Reencarnação

Juvanir Borges de Souza

Recente pesquisa anunciada pelos meios de comunicação de massas, em dezembro de 1996, dá o percentual de 35% da população brasileira como aceitando a doutrina da reencarnação, ou das vidas sucessivas, enquanto que 52% lhe são contrários. Os restantes 13% são os indecisos e os que não quiseram opinar.

Considerando que a grande maioria da nossa população é constituída de católicos romanos, adeptos das igrejas reformadas (protestantes) e materialistas confessos, os quais são radicalmente contrários à doutrina das vidas sucessivas, a conclusão lógica, diante dos números da pesquisa, é que católicos e protestantes estão aderindo à idéia reencarnacionista. Os materialistas ficam à margem dessa consideração, por não admitirem a existência da alma, ou espírito.

Essa dedução lógica mostra-nos, antes de mais nada, a força da realidade viva triunfando sobre dogmas e interpretações humanas divorciadas da verdade. Induz, outrossim, à constatação de que muitos religiosos seguidores das igrejas tradicionais, embora não se desligando de sua fé, não aceitam mais as imposições absurdas de doutrinas dogmáticas, contra a lógica dos fatos.

Por que a doutrina da reencarnação vai-se tomando cada vez mais difundida e aceita no mundo ocidental, onde impera o dogmatismo das igrejas oriundas do Cristianismo?

Em primeiro lugar, ela se firma por estar na natureza das coisas. É lei divina, que pode ser rejeitada e até anatematizada pelo fanatismo dos homens, mas não deixa de atuar como lei pela simples oposição dos que não a aceitam.

A própria Igreja dos primeiros séculos não se opunha à reencarnação. Havia divergências interpretativas. Muitos padres seguidores de Orígenes (século II) admitiam a reencarnação, que só foi repelida e condenada pelo Sínodo Permanente de Constantinopla, no ano de 543. O papa Virgílio aprovou a rejeição da tese anti-reencarnacionista baseado na decisão daquele Sínodo, acrescentando que a idéia da reencarnação era incompatível com a noção de que "Deus salva o homem pela morte e ressurreição de Jesus-Cristo."

Posteriormente, diversos outros Concílios proscreveram a doutrina reencarnacionista, o último dos quais foi o Vaticano II, em 1965.

A Igreja criou, assim, sua doutrina, com base em diversas decisões de seus concílios, através dos séculos. Foram decisões infelizes, divorciadas da realidade.

Isto não quer dizer que a doutrina autenticamente cristã, ou seja, aquilo que exsurge dos ensinos do Cristo expressos nos quatro Evangelhos, exclua ou repila a reencarnação.

O mal causado pelas interpretações humanas dos Evangelhos é evidente.

Se todos os obstáculos de nossas vidas foram superados pelo Cristo, que, segundo a doutrina da Igreja, assumiu todos dos os pecados na cruz e na ressurreição, bastando que a criatura aceite ser incluída no rol dos redimidos, qual o interesse de cada um em proceder corretamente e praticar as leis de Deus e dos homens, se sua salvação está assegurada de antemão?

Como fica a responsabilidade individual dos que praticam o mal conscientemente?

Onde a Justiça Divina, se o malfeitor, o criminoso, o corrupto, o mau, o indiferente são tratados da mesma forma que o caridoso, o sensível aos sofrimentos alheios, o que se sacrifica pelo seu próximo?

Há uma total injustiça nessa doutrina, que desestimula a prática do bem e a submissão aos ensinos evangélicos, que acena com o sacrifício de si mesmo, o trabalho individual dirigido ao bem, o amor ao próximo como condições de aperfeiçoamento. O progresso individual, a evolução contínua é que é a salvação e não uma espera de julgamento indefinida no tempo, como quer a doutrina ultrapassada da Igreja.

É evidente que o Cristo de Deus é o Salvador da Humanidade, oferecendo sua Mensagem de vida eterna como roteiro, como o caminho e a verdade que Ele mesmo se proclamou. Ele é exemplificação e modelo, mas compete a cada criatura seguir o caminho indicado, com esforço, com amor, com dedicação e não ficar de braços cruzados à espera da salvação.

Pregar que a redenção da criatura se faz simplesmente pela cruz e pelo batismo e não pelo esforço de cada um, através de vidas sucessivas, é incentivar a indiferença pela vida, igualando bons e maus. É, igualmente, desprezar a Justiça Divina, na sua função de dar a cada um segundo suas obras, como ensinou o Cristo.

O mundo caminhou muito nos séculos que sucederam a Nova Era inaugurada com a presença de Jesus entre os homens.

Se seus ensinos não puderam ser apreendidos no seu sentido real, verdadeiro, por deficiência do entendimento dos homens, o tempo, o progresso das ciências e, sobretudo, a Nova Revelação trazida pelo Espírito Verdade e seus prepostos proporcionaram um conhecimento e um juízo mais consentâneo com a realidade.

A verdade e o entendimento justo dos Evangelhos estão à disposição dos homens, através do Consolador prometido e enviado pelo Cristo.

Compete aos homens, sobretudo às organizações religiosas tradicionais, atentarem para os novos tempos e aceitarem a nova interpretação dos textos evangélicos e não se petrificarem no entendimento antigo, contraditório, injusto e ingrato para com o próprio Cristo, cuja doutrina é de Amor, de Justiça e de Caridade.

É preciso atentar que o homem, enquanto se preparava para novos tempos, podia conviver com as trevas da Idade Média, guiado em suas carências intelectuais e morais por aqueles que eram os guias e intérpretes das Escrituras Sagradas.

Entretanto, após séculos de preparo e de progresso da Ciência, nas suas múltiplas divisões e aplicações, após tantas retificações de antigos enganos e, sobretudo, após o socorro do Alto com a vinda do Consolador, soou a hora das retificações necessárias dos erros cometidos pelos homens na interpretação dos textos sagrados, para que as religiões não mais cometam a injustiça de atribuir a Deus e ao Cristo os enganos de seus concílios e suas resoluções transformadas em dogmas.

É necessário que as Igrejas retifiquem seus enganos interpretativos para proveito de seus seguidores, seus fiéis, que se vêem desorientados com prejuízo evidente no desenrolar de suas vidas.

É desolador constatar que, nos albores do Terceiro Milênio da Era Cristã, as Igrejas ainda não tenham percebido a realidade da reencarnação como lei natural e a combatam com tanta veemência, numa contradição que muito tem a ver com o obscurantismo, já que tudo aponta para essa realidade antiqüíssima: a ciência, as experiências, o bom-senso, a razão e o próprio texto dos Evangelhos, em algumas de suas passagens.

Como está claro na Doutrina Consoladora, o progresso das almas é resultado do esforço de cada uma. Sendo livres, trabalham com maior ou menor intensidade, segundo a própria vontade, acelerando ou retardando sua evolução e o encontro com a felicidade.

Portanto, são os Espíritos os próprios autores de sua situação feliz ou infeliz, de conformidade com o ensino de Jesus: A cada um segundo as suas obras.

Todos estão de acordo neste ponto:

"Existem, portanto, dois mundos: o corporal, composto de Espíritos encarnados; e o espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo Espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de nós, como no Espaço, sem limite algum designado." ("O Céu e o Inferno" - 1ª parte, cap. III, nº 5.)

Ora, se existem dois mundos que estão em relacionamento, se do mundo espiritual partem as criaturas para o mundo corporal, encarnando-se e depois desencarnando, o que impediria que se repetisse a encarnação? Não é ela muito mais lógica que uma só vida na carne?

Se o corpo se destrói, de acordo com a lei natural e se o Espírito volta à sua condição livre, por que não poderia repetir a encarnação em novo corpo, que, por sua vez, será destruído também, repetindo-se assim a operação, enquanto a lei da evolução o determinar?

A dificuldade das Igrejas está nas próprias resoluções tomadas em seus concílios. Entenderam elas que a alma é criada no momento do nascimento do ser, ou de sua concepção, não admitindo que ela preexiste ao renascimento. Tudo o mais fica difícil de conceber diante dessa concepção discrepante da realidade, que é a da criação da alma no nascimento do ser, em contraposição à preexistência do ser espiritual.

Quando meditamos sobre os ensinos do Mestre Incomparável, como nessas passagens admiráveis:

Amai os vossos inimigos.
Bendizei os que vos maldizem.
Não julgueis para não serdes julgados.
No mundo tereis tribulações.
Eis que vos envio como ovelhas no meio dos lobos.
Entre vós, o maior seja servo de todos.
Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me;
torna-se impossível ter no Cristo um doador de vida fácil, sem sacrifícios.

Como nos mostra Emmanuel, se o Cristianismo é esperança sublime, fé restauradora e amor celestial, é também trabalho sacrificial para o aperfeiçoamento contínuo.