Sexo e Destino

Nazareno Tourinho

Existem livros que pedem uma leitura calma, repetida com intervalos, que não podemos entender de pronto, ao primeiro impacto emocional, e que por isso não devemos julgar apressadamente.

Sexo e Destino é um desses livros.

Focalizando, com realismo um assunto dos mais delicados, verdadeiro tabu, a brochura psicografada por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira teria inevitavelmente de provocar, em alguns, impressões desconcertantes, de grande efeito, mas de pouca consistência.

Há, na história que André Luiz nos relata, convocando-nos para o estudo criterioso de palpitantes questões íntimas, determinados pontos que, por não terem sido bem assimilados, convém passarmos em revista.

Um deles é o estilo da linguagem, fluente, polido, porém um tanto áspero, em diversos lances, para a sensibilidade puritana. O autor fala sobre sexo para ensinar e não para agradar. Usa uma ou outra expressão forte, intencionalmente, com o fito de espanar da consciência do leitor o pó dos velhos preconceitos. Nunca, entretanto, recorre às frases de sentido dúbio e muito menos às comparações chocantes.

Descrevendo um drama real, como esclarece logo de início, coloca nos lábios de cada personagem palavras que refletem o seu caráter. Seria imperdoável, literariamente, se não procedesse assim. Justifica-se, pois, que um Espírito atrasado, ignorante e perverso, dirigindo-se a uma entidade superior, em quem pressente o perigo de uma ameaça aos seus planos infelizes, expresse descontentamento nestes termos:

“Dê o fora, que não vou com sua lata! Vá-se catar, vá-se catar!...” (Página 147.)

E, prosseguindo, apela para a gíria, designando os recém-desencarnados que se lhe assemelham como “descascados”, numa tirada original e quase pitoresca.

Justifica-se, ainda, que outro Espírito, não de ordem inferior, mas também não suficientemente evoluído, numa explosão de revolta ante a presença de inocente jovem desonrada, exclame:

— “Veja esta menina. Correta, fiel.., submeteu-se, confiante. Que culpa no vaso de porcelana violentamente destampado por um animal?” (Página 79)

A imagem tem cor rubra, porém o que defrontamos não é um romance açucarado, cheirando a pétalas de rosa é uma narrativa séria e grave, digna de respeitosa meditação.

Um pouco mais à frente, no entrecho das figurações, surge a poesia em tons amenos, quando é o próprio André Luiz o artista do verbo:

“O rosto esculpido em linhas raras, os olhos escuros contrastando com a brancura da tez, as mãos pequenas e as unhas róseas complementavam belo manequim de carne, apresentando por dentro uma criança assustada e ferida.”

“Tristeza maquilada. Aflição no disfarce de flor.” (Página 60)

Além do estilo da linguagem, o que mais, em Sexo e Destino, é passível de comentário?

— A ligação dos fatos coincidentes, que se sucedem em ajustado entrelaçamento, tudo se relacionando nas menores particularidades, em função da trama, em benefício do enredo?

Esta restrição carece de fundamento, porque, filosoficamente, todos concordamos em que não existe o acaso. Os mínimos acontecimentos possuem uma razão de ser, e na existência humana, muito mais que nas novelas vulgares, é natural que os fatos se encadeiem harmoniosamente.

— A transformação radical da personalidade de um homem que, após violar a filha supostamente adotiva, converte-se ao ideal espírita e apresenta-se regenerado?

Vasculhemos a memória. Antes de abraçar a fé que nos enobrece, cometemos erros talvez igualmente mesquinhos, embora diferentes (só antes?). E, possivelmente, chegamos ao vero Cristianismo sem experimentar uma tragédia tão dolorosa quanto aquela que avassalou a alma de Cláudio Nogueira.

— As cenas do gari “regando as areias da praia” e da enferma acidentada, quase agonizante, com as vestes tingidas de sangue, suor e excremento?

Tais cenas, evidentemente, não deleitam a imaginação; nada obstante, lembram que nos cumpre encarar com naturalidade as deficiências e as necessidades orgânicas; depreende-se, de imediato, que elas não foram cunhadas com objetivos estéticos, e sim com intenções psicológicas, visando a contrabalançar a sugestão de outras cenas que poderão despertar o sensualismo (despertá-lo em quem o tiver, é claro...). Recurso técnico válido, este, e característico dos escritores de talento que se preocupam em controlar as emoções de seus leitores, valendo-se de contrastes, a fim de ajudá-los a não cair em estados mentais indesejáveis

A respeito dê Sexo e Destino, todas as objeções até aqui vistoriadas são demasiado frágeis para merecerem mais longas considerações.

Destaca-se, contudo, um, aspecto do livro que faz jus a rigorosa análise, por ser o mais importante, o fundamental.

Trata-se do problema do vampirismo.

Sempre admitimos, pacificamente, que os desencarnados nos influenciam as ações, o que, aliás, é princípio básico da Doutrina. Como, no entanto, se processa esta influência? Qual o seu mecanismo? Que os obsessores utilizam os métodos da hipnose, já o sabíamos. Mas, como aplicam esses métodos, de que maneira operam?

Sexo e Destino mostra-nos, com minúcias, com riqueza de detalhes, o modo de atuar dos perseguidores invisíveis, transmitindo-nos informes que surpreendem.

Demonstra-nos, de saída, simplesmente isto: a atração magnética entre o obsidiado e o obsessor pode ser tão forte que os dois, identificados em perfeita sintonia vibratória, imantam-se em autêntica simbiose, e, colados um ao outro, como que se transfundem permutando idéias e sensações, parecendo “dois seres num corpo só” (Página 82).

Eis o vampirismo fotografado em seu aspecto fisiológico. Para completar o quadro, vejamos como se passam as coisas no plano subjetivo. Recordemos trecho do livro em que personagem central se prepara para conquistar o amor da própria filha adotiva, porém hesita reconhecendo a vileza do ato que almeja praticar. Jungido a tal personagem, um Espírito ainda escravizado a instintos animais espera a consumação do delito, anseia por ele, na certeza de que partilhará o prazer do momento que se aproxima.

Tal Espírito procura induzir tal personagem a cometer tal crime.

De um lado, o obsessor formulando hábeis insinuações; do outro lado, o obsidiado tentando resistir, e supondo que trava consigo mesma (subconsciente, etc.) o diálogo mantido, na realidade, com uma entidade à qual se ligou por afinidade moral,

Em pensamento, pondera o obsidiado que não é licito cobiçar a filha, e imediatamente ouve, na acústica do cérebro, como se lhe pertencesse, a argumentação do obsessor:

— “Filha? Mero artifício social. Apenas mulher. E quem assegurará que. ela também não espera por seu beijo com a sede da corsa presa ao pé da fonte? Você não é nenhum neófito; sabe que toda mulher estima render-se, em trabalhosa porfia.” (Página 85.)

Aí está o quadro acabado, suscitando dúvidas. Nesta altura de Sexo e Destino ficamos cientes de que:

1 — Os Espíritos podem confabular conosco normalmente, fazendo gestos, como se ainda vivessem na matéria;

2 — Podem envolver-nos, penetrando nossa organização física e fundindo-se a ela;

3 — E podem, como resultado disso, além de comunicar-nos suas idéias, transferir para nós suas, sensações.

Será possível? Será lógico?

Ou será mera fantasia, pura invencionice?

Parece-nos que, em Espiritismo, a única autoridade inatacável é a de Allan Kardec. Para dirimir dúvidas, portanto, há um recurso acessível a todos e bem mais interessante do que as discussões apaixonadas e as críticas sibilinas — consultar as obras da Codificação!

Ora, o que importa acima de tudo não é verificarmos se as revelações de André Luiz nos satisfazem ou contrariam, O que importa é sabermos se elas estão ou não corretas, doutrinariamente.

Folheemos Kardec.

Não é necessária uma pesquisa meticulosa; basta tomarmos um só volume, aproveitando a oportunidade para homenagear aquele cujo centenário presentemente comemoramos. Para começar, as transcrições de O Céu e o Inferno, leiamos parte de um período extraído de mensagem espiritual inserida na página 177:

1 — “Estou junto dos meus amigos e aperto-lhe as mãos sem que disso se, apercebam...

2 — “Quanto à nossa fluidez e graças a ela, podemos estar em toda parte sem interceptar o espaço...

3 — “Ou produzir quaisquer sensações, se assim o desejamos”

Confira-se o que consta nestes três itens a com o que consta nos três itens anteriores, e as dúvidas se dissolverão como sorvete.

Provado está que André Luiz tão somente confirma e desenvolve Kardec.

Entretanto, tem mais,... Duas outras contestações, feitas a Sexo e Destino, exigem sumário e pulverizante juízo. Primeira:

A de que os obsessores não cogitam de sexo...

Será que não??? Voltemos às mensagens de O Céu e o Inferno, agora na página 259

Será que não??? Voltemos às mensagens de O Céu e o Inferno, agora na página 259:

“... sabeis qual a existência desses homens sensuais que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres?

“A influência da matéria segue-se além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites...”

Segunda:

A de que é absurdo aceitarmos a possibilidade de os obsessores morarem com suas vítimas, residindo na mesma casa como se fossem membros da família.

Visitemos, para finalizar, mais uma página de O Céu e o Inferno, desta feita a de número 183:

“Um Espírito tanto pode, conseguintemente, habitar entre vós depois de morto como quando vivo, ou, por outra, melhor ainda depois de morto, uma vez que pode ir e vir livre e voluntariamente. Deste modo temos uma multidão de comensais, indiferentes uns, outros atraídos por afeição.”

Como vimos, Sexo e Destino não colide com os fundamentos da Doutrina Espírita, nada contém em desacordo com os princípios gerais esboçados nas obras da Codificação.

No que tange ao seu conteúdo, é um livro de grande utilidade, porque amplia o horizonte de nossos conhecimentos psíquicos, auxiliando­-nos a compreender os problemas do sexo, embaraçantes e sutis, dentro de uma dimensão que transcende os estreitos limites da psicologia clássica.

No que se refere à sua forma, é um livro de bom gosto, que prende a atenção do princípio ao fim, que joga inteligentemente com os implementos da dialética literária, que tem a virtude de manipular ingredientes ácidos sem produzir substâncias corrosivas, que consegue comover sem enveredar pelo melodrama piegas, que diz toda a verdade sem escandalizar.

Um livro caridoso, que entende e conforta:

“A sublimação progressiva do sexo, em cada um de nós, é fornalha candente de sacrifícios continuados. Não nos cabe condenar alguém, por faltas em que talvez possamos incidir ou nas quais tenhamos sido passíveis de culpa em outras ocasiões.” (Página 48)

Mas é também um livro altamente instrutivo, que educa e adverte:

“A responsabilidade tem o tamanho do conhecimento.” (Página 57)

Leiam-no até o fim, os que pararam pelo meio; leiam-no como obra de estudo, os que o receberam como simples romance.

Reformador – setembro de 1965