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Cristianismo e Espiritismo

Revista de Espiritismo nr. 27, 2.º trimestre de 1995

Pode falar-se do cristianismo defendido pelos seres humanos na posse do corpo físico. Mas parte da população envolvente, no plano espiritual, de pessoas sem corpo denso, vive o cristianismo inclusive antes do seu advento na Terra. Curiosamente, nunca pararam de trabalhar, nem tão-pouco reclamam em exclusivo para si próprios o rótulo de cristãos. Isso porque não precisam.

Talvez porque perguntar não ofende, a professora de filosofia indagava à turma do último ano do liceu: «Será que Marx, se vivesse hoje em dia, seria marxista? Cristo seria cristão?».

E agora acrescentaríamos: Kardec hoje seria espírita?

É que, depois do decesso de alguma personalidade de vulto, é muito fácil para qualquer um colocar-lhe na boca as suas próprias ideias, fantasias ou suposições. Mais algum sofismo e tudo corre sobre rodas...

Para os sacerdotes rotulados de cristãos, o espiritismo não é cristianismo. A questão é simples: pretendem dominar toda a exegese possível e imaginária, e o dito por eles dito está, esgotando-se e espartilhando-se ali a verdade. «O espiritismo nada tem a ver com Jesus Cristo. Na Bíblia Moisés condenou a comunicação com os mortos...», afirmará um qualquer sacerdote de uma qualquer das religiões cristãs, acreditando que espiritismo é «falar com os mortos» e que Moisés é cristão. É um ponto de vista. Mas fundamentado num dogmatismo despropositado.

Responde-lhes, com generosidade e respeito, o livro «Cristianismo e Espiritismo», de Leon Denis. Mas vamos por outro caminho: é que só temos página e meia para esse fim. E com certeza que quem nos está a ler é outro tipo de pessoa.

O cristianismo deu de si. Depois da violência espalhada pelas Cruzadas, após a crueldade dos algozes da Inquisição. A «ciência afasta o homem de Deus», acusavam e exibiam as temidas fogueiras dos autos-de-fé. Há cerca de três séculos, em Roma, num concílio, votavam os bispos uma questão dificílima: teria o corpo da mulher alma ou não? Por alguns poucos votos, venceram os que sentenciaram que a mulher, afinal, também tinha alma.

O dogmatismo religioso imposto debanda à cacetada os livres-pensadores para o materialismo.

O vínculo

Mas, continuando a ser objectivos, percebemos que o vínculo entre espiritismo e cristianismo surge doutrinariamente a partir de «O Livro dos Espíritos». Quando Kardec pergunta aos espíritos superiores qual o homem que viveu na Terra mais perto da perfeição e que nos possa servir de modelo, eles respondem apenas: «Vede Jesus.».

A figura de Jesus de Nazaré é, assim, a figura de um homem muito sábio e bom, que completou a sua filosofia com abundantes exemplos práticos, de vivência, onde a mediunidade se coloca de forma sublime e muito espontânea. Sem sobrenatural, sem milagres, sem mistérios. Apenas um homem sábio e bom.

Quando os espíritas desconhecedores do que é o espiritismo o confundiam com mediunismo (mediunidade à solta, regras de improviso atrás), devem ter pensado que uma forma de se dignificarem era recriar o rótulo redundante de espiritismo-cristão, respescando-o de «O Livro dos Médiuns». Só que espiritismo-cristão é pleonasmo – assim como «kardecismo», palavra certamente imaginada por algum espírita inseguro, já que não há espiritismo sem Allan Kardec, consumado que está o facto histórico. Logo se vê que é despropositado o termo espiritismo-cristão, pois o espiritismo ou doutrina espírita refere-se a Jesus como modelo ético por excelência, e não como aquela figura utópica sobrenatural dos beatos.

Sem mitos

Desmitificar é o lema. O espiritismo é uma doutrina que apela ao sentido de auto-responsabilidade. A felicidade não é um produto que se adquira como se fôssemos a um hipermercado. Esse estado de alma produz-se como resultado das nossas ideias e da sua concretização, dos pensamentos e atitudes em que embarcamos minuto a minuto. A felicidade conquista-se gradativamente no curso dos milénios, em que o ser vivencia experiências conducentes a porvires sucessivos, cada vez mais enriquecidos de sabedoria e amor.

Os outros são pessoas que estamos a aprender a amar, com os seus defeitos e com as suas qualidades, mas sobretudo dentro das soluções pessoais que encontram para se exprimir no universo das suas atitudes. E o sentido de fraternidade avulta, engrandece-se.

Além do véu

Além e aquém dos horizontes deste mundo físico, no plano espiritual parte da população envolvente, de pessoas sem corpo denso, vive o cristianismo inclusive antes do seu advento na Terra. Não precisam de rótulo, pois os seus actos falam por si...

Jesus de Nazaré não veio para ser uma imagem de parede ou uma réplica escultórica sem vida. Veio para nos revelar outras dimensões da vida, vencendo a morte e ultrapassando quaisquer preconceitos, saindo das imagens irreversivelmente para viver no coração das pessoas.

Por isso os fariseus o perseguiam...

O espiritismo é alvo de epítetos despropositados por parte de quem é evidente que desconhece o que ele é ou não é. Salvaguardadas respeitosas distâncias, será que a História se repete?

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