Como liderar

Nazareno Tourinho

Agora entra em pauta o magno problema de como liderar aqueles que se congregam em torno de nossa atuação. Mesmo não sendo dirigente de Centro Espírita, pode acontecer que no ambiente doutrinário coordenemos equipes de trabalho ou desenvolvamos atividades em conjunto com outras pessoas, as quais seguem-nos os passos esperando saibamos levá-las a atingir objetivos do ideal comum.

Ficamos, assim, na condição de líder, ainda que isso nos cause constrangimento. Não havendo como nos furtarmos a essa responsabilidade, convém desempenharmos a função com cabal conhecimento do que seja o fenômeno social da liderança.

Não é fácil definirmos a liderança, na atualidade, quando se multiplicam as teorias que a explicam cientificamente. Ante uma uberdade de conceituasses, preferimos a de Tead:

Liderança é a atividade de influenciar pessoas a cooperar na consecução de um objetivo que considerem, por si mesmas, desejável.

Esta definição corresponde ao significado etimológico do vocábulo líder ("leader") em língua inglesa:

Pessoa que vai à frente para guiar ou mostrar o caminho ou que precede ou dirige qualquer ação opinião ou movimento.

Discute-se muito sobre a natureza essencial da liderança, uns achando que ela é inerente ao indivíduo, outros que é gerada pelo grupo e alguns atribuindo-a ao contexto situacional. Como o debate em torno deste aspecto do tema é assaz acadêmico para se encaixar no presente volume deixemo-lo de lado , salientando que o fenômeno da liderança materializa-se em três formas básicas e três adicionais, no mínimo. As formas básicas são:

  1. DEMOCRÁTICA,
  2. AUTOCRÁTICA,
  3. LIBERAL.

Na liderança democrática o líder identifica-se com o grupo, sentindo-lhe as necessidades e interpretando-lhe os anseios para proceder de acordo com a opinião geral, ou pelo menos da maioria que consulta freqüentemente , sem abster-se de esclarecer e orientar. É, não padece dúvida, a melhor forma de liderança, e se completa com o respeito à minoria divergente.

Na liderança autocrática o líder impõe ao grupo o comando da sua vontade, o que somente se justifica em determinadas situações excepcionais, de emergência.

Na liderança liberal ("laissez-feire") o líder limita-se a executar passivamente aquilo que o grupo almeja.Em 1939, nos Estados Unidos da América do Norte, a famosa Experiência de Yowa realizada com crianças demonstrou que:

As formas de liderança adicionais, menos precisas em seus contornos, comumente revelam-se como:

  1. CARISMÁTICA,
  2. INSPIRATIVA,
  3. REFORMISTA.

Na liderança carismática a mais inabordável cientificamente, prevalece o dom que o líder tem de fascinar ou empolgar o grupo.

Na liderança inspirativa a imagem consolidada do líder suplanta a sua personalidade - ele se converte em um símbolo que os outros procuram imitar.

Na liderança reformista sobreleva a disposição do líder em se voltar contra a situação existente, catalisando a adesão dos descontentes que nunca faltam, às vezes sem razão, às vezes com razões de sobra

Sejamos pragmáticos nesse particular: o que precisamos saber, ter e fazer para liderar dentro dos Centros Espíritas?

Primeiramente, precisamos saber que, em qualquer das formas básicas pela qual a liderança se manifesta, democrática, autocrática ou liberal, o líder sempre exprime e imprime ora mais, ora menos, ou seja, assim como é influenciado pelos membros do grupo também os influencia, de maneira boa ou má, profunda ou superficialmente. Logo, o líder tanto pode ser um representante quanto um manipulador; resultando dos

fins colimados, e não dos meios empregados, a sua utilidade ou nocividade. Este pressuposto, porém, por ser aético, remete-nos para o imperativo de liderarmos sob a diretriz filosófica da doutrina codificada por Allan Kardec, para a qual os meios justificam os fins (a posição oposta, lastreada na tese de que os fins justificam os meios foi que acendeu as fogueiras da "SANTA" INQUISIÇÃO, durante a Idade Média, onde milhões de inocentes foram queimados vivos por padres jesuítas convencidos de assim atuar "por amor ao Nosso Senhor Jesus Cristo e à Virgem Mãe Santíssima ...).

Temos, pois, nós espíritas, já cientes do dever de amar a DEUS sobre todas as coisas como aliás ensinou o próprio Jesus, mestre incomparável que jamais quis ser divinizado e repreendeu até um discípulo por chamá-lo de bom considerando como verdadeiramente bom somente o PAI criador de todos os seres, temos nós espíritas, não é demais repetir, de olhar o problema de como liderar com absoluta lealdade à filosofia kardequiana, respeitando, acima de tudo, o livre-arbítrio dos semelhantes, nunca os enganando, sob qualquer pretexto.

Precisamos, ainda, afora tal saber e antes de todo fazer não deixar de ter certas qualidades de caráter. "O êxito do líder, para que possa influenciar os subordinados, depende muito mais do que ele é do que daquilo que faça ou diga" garantiu L. F. Urwick.

Os mais abalizados tratadistas da liderança discrepam sobre os predicados indispensáveis ao líder. Ralph Stogdill destaca a originalidade, popularidade, sociabilidade, vivacidade etc.. Gaston Courtois faz alusão à energia, iniciativa, autodomínio, firmeza. Beckman inclui no seu leque de virtudes a auto-confiança, R. B. Shuman o magnetismo, Keith Davis menciona a inteligência, maturidade, motivação e conhecimento de Relações Humanas. De nossa parte, se tivéssemos de elencar as dez qualidades de caráter mais imprescindíveis a um líder, citaríamos:

  1. Autenticidade,
  2. Idealismo,
  3. Coragem,
  4. Simpatia,
  5. Habilidade,
  6. Sensibilidade,
  7. Tenacidade,
  8. Flexibilidade,
  9. Otimismo,
  10. Comunicabilidade.

Isto porque, segundo cremos, nenhum grupo, em situação genérica, constituirá ou manterá como líder uma pessoa que:

  1. Não seja suficientemente sincera em seus atos;
  2. Não seja capaz de se apaixonar por uma causa justa;
  3. Não seja forte e resoluta diante do perigo;
  4. Não possua capacidade natural de se fazer estimada;
  5. Não tenha jeito para solucionar ou minimizar problemas difíceis;
  6. Não disponha de percepção apurada para captar a realidade que se esconde por trás das aparências;
  7. Não persiga intensamente os objetivos que tem em mira;
  8. Não se adapte às circunstâncias do momento;
  9. Não ponha fé naquilo que faz;
  10. Não tenha facilidade para externar suas idéias e compreender as alheias.

Finalmente precisamos, para o exercício da liderança, implementar, na medida do máximo possível, contatos individuais e coletivos.

Quanto ao primeiro item, importa não esquecermos pequenas atenções de ordinário relegadas ao desprezo, por serem fatigantes e cerimoniosas: um cumprimento de aniversário, um bilhete ou carta dando notícia, uma despretensiosa ligação telefônica por motivo de saudade, um voto de Boas Festas e, principalmente, uma visita ao companheiro enfermo (se soubéssemos o quanto rende para a nossa reputação o gesto de amizade diante do conhecido preso ao leito de dor, não só pela gratidão suscitada, mas, também, pela admiração despertada em quem toma conhecimento do fato, arranjaríamos sempre tempo para tal gentileza, estendendo-a até em alguns casos aos piores inimigos, que provavelmente a seguir não mais nos odiariam).

Por incrível que pareça, na liderança de pequenos grupos são as referidas atenções que cimentam o nosso prestígio, e não a coerência, a integridade, o espírito de sacrifício etc..

Na liderança de grupos médios e grandes avulta a importância de reuniões, que devem, para se tornarem frutuosas e não estéreis, ser levadas a efeito com método, ordenadamente.

Aqui solicitamos permissão para transcrever um trecho do livro de nossa autoria sobre o assunto, publicado pela Editora IBRASA, de São Paulo:

Segundo Robert Tannenbeum e Warren H. Schimich o líder tem as seguintes alternativas para acionar o grupo, deslocando-se em linha de sucessão contínua entre o autoritarismo e a permissividade de acordo com as circunstancias:

  1. Tomar decisão e anunciá-la;
  2. Tomar decisão e justificá-la em busca de aprovação;
  3. Apresentar idéias e estimular a discussão das mesmas;
  4. Apresentar uma decisão para ser alterada ou mudada;
  5. Apresentar o problema, recolher sugestões e então decidir;
  6. Identificar o problema e pedir que o grupo tome a decisão respeitando determinados parâmetros;
  7. Permitir que o grupo identifique o problema e decida livremente."

Nas oportunidades em que tiver de dirigir reuniões formais, convém ao líder agir mais ou menos do seguinte modo:

PRELIMINARMENTE (ANTES)

  1. Agendar os assuntos estabelecendo a ordem seqüencial em que serão tratados;
  2. Convocar os participantes, aqueles que sejam presumivelmente úteis e aqueles que tenham o direito de comparecer;
  3. Informá-los com bastante antecedência do temário agendado, a fim de prepararem suas contribuições;
  4. Organizar o local do encontro, equipando-o com todos os apetrechos necessários.

DURANTE A REUNIÃO

  1. Preleção de abertura (para incutir nos presentes o estado de espírito adequado à situação);
  2. Exposição complementar (se for o caso, para explicitar propósitos, deixando claro se a reunião é para decidir ou apenas para examinar);
  3. Encaminhamento d as discussões (estritamente de acordo com aquilo que foi programado, controlando o tempo previsto para cada assunto);
  4. Registro das conclusões (quando não houver Ata alguém deve ser encarregado de anotá-las).

Em qualquer reunião democrática o líder necessita de muito tato para conciliar discordâncias e corrigir ou conter comportamentos individuais. No que tange às discordâncias deve o líder manobrar honestamente para obter o consenso, se possível, ou fazer a minoria aceitar os veredictos da maioria sem sentir-se moralmente diminuída. Devendo manter-se com imparcialidade e não podendo tomar o partido de uns contra os outros, cabe ao líder, entretanto, em ocasiões especiais, interferir no debate inclinando o seu rumo para a sensatez. No que se refere à correção ou contenção de comportamentos individuais o líder precisa ser versátil porque, inevitavelmente, terá diante de si um verdadeiro "Jardim Zoológico", segundo o conhecido texto humorístico de um autor panfletário. Ao lado do "bicho" HOMEM terá pelo menos estes outros:

PAPAGAIO O tagarela que consumirá o tempo todo da reunião se não lhe cortarem a palavra;
MARRECO O curioso saltitante que fica fazendo perguntas pueris uma atrás outra, para nada;
PAVÃO O vaidoso que se manifesta exclusivamente para exibir as penas matizadas de dúbia mas esplendorosa erudição;
TIGRE O valentão sempre pronto para briga;
CARNEIRO O ignorante sistemático que baixa a cabeça e vai em frente, recusando-se a admitir evidências;
GIRAFA O pretensioso que acha tudo demasiado banal para merecer o seu pronunciamento;
ESQUILO O pusilânime arisco que nada diz para não se comprometer;
MACACO O gracejador que só quer divertir a si e aos outros;
RAPOSA O velhaco que se conserva calado mas atento, a fim de depois tirar proveito dos acontecimentos.

O problema de como liderar comporta mais reflexões para todos nós. Uma delas consiste no entendimento de que chefiar é uma coisa, liderar é outra. Chefia é apenas mando sob controle administrativo (na melhor hipótese); liderança, como já vimos, é a condução de pessoas para um objetivo, decorrente de adesão espontânea. Seu exercício implica uma arte que nos cumpre estudar: Há quem suponha ser isto supérfluo com base na convicção de que o líder nasce feito. Em parte esta crença é certa e em parte é errada, porque se de um lado a liderança se vincula à personalidade do líder, de outro lado ela se subordina à contextura do grupo e à natureza da situação vivenciada.

Embora (seja-nos lícito pinçar mais um trecho de nosso livro retrocitado), segundo a Teoria das Pessoas Centrais de Fritz Reide a liderança seja "uma qualidade global do indivíduo" aquele que lidera um grupo de religiosos evidentemente não liderará um grupo de criminosos e aquele que de índole calma lidera quando tudo corre às mil maravilhas sem anormalidades decerto não liderará em momentos de confusão e tumulto quando só a conduta diretiva drástica terá o poder de reimplantar a ordem.

Se "uns nascem para mandar; outros para obedecer' como dizem ter sido afirmado por Aristóteles daí não segue que líder nasce feito primeiro ,porque mandar não é liderar; é no máximo chefiar; segundo porque mesmo descartando-se as condicionantes do grupo e da situação o líder forma-se ao longo do tempo pois os atributos da personalidade são em parte inatos em parte adquiridos além de que todos eles mostram-se suscetíveis de educação e desenvolvimento como frisa Artur Joanes.

Não há como negar que alguns trazem do berço mais do que outros a capacidade de liderança todos porem são passíveis de aperfeiçoamento nesse sentido como em tudo o mais na vida se suscetíveis de educação e desenvolvimento como frisa Arthur Jones.

Não há como negar que alguns trazem do berço mais do que outros a capacidade de liderança todos porem são passíveis de aperfeiçoamento nesse sentido como em tudo o mais na vida

O problema de como liderar; conseqüentemente, deve ser encarado com menos primarismo nos Centros Espíritas, onde, pesa-nos observar, existem mais chefes do que líderes, na autêntica acepção do termo.

Os cientistas sociais que dissertam sobre liderança costumam ainda nos remeter para a compreensão do que seja estrutura e dinâmica de grupo, ressaltando que grupo não é tão somente um aglomerado de pessoas e sim um conjunto de indivíduos em permanente comunhão psicológica. Eles nos alertam para o fato de que só conduz eficientemente um grupo quem é capaz de preservá-lo e fortalecê-lo constantemente. Oferecem-nos os seguintes dados:

A proporção em que cresce no tamanho todo grupo tende a agasalhar em seu seio sub-grupos, pois mesmo nos menores a homogeneidade é apenas aparente.

Na mais unificada aglutinação humana sempre duas ou três criaturas se afinizam e montam para si um circuito fechado de comunicação, ao qual as demais não têm acesso: temos aí os pares e as tríades na definição de R. Dubin. Estes núcleos rudimentares, depois de ganharem solidez, podem passar a atrair outros elementos e entrar em atrito com núcleos de tessitura semelhante, até ao ponto de ameaçar a estabilidade e o equilíbrio de sustentação do conjunto.

O líder precisa ter consciência disso porque a sua mais imediata obrigação é cuidar de manter o grupo coeso, para o que, eventualmente, terá de atuar como mediador. Em grupo fragmentado a liderança enfraquece, quando não falece. A liderança construtiva, é obvio, respaldada na ética, porque a outra, preconizada por Maquiavel, aquela escorada na tese de que os fins justificam os meios tão cara aos místicos de todas as religiões, inclusive a nossa, sedimenta-se no princípio do dividir para reinar...

Dentro de qualquer grupo os indivíduos, representando papéis diversificados, às vezes defrontam impulsos de rejeição (quando são antipatizados por outros que pressionam para afastá-los) , às vezes se satisfazem em acomodação (entrosam -se com os demais apenas vagamente, sem interesse em serem assimilados ) , à s vezes se demoram em adaptação (por terem dificuldade em absorver hábitos e valores diferentes dos seus), às vezes entram em competição (movidos pelo instinto de rivalidade) e às vezes chegam até à agressão (ainda que veladamente, por meios indiretos ou pela via oblíqua do fuxico).

O bom líder, por conseguinte, não é o que se restringe a se relacionar bem com os liderados - é aquele que consegue satisfatório relacionamento dos liderados entre si.

Além de obter isso, e de conduzir o grupo para o objetivo a ser alcançado com proficiência, motivando os liderados pelo reconhecimento dos seus méritos, distribuindo tarefas, dividindo responsabilidades, incentivando todos, sem distinção e apadrinhamento, para que explorem suas potencialidades, compete ainda ao líder preparar alguém para substituí-lo quando necessário, sem receio de ser traído e deposto, entendendo que a melhor política para continuar na liderança é não se apegar a ela, como única fonte de realização pessoal. Aliás, sendo sincero em seus projetos e razoável em suas avaliações, verá como os materialistas não se equivocam totalmente sentenciando que "o cemitério está cheio de insubstituíveis"...

RELAÇÕES HUMANAS NOS CENTROS ESPÍRITAS – Nazareno Tourinho