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As Mocidades Espíritas e as Mudanças

Deolindo Amorim

As mudanças sociais provocam novos estilos de vida e, conseqüentemente, novas formas de procedimento. É uma observação comum e, por isso mesmo, não se precisa de muita argúcia, pois a própria vida cotidiana já é suficiente para nos demonstrar que é assim mesmo. O movimento espírita, que não é um movimento à parte nem constitui um grupo fechado, evidentemente não poderia deixar de receber certa influencia das mudanças sociais. É uma contingência inevitável. Precisamos, pois, compreender o fenômeno de nossa época e nos situarmos com equilíbrio. Claro que os nossos princípios não podem ser arrastados de roldão pelas torrentes inovadoras, como se fossem castelos de areia. Nossas convicções têm fundamento em fatos até hoje não desmentidos pela experiência histórica, assim como nossa filosofia de vida não depende das circunstâncias ou das eclosões sócio-políticas. E tanto isto é exato que a estrutura filosófica do Espiritismo já atravessou mais de um século, passou por duas guerras mundiais, acompanhou transformações profundas e graves na ordem social, cultural e política, mas não perdeu sua consistência nem se enfraqueceu.

Apesar da solidez de nossos princípios, que continuam sendo válidos e inalteráveis, a despeito de todas as crises da sociedade, devemos reconhecer, criteriosamente, que uns tantos hábitos espíritas já não se compatibilizam com a época, com o mundo atual. A Doutrina continua íntegra, mas os responsáveis pela sua condução no mundo de hoje precisam tomar conhecimento das mudanças. Um dos velhos hábitos, felizmente não generalizado, e ai de nós se o fosse (!..mas ainda observado entre nós, aqui ou ali, é o de se propalar que o movimento espírita brasileiro é arraigadamente evangélico, porque o Brasil é a “Pátria do Evangelho” etc., etc., e, por isso, não se precisa de cultura científica. Deixemos a ciência lá para a Europa, e fiquemos com o nosso “Espiri­tismo evangélico” no Brasil, “coração do Mundo”, no dizer de Humberto de Campos...

É isto, precisamente, sem tirar nem pôr, o que se ouve algumas vezes. Há doutrinadores que pensam assim e, dentro de seus grupos, formam escola no meio espírita. Mas o movimento espírita não pode voltar as costas à evidência dos fatos novos. O ardor com que se exalta a mensagem evangélica, cuja sublimidade ninguém seria capaz de pôr em dúvida, não deve levar ao exagero de fazer pouco caso da cultura, que é uma necessidade e não prejudica a expansão dos ensinos evangélicos como verdadeiro pão espiritual. O desafio constante das ciências e das técnicas, modificando conceitos, padrões e hábitos, tem repercussão nas áreas espíritas, queiramos ou não, pois todos os ângulos do pensamento são envolvidos nos debates da vida atual. Justamente por isso, o meio espírita precisa utilizar os instrumentos da época em defesa de seus princípios, mas para tanto é necessário acompanhar os fatos, compreender o momento em que se encontram os problemas e mudar a mentalidade ainda existentes em determinados círculos.

Cremos que ninguém estaria pensando, por exemplo, em substituir conceitos espíritas nem muito menos “enquadrar” as teses básicas do Espiritismo nos esquemas e na nomenclatura das ciências. Seria uma tentativa de “modernização” desastrosa, pois o Espiritismo tem estrutura própria, como tem seus objetivos definidos e, por isso mesmo, não poderia substituir seus conceitos simplesmente para atender a exigências estranhas. Não é disto que se trata. Absolutamente! O que está em causa, na realidade, é o problema de se dar pouca atenção ao aspecto cultural do Espiritismo, alegando-se apenas que ‘o mundo precisa é de Evangelho”, enquanto as questões mais palpitantes estão surgindo no campo científico e as Teses espíritas correndo o risco de serem marginalizadas por falta de comunicação ou intercâmbio eficiente com o mundo cultural. Não há quem não saiba que a Mensagem evangélica é a luz permanente de quantos, em qualquer posição ou crença, tenham “olhos de ver e ouvidos de ouvir”.

Mas o Espiritismo não pode, hoje, ficar fechado nos recintos de pregação evangélica, sem tomar conhecimento das novas idéias e das solicitações do mundo. Há necessidade, portanto, de aberturas bem claras, mas não pode haver abertura sem mudança de hábitos. O movimento espírita comporta perfeitamente a explanação evangélica entre as suas mais notórias necessidades, assim como a prática mediúnica e assistência social, mas também comporta necessariamente o estudo metódico, a pesquisa, o debate, os cursos, a penetração nos meios culturais, notadamente o meio universitário. É isto, exatamente, o que ainda não está sendo bem compreendido.

Mas não podemos fugir à realidade na época da eletrônica, das viagens interplanetárias, e assim por diante. É preciso demonstrar que o Espiritismo não está ultrapassado. Os mais responsáveis, principalmente estes, devem estar compenetrados da nova situação.

Vejamos, agora, na mesma ordem de idéias, o caso das Mocidades e Juventudes Espíritas. Até 1940 a quarenta e tantos, por exemplo, era habitual, entre nós, a promoção de festas e programas artísticos para atrair os moços. Festas realmente sadias e programas inegavelmente bem inspirados. Dizia-se então que a Doutrina pura e simples era “muito seca” e, por isso mesmo, não seria possível trazer o moço para o meio espírita somente com ensino doutrinário. Dizia-se abertamente: ‘os moços querem alegria e movimento” “ainda é cedo para estudos sérios de Espiritismo’’. Programas artísticos por toda a parte, a bem dizer, números de poesia, às vezes violão, brincadeiras inofensivas, e assim passavam-se as “tardes fraternas’’ de mocidades e juventudes espíritas. Foi assim mesmo, por muito tempo. Mas as coisas mudaram, e temos que compreender a mudança.

Os jovens de 1975 têm outras motivações, outras experiências e, até certo ponto, têm outras necessidades. A mentalidade dos jovens de hoje não pode ser a mesma mentalidade da geração que participou do movimento espírita na década de quarenta. Houve grande transformação sócio-cultural de 1940 para cá. Não seria possível, hoje, atrair e segurar o elemento jovem no meio espírita somente com declamações, números de música, festinhas e por que não é possível? Exatamente porque o jovem quer o diálogo, o raciocínio mais objetivo. Convém notar, ainda mais, que há trinta anos, digamos assim, não havia tanto elemento universitário no meio espírita, como hoje. E a mentalidade universitária, por natureza, é diferente da mentalidade passiva. Havia, anteriormente, naqueles tempos, menos diálogo, porque a palavra do mentor captava muita confiança por si mesma. Quase não se falava em debate, a não ser em determinados movimentos, e pouco se discutia em ‘‘mesa-redonda’’.

Atualmente, como se vê, já é impressionante, nas fileiras espíritas, o contingente de jovens oriundos de Universidades, onde recebem informações de vários tipos e se defrontam com diversas direções de pensamento. Eles têm, por força do ambiente universitário, muito espírito de participação e crítica. Muitos deles levam o Espiritismo a sério e querem estudá-lo bem, muito mais do que se pensa, mas precisam encontrar condições adequadas. Esta situação está reclamando naturalmente novos hábitos no relacionamento com as alas jovens. Claro que ninguém iria admitir nem sequer imaginar que as organizações de juventudes e mocidades espíritas se transformassem em clubes de mera recreação ou em círculos de polemicas fora dos princípios espíritas. Não. Entretanto, não se pode deixar de considerar que cada época tem suas exigências, e o Espiritismo tem um corpo de doutrina capaz de nos dar a verdadeira dimensão deste fenômeno, desde que tenhamos a necessária cautela para evitar intromissões oportunistas, com segundas intenções, querendo forçar conexões que não existem. É outro problema. O estudo básico da Doutrina, porém, está necessitando de uma perspectiva nova, em certos aspectos, sem desmerecer a tradição e as grandes experiências do passado, que nunca deixará de ser uma lição para o presente.

Não há muito tempo, em artigo publicado no jornal Mundo Espírita, de 31.05.75, insistíamos nestes mesmos pontos e dizíamos, a certa altura: “A palavra de consolo e fé, nas horas mais criticas, é insubstituível, porque é a linguagem do sentimento, e não do raciocínio frio, que pode instruir, mas não alivia as dores da alma. Todavia, o Espiritismo precisa e deve acompanhar o espírito critico da época. Se quisermos fazer um tipo de espiritismo devocional ou conventual, ignorando os desafios da realidade presente, ficaremos à margem, não há dúvida Dentro deste novo quadro, finalmente, a cultura e a promoção de cursos são necessidades compatíveis com a posição do Espiritismo em face da crítica moderna”. Se pensamos assim, e já de algum tempo a esta parte, é porque a vivência no meio espírita, observando as reações dos elementos jovens, nos induz, cada vez mais, a compreender a necessidade de um sistema de comunicação doutrinária mais consentâneo com os problemas que estão surgindo.

Em lugar, finalmente, de querermos prender os jovens com recursos usados há mais de trinta anos, quando eram outras as condições ambientais, oferecendo-lhes apenas oportunidades festivas, devemos pensar, antes de tudo, que eles querem ir mais longe, porque estão vivendo uma época de desafios e, por mesmo, procuram no Espiritismo as respostas convincentes e as soluções compatíveis com o estado de espírito em que se encontram, justamente por causa das experiências de hoje. Devemos compreendê-los, com visão do momento. Indiscutivelmente os programas artísticos ou recreativos têm o seu lugar, a sua oportunidade, pois fazem parte das atividades espíritas e, portanto, são necessários; não devem, porém, ser a única razão de ser dos movimentos de juventudes e mocidades, como se fossem um chamariz, um ponto de atração, e nada mais. Não devemos continuar pensando como há trinta anos, pois o jovem espírita, vivendo o seu mundo de hoje, embora aprecie muito as artes e as expansões naturais, reclama outros instrumentos através do diálogos e da crítica. Mudança de mentalidade, mudança de hábitos, embora permaneçam inabaláveis os valores espirituais.

Anuário Espírita - 1976

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