Materialismo e Ciência

Matheus Artioli Firmino

Materialismo é a corrente filosófica que admite como causa de todos os fenômenos do Universo a matéria e suas propriedades. Nega a existência de um princípio inteligente independente da matéria. A inteligência e sentimentos humanos seriam atributos da matéria. A Consciência nasceria com o desenvolvimento do sistema nervoso no feto e morreria junto com o corpo na falência do encéfalo. A mente seria uma secreção do cérebro, como a bile é uma secreção do fígado, o suco gástrico do estômago e a urina dos rins [1].

Abstendo-nos de estudar as origens históricas do materialismo, podemos refletir sobre o que leva um Espírito imortal negar a própria realidade. Notemos que a idéia se alastra entre as pessoas dedicadas a desvendar a Verdade pelo método mais rigoroso e seguro, a Ciência. Entre as Ciências Naturais, particularmente aquelas cujo objeto de estudo é o corpo humano, a Anatomia e a Fisiologia, encontramos pesquisadores de renome ridicularizarem o Espiritualismo, ou seja, a concepção científico-filosófico-religiosa da existência da alma [2]. Tal é a desarmonia entre as idéias inatas clamando pela imortalidade e a crença artificial do nada, que o materialista pode ser considerado como portador de um desvio mental, de causa inexata, como uma excrescência nascida de um pequeno cisto, mas agora espalhando metástases [3].

Citemos um exemplo. No século XX, com os avanços da neurofisiologia e da neurocirurgia, o sistema nervoso pôde ser mais intimamente investigado. Como o cérebro em si não possui nervos para dor e tato em sua superfície, experimentos com humanos foram feitos atuando-se diretamente no cérebro exposto de voluntários. Dessa forma, através de microeletrodos geradores de pequenas correntes elétricas em células nervosas, foram determinadas com precisão as área cerebrais que comandam cada músculo voluntário do corpo. Nesse caso, o indivíduo fica desacordado e o pesquisador cataloga qual músculo é ativado frente a um estímulo elétrico numa área do cérebro [4]. Observemos as conclusões do materialismo: "a mente humana é, portanto, um conjunto de impulsos nervosos (elétricos) percorrendo o encéfalo".

Todavia, esse experimento nos faz lembrar as reflexões de Allan Kardec, no século XIX, quando toma como modelo as batidas de um sino numa antiga cidade [5]: o sino é matéria e portanto não toca pela vontade própria, assim como um corpo sem o Espírito; mas quando às 18 horas ele soa, as pessoas da cidade entendem a mensagem e sabem que, na verdade, é uma inteligência externa a ele que o comanda; porém, quando o sino soa aleatoriamente, todos entenderão que não há mensagem alguma, e possivelmente o vento o balançou. A análise neurofisiológica citada indica evidentemente que o cérebro comando o corpo, no entanto sozinho não é nada, pois quando a inteligência encarnada não agia (por efeito do anestésico) foi necessário uma outra inteligência externa, o pesquisador, para ativá-lo.

INTELIGÊNCIA EXTERNA

OBJETO

EFEITO

Tocador do sino avisando que são 18 horas

Sino da cidade

População atende a mensagem

Pesquisador estudando o cérebro

Pequenas áreas do cérebro estimuladas por microeletrodos

Movimento do Corpo

As conseqüências da crença materialista são óbvias: ausência total da responsabilidade para consigo e para com os outros. Considerar a existência humana começando no berço e terminando no sepulcro é a apologia de todos os vícios, como um material inflamável lançado sobre o fogo das paixões humanas. Levaria o ser a pensar em aproveitar todos os prazeres oferecidos na matéria com a exaltação suprema do egoísmo. "O mundo é dos espertos, dos astutos" diríamos, já que tudo acaba na morte. Aliás, já que todos iriam desaparecer mesmo, porque não desligar os aparelhos vitais de pacientes terminais e daqueles que gritam de dor em um momento de desespero? Ao sinal do menor sofrimento, o que não é raro, o suicídio seria uma solução elegante. Se um indivíduo pensando assim traria problemas, imaginemos se essa doutrina fosse generalizada. A sociedade acabaria por destruir-se, exterminando toda a espécie humana [6].

Felizmente, um número muito reduzido de pessoas chega a esse ponto, vivenciando o credo materialista e superando o próprio instinto de conservação. Na realidade, devemos compreender que não são os estudos das Ciências Naturais que são perigosos por levarem as pessoas ao materialismo. Quase sempre, o orgulho de pensar conhecer todos as leis e fenômenos naturais e o desejo de não comprometer-se com a própria consciência, criam tais conclusões infantis. Daí entendermos que as Universidades estão povoadas de Espíritos pseudo-sábios, liderando a Ciência com interesses pessoais de crença. Para compreender melhor as origens dessa patologia mental, podemos dividir os materialistas em: os sistemáticos e os fanfarrões [7].

No primeiro grupo, estão aqueles que negam sistematicamente as verdades espirituais apesar das evidências filosóficas e científicas. Compreendendo, por exemplo, os fenômenos biológicos previsíveis, independentes da nossa vontade, e que são facilmente induzidos se entendermos a neurofisiologia humana, constataremos a nossa existência pelos nossos pensamentos e não pelo comportamento corporal. "Penso, logo existo", essa é a segurança filosófica da existência de um princípio inteligente independente da matéria [8]. Ademais, desde o século XIX, a existência do Espírito e suas relações com a matéria têm sido investigadas segundo à luz da Ciência, ou seja, experimental e quantitativamente. Desse modo, não devemos perder tempo em tentar convencer essa classe de materialistas, cujo orgulho venceu as evidências. Lembremos de Paulo de Tarso, quando, depois de pregar o Evangelho em várias cidades do Oriente, lembrou-se de anunciar a Boa Nova em Atenas, a capital da Filosofia Clássica, cujas luzes conhecera desde criança. Chegando lá, foi considerado louco e fanático e ridicularizado a gargalhadas pelos "ilustres" pensadores. Então, Paulo compreendeu com mais clareza porque o Mestre Jesus tinha escolhido encarnar entre os povos submissos, vivendo entre as pessoas simples da Galiléia; a humildade é uma condição indispensável para entender e aceitar que somos todos igualmente filhos de Deus e temos compromissos com a própria Consciência [9].

No segundo grupo, estão os materialistas vacilantes, cuja ausência de crença e vazio interior conduziram-nos ao desespero do niilismo. Negaram antes o irracional, as religiões dogmáticas que apresentam conceitos grosseiros e fantasiosos de forma imposta e irrefletida. Na verdade, mostrando-lhes uma doutrina racional e esclarecedora, com bases científicas e filosóficas para a realidade da inteligência livre, agarrá-la-ão como uma tábua de salvação das angústias carregadas. Por isso, "ao verdadeiro espírita nunca faltará oportunidade de fazer o bem; há corações aflitos a aliviar, consolações a dispensar, desesperos a acalmar, reformas morais a operar; essa é a sua missão e nela encontrará a verdadeira satisfação [10]." Assim, o esclarecimento espírita deve ser estendido levantando a bandeira da imortalidade àqueles que realmente a desejam, mas a prática da caridade consciente, conseqüência desse entendimento, arrasta qualquer um para o caminho do Bem [11].

Nesse sentido, desejamos desenvolver essas páginas na Internet, com o objetivo de atender a necessidade de nós, espíritas, trazendo conceitos científicos e temas da área atestando sempre a veracidade dos ensinos de Allan Kardec e dos Espíritos da Codificação nas Obras Básicas e notando com entusiasmo a Ciência terrestre chegando cada vez mais perto das verdades espirituais. Mais uma vez, recordemos o Apóstolo dos gentios, em sua primeira carta para Coríntios (1:23): "Mas nós pregamos um Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos."; o aprendiz fiel, porém, não se atemoriza [12].

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Kardec, Allan (1890). Obras Póstumas , 22a Edição. FEB. Profissão de fé espírita raciocinada, II. A Alam, item 5.
  2. Kardec, Allan (1857). O Livro dos Espíritos, 54a Edição. LAKE. Questão 147.
  3. Emmanuel (1960). Religião dos Espíritos, 10a Edição. FEB. Materialismo: página 189.
  4. Aires, Margarida (1999). Fisiologia, 2a Edição. Guanabara Koogan S.A. Capítulo 27: 280-281.
  5. Kardec, Allan (1868). A Gênese, 17a Edição. LAKE. Capítulo 11: item 1.
  6. Kardec, Allan (1865) O Céu e o Inferno, 3a Edição. LAKE. Capítulo 1: itens 2 e 3.
  7. Kardec, Allan (1857). O Livro dos Espíritos, 54a Edição. LAKE. Questão 148.
  8. Descartes, René (1637). Discurso do Método. Nova Cultura. Quarta Parte.
  9. Emmanuel (1941). Paulo e Estêvão. FEB. Segunda Parte, Capítulo 6: página 416.
  10. Kardec, Allan (1865). O Livro dos Médiuns. LAKE. Primeira Parte, Capítulo 3: item 30.
  11. Emmanuel (1960). Religião dos Espíritos, 10a Edição. FEB. Materialistas: página 187.
  12. Emmanuel (1952). Vinha de Luz, 11a Edição. FEB. Aos discípulos: lição 7.

Junho/2001.