Na Casa Espírita

(e outras estórias)

Juarez Barbosa Perissé


Índice

  1. A carne é fraca
  2. O crítico
  3. O passista falante
  4. O semeador e os solos atuais
  5. Procura-se um Povo!
  6. Nossa Ruanda
  7. Companheiros perfeitos
  8. Síndrome da criança espancada
  9. Sozinho na Casa Espírita
  10. Divulgação pela palavra
  11. Ano Novo! Vida Nova?
  12. Autodesobsessão ou soluções mágicas
  13. Como vemos Deus?
  14. O Natal
  15. Uma estória de Carnaval
  16. Após o Carnaval

Introdução

Este livro é resultado de uma coletânea de estórias escritas aqui e ali, e que buscam retratar a imensa galeria de tipos de pessoas que participam das atividades das Casas Espíritas. São todos resultados da observação, e vivência, de inúmeras situações, algumas engraçadas, outras até dolorosas.

Não se trata da estória de fulano ou beltrano. Não se buscou endereçar estes casos a quem quer que seja. O objetivo sempre foi servir de subsídio para que cada um de nós possa fazer o exercício de auto-análise, tão bem enfocado por Agostinho na pergunta 919 de O Livro dos Espíritos.

Gosto de encarar estas estórias como pedaços do cotidiano dos Grupos Espíritas, onde se movimentam tantas pessoas, algumas com a percepção clara do que representa uma Casa Espírita, outras ainda em busca de milagras, de solução externa para seus problemas.

Não se tem a pretensão de apresentar soluções, e sim, mostrar como é complexa a natureza humana, como o contraditório ainda se faz presente no nosso mundo interno, refletindo-se nos grupos que participamos.

Espero que este livro te seja útil, que lhe faça sorrir um pouco em algumas situações, sentir-se emocionado em outras, mas que te faça refletir em todas.


1- A carne é fraca...

Antônio Miranda, deitado em seu leito, próximo à janela do terceiro andar de um grande hospital, observava a chuva cair, e pensava nos últimos acontecimentos da sua vida.

O tempo correra célere, e cada vez mais ficara clara a necessidade dele se desvencilhar das influenciações que o estavam levando a tomar certas decisões. Perdera, desde alguns meses, a alegria de viver, o entusiasmo pelo trabalho. Continuava envolvido nas atividades, maquinalmente, mais por hábito do que pela satisfação que elas proporcionam.

Aconselhado por amigos, resolvia lutar, mas logo se rendia às influências, repetia erros, arrependia-se e, consequentemente, se deprimia. Internamente, reconhecia que o problema não era a influenciação espiritual que certamente existia, e sim a sintonia desta influência com seus desejos e paixões. Considerava-se, porém, fraco demais para superar as forças internas e externas que o impulsionavam ao erro, aos excessos.

Este ciclo, vivido e revivido, ia desgastando suas energias, e o Espírito combalido não se encontrava em condições de reorganizar os parcos recursos existentes, e equilibrar-se organicamente. Acabara adoecendo seriamente. Uma mistura de doença física e espiritual. Aliás, como a maioria das doenças que observamos hoje em dia. Fez inúmeros exames que nada detectavam, mas, efetivamente, não se sentia bem.

Recostado no travesseiro, lembrou da prece, recurso que ele, inclusive, tantas vezes havia recomendado às pessoas que o procuravam na Casa Espírita em busca de orientação. Orou como há muito tempo não se dispunha a fazer, e sentiu-se sonolento. Arnaldo, seu guia espiritual, carinhosamente o abraçou, e saíram, deixando o corpo adormecido. Antônio sentiu-se bem com a companhia, ficara até mais fácil respirar. Seu amigo, contudo, nada falava, apenas o levava, não sabia para onde. Após algum tempo, chegaram a uma praia, que lhe trazia uma vaga lembrança. Onde seria? Arnaldo o convidou a respirar profundamente e sentir a energia penetrando-o, fortalecendo-o. Disse, então: "Você não se recorda daqui? Já trouxemos muitos para sentirem a influência benéfica do mar. Mas Antônio, meu filho, estamos diante de uma grave decisão. Tenho tentado orientá-lo, mas você se mantém refratário a qualquer sugestão minha. Não posso fazer mais, pois o teu livre arbítrio deve ser respeitado. Os problemas nos quais você se vê hoje envolvido já foram causa de sua queda em outras encarnações. O desejo de poder, a satisfação de suas paixões estão sempre na origem dos seus mais graves deslizes. Nesta encarnação, como aliás em outras, você muito recebeu, e tem responsabilidades, muitos dependem de você. E o quê você está fazendo? Você, em seus pensamentos, às vezes, acha que a opção pelo crescimento espiritual é a do seu sacrifício para ajudar os outros. Não se trata disso, meu amigo. Você precisa sacrificar as suas paixões, para, assim, ajudar a si mesmo. As pessoas, se não forem ajudadas por você, o serão por outros. Deus a tudo provê, nós somos apenas intermediários. Acorde deste pesadelo criado por você mesmo. Você está se deixando levar por ilusões. O que você busca na Terra? Poder? Satisfazer paixões? Você já respondeu estas questões tantas vezes com as palavras que saíam dos seus lábios. Por quê não respondê-las agora com o coração?"

Antônio chorou, sentia as lágrimas rolarem. Acordou soluçando. O que estava fazendo de sua vida? Olhou para a janela, e o mundo também chorava, com lágrimas de chuva. Anoiteceu, mas ele não conseguiu dormir. Ao amanhecer, no entanto, não se sentia cansado. O médico, na sua visita matinal, considerou-o mais saudável. Após uma semana, recebeu alta. As palavras do seu amigo espiritual não saíam de sua mente. Achava, porém, que não teria forças para superar os problemas. Surpreso ficou quando a própria seqüência de acontecimentos, aliadas, é claro, à sua vontade de vencer-se, foram solucionando as questões mais relevantes. Mudou alguns hábitos, revisou alguns conceitos, e começou a sentir-se melhor. Passaram alguns meses e, um dia, ao final de uma palestra, sentou-se aguardando a prece final. Sentiu-se envolvido por uma vibração serena, e viu, num relance, seu amigo Arnaldo sorrindo. Emocionou-se, e uma discreta lágrima rolou em sua face. Afinal, foram dezenas de palestras proferidas ao longo de muitos meses, nas quais ele não sentira qualquer envolvimento. Ressoou, então, em sua mente aquela voz que já lhe era familiar, dizendo: "Seja bem vindo, meu amigo. É motivo de muita alegria entre nós, observarmos o retorno à estrada de um trabalhador da Seara de Jesus. Que bom que você está de volta."


2 - O crítico

Belarmino Silveira já participava desde algum tempo daquele Grupo Espírita. Havia sido atendido nos diversos tratamentos espirituais existentes na instituição, tinha participado dos estudos, e agora cooperava em algumas atividades desenvolvidas naquele Recanto Espiritual. No fundo, reconhecia-se ainda muito imperfeito, mas sentia-se feliz com a confiança depositada nele. Afinal, sabia que somente através de pequenos trabalhos se capacitaria a desenvolver atividades cada vez mais complexas.

A Casa era grande, e tinha uma enorme afluência de pessoas em busca de alívio para suas dores, consolo e orientações. Observava as pessoas irem e virem, e percebia os resultados alcançados. Ele próprio havia passado por aquele mesmo processo. Quando chegou à Casa, trazia tantas dúvidas, e havia sido tão bem atendido... Tinha, inclusive, convidado muitas pessoas e acompanhado sua melhoria ao longo do tempo.

Na medida em que Belarmino participava dos trabalhos, mais se sentia envolvido pelos amigos espirituais, mais desejava participar. Sentia-se bem em estar naquele grupo de pessoas, com defeitos, mas desejosas de se melhorarem. Sempre que podia, acorria até aquele local que sabia servir de ligação com os Planos Maiores da Vida. Belarmino seguia bem, mas um pequeno detalhe não vinha sendo adequadamente cuidado, e acabou por comprometer toda a sua trajetória. Embora estudasse, Belarmino não conseguiu apreender o que representa a Doutrina Espírita em nossas vidas. Ele se ligava às pessoas, e não ao sentido espiritual da Casa. Ele vinculava integralmente as pessoas à Doutrina, sem se dar conta que mesmo aqueles que, naquele momento, dirigiam a instituição, eram falíveis, se encontravam em processo de crescimento.

Um belo dia, Belarmino se aborreceu. Não importa aqui o motivo. Existem, na verdade, tantos Belarminos, e tantos motivos. Tudo, a partir dali, resultava em crítica. Onde antes via atenção, passou a ver intromissão. Onde antes via companheirismo, agora via hipocrisia. Não via mais valor em qualquer atividade desenvolvida naquela Casa, que antes amava. Embora ele próprio tivesse sido amparado ali, embora tivesse visto tantas pessoas adentrarem a Casa em completo desequilíbrio, sentirem-se melhor após o adequado tratamento, passou à completa descrença. Só tinha, agora, olhos para o erro. Em seguida, passou aos comentários. Sempre que o assunto vinha à tona, em sua residência, ou na própria instituição, pois ele continuava a desenvolver suas atividades lá, falava do seu descontentamento. Algumas pessoas, amarguradas como ele, passaram a lhe dar ouvidos, mas a maioria começou a se afastar. Afinal, é cansativo ficar ouvindo constantes reclamações. Havia quem perguntasse: Mas o que houve com Belarmino? Por quê ele fala mal da instituição na qual ele próprio foi atendido, e agora exerce suas atividades espirituais? Não existe afinal nada de bom nesta Casa? Será que são todos marionetes na mão de pessoas inescrupulosas?

O tempo foi passando, e Belarmino cada vez mais isolado. Certa noite, subindo a escada do prédio até o salão de palestra, ouviu a conversa de um grupo, na qual elogiava-se a Casa, falava-se do sentido que havia sido dado as suas vidas, antes tão confusas. Decidiu assistir à palestra, e diferentemente do que habitualmente fazia, prestou atenção nas palavras do expositor. Talvez por inspiração dos seus amigos espirituais, talvez pela conversa ouvida na escada, talvez porque gostasse do expositor, talvez... Ele pensava: eu o conheço, e sei que ele irá, certamente, colocar certas pessoas desta Casa em seu devido lugar. O orador, tranquilo, começou contando uma conhecida estória, que fala a respeito da crítica. Nesta estória, um expositor arrumara, cuidadosamente, uma mesa, cobrindo-a com uma belíssima tolha de linho branco, que tinha uma pequena mancha em determinada extremidade. Quando perguntou o que as pessoas estavam vendo, elas responderam uníssonas: uma mancha na toalha.

Aquela estória caiu sobre Belarmino como um raio. Achou que todos olhavam para ele. Baixou a cabeça, até tomar coragem de olhar em volta.

Percebeu que ninguém olhava para ele, as pessoas estavam atentas à palestra, buscando absorver os conceitos que eram apresentados. Experimentou um brilho em seus olhos que não percebia há muito. Por quê seria? Parou para refletir, e chegou à seguinte conclusão: o brilho jamais deixou de existir, ele, Belarmino, é que havia perdido a capacidade de alcançá-lo. Acostumara-se a criticar, e achava que tudo o que diziam era para ele. Belarmino sentiu-se envergonhado, seus olhos ardiam, mas não conseguia chorar. Olhou, novamente, em volta. Se deteve em alguns rostos, viu esperança em uns, alívio em outros, mas ainda existiam rostos aflitos, expressões perturbadas. Aí, então, Belarmino chorou. Concluiu que, nos últimos tempos, suas opções foram erradas. Poderia ter escolhido desanuviar essas expressões perturbadas, aliviar os corações aflitos. Mas a sua opção fora a da crítica contínua.

As lágrimas ainda corriam, quando deu-se conta que a reunião havia terminado, e o público já se levantava. Levantou-se, também, e sorriu. Sentia-se leve como há muito tempo não se sentia. Deteve-se nos quadros de aviso, leu as mensagens, cumprimentou as pessoas.

Desde aquele dia, Belarmino mudou sua atitude. Quando percebia uma falha qualquer no trabalho, e muitas existiam, não mais criticava. Ele se perguntava: o que posso fazer para corrigir esta falha? Oferecia-se para ajudar, cooperando no atendimento das pessoas. Belarmino, agora, parecia entender o que é ser espírita!


3 - O passista falante

Alice era o que podemos chamar, a passista dedicada. Tinha verdadeira adoração pela atividade do passe. Desde que começou a frequentar a Instituição, seu sonho fora se tornar "passista da Casa". Participou dos cursos, mostrou-se interessada, e foi aceita como parte da equipe.

Ela havia aprendido, no curso, que muitas pessoas adquiriam determinados "cacoetes" desnecessários, e resolveu zelar desde o início de suas atividades para não incorrer em erro algum. Passou a observar as pessoas, com o intuito de aprender, e evitar erros, e não, conforme dizia inicialmente, para comentar com os outros o que recolhia de informação. Começou, então, a preparar uma listagem das incoerências que via, catalogando cada tipo de passista de acordo com uma classificação toda sua.

Certo dia, estava na Sala de Passe, ouvindo a palestra, quando uma amiga sua, companheira no trabalho do passe, sentou-se ao seu lado. Começaram a conversar, apesar da palestra estar se desenvolvendo, e Alice começou a se empolgar, listando para a amiga, os diversos tipos de passista que já havia registrado:

Passista aconselhador: aquele que insiste em dar conselhos para as pessoas no próprio salão. Interrompe a atividade, ou marca para depois uma conversa de esclarecimento. Este tipo de passista é parente do passista intuitivo.

Passista intuitivo: aquele que durante a aplicação do passe, "recebe" orientações acerca do problema da pessoa, indicando determinados cuidados. Em alguns casos, o procedimento do passista é discreto. Há outros, os passistas mais intuitivos, que chegam a assumir atitudes esdrúxulas como, por exemplo: se abaixar até o chão para aplicar o passe no pé do doente.

Passista farmacêutico: aquele que, apesar das orientações contrárias, insiste em recomendar algum tipo de medicamento, um chazinho, um cloreto de cálcio ou magnésio, uma barbatana de tubarão...

Passista ginasta: aquele que dá uma verdadeira aula de ginástica aeróbica. Ele se balança, gesticula violentamente, agita-se. Nos dias de extremo calor, termina suas atividades cansado e suado, dizendo: Puxa, como eu doei energia hoje! Este passista é primo do passista torturador.

Passista torturador: aquele que aplica o passe com movimentos velozes, próximos à orelha da pessoa. Ele faz com que a pessoa fique o tempo todo tensa, orando para que acabe o passe logo, antes de receber uma pancada na cabeça, tenha a orelha arrancada, ou até uma fratura no nariz.

Passista asmático: aquele que ao aplicar o passe, emite ruídos acentuados, aparentando dificuldade de respiração. Apresenta-se, às vezes, tão exagerado, que a pessoa que recebe o passe tem vontade de abaná-lo, ou chamar um médico.

Passista espanhol: aquele que insiste em ficar estalando os dedos. Parece até que utiliza castanholas pela altura do barulho que consegue fazer.

Passista chaminé: aquele que nem nos dias de trabalho consegue parar de fumar. Este tipo pode ser também chamado de passista hortelã, pois utiliza muitas balas para minimizar o hálito do tabaco.

Passista birita: aquele que não consegue ficar sem o uso da bebida. O passista birita apresenta, dependendo do grau de adiantamento do vício, muitas características interessantes que variam, desde o hálito "puro", até a dificuldade de se manter em pé.

Ia continuar sua lista, quando uma velhinha que se encontrava próximo, falou:

- Minha filha, coloca na tua lista, o passista falante.

Alice, interessada, perguntou:

- E quais as características?

A velhinha, tranqüila, disse:

- Conversar com seus amigos na Sala de Passe, sem se preocupar com a palestra em desenvolvimento, desrespeitando as pessoas interessadas em aprender.

Alice, envergonhada, desculpou-se, e anotou mais um tipo de passista na sua longa lista.


4 - O Semeador e os Solos Atuais

O tema da palestra era A Parábola do Semeador, mas os pensamentos de Antônio estavam longe, muito distantes do que estava sendo dito. A última coisa que tinha ouvido do expositor era que sementes caídas à beira do caminho haviam sido comidas pelas aves do céu. Havia buscado o tratamento espiritual em função de grave processo obsessivo que o havia desarmonizado completamente. No seu desequilíbrio mostrava-se irritadiço, inquieto, e o efeito benéfico do tratamento, que já se fazia sentir, o tinha acalmado. Mas faltava algo, não sabia o quê.

Num determinado instante, sua atenção voltou-se para um senhor que ouvia atentamente as palavras do expositor, e mostrava-se muito interessado em cada uma delas. Parecia que ele nem piscava. Aquela cena o tocou e ele pensou: ele está tão atento ao que está sendo dito, está tão envolvido, que talvez possa me ajudar. Não havia pensado em pedir ajuda ao dirigente dos trabalhos, ou ao expositor, porque eles pareciam ocupados demais, mas aquele senhor estava próximo, estava sentado na assistência como ele, e o que era fundamental, parecia satisfeito.

Distraiu-se com outros pensamentos, e ao final da reunião quando procurou o velho, não o encontrou no burburinho da saída das pessoas desejosas de voltar logo ao lar naquela noite fria e chuvosa. Também precisava pegar seu ônibus e preferiu seguir seu caminho. A lembrança, porém, permaneceu viva em sua mente durante todo o restante da semana.

Na semana seguinte, ao chegar ao Centro, o encontrou logo na entrada. Ele estava distraído, observando as pessoas que entravam no velho casarão que servia de instalação para aquele Grupo Espírita. Encheu-se de coragem e se apresentou. Falou do vazio que sentia, que buscava alguma coisa que não conseguia definir. Pedia ajuda. Dizia que tinha se animado a conversar com ele por causa da cena da semana anterior. A palestra parecia tão interessante para o velho, e, no entanto, para ele não parecia ter qualquer sentido prático. O velhinho sorriu e disse que aquele tema o agradava muito. Falou que as parábolas de Jesus traziam ensinamentos profundos, mas sempre aplicáveis na nossa vida diária. O rapaz um pouco decepcionado com a resposta, pensava: como uma mensagem tão antiga pode me ajudar? Eu só me lembro de uma estória de aves comendo sementes à beira de um caminho. Parecendo ler seus pensamentos, o velho lhe fez a seguinte proposta: vamos comparar a parábola do semeador com o que vemos a nossa volta. A reunião estava começando e as pessoas já haviam se dirigido ao salão. Algumas, porém, permaneciam conversando animadamente pelos corredores, não demonstrando qualquer interesse em participar do trabalho que se iniciava. O dirigente proferiu a prece, e passou a palavra ao expositor da noite, mas algumas pessoas insistiam em conversar, prejudicando o trabalho. Num canto do salão, risinhos denotavam que a atenção destas pessoas não estava voltada para o trabalho que se apresentava. Discretamente, o velho apontava para estas pessoas, e o rapaz mais intrigado ficava. Ao final da reunião, saíram juntos, e o velho convidou a ouvir os diálogos que estavam sendo travados na saída do salão:

- Choveu durante toda a palestra!

- Espero chegar a tempo para ver o jogo!

- Você viu como é bonita aquela moça que sentou na primeira fila?

- Estou com uma fome danada. Não ouvi nenhuma palavra do que o expositor disse!

O jovem, já cansado das observações do seu novo amigo, perguntou aonde ele queria chegar. Ele respondeu: se você estivesse realmente buscando olhos de ver e ouvidos de ouvir perceberia que a parábola que foi contada na semana passada, retrata exatamente o que vimos aqui hoje. As pessoas retratadas na parábola como "beira do caminho" são aquelas que se mantêm indiferentes à mensagem de renovação trazida pelo Mestre. Nas Casas Espíritas, podem ser percebidas vagando pelos corredores, conversando, ou de risinhos durante as palestras, são aquelas incapazes de perceber as boas influências. Sintonizam com influências negativas, representadas na parábola como as aves do céu, e acabam se afastando das Casas Espíritas, sem nunca, na verdade, terem participado dos trabalhos. Freqüentaram por semanas, meses, até anos, mas nada penetrou realmente em seus corações.

O jovem ouviu atentamente as palavras do velho, pensou um pouco, sorriu, abraçou o amigo e se despediu sem nada falar. Sua mente, porém, fervilhava, enquanto seguia em direção ao ponto de ônibus. Percebeu que esteve o tempo todo à margem do caminho e queria logo encontrá-lo. Sentiu ali que o seu problema tinha solução, mas ela não viria de fora. A parte externa já havia sido realizada, faltava a interna, parte que lhe cabia. Reconheceu que era um "solo" inadequado e que a semente havia sido plantada, mas não tinha condições de germinar. Precisava cuidar do seu "solo", aprender a ver e a ouvir. O ônibus chegou e ele seguiu com seus pensamentos, agradecendo os exemplos que o velho tinha lhe mostrado, de maneira tão simples.

Na semana seguinte procurou o amigo, mas não o encontrou. Perguntou por ele, mas ninguém o conhecia. Passando pela secretaria, viu um quadro. Era o velho! Perguntou à secretária quem era aquele homem, e ouviu, surpreso, a sua resposta: este é o "Seu" Barbosa. Ele foi o fundador deste Centro. Já desencarnou há uns vinte anos!


5 - Procura-se um Povo!

Procura-se um Povo!

Mas não é esse que se encontra nas ruas, embaixo de marquises e pontes. Não é esse povo que já se acostumou a ver suas crianças morrerem de fome, de frio, e de doenças.

Será que o Povo que procuro está assistindo filmes no cinema sobre a terrível guerra do Vietnã, ou sobre o holocausto nazista, ou sobre os conflitos internos do homem na sociedade construída pelos habitantes dos países do 1o mundo?

Procura-se um Povo!

Mas não esse que se acotovela em barracos construídos com caixas e papelão. Nem o que constrói buracos no chão para morar, ou "casas" sobre os mangues, cercado de baratas e ratos.

Será que o Povo que procuro está no interior dos teatros assistindo peças sobre a miséria humana? Ou, quem sabe, lendo livros sobre socialismo, ou comunismo, e entre suspiros, pregando a necessidade de uma reforma social?

Procura-se um Povo!

Mas não é esse que bebe água do esgoto que passa embaixo dos viadutos onde mora. Nem o que revira latas de lixo para ter o que comer. Nem o que cata papel, papelão, plástico, para comprar algo para comer, e assim sobreviver por mais um dia.

Será que o Povo que procuro está em alguma festa, recostado em algum sofá, falando da insegurança das grandes cidades, reclamando, sentindo-se lesado no seu direito de ir e vir? Ou será que conversa, durante o jantar, em algum restaurante, sobre as mulheres daquele povo que não param de ter filhos e que deveriam ser esterilizadas?

Procura-se um Povo!

Mas não é esse que esmola nas ruas, exibindo crianças raquíticas e doentes, ou feridas abertas que teimam em não curar. Nem esse povo que sorri sem expressão, sem alegria, sem dentes.

Será que o Povo que procuro está nas academias de aeróbica ou nos cursos de inglês e durante o intervalo fala dos "trombadinhas" que importunam na lanchonete, pedindo um trocado ou o resto do sanduíche? Ou será que estão lanchando, repugnados diante da criança magra, suja, remelenta, que estende a mão, ousando pedir algo que mate a sua fome, a fome de toda uma vida?

Procura-se um Povo!

Mas não é esse que tem que lutar cada dia sem saber se terá o que comer à noite, comprando a vida no varejo por não podê-la comprar no atacado. Nem esse cujas filhas são obrigadas a se prostituir desde a infância, para sobreviver.

Será que o Povo que procuro se encontra em gabinetes, em discussões intermináveis, tratando da pena de morte, da legalização do aborto, da esterilização das mulheres daquele outro povo, como a solução para os problemas que assolam a sociedade?

Não! Eu procuro um Povo com P maiúsculo. Um Povo capaz de sentir, mas sentir profundamente a dor de um pai que vê seu filho morrer lentamente de fome, o desespero daquele que não encontra trabalho para garantir o sustento de sua família e a vê se esfacelar, a desesperança daquele que não tem onde morar, a animalização daquele que passa a viver de restos e perde toda e qualquer noção de Dignidade.

Procura-se um Povo que tenha a força interior para mudar tudo isso. Esses que se encontram nas ruas não o podem fazer. Os que fingem não ver, não o farão. Procura-se um Povo que queira fazer.

Procura-se um Povo que seja solidário, que queira lutar contra a Miséria que mata, aos poucos, milhares de pessoas todos os dias, que mina as resistências, e destrói todos os valores morais.

Procura-se um Povo constituído de gente como você que não consegue mais viver neste mundo do jeito que ele está, que deseja fazer algo além de reclamar, ou lamentar.

Procura-se um Povo capaz de arregaçar as mangas, de se doar. Procura-se um Povo que acredite que aqueles que se encontram nas ruas são gente, são brasileiros, como cada um de nós.


6 - Nossa Ruanda

É noite. Minha família se encontra reunida, após o jantar, assistindo a mais um telejornal. As notícias violentas se seguem, rotineiras, um assalto aqui, um ou outro seqüestro, desabamento em alguma favela, desabrigados, enfim, situações do nosso cotidiano.

De repente, surge, na tela, um trator empurrando dezenas de corpos, vítimas da Cólera, da Fome, da Miséria, em mais um país falido, destroçado, no continente africano. Tratavam-se dos fugitivos da guerra civil de Ruanda. Um choque! Aquela cena fazia ressurgir, no nosso íntimo, lembranças terríveis dos inúmeros genocídios já praticados pelo Homem. Corpos esquálidos, pele e osso, aglomerados em valas comuns, que faziam as vezes de túmulos. E a notícia seguia, soturna, falando sobre a falta de alimentos, a necessidade de se escolher a quem alimentar dentre os que apresentavam melhores condições de sobreviver.

Foram cenas impressionantes. Pensei: Ver seres humanos amontoados como lixo será sempre impressionante, causará choques sempre. Uma dúvida, porém, logo se instalou em minha mente: Mas será mesmo? Para ser honesto, não sei se tenho tanta certeza. Passei a observar o restante do telejornal, analisando e buscando sentir cada caso apresentado. Depois de algum tempo, me perguntei: Qual a real diferença entre corpos de pessoas que morreram de fome e que são empurrados por um trator até uma vala comum na distante Ruanda, e outros que também morrem de fome, nas diferentes esquinas, das diversas cidades, no nosso país? Fiquei pensando na nossa Ruanda interna, nos nossos tratores que empurram tantos para as valas comuns. Senti medo, medo de que eu me acostume com tudo isso. Afinal, tantos já se acostumaram a ver pessoas dormindo nas ruas, morrendo de frio e de doenças! Já se acostumaram a ver pessoas mendigando comida... Já se acostumaram com a idéia de 32 milhões de brasileiros vivendo na mais profunda miséria... A que mais podemos nos acostumar?

O telejornal acabou e eu fiquei com o meu medo. Será que os brasileiros que podem assistir um telejornal, após terem se alimentado, estão percebendo a nossa Ruanda? Será que estamos nos acostumando com a miséria que grassa em nossa sociedade? Em meio aos medos, começaram a desfilar em minha mente algumas ações que buscam devolver a Dignidade a nossa sociedade, e então lembrei-me dos inúmeros Comitês contra a Miséria criados, das Instituições Filantrópicas. Mas seria isso o suficiente? Pode-se fazer algo mais?

Antes de dormir, com a cabeça deitada sobre um travesseiro, recordei-me de uma antiga estória que me contavam quando era pequeno, a estória da andorinha.

De forma resumida, a estória diz o seguinte: Um homem observava um incêndio numa floresta próxima a sua casa, quando percebeu uma andorinha que vinha até o lago, molhava as suas asas, dirigia-se até o incêndio, derramava algumas poucas gotas de água e voltava ao lago, repetindo o trabalho. Após algum tempo, perguntou, irônico, à andorinha se ela acreditava que iria apagar o incêndio daquela forma. A pequena ave respondeu rapidamente, para voltar ao seu trabalho: "Eu sei que não, mas é o que eu posso fazer". Lembrei, então, com especial carinho, daqueles que não têm muito a dar, mas dividem o seu pouco com outros que nada têm. E pensei em cada um de nós, homens que observam o incêndio, e dormi sonhando com o dia em que todos se transformarão em andorinhas, molharão suas asas no lago da Solidariedade e juntos apagarão o incêndio da Fome e da Miséria.


7 - Companheiros perfeitos

Quando Márcia encontrou a Doutrina Espírita sentiu-se renovada. Ali estava, pensou ela, a resposta para todas as suas perguntas, as dúvidas que haviam lhe acompanhado durante anos não resistiam à lógica simples das respostas de O Livro dos Espíritos.

Passou a freqüentar a Casa Espírita desejando recuperar o tempo que considerava perdido, e como era uma pessoa muito dinâmica, logo passou a integrar o grupo de trabalhadores daquela pequena Casa. Um grupo pequeno porque sempre são escassos os trabalhadores.

A princípio via em seus companheiros, modelos de perfeição. Com o tempo, porém, começou a perceber que um deles, o Antônio "livreiro", irritava-se profundamente por causas sem importância. Uma outra médium, D. Conceição, participante assídua das reuniões de desobsessão, trabalhadora da Casa desde sua fundação há 20 anos, vivia em conflito com o Sr. Amadeu, responsável pelo Departamento de Patrimônio. Ora ela criava dificuldades para o desenvolvimento do trabalho do dirigente, ora ele era quem estabelecia regras estranhas de difícil compreensão. E lá ia a D. Conceição falar dele para quem quisesse ouvir.

Um a um, os participantes do grupo iam desfilando em sua mente e cada um apresentava determinado defeito. Márcia verificou que a harmonia perfeita que acreditava existir naquele grupo não era tão generalizada como acreditou no início. E ao pensar assim, começou a ser procurada continuamente por Dirceu, antigo freqüentador da Casa que sempre lhe trazia "novidades" sobre os trabalhos e os trabalhadores. Era uma pessoa que deixava as salas desorganizadas, ou um orador que não conseguia prender a atenção da assistência que começava a crescer nos salões daquela Casa, ou uma pessoa que vinha em busca de auxílio e que não era bem tratada. Enfim, sempre uma reclamação acerca dos trabalhos lá desenvolvidos. Tanto ouviu, tanto falou, que Márcia tornou-se uma crítica severa de tudo o que a envolvia. O entusiasmo inicial deu lugar a uma presença azeda, sempre pronta a observar o erro. Afinal, pensava: "Como pessoas que participam do trabalho há tantos anos, podem cometer tantos erros?"

E assim seguiu, em meio as suas dúvidas, questionando mais do que trabalhando, se constituindo mais num verme roedor do que numa abelha laboriosa. Em certa tarde morna de primavera, passando diante da Casa, viu o Sr. Cláudio, presidente da instituição, que se encontrava varrendo o quintal, e que a recebeu com carinho. E ela falou, falou muito, eram informações verdadeiras e falsas, antigas e recentes, não importava, ela queria dividir tudo aquilo que passou a conhecer e que considerava a mais pura verdade. Os minutos se passaram e viraram uma hora. Quando ela parou, esperava uma expressão de surpresa do "calejado" presidente, ou, ao menos, um comentário de encorajamento as suas reclamações, mas nada disso aconteceu. Ele, já acostumado a tudo isso, tendo trabalhado com grupos humanos desde muitos anos atrás, tendo atravessado muitas crises, simplesmente sorria compreensivo.

Após alguns segundos que pareceram séculos para a moça, ele disse: "Eu entendo a sua aflição porque já a senti. Durante anos busquei a perfeição nos companheiros de trabalho, foram anos de conflitos e aflições. Ora a decepção me arrasava o coração, ora o desânimo paralisava as minhas mãos, e, quando errava numa avaliação, vinha o remorso abrasar a minha mente. Cheguei ao ponto de não mais perceber as virtudes das pessoas porque seus erros, na minha visão, eram gigantescos. Freqüentei vários grupos espíritas nesta busca. Nunca pensei em me afastar da Doutrina Espírita porque eu a percebia, no imo de minha alma, como a resposta às aflições humanas. Decidi, então, há vinte anos, fundar este pequeno grupo. Deus, nossos amigos espirituais, e, em particular, o bondoso Dias da Cruz abençoaram o esforço, e o grupinho começou a crescer. Eu pensava em formar um grupo perfeito, de acordo com os meus moldes, mas as dificuldades internas começaram a surgir, minando os trabalhos que surgiram tão promissores.

Um dia, profundamente entristecido, após verificar que mais uma das nossas atividades corria riscos de ser suspensa, fui até o fundo do salão de palestras e orei, orei tão profundamente que me senti envolvido por um doce torpor, e uma voz ressoou dentro de mim: "Cláudio, por quê te lamentas tanto? O que esperas das pessoas que trabalham contigo? São todos candidatos ao Bem, não são bons ainda, não venceram a batalha. Tu podes e deves ajudá-los, mas não basta apontar erros, tocar em suas feridas, você tem que estimular as virtudes, ressaltar os seus acertos. Não se consegue desenvolver uma horta que vai alimentar a muitas pessoas, sufocando as tenras plantinhas, sob a alegação de que se deseja exterminar as ervas daninhas. Pensa nisso! Mesmo Jesus, nosso Mestre Amorável, não contou com um grupo perfeito na sua passagem pela Terra..."

"O torpor foi passando e me vi só. Olhei para a grande mesa lá na frente, andei pelas dependências da Casa e passei a ver, no Centro, uma horta a qual tantas vezes sufoquei boas disposições de trabalho, na minha ânsia de perfeição. Questionei que tipo de agricultor era eu, que, preocupado com as ervas daninhas, tinha perdido a capacidade de estimular o crescimento das tenras mudinhas que via surgir naquela amada horta, precisando de ajuda para crescer. Mudei, então, a minha postura diante dos conflitos, passei a ouvir e ver as pessoas procurando seu lado bom, os pontos positivos da situação. Desta forma, vi os trabalhos florescerem, e muitas pessoas serem ajudadas, como você foi. É claro que dificuldades surgem, mas a essência da Doutrina, esta nunca poderá ser violada, e estamos atentos para isso". E, olhando dentro dos olhos da dinâmica trabalhadora, disse: "Márcia, eu aprendi naquele momento que devo buscar construir a perfeição dentro de mim e não nas pessoas que me envolvem. E quanto mais eu luto neste sentido, mais eu consigo compreender as dificuldades alheias e posso assim ajudar. Não podemos nunca confundir a Doutrina Espírita com as pessoas que freqüentam ou trabalham nas Casas Espíritas".

A moça ficou ainda alguns minutos absorta em seus pensamentos após a despedida do presidente que iria dirigir a reunião da noite. Muitas imagens passavam, muitas estórias, e ela foi se dando conta que o velho presidente estava repleto de razão. Mais surpresa ficou quando, abrindo seu exemplar de O Livro dos Espíritos ao acaso, leu na nota explicativa da pergunta 918: "Verdadeiramente, homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza. Se interrogar a própria consciência sobre os atos que praticou, perguntará se não transgrediu essa lei, se não fez o mal, se fez todo o bem que podia, se ninguém tem motivos para dele se queixar, enfim se fez aos outros o que desejara que lhe fizessem".

Fechou o livro e foi caminhando lentamente para casa pensando em como é fácil nos perdermos na estrada, se não nos mantivermos vigilantes. Levantou os olhos para o céu, e numa prece muda agradeceu a Deus a oportunidade de poder trabalhar. Dali em diante, toda vez que era procurada por alguém trazendo alguma "novidade", buscava apontar um ângulo positivo do assunto, e muitas vezes sorria, lembrando aquela tarde morna de primavera diante do experiente companheiro de trabalho.


8- Síndrome da criança espancada

Todos os dias lemos nos jornais ou assistimos na televisão, casos de crianças espancadas. Estas agressões têm se tornado tão comuns nos Pronto-Socorro dos hospitais que muitos médicos vêm elaborando trabalhos sobre a chamada Síndrome da Criança Espancada. Seria esse um "fenômeno" do nosso século, mais um "sub-produto" da desagregação da família? Sabemos que a criança é um Espírito imortal que reinicia sua caminhada no mundo físico, que traz suas tendências, sua estória "impressa". Muitas vezes velhos ódios ressurgem. Seria este ódio a causa do espancamento? A situação sócio-econômica em que se encontram muitas pessoas é bastante precária. Muitos vivem sem acesso à Educação, Saneamento Básico, etc e o que é ainda pior: sem horizontes. Seriam estas agressões causadas pela situação sócio-econômica da população?

No intrincado universo humano as soluções não são do tipo um mais um igual a dois, de modo que as explicações para este "fenômeno" não são simples. Não existe uma resposta única que explique todos os casos. As várias causas apresentadas e outras repercutem em maior ou menor grau em cada caso. Passado e presente se mesclam estabelecendo um relacionamento de desequilíbrio e dor entre adultos e crianças. Como se costuma dizer: cada caso é um caso. Tornam-se necessárias, porém, reflexões profundas por parte de cada um de nós, de modo a que todos possamos verificar onde poderemos agir visando minimizar este problema. Não podemos modificar as causas passadas mas e as causas do presente?

Todas essas reflexões me vêm à mente ao recordar uma das manifestações ocorridas no trabalho de orientação a desencarnados em desequilíbrio do qual participo. Nossa irmã, em estado físico deplorável, roupas rasgadas, sujas, apresentou-se agressiva:

- Bato mesmo, eu bato quanto eu quiser. Eu sou mãe. Faço o que eu quero com estes três diabinhos. Bato até matar. Eu também apanhei muito.

Não quer conversa e reluta em estabelecer o diálogo com o doutrinador. Continua repetindo as ameaças aos seus filhos. Com muita dificuldade consegue-se imprimir um novo rumo à conversa. Nossa amiga, ainda agressiva, fala de seus sofrimentos, da fome, da miséria. Permanece céptica com relação a nossa postura de apoio. Afirma, com certa dose de razão, que "nunca" teve apoio em sua miséria, que a mesma sociedade que a condena, a abandonou.

O diálogo prossegue, arrastado, sem muitos resultados objetivos até que ela, surpresa, aponta para o canto da sala, dizendo:

- Olha ali o diabinho. Ô menino, o que você está fazendo aí? Tá todo limpinho, arrumadinho... O que você está aprontando? O que você quer, menino?

Deste ponto em diante, não participamos mais da conversa. Apenas observamos o encontro de mãe e filho.

- Genivaldo, ô Geni. Tira essa cabeça do meu colo, menino. Esta cabeça está me queimando. Menino...

Aos poucos vai cedendo, começa a chorar e acaba abraçando o filho. Acalma-se após algum tempo e é levada pela equipe espiritual para um local de repouso onde poderá repensar sua vida e Geni, sorridente, volta com a "professora" que o leva para sua escolinha, feliz por ter "reencontrado" sua mãe.

Quais teriam sido os motivos que levaram esta mãe a espancar os filhos? Por quê apenas Geni, dos três filhos, apareceu para conversar com ela? As causas seriam apenas passadas, apenas presentes ou uma combinação das duas? Na verdade, responder estas perguntas não é o mais importante. Talvez, o mais importante seja responder: o que cada um de nós poderia ter feito para minimizar este problema?

Pudemos perceber naquela noite a força do Amor, do perdão, "cobrindo uma multidão de pecados". Refletindo sobre os tristes casos de espancamento de crianças, vêm a minha mente a imagem do Mestre Jesus falando às multidões:

- Precisamos aprender a separar o pecado do pecador. O erro, de quem erra.

Voltando à mãe de Geni, poderíamos perguntar: seria ela a única vilã? Jesus tentou nos ensinar que o que deve ser combatido são as ações erradas, não as pessoas. Não devemos, portanto, dirigir nossas vibrações de angústia e tristeza e até indignação, para os agressores. Eles precisam, e muito, de nossas vibrações de afeto. Estão doentes. As causas dessa doença podem ser passadas ou presentes. Elas precisam do remédio do Amor. Remédio que Geni soube aplicar tão bem, sem uma palavra, com um único gesto.


9 - Sozinho na Casa Espírita

João se encontra no meio da multidão. Aguarda que o sinal de trânsito fique vermelho, detendo o fluxo de carros que parece interminável. Fecha-se o sinal, buzinas soam, a multidão se move anônima. João vê rostos inexpressivos, rostos alegres, rostos tristes, mas não consegue encontrar um único rosto amigo. É tarde, quase dezoito horas, e ele se apressa para chegar logo à fila do ônibus que o levará de volta para casa. A fila é imensa, mas ele continua sem encontrar um rosto amigo. O ônibus vai cheio e o trânsito é lento. Algumas pessoas, já cansadas pelo longo dia de trabalho, resmungam, outras ironizam, e o ambiente torna-se tenso. Várias vezes surgem atritos, porém todos continuam anônimos. João faz toda a viagem sem pronunciar uma palavra. É como se as pessoas fossem parte da paisagem, parte da viagem, como se não fossem, cada uma, um Universo diferente.

Já são quase vinte horas quando João chega ao seu destino. Não há mais tempo de ir até em casa e ele segue direto para a Casa Espírita. Chegando lá, encontra o auditório repleto. Conhece alguns rostos, acompanha algumas conversas, mas está só. Encontra um lugar para sentar, assiste a palestra, recebe o passe e, ao final da reunião, dirige-se para casa. Isso tudo sem abrir a boca, sem conversar com ninguém. Inúmeras vezes sentiu vontade de conversar com o dirigente da reunião, ou com o presidente da Casa, ou com o responsável pelo passe, mas todos pareciam tão ocupados! E assim vai João, sozinho no mundo e na Casa Espírita. E isso tudo no meio de tanta gente!

Esta estória, que é a estória de muitos "joões e marias", nos oferece reflexões com relação ao papel da Casa Espírita e, principalmente, o nosso papel na Casa Espírita. Diante da situação apresentada, a reação de todos aqueles que já se encontram engajados no trabalho é de indignação. Como, perguntaremos, se pode conceber que isso ocorra numa Casa de Amor, que trabalha sob a orientação de Jesus? Não teria Ele dito que é fundamental que nos amemos uns aos outros?

As respostas a estas perguntas são óbvias. Devemos reconhecer, porém, que é impossível para o dirigente da reunião, o presidente da Casa ou o responsável pelo passe, conversar com todos aqueles que chegam ou que se encontram "isolados". Poderão atender a alguns, nunca a todos. Onde estará, então, o erro. Refletindo sobre o nosso papel na Casa Espírita, encontraremos as respostas.

Um Grupo Espírita tem que funcionar como uma família. Não existe uma hierarquia estabelecida, determinando que fulano ou beltrano sejam responsáveis por conversar com os que se encontram sozinhos ou "deslocados". Todos somos responsáveis pela integração das pessoas no trabalho. "Ninguém é tão pobre que não tenha algo para doar". Estamos na Casa Espírita! Não podemos doar alguns minutos, ouvir os problemas que as pessoas tragam e oferecermos a nossa amizade? Um dirigente não poderá abraçar a todos, mas se cada um dos "antigos" abraçasse um "novo"...

A responsabilidade com relação àqueles que se encontram sozinhos no mundo está diluída por toda a Humanidade, mas a responsabilidade com relação àqueles que estão junto à nós, sentados na cadeira ao lado, é nossa. Se estamos, hoje, integrados a um grupo, certamente "devemos" algo a alguém. Chegou a hora de retribuir à Vida, parte de tudo aquilo que ela nos tem oferecido.

E é pedir tão pouco. Jesus dizia que seus discípulos seriam conhecidos por muito se amarem! Não queremos ser trabalhadores da Seara de Jesus? Como falar de caridade aos que estão distantes, se não apoiarmos os que estão sozinhos ao nosso lado, seja em nossos lares ou na Casa Espírita que trabalhamos?

Fica, então, o convite para todos. Prestemos atenção. Mantenhamos os olhos e ouvidos abertos. Existem dezenas de pessoas cruzando nosso caminho todos os dias que necessitam de nossa ajuda, de uma palavra amiga. Muitas vezes, essas pessoas estão ao nosso lado, na Casa Espírita. Esqueçamos, um pouco, nossas dores e poderemos perceber como são muito maiores as que muitas pessoas, a nossa volta, estão carregando. Muitos gritam em silêncio por socorro enquanto os ouvidos de nossa alma permanecem surdos em função do nosso egoísmo e da nossa preguiça. Está em nossas mãos a oportunidade de evitar que existam pessoas sozinhas. Pelo menos, na Casa Espírita!


10 - Divulgação pela Palavra

Os objetivos principais da divulgação da Doutrina Espírita pela palavra são, sem dúvida, o esclarecimento e o consolo. Quantas lágrimas podem ser enxugadas com a certeza da nossa imortalidade? Quantos crimes evitados com a percepção de que os nossos sofrimentos de hoje são conseqüências das nossas ações passadas? Devemos, portanto, participar, na medida de nossas possibilidades, deste processo de divulgação. Nos grupos espíritas, encontraremos normalmente um ambiente favorável, fraterno, o que facilita muito a expressão dos nossos pensamentos nas palestras.

Algumas perguntas, porém, devem ser respondidas, inicialmente, na preparação do que vai ser exposto às pessoas, de modo a se conseguir estabelecer a comunicação. O objetivo não é apenas falar, e sim comunicar-se.

Os "especialistas" em comunicação orientam que existem algumas perguntas básicas que devem ser analisadas:

Para quem vou falar?

Onde vou falar?

Quando vou falar?

O que vou falar?

Surge, também, uma outra questão: como estabelecer e manter uma comunicação efetiva entre orador e os ouvintes? Para isso, deve-se manter os ouvintes atentos e receptivos. A atenção é conseguida, despertando-se a curiosidade do grupo, mantendo-o intrigado, interessado pelo assunto. É garantida com a brevidade e objetividade da argumentação, assim como a alternância de ritmo. Já a receptividade pode ser atingida através da ligação natural e simples com o grupo, deixando a sensação de que todos sairão enriquecidos no final do trabalho.

Com todas estas questões solucionadas, pode-se partir para a organização da palestra. Ela deve apresentar início, meio e fim, ou seja, introdução, desenvolvimento (Aristóteles dividia esta parte em afirmação e prova) e conclusão.

A introdução deve ser interessante de modo a atrair a atenção das pessoas. Podem ser utilizados diversos recursos: uma estória contada, notícias atuais, assunto ligado ao grupo ou um tema original. Desta forma, cria-se uma expectativa favorável com relação ao desenvolvimento da exposição. Este deve ser claro e convincente, apresentar uma idéia central que possa ser sintetizada (isto é importante para não se perder de vista, em nenhum momento, o objetivo da palestra). Já a conclusão deve ser breve e buscar a emoção. Pode-se utilizar uma poesia lida ou decorada, comentar uma passagem evangélica ou lembrar um pensamento célebre. A conclusão é algo que deve ficar "ressoando" no íntimo das pessoas.

O expositor deverá desenvolver seu estilo próprio, nunca ficar copiando o estilo dos outros. Pode aproveitar exemplos, fontes, encadeamento de idéias, figuras e imagens utilizadas por outra pessoa, mas a sua identidade deve ser buscada, a sua maneira pessoal de transmitir as idéias. É importante lembrar-se de que a qualidade do seu trabalho vai se caracterizar pela originalidade. E com o passar do tempo, a variedade de temas apresentados lhe permitirá "fundir" 3 ou 4 palestras, fazendo uma nova, adaptada ao momento. Existem muitos recursos para se melhorar um trabalho: apresentar boa bibliografia, manter arquivo com anotações, utilizar cartazes, vídeos, quadro-negro ou "slides", devendo-se, também, evitar as seguintes situações: ler longos trechos durante as palestras, falar "humildemente" de seu despreparo, apresentar excessiva insegurança, fixar-se em uma pessoa, organizar palestras só no papel esquecendo-se de organizá-las na mente.

Acima de qualquer coisa, porém, devemos nos lembrar que cada um de nós é um "embaixador da Doutrina" e devemos agir como tal, não apenas divulgando-a por ocasião de palestras mas, sobretudo, vivenciando-a. Vamos buscar fazer bem o nosso trabalho na área de ação que a Vida nos ofereceu e lembrar Paulo de Tarso em sua primeira epístola aos Coríntios: "Quem tem o dom de falar, que fale. Quem tem o dom de ouvir, que ouça. Quem tem o dom de ver, que veja".


11- Ano Novo! Vida Nova?

Mais um ano se inicia. Época de promessas de modificações interiores. É o viciado de qualquer área, ainda não dominado por seu vício, que se compromete a abandonar o vício; o rancoroso que, muitas vezes, ajoelhado no último dia do ano, desfaz-se em lágrimas, jurando reatar os laços de amizade com quem, por mínimas desavenças, criou gigantescas barreiras mentais; o indiferente que, ao rememorar seu ano, percebe quantas oportunidades de auxiliar as pessoas deixou pelo caminho e se propõe a aproveitar todas as que surgirem no novo ano.

São promessas que todos fazemos. Afinal, qual de nós não tem vícios? Qual de nós não guarda rancor algum, por menor que seja? Qual de nós consegue aproveitar todas as oportunidades que a Vida oferece, a cada instante, sem se manter indiferente à dor alheia? Vícios, rancores, indiferenças são desvios que todos trazemos e precisam ser corrigidos. Devemos, então, prometer? Sim, e mais que isto, devemos nos organizar, analisar nossas dificuldades íntimas, conhecer-nos melhor e estabelecer um plano evolutivo.

Promessas há muitas, principalmente no final do ano, mas poucas resistem ao início de um ano novo, com seus chamados para as "coisas do mundo". Não precisamos, é claro, aguardar a meia-noite do dia 31 de dezembro. Cada instante da nossa vida pode significar um Ano Novo, uma Vida Nova. Costuma-se dizer que "hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas", mas poderíamos dizer que esse instante é o primeiro de uma seqüência infinita de instantes pela eternidade à fora.

Marco Prisco nos fala da importância de lutarmos cada segundo para conquistarmos, após 60 batalhas, a vitória de um minuto. A "luta interior" que se faz tão premente, deverá ser uma constante em nossas vidas. Afinal, aqui estamos nesta Casa de Humildade e Amor, sob a proteção de Francisco de Assis, usufruindo desta atmosfera de Paz, usufruindo do auxílio constante de nossos companheiros do Mundo Maior, usufruindo, usufruindo...

Estamos aqui, e como o Querido Francisco, que amparou os pobres e consolou os doentes do corpo e da alma, receberemos muitos doentes, que trarão dores profundas, radicadas no íntimo de seu ser, com raízes, muitas vezes, seculares. Temos muito a oferecer. Neste Ano Novo, portanto, que nós possamos erradicar dos nossos corações e desta Casa de Humildade e Amor, todos os vícios, todos os rancores, e a indiferença, essa doença tão terrível que faz com que não tenhamos "olhos de ver" como as pessoas precisam de ajuda, e assim, tenhamos Vida Nova, lutando todos os dias do ano para a construção de um novo mundo, onde o Trabalho amenize a dor e a Paz possa "residir" em nossas consciências.


12- Autodesobsessão ou soluções mágicas

Freqüentemente buscamos as reuniões de desobsessão como se elas pudessem exercer algum processo mágico que solucionasse nossos problemas espirituais e até materiais. Existem, inclusive, "viciados" que pulam de reunião em reunião, Centro em Centro, perseguindo algo que, muito provavelmente, nem conseguiriam reconhecer se encontrassem.

É claro que as reuniões de desobsessão são importantes como suporte em uma fase difícil que estejamos vivendo, é obvio que devemos buscar auxílio quando a pressão espiritual se faz forte em demasia. Agora, não podemos encarar esse processo como a solução mágica, sem necessidade de nossa atuação. Ela será o suporte que permitirá que a tormenta exercida tenha seus efeitos atenuados, que o domínio exercido pelo Espírito agressor se faça mais frágil, e nós tenhamos margem de manobra para nos reerguermos e transcendermos os estreitos limites que ainda caracterizam a nossa atuação no mundo. E não devemos esperar que isto seja um processo rápido. Afinal, foram décadas, séculos de erro, até chegarmos ao ponto onde nos encontramos. Foram muitas agressões, muitas lágrimas vertidas por nossa causa. Não serão alguns minutos de trabalho mediúnico que solucionarão todo o problema. Manoel Philomeno de Miranda diz que a obsessão é "enfermidade de longo curso, exigindo terapia de segura aplicação e de resultados que não se fazem sentir apressadamente".

O primeiro ponto que precisamos entender, então, é que o processo demandará tempo, exigirá paciência, resignação. Verteremos lágrimas e suor, mas é necessário que perseveremos. Não podemos nos esquecer de que as obsessões existem porque existem dívidas a resgatar, passadas e até atuais. O erro está em acreditar que as reuniões poderão solucionar nossos problemas seculares sem qualquer esforço de nossa parte. Acreditar que basta comparecer ao Centro, perdendo a novela ou outro programa "interessante", assistir a uma palestra "chata" ou mesmo participar de uma reunião, ler bons livros, conversar sobre temas saudáveis quando dentro da Casa Espírita e depois voltar ao mundo do mesmo jeito, com os mesmos defeitos e vícios, e ter nossos problemas resolvidos é, no mínimo, muita "ingenuidade" de nossa parte.

Mas o que é obsessão afinal? Kardec a define como o "domínio que alguns Espíritos logram exercer sobre outros". E complementa falando das sensações desagradáveis das quais a pessoa anseia por se libertar. São as idéias torturantes que teimam em se fixar, é a vontade dominada por outra vontade, são as inquietações crescentes na nossa intimidade mental, as angústias, as depressões... O grau destas obsessões varia de pessoa a pessoa, a ponto de algumas não expressarem mais a sua própria vontade. Outros, em flagrante conflito interno, buscam a Casa Espírita. Lá encontram o benefício do passe, o refrigério da água fluidificada que revigora seu já combalido organismo e as reuniões de desobsessão que promovem a orientação dos agressores, amenizando a pressão espiritual.

E então? Ficam curados? Não necessariamente, porque como já mencionamos, a obsessão existe porque existem causas para tal. Até o presente momento, na nossa análise, apenas se falou do tratamento dos efeitos. E as causas? Kardec costumava dizer que não adianta espantarmos as moscas e deixarmos nossas feridas sem tratamento. Ele lembrava que poderíamos até nos livrar daquelas moscas mas, certamente, outras seriam atraídas pela ferida.

Diante disso tudo, o que fazer? A solução já foi apresentada por Jesus há dois mil anos e diz respeito à Reforma Moral. Tentaremos traçar agora algumas atitudes que devemos tomar para nos livrarmos do assédio daqueles que ainda não compreenderam os objetivos maiores da Vida e insistem em agredir, prejudicar, destruir, e que, com isso, sem se dar conta, também sofrem terrivelmente. Chamaremos este conjunto de atitudes de autodesobsessão. Ao primeiro ponto chamaremos O Valor da Prece, buscando dimensionar a sua importância em nossas vidas, e ao segundo, A Terapia da Caridade.

O VALOR DA PRECE

Não conseguimos avaliar a importância da prece em nossas vidas. Quando estamos orando, na verdade estamos buscando sintonizar com os planos mais elevados da Vida, estamos, mesmo que momentaneamente, nos desprendendo das vibrações pesadas do mundo que nos envolve e alçando vôos na busca de amigos que vivem tentando chegar até nós. A prece abre caminhos e facilita a "chegada" deles. É importante que nos lembremos sempre de sua eficácia nos momentos difíceis que estivermos vivendo. Não podemos encarar a prece como um conjunto de palavras endereçadas a Deus, contendo nossos pedidos e lamentações. A prece é a expressão dos nossos sentimentos mais puros, nosso desejo de conversar com Deus e, deste modo, não necessita que uma palavra sequer seja pronunciada. Orar é sentir Deus perto de si, é vibrar com todos os recursos de que dispomos, tentando alcançar, mesmo que por breves instantes, a sintonia com companheiros amados que estão ao nosso lado e não percebemos.

Este é um aspecto muito interessante da prece. Ela não apenas alcança aqueles que podem nos ajudar, ela nos predispõe a sermos ajudados. É muito comum nossos amigos espirituais chegarem até nós, tentarem nos ajudar e não conseguirem porque nós mesmos bloqueamos todos os canais que possibilitariam que o auxílio se fizesse. Nos momentos difíceis, pedindo ajuda, e nos momentos felizes, agradecendo a Deus, a prece será sempre nossa atitude segura, firme, adequada, e nos oferecerá as forças necessárias (que aliás residem em nós mesmos) para suportar nossas dores e caminharmos, conscientes de que somos filhos do mesmo Pai, e, que, apesar de todos os erros, agressões, ódios, somos todos irmãos. Lembremo-nos sempre, pois, da prece.

A TERAPIA DA CARIDADE

Buscamos na Casa Espírita a solução para nossos problemas, acreditando, muitas vezes, que ela possa ser alcançada através de algum artifício externo. Nesta busca, assistimos palestras onde se ressalta a necessidade de um trabalho interno de renovação de modo a se atingir a desejada Paz. Aprendemos, também, que nenhuma ação se mostra tão ampla em seus resultados quanto a da prática da caridade.

Poder-se-ia questionar a que caridade estamos nos referindo, já que no mundo de hoje, onde tantos buscam iludir os outros, a assistência material se torna difícil, exigindo uma criteriosa análise de nossa parte. Estamos tratando da Caridade no sentido global do termo. Poderíamos até dividi-la em Caridade Material e Espiritual conforme o Evangelho segundo o Espiritismo (Cap.XIII), mas o seu objetivo maior em nossas vidas é mostrar que somos todos irmãos, que existem pessoas em situações piores que as nossas, e que podemos nos ajudar uns aos outros.

A Caridade se constituirá numa verdadeira terapia a partir do momento em que a dinamizarmos em nossas vidas, já que a forma com que olhamos o mundo se modifica gradual, porém radicalmente. Alguns minutos conversando com uma das mães de uma das famílias assistidas nesta Casa ou em qualquer outra, nos mostrará como, muitas vezes, nos lamentamos por coisas sem sentido. Alguns momentos ouvindo as estórias de pessoas que, apesar de não apresentarem quaisquer dificuldades financeiras ou enfermidades do corpo, carregam a cruz da enfermidade espiritual de um ser amado, nos comovem e mostram como, às vezes, estamos próximos da felicidade e não notamos. Se olharmos este mundo de dores e sofrimentos como imenso campo de oportunidades de trabalho, e colocarmos nossas mãos em ação, esqueceremos nossos próprios problemas.

Talvez quem tenha definido melhor a Caridade tenha sido o apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios, cap. 13, quando disse:

"Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a Caridade, seria como o bronze que soa ou com um címbalo que tine. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a Fé, a ponto de transportar os montes, se não tivesse a Caridade, eu nada seria. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse a Caridade, isso nada me adiantaria. A Caridade é paciente, a Caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A Caridade jamais passará. Quanto às profecias, desaparecerão. Quanto às línguas, cessarão. Quanto à ciência, também desaparecerá. Pois nosso conhecimento é limitado, e limitada é a nossa profecia. Mas quando vier a perfeição, o que é limitado desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio da criança. Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem Fé, Esperança, Caridade, estas três coisas. A maior delas, porém, é a Caridade".

VIGILÂNCIA DO PENSAMENTO

Jesus se referia aos hipócritas comparando-os a túmulos caiados de branco que se apresentam limpos, bonitos por fora, mas carregam podridão interiormente. Somos assim quando não buscamos vigiar os nossos pensamentos, nos preocupando simplesmente com nossas palavras.

Nossas ações são, muitas vezes, cerceadas pela sociedade da qual fazemos parte. Antes de tomarmos determinadas decisões, pensamos: O que as pessoas vão pensar? O que falarão de mim? Limitamos nossas ações mas não o nosso pensamento. Quantos, em seu desequilíbrio, deixam de atirar com um revólver em outra pessoa, mas descarregam toda sua carga de ódio nela?

Não somos o que fazemos, nem o que falamos. Somos, realmente, o que pensamos. Nossas ações são limitadas pelo mundo lá fora. Nossas palavras espelham o que gostaríamos que as pessoas pensassem que somos. O nosso pensamento, no entanto, espelha o que somos realmente.

Oscar Wilde em seu livro O Retrato de Dorian Gray, conta a estória de um homem que possuía um quadro, o qual mostrava como ele se apresentava intimamente. À medida que os anos iam passando, apesar do rosto permanecer jovem (ele havia feito um pacto para manter a juventude), sua imagem refletia um homem velho, retorcido, repulsivo até, em função do peso das maldades que ia fazendo ao longo de sua vida. Não possuímos espelhos que nos mostrem interiormente mas sabemos o que somos, observando o nosso pensamento.

Kardec lembra em O Livro dos Médiuns que ninguém é responsável por um pássaro pousar em sua cabeça . A responsabilidade surge, todavia, se for permitido que esse pássaro faça ninho sobre ela. Uma idéia que passa por nossa mente e é rapidamente afastada não nos acarreta problemas, mas, uma idéia agasalhada no íntimo de nossos corações, mesmo que não transformada em atos, apresentará consequências.

Vivemos onde vive o nosso pensamento. Nossas companhias espirituais são atraídas pelo nosso pensamento. Paulo de Tarso falava da nuvem de testemunhas que nos acompanha. Se queremos melhorar e encontrar a solução para os nossos problemas, devemos agir. Devemos disciplinar os nossos pensamentos, vigiando-nos a cada instante, pois um instante de hesitação, de desatenção, e todo o esforço vai por água abaixo. De nada adiantará assistirmos a mil palestras, recebermos milhares de passes se não trabalharmos o nosso mundo íntimo, controlando o fluxo dos nossos pensamentos.

É lógico que a mudança não será automática, mas, gradativamente, lograremos êxito. Mantenhamo-nos ocupados no trabalho do Bem, que não sobrará tempo para pensarmos no Mal. As mãos ociosas são um caminho aberto para o desequilíbrio dos nossos pensamentos. Devemos permanecer envolvidos no trabalho de modo a aproveitarmos todos os instantes de nossa Vida.

André Luiz diz que o Mal não merece comentários, e poderíamos adaptar a frase dizendo: E nem merece que gastemos tempo pensando nele. Nosso tempo é escasso, há muito o que fazer. Não podemos perder mais tempo sintonizados com o Desequilíbrio, com a Dor, com a Ignorância.

Já sabemos da importância da oração em nossas vidas. Aliando-a à Vigilância dos nossos pensamentos, estaremos estabelecendo um roteiro seguro para o nosso crescimento espiritual.


13 - Como vemos Deus?

"Inteligência das inteligências; Causa das causas; Lei das leis; Princípio dos princípios; Razão das razões; Consciência das consciências." Eurípedes Barsanulfo

Podemos ter uma idéia do grau de evolução de um povo observando a forma como ele vê Deus. Povos violentos sempre tiveram deuses violentos, sanguinários. Se recuarmos bastante no tempo, encontraremos civilizações que praticavam sacrifícios humanos como forma de aplacar a ira de seu deus, ou para cair em suas boas graças.

Com o passar dos séculos, a forma de enxergar Deus foi sendo modificada, e o relacionamento com Ele, sofrendo alterações. Os sacrifícios passaram a ser feitos com animais, depois plantas, flores, frutos e, por fim, atingiu-se o estágio do que poderíamos chamar de sacrifícios internos. Mesmo aí, porém, podemos observar diferentes gradações. Ainda hoje, encontramos pessoas que buscam, através de determinados artifícios, "agradar" a Deus e, desta forma, obter favores. É o caso, por exemplo, das promessas.

- "Se eu ganhar na loteria, construirei uma igreja".

- "Se eu conseguir aquela herança, ajudarei os pobres".

- "Se eu ficar curado, deixarei de fumar".

- "Se minha filha voltar prá casa, subirei de joelhos a escadaria da igreja".

- "Se eu achar o documento perdido, darei três pulinhos, para Deus e São Calunguinho".

E por aí vão os pedidos, os mais diversos, alguns até justos, outros completamente descabidos. Neste estágio, as pessoas ainda enxergam em Deus, uma pessoa. Talvez um velhinho de barbas brancas, com um coração muito bom e, portanto, facilmente ludibriado por nós, bastando apenas um choro aqui, uma desculpa ali. A imagem antropomórfica de Deus foi fundamental nos estágios iniciais da civilização, em função da incapacidade do homem entender algo além disso, porém, limita Deus aos padrões humanos, e Ele, sem dúvida, transcende em muito, a esses padrões.

Com a evolução dos povos chegou o momento de se tentar mudar a forma de se "ligar" a Deus e Jesus representa o grande marco neste sentido, ao transformar a imagem de um deus violento, ciumento, vingativo pregada por Moisés ao povo judeu, face ao seu estado precário de evolução moral, na de um Deus soberanamente Justo e Bom. Imaginem a mudança que se verifica quando se passa a chamar Deus de Pai. Imaginem a surpresa dos discípulos ao ouvirem Jesus se dirigir ao Planos mais elevados da Vida e dizer: "Pai Nosso..."

De modo a reforçar a tese de que os povos criam seus deuses à sua imagem, podemos extrair um trecho de Henry Thomas, do livro Vidas de Grandes Capitães da Fé: "Moisés encontrou na solidão o seu novo Deus. Um terrível Deus do deserto. Um Deus que galga montanhas, galopa pelos ermos e se reclina em tendas esplendidamente coloridas. Um Deus que vela sobre o sono de seu povo, e o guia nos combates; que golpeia sem misericórdia os inimigos, muda como o vento, não hesita em vingar uma ofensa, e mente quando isso convém aos seus fins. No entanto, é um Deus que não tolera a injustiça, que é generoso para com o estrangeiro, meigo para com o órfão e bondoso para com o pobre. Um Deus, em suma, que tem todos os defeitos e todas as virtudes do homem do deserto. É como se Moisés tivesse olhado num espelho e reconhecido a Deus em sua própria imagem".

Em meados do século dezenove, com a Codificação da Doutrina Espírita por Allan Kardec, Deus passou a ser visto de uma outra forma. Na visão espírita da divindade, Deus é definido como a "Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Deus não é alguém, tanto que a pergunta formulada em O Livro dos Espíritos foi: "Que é Deus?" e não "Quem é Deus?" Todo um conjunto de pensamentos precisa ser revisto em função deste novo conceito.

De uma página escrita por Miramez no livro Favos de Luz (psicografia de João Nunes Maia) podemos, adicionalmente, extrair alguns trechos que podem nos ajudar no entendimento melhor do que é Deus.

"Todas as qualidades perfeitas são atributos de Deus que, quando descobertas pelos homens, tomam formas inferiores à vista da pureza espiritual. A Causa Primária de todas as coisas não pensa, não medita, não se arrepende, não ri, não chora e de nada tem necessidade. Partindo da premissa de que Ele é todo perfeição, não pode pensar, porque isto ainda é função dos homens; não tem necessidade de meditar, usando a razão, já que o raciocínio é usado para quem precisa aprender alguma coisa. Ele tudo sabe e dispensa a razão. Não tem arrependimento, por ser Onisciente e por não errar, pois é Perfeição. Não ri, por ser dotado de qualidades superiores ao bem-estar humano; não chora, por ser o Equilíbrio de todas as emoções".

Devemos ver Deus, então, como nosso Pai e Criador, Causa Primária de tudo o que existe, como o determinante da nossa existência. Devemos sentir Deus quando olhamos as estrelas, quando sentimos o vento soprar ou a chuva cair. Devemos perceber Deus nas pessoas quando fazem brilhar a luz que cada um traz dentro de si. Devemos sentir Deus em nós, quando acertamos nosso passo na Vida, quando somos úteis ao mundo, quando a semente que nos foi plantada por ocasião da nossa criação consegue romper as grossas camadas de "terra" que ainda existem em nós, e germinar, transformando-se em "flor e fruto."


14 - O Natal

Caía uma chuva miúda e a rua estava quase vazia naquela noite, véspera de Natal. Apesar do verão, um vento frio percorria as vielas, e dava um toque mais soturno ainda à noite. João caminhava lentamente, sem se importar com as coisas à sua volta. Parecia perdido em meio aos seus pensamentos, não se preocupando com o vento ou com a chuva. Ouvia seus próprios passos na água, ritmados, lentos. Por fim parou. Nada de diferente ao seu redor, a não ser algumas caixas num beco mais a frente. Estudou o local, e, após alguns instantes dirigiu-se até o beco. Depositou algo no chão e saiu apressado. Imediatamente surgiu um homem mal vestido, sujo, com feridas nas pernas, que pegou o pacote, abriu-o rapidamente e, recostando-se numas caixas, começou a comer.

Em seu caminho de volta, João começou a rememorar cenas do final do ano anterior, quando diante de um homem alto que, vestindo um terno claro, gargalhava, tendo na mão um copo de cerveja, durante as comemorações de Natal com um grupo de colegas de importante instituição que operava na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Os olhos faiscantes inspiravam receio a João apesar da amizade existente entre ele e o homem que se chamava Paulo, e presidia a empresa.

Lembrou-se das inúmeras ocasiões onde Paulo havia tomado decisões que envolviam milhões de reais, e, em seguida, do seu envolvimento com drogas, mulheres, da destruição do seu lar, da perda dos bens materiais e, por fim, da sua completa degradação física e moral. E tudo em apenas um ano. Paulo não era mais nem a sombra do homem que surgia em sua mente.

Voltando seus olhos para o céu, fitou demoradamente uma estrela que teimava em brilhar em meio às densas nuvens que recobriam a cidade já há alguns dias. Nisso, ouve um certo alarido. Percebe a chegada de algumas pessoas que, de maneira ágil e organizada, começam a distribuir alimentos e roupas para aqueles que se encontravam já deitados, embaixo das marquises, em meio a uma confusão de panos e caixas. Interessou-se, e se aproximou. Após alguns instantes de observação, parecendo um sonâmbulo, foi notado por uma senhora que parecia coordenar o trabalho. Ela se dirigiu a ele, e começaram a conversar. Sem saber como, nem porque, logo se entrosou no grupo e ao se despedirem, conservou uma vaga saudade... No caminho até o carro, rebuscou nos bolsos uma mensagem que lhe havia sido entregue, e só então leu com cuidado o nome da Instituição que os reunia: Grupo Espírita Francisco de Assis. Conhecia a rua, era até perto de onde morava. Imediatamente, em sua mente, voltou a imagem do amigo que agora estava nas ruas. Decidiu-se, na semana seguinte iria até o Grupo.

Antes do horário marcado para o início dos trabalhos, João estava lá. Conversou, assistiu, emocionado, à palestra, e no fim, antes de se despedir, tomou coragem e contou o caso do amigo. Obsessão: este foi o diagnóstico. Ouviu algumas explicações sem entender completamente, mas percebeu que estava no caminho da resposta. Poderia salvar o amigo? Ainda não sabia!

Passou o tempo, e, com ele João compreendeu o que havia acontecido, as causas da queda do amigo, os erros que o levaram à completa subjugação espiritual. Começou a trabalhar na Instituição, ajudava na distribuição de alimentos aos que viviam nas ruas, auxiliava nas tarefas de desobsessão. Sabia que agora estava no caminho certo e não poderia se descuidar, para não correr o risco de cair, também, nas malhas da obsessão. A todo instante lembrava-se do amigo Paulo que, inadvertidamente, se deixou arrastar pelas coisas do mundo.

Após alguns meses, conseguiu que Paulo fosse levado ao albergue mantido pela Casa, recebesse atendimento médico, psicológico e, sobretudo, espiritual. O amigo, mais magro, não lembrava o outrora arrogante Paulo, porém, os tratamentos recebidos já se faziam sentir nos olhos, onde uma expressão inteligente começava a se mostrar. João lembrou-se do Natal do penúltimo ano, das festas, quando ambos se encontravam envolvidos com bebidas e mulheres. As imagens foram sendo substituídas pela do Natal anterior, onde enfim havia se sentido útil, solidário. Pensou, então, nos Natais futuros, em que, talvez, eles pudessem estar novamente juntos numa festa diferente, uma festa espiritual.


15 - Uma estória de Carnaval

Terça-feira de Carnaval. Júlio Silveira acordou um pouco indisposto e preocupado. Pensou: O que teria feito na noite anterior quando se desprendeu do corpo durante o sono? Vinha já há alguns anos trabalhando numa Casa Espírita próximo a sua residência e conhecia os desprendimentos noturnos do Espírito. Sabia que cada um segue em direção aos locais em que encontrará suas afinidades. Não era perfeito, é claro, mas estava em processo de melhoria, tentando dominar suas más tendências e colocar em prática suas virtudes.

Passou a manhã um tanto cabisbaixo e à tarde, dirigiu-se ao Grupo para a reunião habitualmente realizada durante o Carnaval. Em meio a prece de abertura, buscou conversar mentalmente com seu Guia Espiritual buscando entender o por quê daquele abatimento. Sentiu-se envolvido por um suave brisa e acalmou-se. Interpretou como a presença do amigo espiritual e asserenou. Os trabalhos transcorreram tranqüilamente, num ambiente fraterno. Poucos encarnados presentes, porém imbuídos de um desejo sincero de colaborar no envio de vibrações harmônicas para um mundo que se encontrava em grave crise moral, agravada ainda mais pelas dissipações do período carnavalesco.

Despediu-se dos amigos e dirigiu-se calmamente para casa. A noite se aproximava e um vento fresco anunciava uma tempestade que já se desenhava no horizonte. Chegou em casa, alimentou-se frugalmente, pegou o livro Trilhas da Libertação que havia recém adquirido e começou a ler. Após alguns minutos, sentiu-se envolvido pela mesma sensação do início da reunião na Instituição.

Júlio sentiu-se, imediatamente, na Casa Espírita. Ela, porém, se encontrava cheia de gente. Uns poucos encarnados davam lugar agora a um número incontável de trabalhadores espirituais. Uma movimentação intensa, embora extremamente ordeira, se fazia presente nas diversas dependências da Casa, que era muito maior do que ele estava habituado a percorrer. Aproximou-se dele um homem, que ele achava conhecer, mas que não conseguia associar ao nome, que se apresentou como Sérgio, dizendo trabalhar no Setor de Segurança. A simpatia pessoal do companheiro não possibilitava qualquer dúvida e Júlio foi logo atraído pelas informações que lhe eram passadas:

- Nossa Casa está em meio a vibrações muito grosseiras, derivada do pensamento desarmonizado da humanidade. Podemos dizer que estamos em meio a uma zona umbralina, tornando-se, portanto, fundamental a proteção adequada. Como você conhece, funcionam nas nossas instalações um número enorme de atividades. Temos assistência a recém desencarnados, amparo a Espíritos envolvidos em obsessões, loucos, doentes, dependências para pequenas cirurgias, pronto-socorro, e tantas outras atividades que poderemos conversar numa outra ocasião. Hoje, eu gostaria de te mostrar como está nosso sistema de proteção em função do aumento da perturbação ambiente provocada pelo desequilíbrio reinante deste período carnavalesco.

Dirigiram-se até um compartimento que Júlio identificou como sendo um elevador. Subiram muitos andares, o que o sobressaltou, já que a Instituição no Plano Físico só tinha três andares. Chegaram no andar superior, que apresentava uma abóboda de um material que parecia vidro, onde funcionava um estacionamento. Deslumbrou-se diante do número e variedade de veículos. Acompanhou o seu amigo até uma pequena nave transparente com quatro lugares e logo percebeu a subida do aparelho sem qualquer ruído. Sabia que era noite, mas a luminosidade era intensa como a de um dia de sol. Subiu muito, podia perceber os prédios lá em baixo, e depois eles se transformaram em simples pontos.

Júlio estava deslumbrado diante da beleza à sua volta. Não imaginava que a Casa que freqüentava apresentasse uma atividade tão intensa, que envolvesse tanta gente. Pensou naqueles que freqüentavam a Casa sem maiores compromissos e entristeceu. Sérgio trouxe-o de volta a realidade dizendo:

- Vamos agora sair do raio de proteção da Casa. Como você pode perceber este cone de luz que vem dos Planos mais Elevados do nosso planeta envolve toda a Casa. O aparelho vai descer até a rua em frente ao Centro, mas não tocará no solo.

Subitamente, toda a luz desapareceu. Percebia-se uma estrada, se é que aquele caminho sinuoso pudesse ser qualificado como tal, de barro, árvores em volta. A noite envolvia a tudo com seu manto silencioso, até que começou-se a ouvir gritos. A nave tornou-se mais opaca, e após alguns instantes estava em frente ao Centro. O espetáculo era aterrador. Muitas pessoas na rua, brigas, agressões diversas, verbais e físicas. Grupos entravam em conflito com freqüência. O portão principal da Casa, porém, permanecia incólume, assim como seus muros. Uma proteção magnética impedia a aproximação de qualquer um que não fosse autorizado. Freqüentemente apupos eram ouvidos. Eram cenas realmente deprimentes.

Sérgio pediu que Júlio se concentrasse porque iria se aproximar de um determinado grupo, que não os perceberia mas que seria importante que ele observasse as expressões destas pessoas. Júlio sentiu-se tonto diante do quadro. Diante dele, em meio àquela balbúrdia, percebia, no mesmo envolvimento, algumas das pessoas que com ele participavam dos trabalhos da Casa. Eram cenas repulsivas, onde ele via companheiros de ideal, pelo menos ele antes achava assim, enroscados com seres de aparência repugnante. O contraste era assustador. Do lado de dentro o trabalho fervilhava e alguns encarnados, desprendidos do corpo por ocasião do sono físico, participavam ativamente. Do lado de fora o desequilíbrio imperava e outros encarnados, também desprendidos parcialmente do corpo, se mostravam completamente integrados à desordem reinante. Júlio via com os próprios olhos que de nada adianta freqüentar a Casa Espírita, até participar das atividades, se não nos esforçarmos para dominar as más tendências e promover a reforma íntima. Como se iludem aqueles que acreditam poder ludibriar a Vida.

Sérgio o trouxe de volta dos seus pensamentos, alertando-o que o veículo estava prestes a voltar para a Instituição. Estava tão atônito que não conseguiu sequer contar o número de andares da Casa no Plano Espiritual. Eram andares e mais andares, talvez dez, ou doze, não conseguiu recordar depois. Percorreu ainda outros departamentos, mas sentia-se meio distante, distraído. Na verdade, estava estarrecido.

Alguém se aproximou e ele despertou. Ainda um tanto sonolento, percebeu que se encontrava no sofá de casa, o livro ainda em suas mãos. Levantou os olhos e viu que um homem, com semblante tranqüilo, o observava. Ele pareceu sorrir por um momento, e depois disse:

- Meu caro Júlio, você apenas estava relembrando a atividade que desenvolvemos na noite passada. Não era nossa intenção que você ficasse tão amuado. O seu despertar, hoje pela manhã, foi envolto em nuvens de preocupação sem sentido. Por isso decidimos conversar contigo. Cada um constrói o mundo que deseja. Continua o teu trabalho, semeando o bem, buscando crescer para servir melhor. Aqueles que se envolvem nas teias da ilusão serão amparados no momento próprio. Tranqüilize-se!

A imagem foi se desvanecendo, mas agora Júlio sentia-se sereno. Havia, enfim, compreendido. Enxugou uma lágrima que teimava em cair, abriu novamente o livro e recomeçou sua leitura.


16 - Após o Carnaval

"Examina se a tua alegria de hoje será, também, tua alegria amanhã" André Luiz

Mais um Carnaval se foi. Inúmeros momentos de insânia e desespero, onde tantos enveredaram por caminhos tortuosos que só conduzem à Dor, encontram-se registrados nos corações aflitos de mães, pais, filhos, amigos. Quatro dias de desequilíbrio, mas com conseqüências que se arrastarão por anos a fio. Talvez esta encarnação não seja suficiente para restaurar a destruição causada neste período de "festas", no nosso ainda frágil mundo íntimo.

A chuva incessante destes dias, recurso balsâmico presenteado pela Natureza de modo a amenizar a atmosfera psíquica carregada de vibrações de baixo teor, parece representar a Vida chorando as oportunidades perdidas por aqueles que se deixaram envolver pelo chamado do "carne", na "festa" de Momo. O velho argumento de que "a carne é fraca" é repetido por inúmeras bocas, tentando explicar o inexplicável. A carne não é fraca, ela não pensa ou decide coisa alguma. Não é ela que determina nossas atitudes. O Espírito, sim, é imperfeito e se deixa arrastar por suas más tendências, por suas paixões.

Observando, hoje, as estatísticas nos jornais, verificamos inúmeros mortos e feridos em acidentes de trânsito onde motoristas bêbados ou drogados se digladiavam como alucinados, assassinatos e suicídios, desequilíbrio de toda ordem estampados nas primeiras páginas dos jornais. Foi uma verdadeira devastação física e moral. Foi uma guerra. Todo Carnaval é uma guerra psíquica onde tantos, no mundo espiritual, aproveitam para instaurar processos obsessivos que poderão se arrastar por muito tempo, à partir de brechas abertas por "apenas" alguns dias de folia.

O Centro Espírita neste período funciona incessantemente, como um hospital, atendendo a inúmeros desencarnados e encarnados desprendidos do corpo físico por ocasião do sono. A assistência do Bem é ininterrupta, com o fim de amenizar o desequilíbrio reinante. Muita gente busca auxiliar, e são muitos os necessitados.

Mais um Carnaval se foi. Um rastro de sofrimento foi deixado, mas o Bem triunfa sempre, e a Luz brilhará no caminho de todos. Em alguns casos, logo, noutros a Irmã Dor cumprirá o seu papel e remeterá todos os transviados de volta à estrada da evolução.

Mais um Carnaval se foi, mas outros virão, e nós precisamos estar preparados para suportar essas pesadas vibrações e oferecer ao Mundo, vibrações de Paz. Precisamos "arregaçar as mangas" e auxiliar na construção de um Mundo Novo, orientando e amparando, libertando as pessoas da ilusão de Momo, do falso brilho, pelo menos aquelas que durante o ano buscam o refúgio na Casa Espírita mas se comprazem, ainda, em viver os carnavais da vida, deixando-se dominar pelos vícios e paixões que somente nos conduzem à Dor.