Portal do Espírito |
Mapa do Site | Pesquisa no Site |
Espiritismo: uma questão de atitude?Francisco Xavier de Almeida Marques Revista de Espiritismo nº. 37, Outubro/Dezembro 1997 «Quando a Ciência sai da observação material dos factos e trata de
apreciá-los e explicá-los, abre-se para os cientistas o campo das conjecturas;
cada um constrói o seu sistemazinho que deseja fazer prevalecer e sustenta
encarniçadamente. Não vemos diariamente as opiniões mais contraditórias serem
preconizadas e rejeitadas, repelidas como erros absurdos e depois proclamadas
como verdades incontestáveis? Os factos, eis o verdadeiro critério dos nossos
julgamentos, o argumento sem réplica. Na ausência dos factos, a dúvida é a
opinião do homem prudente.» Deixemo-nos de rodeios, o problema de saber se o espiritismo é ou não uma ciência continua tão actual como antes. Deve, no entanto, ser reformulado. Não se trata apenas de um problema epistemológico (epistemologia: estudo das ciências, a disciplina filosófica que estuda as condições em que um saber pode ser considerado ciência), é sobretudo um problema que envolve questões que vão da natureza do saber humano às suas condições de verdade efectiva. Kardec percebeu perfeitamente que o problema envolvia a própria estrutura da racionalidade humana, e nisso antecipou as principais correntes da epistemologia contemporânea, em especial de Popper, Bachelard ou ainda Feierhabend. Detentor de uma racionalidade arguta, experimentado no rigor da exigência do trabalho científico. Kardec não ignorava que os limites da investigação científica deveriam ser equacionados, quando se trata de factos cuja natureza ultrapassa a ordem fixista dos factos materiais, e rompem com as barreiras de um mundo simplista, positivista, sensível. Uma nova ordem de fenómenos obriga a novos métodos, em consequência a uma nova posição da racionalidade. Os laboratórios humanos provaram, no tocante aos fenómenos espíritas, não serem recursos absolutos, tão-pouco critério de investigação universal no estudo de acontecimentos que dominavam ao invés de serem dominados, que ditavam as regras de aproximação à verdade das leis desconhecidas através das quais demonstravam reger-se. Surge então a primeira consequência epistemológica de peso: em investigação espírita não é o método que subordina o objecto em estudo, mas o objecto que dita as condições de adequação do método; em termos práticos a consequência é esta: o método experimental, tal como era conhecido ao tempo de Kardec, um método que tinha por principal objectivo analisar fenómenos em bruto, que os nossos sentidos podem experimentar, dominar, manipular em laboratório, sem qualquer intervenção da subjectividade humana, cujos resultados pudessem ser generalizados, e cuja receptividade fosse evidente, não tem razão de ser para fenómenos cuja natureza ultrapassa as fronteiras do mundo sensível. Logo, era preciso reavaliar o método, e criar, dentro das exigências exequíveis deste, um método mais dinâmico, capaz de oferecer um quadro lógico-racional, científico, sustentado por uma teoria sólida. Foi o que Charles Richet, Prémio Nobel de Fisiologia, famoso pela sua teoria Metapsíquica das manifestações paranormais, reconheceu na forma original de Kardec abordar a investigação dos fenómenos espíritas: «...rigorosamente científica». O problema é saber se com tais exigências o objecto de investigação do espiritismo, o espírito, pode ainda ser considerado positivo a ponto de se poder submeter a tratamento científico. Na verdade há uma limitação essencial no objecto da ciência: a ciência não trata da «existência» dos seus objectos, esse é um problema da ontologia ou da metafísica, domínios específicos da especulação filosófica. A ciência trata de relações entre os fenómenos, das suas leis ou regularidades. Por este facto, um cientista pode com efeito deter-se nos domínios estritos dos fenómenos, compreendendo o seu funcionamento, porém, quando se trata de alargar o campo das suas conjecturas à essência dos fenómenos ele perde a sua autoridade como cientista, e torna-se possivelmente filósofo. É justamente por esta razão que a questão da cientificidade do espiritismo não é fácil. Kardec percebeu que em certos domínios «...o Espiritismo não é da alçada da ciência», ele era com efeito o cientista experimentado, nos métodos e no exame crítico dos pressupostos científicos, levou até onde lhe foi possível o trabalho científico do espiritismo, mas confrontou-se com algo mais do que meras relações entre fenómenos, ele confrontou-se com «existências» que apresentavam essências diversas resultantes das diferenças entre estádios de desenvolvimento intelectual e moral que os espíritos apresentavam. A teoria espírita não é apenas o produto de uma mente brilhante que organizou, comparou, investigou, metódica e sistematicamente, o que as vozes por detrás de tais fenómenos informavam — é a consequência rigorosa de uma atitude experimental e dinâmica, precursora da mais recente atitude científica contemporânea. Pode então dizer-se que o espiritismo é ciência? Creio que pode dizer-se que a Teoria Espírita é científica no sentido em que se sustenta em procedimentos rigorosamente científico-experimentais, no quadro admissível do que hoje é considerado científico, mas completa-se em múltiplos aspectos de natureza antropológica: éticos, sociais, psicológicos, etc., porque o seu objectivo fundamental não era constituir-se como ciência autónoma, mas como sistema integrador de referências culturais que promovessem em todas as dimensões a realização do espírito humano. Kardec não chegou à conclusão da existência de espíritos com base em conjecturas metafísicas. A sua base é rigorosamente metafísica, é a partir dela que Kardec sustenta a metafísica espírita, procedimento igualmente comum a físicos e astrofísicos contemporâneos como Kapra, Prigogine, P. Davis, entre outros, que ao investigar os assombrosos enigmas da matéria e do universo ousam conjecturar em domínios que ultrapassam ou, quem sabe, aproximam tais saberes à metafísica. É um procedimento natural à racionalidade humana que insiste em vencer os seus limites (Kant), mas em Kardec perfeitamente justificado, pois tais enigmas têm rosto, têm voz, abrem efectivamente as portas do desconhecido de uma forma surpreendente. A descoberta de novos universos e sobretudo a desmistificação da morte como fenómeno de aniquilação total do ser são a consequência doutrinal do tratamento experimental que Kardec deu à fenomenologia espírita espontânea. Consequências de peso inegável. Outros princípios básicos da epistemologia espírita sustentam o seu espírito científico: «Sempre que a ciência provar que o Espiritismo está errado nalgum dos seus pontos, o Espiritismo o abandonará e seguirá a Ciência» (L.E.) e «...os espíritos são os homens e as mulheres que viveram na Terra, a sua sabedoria tem limites, podem enganar-se...»(L.M.), há factores espácio-temporais e de desenvolvimento intelectual e moral dos espíritos que determinam estes limites, em muitos casos são inultrapassáveis. Esta abertura ao rigor, esta exigência de cientificidade destaca o espiritismo de outras doutrinas espiritualistas. É o seu positivismo e exigência de racionalidade que o torna único entre as demais doutrinas, facto que, aliás, é relevante na análise de Kardec à fenomenologia espírita: «aceitar somente o que é racional e logicamente sustentável – suspender o juízo quando se tratam de revelações que ultrapassam a nossa capacidade de análise e de compreensão dos fenómenos». Note-se que esta não é uma atitude de prepotência da razão humana: o espiritismo não nega o mistério, a fé ou outros pressupostos dos espiritualismos dominantes. Não pode, contudo, aceitar que os mesmos se constituam como alternativas à ciência, comparativamente, num mesmo plano de conhecimento – não se trata de prepotência, mas de prudência. Na perspectiva espírita não há confusão de planos. Fé aceitável é aquela que enfrenta a razão «face a face» em todas as épocas da humanidade. Se a Teoria Espírita negasse a sua raiz científica, negar-se-ia a si própria, seria seguramente mais uma entre as muitas aventuras da imaginação humana, nunca uma doutrina de inegável valor e utilidade para o sentido de plenitude a que o homem aspira. Por tudo isto, ser espírita não é apenas uma questão de atitude, é sobretudo uma questão de fundamentos, uma posição epistemológica fundada em critérios rigorosos, positivos, de racionalidade e de lógica do conhecimento inovadores. |
Página principal | Mapa do Site | Pesquisa no Site |
![]() |