Portal do Espírito

Mapa do Site | Pesquisa no Site
Página principal » Artigos » Diversos » Oratória

E o semeador saiu a semear

Octávio Caúmo Serrano

Revista Internacional de Espiritismo - Novembro/2000

Como a mais expressiva entre as histórias contadas por Jesus, a parábola do semeador inclui cada homem e cada instituição, não importa qual seja o seu comportamento no contexto social.

O ensino por parábolas não foi invenção de Jesus. Era uma das formas didáticas da época e o Mestre soube aproveitar os costumes para que suas lições fossem melhor compreendidas. Hilel, filósofo judeu da época do Cristo, ensinava as Escrituras também se servindo de histórias com ilações morais e instrutivas.
É normal. O codificador Allan Kardec fez o mesmo na elaboração de O Livro dos Espíritos. Perguntas e respostas, estabelecendo um diálogo, era técnica usada no seu tempo. Não há por que usar fórmulas desconhecidas ou de difícil assimilação, especialmente quando se fala ao povo, um coletivo heterogêneo no que se refere à compreensão.
Para que as histórias contadas por Jesus fossem assimiladas com facilidade, Ele se serviu dos conhecimentos do seu tempo. Dividiu as parábolas em três principais grupos: costumes da época, a vida familiar e a natureza. Entre outras, temos a do filho pródigo e a dos dois filhos, como exemplos de família. Os trabalhadores da vinha, a figueira que secou, o joio e o trigo, e muitas outras, sobre a natureza. Já sobre os costumes da época, vamos encontrar a do bom samaritano, a do rico e do Lázaro, o óbolo da viúva, e por aí seguem.
Quando falou de joio e trigo, Jesus se serviu de um hábito daquele tempo. O joio é planta que facilmente se confunde com trigo, forma também espigas, mas tem um princípio tóxico. Nasce no meio do trigo e se a arrancarmos antes que este forme o grão, corremos o risco de eliminar também a planta boa. Nas leis havia penalidade para aquele que semeasse joio no trigal do vizinho, para prejudicá-lo e tirar vantagem para a sua lavoura.
A parábola do semeador, já dissemos no início, destaca-se pela abrangência que apresenta, e mostra quatro situações das sementes, comparando-as às pessoas.
"E o semeador saiu a semear". Esta figuração deve nos levar à imagem da semeadura a lanço, quando o agricultor colocava as sementes em uma peneira e as jogava por sobre o ombro para trás. Assim se semeavam grandes campos. Não havia covas individuais.
Por isso, argumentou Jesus, que algumas caíram ao lado da estrada, porque o vento as teria levado para fora da área a ser cultivada. Foi pisada e comida por pássaros.
Outro grupo de sementes caiu sobre local onde havia pouca terra e pouca umidade. Quis germinar, mas logo depois acabou morrendo.
A terceira coleção de sementes foi abafada pelos espinhos e morreu.
Finalmente um grupo caiu em terra fértil e produziu muito. A mil frutos por semente.
Depois de contadas as histórias, Jesus deixava que as pessoas interpretassem o seu enunciado para chegar às próprias conclusões, por meio de comparações.
E dizia: Por isso eu conto a vocês essas histórias e vocês entendem. Aos mais poderosos e sabidos, não adianta contar porque eles riem e não acreditam.
À medida que o tempo passa, as interpretações dessas histórias chamadas parábolas se ampliam.
Os primeiros estudos comparam essas sementes às pessoas e ao semeador, àquele que prega a doutrina nova, as lições do Evangelho.
Pessoas que ouvem mas não crêem, nem têm interesse. Parece-lhes que podem dispensar essas lições e conhecimentos. As palavras ditas são sementes que foram devoradas e se perderam.
Outros mais entusiasmados, tomam contato com o Evangelho e se deslumbram. Por um tempo, parece-lhes que nada mais existe e está ali tudo o que precisam. Ignoram a necessidade do esforço próprio para incorporar novos valores que os transformem. Por isso, logo desanimam. É a semente que começa a germinar, mas falta-lhe adubo e umidade.
Há também pessoas que tomam contato com a Boa Nova e se interessam. Mas não querem abrir mão dos valores do mundo. Precisam do elogio, dos cargos e de outros valores humanos que envaidecem. São os espinhos que afogam a alma que deseja libertar-se.
E há, finalmente, aquele que se assemelha ao terreno próprio, fértil, adubado, em condições perfeitas para receber a boa semente. Aí, rapidamente, a planta germina e se desenvolve. Depois, produz muito. Se observarmos dentro do Espiritismo, vamos encontrar Kardec, Chico, Bezerra, Cairbar e inúmeros irmãos que sustentaram e fizeram desenvolver a doutrina para que chegasse até nós com tamanha fertilidade e produzindo frutos que alimentam a todos.
Nos grupos espíritas vemos amiúde pessoas que se enquadram no que acima foi dito. Chegaram no centro por um problema pessoal, grave, delas próprias ou de um familiar, mas logo assimilaram as lições e perceberam que seu problema era pequeno. Quando não, era um problema necessário, porque servia de remédio para curar enfermidades antigas, deslizes do passado, injustiças praticadas contra si mesmo ou terceiros.
Vão ficando e se integram no grupo de trabalhadores que oferecem seus préstimos, esquecendo-se de si mesmo. Seus problemas ali estão, às vezes cresceram, mas a forma de encará-los faz com que se tornem fardos suaves.
Enquanto alguns chegam e logo se vão, recebam ou não a ajuda que foram buscar, esses perseveram apesar dos problemas, muitas vezes graves, mas que diminuem com o entendimento que a pessoa já conseguiu.
Noutras ocasiões, não são apenas pessoas, individualidades. São agrupamentos. São doutrinas, religiões, seitas, como prefiram chamá-las, cujos dirigentes conheceram as palavras de Jesus e, habilmente, as manipularam em proveito próprio e da sua igreja. Pegam-se no Evangelho da letra e desprezam a notícia espiritual. Tudo torcem para servir-se do céu em seu benefício. Feliz a religião que prega e vive, a partir de seus dirigentes maiores, as verdade do Evangelho, na sua simplicidade.
Finalmente, ao olhar para dentro de nós mesmos, convém perguntar, quer como semeadores, quer como sementes, em qual delas nos enquadramos. Somos a beira do caminho ou a semente que foi comida? Somos a pedra de pouca umidade ou a semente que não prosperou na sua germinação? Somos os espinhos ou a semente que foi afogada, vítima de vaidade e outros defeitos? Ou somos a boa terra ou a semente fértil que, casando-se com o solo perfeito, fez-se planta adulta e está produzindo a partir do dia em que foi plantada?
Cada um dê a resposta à sua própria consciência e ao seu próprio coração.

Copyright © 2000 O Clarim
Direitos reservados

Página principal | Mapa do Site | Pesquisa no Site
Creative Commons License