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Elisabeth d'Esperance (1855-1918)Hernâni Guimarães Andrade
«Revista de Espiritismo» nr. 40, Julho/Setembro 1998
«As casas em que os homens viveram e se finaram são todas para os fantasmas um escolhido lar. Para aí trazem mensagens aos que aqui ficaram, sem que os seus leves passos possamos escutar. Na porta os encontramos, nas escadas nós os vemos, ao longo do corredor não cessam de girar, junto a nós alguém se move, percebemos, porém tão impalpável como a impressão do ar», dizia Longfellow. D’Espérance é o pseudónimo de uma das mais notáveis médiuns não profissionais, do século XIX e princípios deste. O seu real nome de família é Hope, que em inglês também significa esperança. A biografia de Mme d’Espérance é conhecida sobretudo através do trabalho de William Oxley, Angelic Revelations; de um livro de Alexander Aksakof, Um Caso de Desmaterialização (Rio de Janeiro: FEB), e de uma autobiografia da médium, Shadow Land (No País das Sombras, Rio de Janeiro: FEB). Mme. d’Espérance publicou muitos artigos na imprensa espiritualista. Três anos após o Shadow Land ela deu a lume o Northern Lights. Com a deflagração da I Guerra Mundial, ela viu-se praticamente prisioneira na Alemanha, onde estava a residir ultimamente. Todos os seus papéis foram confiscados, inclusive o manuscrito de um segundo volume do Shadow Land. Parece que todos esses trabalhos foram destruídos. Mme. Elizabeth d’Espérance casou-se e tornou-se a senhora Reed, em 1874, passando a morar em Newcastle-on-Tyne. Faleceu em 20 de Julho de 1918, na Alemanha. O velho casarãoNa sua primeira infância, d’Espérance viveu num velho casarão, situado na parte Leste de Londres. Segundo descrição da médium na sua autobiografia, a casa, então em péssimas condições, fora habitada pela família Crommwell e conservava, ainda, o seu aspecto de dignidade e superioridade, contrastando com as construções mais recentes da sua vizinhança. Inúmeros quartos enormes achavam-se vazios, pois a família d’Espérance era pequena. Desde os seus primeiros anos de vida, d’Espérance recordava-se de passar por experiências que ela própria considerava totalmente normais, e estranhava que as demais pessoas não as compreendessem. Ela via os espíritos que circulavam pelo interior do casarão, como se fossem seus habitantes normais. Quando maiorzinha, ao tentar o relato dessas experiências às pessoas adultas de suas relações, surpreendia-se ao observar que não só não lhe davam crédito, como insinuavam que ela poderia estar a tornar-se louca. Devido à incompreensão das pessoas mais velhas, d’Espérance teve uma infância de certo modo infeliz e cheia de incidentes desagradáveis. A única pessoa que parecia compreendê-la melhor era o seu pai, o comandante de um navio. Entre os 13 e 14 anos de idade, d’Espérance passava por aguda crise no relacionamento com a sua mãe. A sua saúde achava-se abalada por isso. Devido à reacção da genitora, relativamente às suas experiências, criou-se um clima intolerável para d’Espérance, no seu lar. A situação agravou-se ainda mais quando, ao ser examinada pelo médico da família, este induziu-a a contar-lhe as suas experiências, fingindo-se seu aliado. D’Espérance, inocentemente, abriu-se com o pérfido doutor. Este, após ouvir as suas confidências, maldosamente disse à pobre garota que as pessoas que tinham visões semelhantes à dela eram candidatas seguras a findar os seus dias como loucas, metidas num hospício. D’Espérance abalou-se profundamente com as palavras do médico. A sua saúde tornou-se ainda mais precária. Agora era o constante temor de estar a tornar-se alienada mental: ”Pareceu-me que essas palavras me congelavam o sangue nas veias. Eu não podia deixar de ficar imersa num silêncio cheio de horror. Que queria dizer tudo isso? Seria esse o segredo do mundo maravilhoso em que eu havia passado horas tão felizes? Os meus amigos fantasmas não estariam realmente ali? Teriam razão os que me diziam que os meus fantasmas não existiam e que me enganava?” (d’Espérance, E. - No País das Sombras, Rio de Janeiro, FEB, 1974, p.39). As palavras levianas do médico desumano contribuíram para piorar o estado da menina d’Espérance: “Dia e noite sofri esse tormento. Ser louca! Que significava ser louca? Eu pensava em todas as coisas horríveis que me tinham contado, nos crimes cometidos por maníacos, nos horrores dos asilos de alienados, nas câmaras acolchoadas, nos ferros, nas camisas de força... e tremia de medo, e pedia a Deus, quase freneticamente, que me preservasse da loucura”. (Opus cit. p. 39) D’Espérance havia emagrecido consideravelmente. Empalidecera de modo visível. Quase não conseguia alimentar-se. Os conflitos com a mãe tinham aumentado a ponto de ser por esta esbofeteada. O pai de d’Espérance chegara de viagem justamente nesta ocasião e impressionou-se com o aspecto da jovem. Ele era o comandante de um navio e passava grande parte do seu tempo a viajar pelo mar. Vendo o estado de enfraquecimento da sua filha, decidiu que ela deveria mudar de ar e viajar para recuperar-se: ”Ela cresce, disse a minha mãe, todas as meninas ficam pálidas e magras quando têm crescimento rápido”. Disse o pai: "Eu preferiria que ela não crescesse e estivesse menos pálida e franzina. Ela devia passear mais, em vez de permanecer aqui, presa aos seus estúpidos livros e à sua costura. É preciso ver se uma mudança de ares pode restituir alguma cor a estas faces pálidas”. “Depois de muitos projectos propostos, discutidos e rejeitados, decidiram afinal que, na falta de coisa melhor, eu acompanharia o meu pai numa viagem ao Mediterrâneo, que devia durar dois ou três meses”. (Opus cit. p. 44). E, assim, d’Espérance partiu, um dia, para uma viagem de excursão pelo Mediterrâneo, em companhia do seu pai. O navio fantasmaNa sua autobiografia, d’Espérance considera essas férias no navio o período mais feliz da sua vida. Tudo correu muito bem. Infelizmente um lamentável incidente, ocorrido quase no fim da viagem, trouxe fortes dissabores à jovem d’Espérance. Fizera muito calor durante o dia. O Sol - como descreve d’Espérance - “sepultava-se num banho de chamas”. O crepúsculo era colorido por variados tons, e o mar achava-se absolutamente calmo. D’Espérance, em companhia de um jovem oficial, divertia-se a avistar os navios ao longe e tentando identificá-los. Os dois encontravam-se no tombadilho e discutiam animadamente. Súbito, d’Espérance vê aproximar-se rapidamente da proa do seu navio um grande veleiro. Estava tão próximo que ela distinguia as grandes velas enfunadas e tintas de vermelho pela luz do sol poente, bem como a sua tripulação circulando pelo convés da nau: - Olhe, olhe! - bradou, assustada. - O quê? - perguntou o seu companheiro. - O navio! Por que não pára? Vamos chocar com ele. Pare, pare! - gaguejou com terror”. (Opus cit. p. 49). Para ela o navio estava tão próximo que podiam distinguir-se os homens no tombadilho; ele aproximava-se perigosamente e com rapidez da sua embarcação. O oficial procurou conter a menina apavorada, a qual finalmente se desvencilhou e saiu correndo pelo tombadilho, sendo novamente alcançada e dominada. D’Espérance cobriu o rosto, esperando a colisão. E como nada ocorria, descobriu os olhos e avistou novamente o navio que já ia ao longe na esteira das águas cortadas pela embarcação em que ela se achava. Agora as suas velas eram cor de cinza, porque a nau se interpunha entre o Sol no horizonte e o seu navio. O veleiro fantasma havia passado através do seu navio como uma nuvem! Somente a menina o viu. O pai de d’Espérance foi cientificado do incidente. Ele e a tripulação do navio não deram mostras de acreditar na história da garota. Esta sofreu muito com a situação criada. Felizmente para a jovem, as férias já estavam prestes a terminar, e ela passou melancolicamente os últimos dias da sua excursão que começara e se desenrolara tão alegremente. A composição misteriosaD’Espérance passou cerca de dois anos na escola, durante os quais ficou liberta dos seus sonhos e fantasmas. Empenhara-se em recuperar o tempo perdido, pois a sua educação fora, até então, muito descurada. A sua saúde tornara-se boa e ela gozava de popularidade entre as colegas. D’Espérance fez rápidos progressos, alcançando facilmente as alunas mais antigas. Quando chegou a época do término dos estudos, os divertimentos foram abandonados e deram lugar a intenso trabalho por parte de todas as jovens. Como as demais, d’Espérance achava-se com as suas tarefas todas prontas e em dia para os exames finais. Entretanto, um só problema a intranquilizava. Todas deviam apresentar uma composição sobre o tema «O que é a Natureza». O prazo de entrega da composição já estava atingindo o seu limite final, e d’Espérance ainda não conseguira inspiração para desenvolver o tema da composição. À medida que os dias passavam, aumentava o seu desespero, pois tentava descrever algo sobre o assunto, e nada! Já nas vésperas do prazo final, ela fez uma das suas habituais preces pedindo a Deus uma ajuda. Antes de dormir, levou para o dormitório uma vela, várias folhas de papel e alguns lápis. Tentou escrever durante a noite, e estava mesmo disposta a ficar sem dormir para rascunhar a fatídica composição. Mas as suas colegas reclamaram ruidosamente da luz da vela acesa. O alarido foi tão perturbador que d’Espérance não teve outro remédio senão apagar a vela e, debulhada em lágrimas, deitar-se disposta a levantar de madrugada para, numa última tentativa, escrever o seu trabalho. Pela manhã, d’Espérance acordou na hora normal e ansiosa olhou para os papéis que ela deixara à noite na mesinha de cabeceira. Estava perdida! Pois não acordara de madrugada, e não teria mais tempo para apresentar nem mesmo os rascunhos à professora. Mas qual não foi a sua surpresa ao verificar que as folhas de papel estavam cobertas com uma escrita exactamente igual à sua letra! Juntou os papéis e verificou que lá se achava pronta uma belíssima composição versando sobre o tema! No momento de julgar as composições, a dela foi posta, pelo reitor e pelas professoras, fora de concurso pela alta qualidade e pelas circunstâncias como fora obtida: «O reitor explicou, depois, que ele considerava a minha composição, que ia ser lida por último, como resposta directa a uma prece. Ele não a tinha classificado entre as peças correntes, porque isso não seria justo para as outras alunas; mas não podia deixar de considerá-la como uma honra muito bela, pelo que ia tomar a liberdade de lê-la em voz alta (Opus cit. p. 65). Desse modo, d’Espérance obteve a sua aprovação final. As revelações de uma mesaAos 19 anos, d’Espérance contraiu matrimónio com o sr. Reed e foram morar em Newcastle-on-Tyne. A sua vida sofreu, então, uma brusca mudança. Passou de um convívio agitado no meio de quatro irmãos menores, dos quais ela era pajem, para a solidão de uma casa tranquila e sem companhia a não ser o marido e uma ou outra visita. Os fantasmas voltaram novamente, e com eles o temor de ficar louca. Foi nesta ocasião que ela ouviu falar sobre o espiritismo e a mesas girantes. A sua repulsa inicial cedeu diante da insistência de um casal amigo. Com o tempo, d’Espérance familiarizou-se com a prática das mesas girantes. Um episódio fê-la preocupar-se mais atentamente com esse «passatempo» tão em moda naquela ocasião. A sua mãe encontrava-se doente e necessitando submeter-se a uma intervenção cirúrgica. Fazia tempo que não tinham notícias do seu pai, e havia urgência de saber o seu paradeiro para solicitar-lhe o regresso, a fim de opinar acerca do tratamento que se recomendava à sua mãe. Consultada a mesa, esta deu correctamente o local em que o seu pai se encontrava. Assim puderam comunicar-se com ele e trazê-lo de volta para casa. A mesa deu inclusive o nome do navio em que ele se achava em experiência, visando adquiri-lo: Lizzie Morton, na cidade de Swansea. Esses nomes eram totalmente estranhos e desconhecidos dos componentes do grupo que consultava a mesa. A família de d’Espérance acreditava que ele se encontrasse em Londres e não há dez dias em Swansea conforme a mesa informara correctamente. Outro incidente interessante que ocorreu com o mesmo grupo foi o desaparecimento de um par de abotoaduras que fora colocado sobre a mesa, sem que os circunstantes dessem conta do instante do sumiço dos objectos. Posteriormente, por meio de batidas, a mesa informou que o par de abotoaduras se encontrava num outro cómodo da casa, dentro de um vaso de gerânio. A primeira busca resultou infrutífera. A mesa insistiu na informação. Resolveram então extrair a planta junto com a terra, e encontraram as abotoaduras metidas dentro da trama de raízes do gerânio! Inúmeros outros factos semelhantes de “apport” foram testemunhados por d’Espérance e seus companheiros. ClarividênciaAs mensagens por meio das pancadas da mesa já estavam a tornar-se monótonas para o grupo. Resolveram, então, tentar outros tipos de experiência, entre elas a de clarividência. Uma pessoa do grupo cobria com as mãos os olhos do paciente, e esse procurava descrever as cenas que lhe ocorriam. O sr. F. tentou a experiência com diversos componentes do grupo. Os resultados foram medíocres. Quando chegou a vez de d’Espérance, esta surpreendeu a todos, descrevendo com minúcia um facto ocorrido 12 anos antes com o sr. F., reconhecendo este último na sua visão! Começou a suspeitar-se que ela era uma poderosa médium. Ela contou aos companheiros do grupo, as visões dos fantasmas na sua infância e, assim, aquilo que lhe parecera um indício de loucura foi explicado como sendo características de forte mediunidade. Embora lhe repugnasse, também, ser uma médium, devido à má fama que se atribuía a tais pessoas, tendo em vista a sórdida campanha da imprensa e das religiões dominantes daquela época, d’Espérance resolveu prosseguir ligada ao seu grupo de amigos. Passaram, então, a tentar outros meios mais rápidos e eficientes para a comunicação com os espíritos. A psicografiaEntre as tentativas feitas, a que melhor resultado produziu foi a psicografia. Logo, d’Espérance tornou-se exímia praticante da escrita automática. Foi nesta fase da sua carreira que se identificaram alguns dos espíritos que controlavam as experiências do grupo: Walter Tracey um exestudante e combatente da guerra civil americana, muito inteligente e jovial; Hummur Stafford, que se constituiu em filósofo orientador do grupo; e Ninia, uma garotinha de sete anos. A médium distinguia perfeitamente cada comunicador pelas sensações produzidas no seu braço e na sua mão. Outras fases da mediunidadeA mediunidade de d’Espérance desenvolvia-se sucessivamente, à medida que o grupo tentava novos tipos de experiência. Assim, logo após a psicografia, tendo-se feito escuridão na sala, d’Espérance percebeu num canto uma figura luminosa, a qual era vista apenas por ela. A aparição tinha a forma de uma criança. D’Espérance fez um desenho da mesma. Outros sucessos semelhantes ocorreram. Breve a notícia espalhou-se em Newcastle e inúmeras pessoas procuraram assistir às sessões, na esperança de obterem retratos de parentes e amigos falecidos. Breve ela teve de abandonar esse tipo de actividade, pois sentia-se muito mal, sofrendo fortes dores de cabeça após as sessões. Nesta ocasião, um intelectual de Newcastle, o sr. T. P. Barkas, juntou-se ao grupo e passou a inquirir os espíritos acerca de assuntos científicos. As respostas vinham sobretudo por meio de Stafford. O nível intelectual das respostas era tão elevado que normalmente superava os conhecimentos de Barkas. Stafford surpreendeu o grupo fornecendo, além de tudo, informações minuciosas sobre futuras conquistas técnicas, entre elas o telefone, que, na ocasião, nem se suspeitava pudesse vir a existir. Barkas pronunciou conferências sobre as suas experiências, encerrando-as com uma cujo título era: «Recentes Experiências em Psicologia. Extraordinária resposta a questões sobre assuntos científicos por uma jovem senhora de instrução bastante limitada». A jovem senhora era d’Espérance, que servia como médium psicógrafa. Devido a uma série de problemas domésticos, perda dos pais e outros infortúnios, a saúde de d’Espérance sofreu violento abalo. Ela adoeceu gravemente e foi para o Sul da França para recuperar-se. O seu restabelecimento foi um verdadeiro milagre, tal a precariedade do seu estado de saúde. Ela abraçou, então, definitivamente o espiritismo e tomou a decisão de trabalhar para a conversão das demais pessoas. Todavia, ela logo descobriu, também, que as suas faculdades não se submetiam à sua vontade. Na sua viagem de regresso, d’Espérance dirigiu-se à Suécia para visitar o sr. e a sr.ª F. (membros do seu primeiro grupo). De lá, ela foi com os seus amigos a Leipzig, na Alemanha, onde conheceu o prof. Zollner. Um pequeno incidente, quando pretendia ir directo para a Inglaterra, fê-la passar uns tempos em Breslau, onde ficou a conhecer um grande amigo do prof. Zollner: o prof. Friese. A amizade entre os dois professores sofrera um abalo pelo facto do prof. Zollner haver abraçado o espiritismo. Devido a uma nova perturbação da sua saúde, d’Espérance passou uns meses na casa do prof. Friese. Durante a sua estadia, fizeram sessões em que o prof. Friese teve a oportunidade de travar conhecimento com os factos espíritas e com os guias da médium: Walter e Stafford. O resultado foi a conversão do prof. Friese ao espiritismo, em razão do que ele se viu compelido a renunciar à sua cátedra na Universidade de Breslau. Devido a este acontecimento, deu-se a reconciliação dos dois velhos amigos: prof. Zollner e prof. Friese. A primeira ectoplasmiaD’Espérance retornou à sua residência em Londres e reconstituiu novamente o seu grupo, entre cujos componentes estavam os seus antigos amigos, o sr. e a sr.ª F., e dois outros companheiros do tempo das primeiras experiências. Montaram no local das sessões uma cabina escura, formada por grossas cortinas. Sucessivamente, após as psicografias, um dos membros do grupo experimentava permanecer sozinho dentro da cabina, para ver que fenómenos poderiam advir daí. Quando d’Espérance se submeteu à experiência, ela teve várias sensações: “Veio-me depois estranha sensação que algumas vezes tornei a experimentar nessas sessões. Frequentemente vi outros descreverem essa sensação como sendo idêntica à que produziriam teias de aranha estendidas sobre o rosto; quanto a mim, porém, que me analisava com curiosidade, acreditei que de todos os poros da minha pele, estavam arrancando fios muito finos», (Opus cit. p. 65). Os «fios» a que se referiu d’Espérance deviam ser o ectoplasma que exudava através dos poros da sua pele, porque noutra ocasião semelhante deu-se a primeira manifestação de ectoplasmias conseguida pelo grupo. D’Espérance achava-se na cabina quando, subitamente, ela ouviu os assistentes exclamarem que através do vão das cortinas havia assomado o rosto dum homem! Ela perguntou onde se achava ele, pois na escuridão da cabina não distinguia senão fraca claridade que saía duma pequena parte entreaberta da cortina. Eles costumavam manter a sala francamente iluminada pela luz atenuada do gás (naquele tempo não se usava a luz eléctrica). À sua indagação, explicaram: «É ali, atrás das cortinas. Um rosto redondo, com olhos negros, bigodes e cabelos castanhos. Olhai, ele ri e faz sinais com a cabeça. Não podeis vê-lo?» (Opus cit. p. 166). D’Espérance esforçou-se para ver a aparição. Sentia os joelhos fracos. Avançou então a cabeça pela abertura da cortina; olhou para o centro e reconheceu o rosto de Walter «fixando-a com os seus olhos alegres»: «Reconheci-o logo à luz do gás projectada em cheio sobre o seu rosto; eram absolutamente as mesmas feições que eu havia visto e desenhado, ainda que em condições diferentes. «Walter», exclamei. Ele sorriu e fez um sinal de assentimento». (Opus cit. p. 166). Foi esta a primeira ectoplasmia obtida graças à mediunidade de d’Espérance. Posteriormente, Walter conseguiu corporificar-se totalmente saindo da cabina e caminhando firme até ao centro do grupo. Durante estas materializações, a médium sentia-se exaurida de forças, porém com extrema lucidez. Walter, sem dificuldade aparente, era capaz de apresentar-se tão materialmente como uma pessoa comum. IolandaDepois de Walter ter aprendido bem a controlar o processo de materialização, ele passou a ajudar outros espíritos a materializarem-se. Um deles logo pareceu dispensar a ajuda de Walter: «... foi Iolanda, uma rapariga árabe de 15 ou 16 anos, como Walter nos disse, e que se tornou uma das principais figuras das nossas sessões; era uma morena esbelta, cuja graça e naturalidade faziam o encanto e a admiração do nosso grupo». (Opus cit. pp. 181-182). Iolanda demonstrava uma curiosidade sem limites. Mexia em tudo e examinava todos os objectos. Ela gostava muito de coisas brilhantes e vistosas. Certa ocasião, uma das senhoras que frequentavam as reuniões, trouxe uma faixa brilhante de seda, da Pérsia. Iolanda encantou-se com a faixa, tomou-a e colocou-a sobre os ombros sem querer mais deixá-la. Terminada a sessão, Iolanda desapareceu e, com ela, a faixa. Na sessão seguinte, Iolanda surgiu sem a faixa. Inquirida acerca da peça, ela agitou as suas mãos no ar, tocou no seu próprio ombro, e logo a faixa aí apareceu. Inquirida onde ficava o objecto quando ele desaparecia juntamente com ela, Iolanda respondeu «que a faixa nunca havia saído da sala, e que só não podíamos vê-la por sermos cegos». Um grave incidenteDurante vários anos o grupo funcionou e, durante seguidas sessões, puderam assistir a inúmeros tipos de fenómenos. Entre eles o «apport» de vegetais vivos e inteiros como uma Ixora Crocata, um imenso lírio dourado e diversas outras plantas. Iolanda era quem produzia estes «transportes». Os espíritos materializados multiplicavam-se em número e variedade. Certa ocasião, um dos convidados, indivíduo de mau carácter, suspeitando que tais materializações eram falsas, tentou agarrar Iolanda e sujeitá-la. O resultado foi desastroso, pois ocorreu um reflexo na médium, a qual teve uma hemorragia pulmonar e ficou gravemente enferma. ConclusãoMuitas outras passagens de grande interesse deveriam ser alinhadas aqui, não fora a limitação de espaço. A vida de Elizabeth d’Espérance é um dos exemplos mais brilhantes da carreira de inauditos sacrifícios de uma verdadeira médium missionária. As suas lutas e contribuições ao campo da fenomenologia paranormal, colocam-na em lugar de proeminência no panteão dos médiuns de escol que vieram trazer as bases experimentais da parapsicologia, nos fins do século XIX e começos deste. Recomendamos a leitura da sua autobiografia, contida na obra de sua autoria «No País das Sombras», da qual extraímos estas ligeiras notas. . |
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