Importância e necessidades da Infância

Nanci A. R. Martins

A educação moral, formação de hábitos bons, é imprescindível para a reforma espiritual (ordem, aceitação de regras, honestidade, sinceridade, valorização do trabalho, etc.) e consiste no conjunto de hábitos adquiridos.

No "Livro dos Espíritos", Kardec refere que quando se pensa na massa de indivíduos sem princípios, sem freios e entregues aos próprios instintos, compreende-se as conseqüências desastrosas que resultam de suas ações. Quando ocorrer a educação moral, quando for praticada, o homem terá hábitos de ordem, de previdência para si e para com os outros, e de respeito por tudo. A desordem e a imprevidência são duas chagas que uma educação bem entendida pode curar.

Educação é um processo, que ocorre gradativamente (uma série de acontecimentos, uma somatória) de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano. Não se pode omitir aqui o aspecto religioso. Sabendo ser nossos filhos, Espíritos imortais, necessitam dessa experiência humana para aperfeiçoar-se.

Os conhecimentos da imortalidade da alma, reencarnação, lei de causa e efeito, pluralidade dos mundos, etc., são elementos preciosos e vêm completar, reexplicar as lições de Jesus, trazendo conhecimentos que auxiliarão o homem a perceber que o ‘Reino de Deus’, será o desenvolvimento das qualidades que existem em si.

A criança deve ser incentivada a freqüentar a Evangelização. Os pais podem demonstrar interesse pelo conteúdo das aulas, conversando com a criança já na volta para casa, por exemplo: "Como foi o estudo hoje? Sobre o que conversaram? Você gostou? Por quê? Como poderemos usar tal proposta? Ou: Por que não usá-la?". Durante a semana, sem cobrar, ou reforçar com palavras, os pais devem ter atitudes coerentes com essa conversa.

Estar em contato com os Evangelizadores é outra excelente forma de participar, principalmente no caso de ser a criança mais fechada, não muito comunicativa.

Notando ainda, qualquer procedimento diferente, conversar com o Evangelizador. Montará ele, em discussão com o grupo, aula, atividades, situações em que aquela determinada situação será trazida à discussão.

Citamos o exemplo de determinado preconceito, surgido ou notado em uma classe e que, pela profundidade e abrangência, motivou toda uma Campanha estendendo esta para estudo em todos os trabalhos do Centro Espírita, abrindo-se em detalhes tão intensos e pessoais, que à primeira vista, ou sem essa sensibilização não teríamos percebido.

Relacionar os estudos, associando-os com diálogos, aos acontecimentos, programas de TV, filmes, livros infantis é outra excelente forma participativa. Sem ser impositiva, cobrativa ou "moralizadora" (no sentido de: ‘Viu? Não falei? Faça sempre assim. Não faça nunca assim.’) essa forma leva a criança a perceber a Vida como extensa oferta onde terá que fazer opções e ser responsável em cada escolha feita (responsável no sentido em que: 1- a escolha infringe o direito do outro; 2- as respostas serão proporcionais, imediatas ou não).

Todo aquele que trabalha com criança, sejam pais, educadores, avós, tios, etc., necessitam promover o desenvolvimento desses Espíritos. Esse desenvolvimento vai se dar através de um processo de aprendizagem ministrado principalmente através de exemplos de vida. O ditado popular ‘faça o que falo, mas não o que eu faço’ não funciona, não tem efeito, pois o modelo é fundamental para a aquisição do comportamento.

Os pais devem se preparar continuamente para a função de educadores. Como já colocado anteriormente, a participação, o estar junto é imprescindível. É preciso, porém, cuidado para que esses aspectos não sejam invasores do espaço necessário à própria criança. Sem isso, os pais podem, por excesso, imiscuir-se de tal modo, que a criança fica sem ação de decisão, uma vez que esperará que os pais lhe digam o que fazer.

A "Escola de Pais", nos Centros Espíritas, geralmente se constitui em excelente espaço onde essas e tantas outras necessidades são discutidas.

No processo de aprendizagem, recorde-se, é importante a presença e participação dos pais. O aprendizado da criança começa já no ventre da mãe, o que pressupõe a postura harmônica de ambos, pai e mãe.

A criança necessita ser preparada para ser responsável pelo seu próprio desenvolvimento. Deve participar ativamente da aprendizagem. Atingir a maturidade significa ser responsável (cumpridor dos deveres) e assumir os desafios da vida. Para isso a criança deverá assumir pequenas responsabilidades em casa desde pequena e ao mesmo tempo devemos ajudá-la e encorajá-la a vencer as dificuldades que surgem.

Ao educar uma criança os pais estão retomando seu próprio processo educativo. De maneira geral, esse processo tem ocorrido pela imposição do cumprimento de ordens e normas, e não através da reflexão, análise das condutas e dos sentimentos.

Visando ainda o estudo das necessidades do Espírito na passagem pelo período da infância, busquemos compreender a importância da organização e da rotina como aspectos básicos essenciais no aproveitamento das experiências na vida física.

Segundo Pereira e Marturano (1999), organização e rotina no lar são importantes para o desenvolvimento psicológico da criança, da capacidade de organização do pensamento, das idéias, possibilitando ao indivíduo melhor desempenho nas tarefas que se propõe realizar.

Para as autoras, ao administrar a organização em nossa casa, precisamos estabelecer prioridades entre as tarefas diárias e a atenção dada aos filhos, iniciando pelo que é mais necessário, importante no momento. A rotina, isto é, a prática de fazer as mesmas coisas nos mesmos horários, favorece essa organização. Portanto, os horários para as atividades essenciais dormir, levantar, refeições, assistir televisão, fazer as tarefas escolares etc., devem ser respeitados. Além disso, informar a criança sobre os horários das atividades diárias auxilia a aquisição das noções de tempo ("agora" , "antes" , "depois") pela mesma.

Aprender organizar melhor nossa vida e atividades do dia-a-dia, possibilita-nos poder fazer maior número de atividades gastando menos tempo e assim realizar também aquilo que nos dá prazer e nos relacionarmos melhor com nossos familiares. Quanto melhor nos organizarmos nas tarefas rotineiras, melhor lidamos com a casa, crianças e trabalho. Procurar deixar no lugar: roupas, alimentos, utensílios domésticos, material escolar das crianças...., torna as coisas mais fáceis, ganhar tempo, para fazer o que é necessário. Muitas vezes, deixamos de realizar certas atividades que consideramos importantes, devido ao tempo escasso que muitas vezes foi disperso em providências decorrentes da inabilidade em administrá-lo.

Não é suficiente os pais serem organizados. É preciso que a criança também seja ensinada, o que será importante para o seu desenvolvimento psicológico. Participando da organização doméstica, internamente irá organizando seus pensamentos e idéias, pois tal organização opera-se de fora para dentro, nesse primeiro momento. Assim ela vai encontrar menos dificuldade no aprendizado escolar e na realização de outras tarefas mentais pois essas atividades exigem organização, sistematização, elaboração mental de sua execução.

É necessário que, em casa , haja lugares determinados onde se possa guardar separadamente, roupas, objetos e assim manter-se relativa ordem. Podemos pedir, explicando rapidamente, à criança, a importância de se guardar no lugar certo a roupa que foi lavada e passada ou seus brinquedos, depois da brincadeira. Perceberá no decorrer do tempo que mantendo as coisas nos devidos lugares, terá mais facilidade de encontrá-los quando precisar.

Segundo as autoras, estudos mostram que a organização influi até no humor, na forma de se expressar: pessoas que vivem em ambientes onde há ordem são mais bem-humoradas, pois ocorrem menos atritos entre familiares. É importante que a criança participe dessa organização, sendo na medida de suas possibilidades, responsável pela ordem de suas coisas. Para isso, dar-lhes a responsabilidade por alguma tarefa doméstica, como; arrumar a própria cama, suas gavetas, cuidar do animal da casa, material escolar, lavar seus calçados ou seu prato após as refeições, conforme essas atribuições a idade, de forma regular e não ocasionalmente.

Como toda atividade educativa, essa prática não é fácil de ser estabelecida. Pressuporá antes muito diálogo, reflexões, avaliações, comentários abertos sobre o assunto, discutindo e estabelecendo junto, as providências, mudanças e implantações a serem observadas. Todo começo é difícil, principalmente quando a criança não tem o hábito. Esse hábito deve ser criado aos poucos, fazendo junto com a criança, ensinando com paciência demonstrando como se faz. No início, a criança resiste, mas com persistência, sem desânimo, retornando diariamente, o hábito da responsabilidade irá se formando.

A atitude dos pais

O relacionamento familiar exerce grande influência sobre o desenvolvimento da criança. Aprender o respeito às pessoas, às regras e as normas sociais é fundamental para a adaptação do indivíduo nos diferentes ambientes que freqüenta, compartilhando atividades e obrigações.

Esse respeito às pessoas e normas que faz parte da educação, é aprendido dentro de casa, através dos exemplos dos pais, referem Parreira e Marturano (1999). Para os autores, "em um lar onde um acata a opinião do outro, onde as pessoas conversam sem gritar umas com as outras, onde se leva em conta aquilo que os outros dizem, onde há regras claras para serem seguidas, onde um não pega objeto do outro sem pedir, pode-se dizer que há respeito." Dessa maneira, a criança vai aprendendo a respeitar as pessoas e os objetos que pertencem aos outros, através de suas próprias vivências junto à família.

Ainda em um lar onde não há regras claras, onde as pessoas conversam censurando, brigando, xingando, sem consideração entre o casal, ou onde os pais não se empenham em dar bons exemplos, os filhos terão muita dificuldade para respeitar as pessoas e as regras sociais.

"O comportamento da criança fora de casa, esta muito associado ao modo como os pais se relacionam e tratam seu filho dentro de casa. São os pais que oferecem à criança os primeiros ensinamentos acerca do modo como ela deverá se comportar. Em um lar onde os pais mentem, por exemplo, onde falam mal das pessoas, tratam a criança de modo grosseiro, é muito provável que fora de casa a criança também não vá respeitar os outros", referem os autores citados. Os pais funcionam como espelho.

Para que a criança aprenda a respeitar, ela deve também ser respeitada pelos adultos, continuam os autores. Considerar sem importância o que ela diz, não lhe dando atenção, quando mães mexem em seus pertences sem avisar, sem pedir permissão, zomba quando ela chora ou mostra uma emoção negativa, como medo, raiva são atitudes de desrespeito à criança. Às vezes, os objetos da casa são mais valorizados do que os filhos, por exemplo quando ao quebrar um objeto acidentalmente a criança apanha ou é criticada severamente. Por outro lado, alguns pais ficam indiferentes quando seu filho trapaceia no jogo ou mesmo pega algum objeto em lojas ou supermercados, sem ser vista.

Parreira e Marturano ( 1999 ) ressaltam a importância de os pais estabelecerem exigências claras de conduta para que as crianças possam se desenvolverem plenamente em um ambiente familiar harmonioso, baseado no respeito de um para com o outro. Desse modo, é necessário que os pais conversem com os filhos, orientem sobre aquilo que é certo e o que é errado, sobre as conseqüências de agir dessa ou daquela maneira, sobre a melhor forma de se comportar. Mas é mais importante ainda que os pais forneçam exemplos daquilo que ensinam, porque os filhos observam os pais com muita atenção e, se os pais agem em desacordo com aquilo que ensinam, caem no descrédito. As crianças sempre acabam imitando o comportamento dos pais.

Muitas vezes, os pais não colocam regras claras para serem seguidas pela criança no dia a dia e esperam que ela se comporte bem quando recebem uma visita ou quando saem para dar um passeio. Como conseqüência, a criança não corresponde às expectativas, provocando irritação e as vezes até mesmo castigos.

Para um relacionamento harmonioso é preciso identificar atitudes positivas da criança, demonstrar que seu comportamento está correto, que os pais estão satisfeitos com ela. Desse modo, a criança é valorizada e seu comportamento correto será estimulado para que ocorra outras vezes. Segundo os autores, essa forma de interação aproxima a criança dos pais. Não se pode exigir perfeição nos tarefas que a criança realiza, desde o início. Seu esforço deve ser encorajado e a criança deve ser ajudada a conseguir melhores resultados, tanto em suas atividades quanto em seus comportamentos e relacionamentos.

Atitude positiva dos pais, incentivo, encorajamento e valorização das ações adequadas proporcionam aprendizagem de condutas socialmente aceitas, fazendo com que a criança se sinta mais segura e autoconfiante (Parreira e Marturano, 1999).

A Disciplina

Neste estudo vamos nos referir à importância da disciplina no desenvolvimento da criança.

Parreira e Marturano (1999) definem disciplina como "um processo educacional, no qual a criança aprende a deixar de lado as satisfações imediatas, ou seja, deixa de querer tudo na hora" (p.81) . É necessário que, através da educação , a criança tenha liberdade e seja encorajada a se expressar, de um lado, e receba o treino para aceitar os limites do outro.

Para os autores citados, desde cedo a criança precisa de alguns limites para aprender a controlar-se, seguir regras e normas. O autocontrole é uma condição básica para adaptação às responsabilidades da vida adulta.

Os autores ainda referem na "na maioria das vezes, um 'não' é uma forma de querer bem à criança, de demonstrar preocupação com ela, de mostrar proteção" (p. 82). Muitos jovens referem que não são amados por seus pais porque permitem que eles façam tudo o que querem.

Os limites vão fazes com que a criança seja disciplinada. Ela aprende a respeitar as pessoas, as regras sociais, além de ser respeitada.

A disciplina, enquanto recurso formador de bons hábitos e atitudes, deveria começar desde o nascimento, com medidas simples, como, por exemplo, a regularidade nos cuidados diários e nas rotinas do lar.

Para que se consiga manter a disciplina no lar, é importante que os pais coloquem regras claras de forma clara, para que os filhos saibam o que podem e o que não podem fazer, bem o porque de cada regra. Essas regras devem ser passadas às crianças com postura firme, nunca em forma de brincadeira. Os pais devem manter constância em relação ao que é permitido e ao que não é permitido fazer: é incoerente um dia permitir uma coisa e no outro dia proibir exatamente a mesma coisa. Essa atitude deixa a criança confusa , sem saber como deve se comportar, pensando muitas vezes, que não é para levar a sério aquilo que os pais dizem.

Os autores afirmam ainda que, quando somente tais condutas não forem suficientes, os pais terão que tomar atitudes mais firmes, colocando conseqüências para o comportamento da criança: podem repreender, retirar privilégios, isolar a criança ou ate mesmo aplicar um corretivo para os comportamentos mais graves. Nesses casos , a medida deve ser anunciada com antecedência, para que a criança tenha a oportunidade de evita-la, não apresentando aquele comportamento.

A regra e o corretivo devem fazer parte de cotidiano para que a criança possa ter controle sobre o que vai acontecer. A mãe deve usar como corretivo, por exemplo, não fazer festa de aniversário ou não permitir ir a um passeio especial, pois a criança pode ficar ressentida.

Quando a criança tem alguma atitude que precisa ser corrigida, a correção deve ser imediata ao comportamento. O corretivo não deve Ter longa duração, como por exemplo privar a criança de brincadeiras por mais de uma semana; um ou dois dias são suficientes.

Antes de corrigir a criança é importante verificar se o problema é proveniente do comportamento ou se lhe falta competência para o comprimento de determinada ordem. Exemplo: uma criança pode deixar de fazer a tarefa porque não quer parar de brincar ou simplesmente porque não sabe. No caso de falta de competência, não cabe aos pais aplicar o corretivo à criança e sim ajuda-la na dificuldade.

É importante citar também aqui, que a afetividade tem um papel fundamental no processo da disciplina. Estabelecer com a criança uma relação verdadeiramente afetuosa, amorosa, prazerosa, facilitará o seu cumprimento às regras, pois ela vai desejar corresponder às atitudes positivas dos pais.

Bibliografia:

Agosto de 2001 a Janeiro / 2002