abriu a mente para as verdades eternas. Eu vou crescer num ambiente muito mais favorável do que aquele em que ele próprio foi criado quando criança. Pena que Marta ainda esteja tão confusa em relação ao sentido da vida...

GUIA – Mas, um dia, também ela despertará para a realidade. Veja só que coisa... E saber que tudo aconteceu graças à encíclica do papa João Paulo... A propósito, você sabia quea publicação da encíclica levou inúmeros líderes de outras religiões a abrirem um debate público sobre a reencarnação? E sabia também que algumas denominações protestantes, por meio de seus pastores, já defendem abertamente a reencarnação como sendo a maior revelação divina dos últimos tempos?

ANA – Bem, já não era sem tempo. (O Guia espanta-se com a observação) – Desculpe, foi um comentário infeliz...

GUIA(em tom de censura) – Sei que foi. Mas você está enganada. Nada acontece por acaso, e essa encíclica veio no momento certo, nem antes, nem depois. João Paulo reencarnou com essa missão, e soube desempenhá-la como um autêntico missionário de Jesus. E saiba você que ele vem sofrendo críticas enormes por causa disso. Até mesmo de alguns correligionários seus.

ANA – Coitado! Deus queira que ele não sucumba.

GUIA – João Paulo sucumbir? Você não conhece a fibra daquele homem. Esse risco o mundo não corre....

ANA – Ótimo! Assim, tudo ficará melhor para todos, não é?

(Ana e o Guia riem, dão-se os braços e caminham pelo jardim)

CENA 12

(Passou um tempo indeterminado. Sérgio, que largou a batina, está acompanhado de sua mulher numa sala de estar. Ela carrega um bebê que dorme)

ESPOSA – Veja, querido, como ela dorme. Nunca vi criança tão serena, tão tranqüila.

SÉRGIO(abraçando a esposa e beijando-a, levemente, nos lábios) – É que ela sabe que é filha de duas pessoas que se amam muito.

ESPOSA – Olhe! Mesmo dormindo, ela sorriu.

SÉRGIO – Meu Deus! Como é linda! Vou te dizer uma coisa que você vai me achar meio maluco...

ESPOSA – Diga, então. Depois, eu dou meu veredicto.

SÉRGIO – Eu, quando olho para nossa filha, fico impressionado. Ela é extremamente parecida com minha mãe...

ESPOSA(rindo) – Tá bom! Já ouvi essa história antes...

SÉRGIO – É verdade! Pena você não ter conhecido mamãe. Vocês teriam se dado muito bem...

ESPOSA – Estou certa que sim, pelo que você e seu pai contam...

SÉRGIO(olhando para a menina) – Não sei... Tem alguma coisa no rosto dessa menina que me faz lembrar de minha mãe. Os olhos? Talvez... Não, eu acho que é esse sorrisinho dela quando está dormindo...

ESPOSA – Seu bobo!

(Beijam-se levemente nos lábios e ficam ambos contemplando a criança que dorme, placidamente)

(CAI O PANO)

Bibliografia: