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Clonagem: e o espírito?Pedro Fagundes Azevedo «Revista de Espiritismo» nr. 39, Abril-Maio-Junho 1998 De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, o mundo inteiro deu-se conta de que entrara na era da clonagem quando, em Fevereiro do ano passado, a revista inglesa “Nature” publicou um artigo de Iam Wilmut, com a sua bem sucedida experiência nessa área. Embriologista de uma instituição de pesquisa agro-pecuária próxima de Edimburgo, capital da Escócia, Wilmut, de 52 anos, dava ali uma completa explicação de como clonara a ovelha Dolly. Em termos bem simples, clonar significa produzir uma cópia idêntica de outro ser vivo, através da engenharia genética, de forma artificial e assexuada. Assim como Eva, na alegoria do Velho Testamento, Dolly nasceu graças a uma parte do corpo de outro ser adulto, sem pai nem mãe. O seu nome é uma homenagem a Dolly Parton, a cantora country norte-americana de seios avantajados, porque Dolly teve origem na célula extraída da mama de uma ovelha. A fórmula para se elaborar um clone não é difícil. O ponto de partida é o princípio holográfico de que a parte contém o todo, assim como o todo é constituído de partes. Wilmut e a sua equipa de cientistas escoceses associaram um óvulo não fecundado, de onde tinham retirado o miolo genético, com uma célula mamária doada pela ovelha que desejavam copiar. Em seguida, implantaram o resultado dessa fusão no útero de uma outra ovelha, onde se deu a gestação de Dolly com pleno êxito. Antes, porém, sabe-se agora, houve muitas tentativas frustradas. “Algumas não passavam de um amontoado informe de tecidos vivos”, acaba de confessar o cientista. O bebé-cloneNaturalmente, o passo seguinte seria a clonagem de outros animais úteis à humanidade, como as vacas, cavalos e galinhas, mais a fauna que está sob ameaça de extinção. Entretanto, muito antes do que se poderia imaginar, neste início de 1998 o mundo é novamente surpreendido por outro cientista genético. O seu nome é Richard Seed, detentor de Ph. D. em medicina e um currículo que inclui várias experiências pioneiras em fertilidade, com participação na primeira experiência bem sucedida de embriões entre mulheres, procedimento fundamental em qualquer clínica de reprodução humana na actualidade. Ele anunciou à imprensa internacional que no prazo de 3 meses (a periodicidade desta revista) estaria a utilizar a mesma técnica aperfeiçoada em Dolly para gerar um bebé-clone. Com este objectivo, já seleccionou 4 casais inférteis, para servirem de cobaias, e mais 4 mulheres para serem usadas como mães de aluguer. “Vou fazer pelo menos 500 clones por ano numa clínica em Chicago e, mais tarde, abrirei filiais em cidades dos Estados Unidos e em outros países”, declarou de forma bombástica. “Se o Governo americano tentar impedir-me, vou para o México, ou qualquer outro país que esteja disposto a aceitar-me”, completou. A reacção mundial a essas declarações foi imediata, devido às suas implicações éticas e morais que não estão a ser levadas em devida conta. O presidente norte-americano, Bill Clinton, disse que as pesquisas científicas não devem ser conduzidas num “vazio moral” e exortou o Congresso a aprovar a proibição das experiências de clonagem humana, pelo menos durante os próximos 5 anos. A Associação Médica Mundial exortou os médicos a boicotarem as pesquisas desse tipo, e o próprio criador de Dolly, em entrevista à rede de televisão NBC, classificou a ideia de antiética e desaconselhável. Há o risco de abortos, anormalidades e mortes na primeira infância, confirmou o Instituto Roslin, de Edimburgo, onde Wilmut fez a primeira clonagem de um mamífero. No Reino Unido, porém, está a ser preparado um documento oficial de consultas que expõe as possíveis razões pelas quais a té-cnica pode beneficiar a humanidade. Criada há cerca de um ano para assessorar o Governo britânico na questão dos avanços da genética humana, a comissão que elabora esse documento vai apresentar os seus estudos aos ministros da área, até Junho vindouro. Cabe-nos esperar as novas surpresas que a ciência nos reserva para um futuro não longínquo. Aliás, as descobertas do século que ora chega ao fim vieram sempre de forma contínua e avassaladora. Eu, por exemplo, nasci antes da televisão, da penicilina, da fralda descartável, da fotocópia, do plástico, das lentes de contacto e da pílula anticoncepcional. Na minha infância ainda não havia o radar, cartões de crédito, bebés-proveta, as esferográficas, as máquinas de lavar louças, de secar roupas, cobertores eléctricos, operações pelo astral, computadores, ar condicionado e, muito menos, Internet. Nunca tinha ouvido falar em terapia de vida passada, videocassetes, corações artificiais, raios laser, videojogos e rapazes sérios a usarem brincos. Em todo o caso, os que estão a nascer agora talvez possam dizer, quando chegarem à minha idade actual, lá pelos 2060: Eu sou do tempo em que não se clonavam seres humanos, ainda não se viajava pelos planetas vizinhos, a reencarnação ainda não tinha sido comprovada cientificamente, nem havia linhas de comunicação públicas e directas entre os planos material e espiritual. Óptica espíritaAo contrário da maioria das religiões, o espiritismo nunca se opôs aos avanços da ciência. Allan Kardec, no primeiro capítulo de “A Génese”, é peremptório: “O espiritismo, marchando lado a lado com o progresso da ciência, jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas demonstrarem estar em erro sobre determinado ponto, ele se modificará sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará”. Em “O Livro dos Espíritos”, na introdução ao estudo da doutrina, item VII, acrescenta: “Os factos, eis o verdadeiro critério dos nossos julgamentos, argumento sem réplica. Na ausência dos factos, a dúvida é a opinião do homem prudente”. A genética diz-nos que já é possível clonar um ser humano; a ética afirma que ainda não estamos preparados para isso. O facto, porém, é que nenhum tipo de ser humano ou animal consegue sobreviver sem espírito porque é este, através do seu perispírito, também chamado modelo organizador biológico, que mantém a forma e integração do corpo físico. E se Deus, na sua infinita sabedoria, permitir que tais factos aconteçam, é porque há espaço para eles na mente divina. Somos cerca de seis bilhões de espíritos encarnados, a população mundial, enquanto no plano espiritual da Terra há mais de 20 bilhões de almas a aguardarem por uma nova oportunidade de voltar à salutar escola do plano material. As leis naturais decerto não desperdiçarão nenhuma hipótese para que a volta de alguns desses espíritos aconteça, mesmo que isso, neste momento, possa parecer-nos uma forma precipitada ou antiética de reencarnação. Muita coisa vai mudar a partir da obtenção genética de um clone humano. A primeira delas vai ser o fim do cepticismo em relação ao espírito. Finalmente, a humanidade vai dar-se conta de que, como esclareceu Kardec, o homem é um espírito vestindo transitoriamente uma roupagem carnal. Os clones, embora iguais na aparência física, terão personalidades diferentes, pois os espíritos são diferentes uns dos outros, tal como acontece com os gémeos univitelinos, que em última análise são uma clonagem natural. A respeito do cepticismo, vale a pena lembrar a sabedoria de Galileu. Para demonstrar que podíamos ver coisas invisíveis a olho nu, através de uma luneta, resolveu levar os eruditos da época para uma praia. Ao ouvir sobre a possibilidade de ver um navio com a luneta, a metade do grupo foi embora, tratando-o como um impostor. A outra metade só se convenceu quando ele a colocou num barco e aos poucos se foi aproximando do navio. Desde já, a clonagem de partes do corpo humano em laboratório poderá produzir tecidos, incluindo células sanguíneas e da pele, para reparos cirúrgicos ou enxertos. Aliás, há uns dias, pesquisadores da empresa Reprogenesis, na cidade de Boston, EUA, anunciaram uma técnica para produzir próteses naturais de seios femininos, a partir da multiplicação em laboratório de células extraídas do próprio corpo da mulher. Tais cientistas calculam que dentro de cinco anos serão capazes de reproduzir até mesmo a função da lactação humana. Ou seja, o difícil está a ser feito, o impossível será feito amanhã. O poder da mente humana é muito inferior ao do nosso Criador, mas assemelha-se muito a dele. Não é de surpreender assim que os homens estejam a brincar, fazendo de conta que são Deus. Não foi o próprio Jesus quem confirmou: “Vós sois deuses”? (Evangelho de João, 10/34). Pedro Fagundes Azevedo, autor deste artigo, é doutrinador espírita (nos seus tempos pós-profissionais) e psicólogo (profissão), e actua a nível de consultório clínico, com terapia regressiva a vidas passadas, na cidade de Porto Alegre, extremo sul do Brasil. |
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