Eusapia Paladino

Hernâni Guimarães Andrade

«Revista de Espiritismo» nr. 39, Abril-Maio-Junho 1998

«A ciência é aberta, mas os sábios são fechados»
Victor Hugo

Eusapia Paladino foi uma das médiuns mais conhecidas da sua época; foi também uma das mais controvertidas. Poucos médiuns atraíram a atenção de tantos e tão proeminentes cientistas como Eusapia. No entanto, ela era uma mulher inculta, de precária educação, temperamental e de saúde instável.

Os fenómenos provocados graças à sua mediunidade, conquanto na sua maioria autênticos, eram mesclados com tentativas de fraude. Quando Eusapia (1854-1918) não lograva produzir um fenómeno solicitado ou anunciado por ela própria, o seu primeiro gesto era obtê-lo fraudulentamente. Este comportamento valeu-lhe e aos seus investigadores sérios aborrecimentos. Quem perlustra o vasto relato das suas actividades mediúnicas encontra uma divisão de opiniões acerca da autenticidade dos fenómenos provocados por Eusapia. Os pesquisadores mais tolerantes e persistentes lograram observar factos autênticos e realmente extraordinários. Os excessivamente cépticos e com a ideia fixa de que iriam apanhar Eusapia em alguma fraude praticamente não conseguiram presenciar senão fenómenos medíocres, misturados com várias tentativas de trapacear. A opinião mais generalizada era a de que tais atitudes visando a enganar os observadores seriam inconscientes. Pareciam um reflexo da disposição dos investigadores. Ela própria explicava as suas falhas dizendo: Eles pedem que eu os engane e eu atendo aos seus desejos. Era, talvez, a influência do observador sobre o evento observado, graças à susceptibilidade da sensitiva em estado de transe.

Mas, como iremos ver, a fama de Eusapia era merecida e apoiada em factos realmente notáveis e autênticos, testemunhados por pesquisadores sérios, competentes e capazes de controlarem rigorosamente a médium, de maneira a não haver margem para dúvidas.

Dados biográficos

Eusapia Paladino nasceu em Minervo-Murge, próximo de Bari, em Itália, em 21 de Janeiro de 1854. A sua mãe faleceu em consequência deste parto. Em 1866, aos 12 anos de idade, testemunhou o assassinato do seu pai por bandidos. Eusapia viu-se órfã, e foi acolhida em casa de pessoas amigas. Tratava-se de uma família abastada de Nápoles, que a recebeu como empregada doméstica.

Quando era ainda mais nova e morava com o pai, Eusapia ouvia batidas nas peças do mobiliário, para as quais ela dirigia o olhar. Quando ficava no escuro, via olhos a observarem-na. À noite, apavorava-se ao sentir que mãos invisíveis puxavam os seus cobertores.

Em casa dos seus patrões ela foi logo notada como sendo uma jovem diferente das demais. Era costume na Europa, naquela época, as famílias divertirem-se consultando as mesas girantes. Uma ocasião, as pessoas com as quais ela convivia convenceram-na a sentar-se à mesa na companhia de outros participantes. Passados alguns instantes, a mesa levitou, as cadeiras deslizaram sozinhas pelo chão, as cortinas da sala agitaram-se, os copos, garrafas e outros objectos da cristaleira tiniram, batendo uns nos outros. Feita uma triagem entre os presentes à mesa, logo se descobriu que Eusapia era a potente médium causadora daquilo tudo.

A sua verdadeira educação mediúnica deve-se a um espírita, sr. Damiani, um bom investigador de fenómenos paranormais. Damiani era casado com uma senhora inglesa. A esposa de Damiani assistia a uma sessão em Londres, quando o conhecido espírito John King se manifestou naquela ocasião e disse a dona Damiani que procurasse em Nápoles uma poderosa médium. Deu o endereço de Eusapia rua e número, acrescentando que Eusapia era a reencarnação da filha do próprio John King. Este facto ocorreu em 1872, quando, então, Eusapia já tinha 18 anos. A dona Damiani teve uma sessão com a médium, durante a qual se manifestou o espírito de John King. Daí em diante ele tornou-se o «guia» de Eusapia.

Em 1888, no n.º 20 do periódico de Roma, «Fanfulla della Domenica», o professor Cesare Lombroso publicou um artigo intitulado «Influência da Civilização sobre o Génio». Num certo ponto do seu trabalho, Lombroso dizia: «... Quinze ou 20 anos bastam para fazer admirar por todo o mundo uma descoberta qualificada de loucura no momento em que foi feita; presentemente as sociedades académicas riem-se do hipnotismo e da homeopatia; quem sabe se os meus amigos, e eu que nos rimos do espiritismo, não nos encontramos em erro, precisamente como ocorre aos hipnotizados? Graças à ilusão que nos envolve, talvez sejamos incapazes de reconhecer o nosso engano, e, como muitos alienados, colocando-nos ao lado oposto da verdade, rimo-nos dos que não estão connosco».

Nesta ocasião, o professor Ercole Chiaia estava empenhado em observar os fenómenos provocados por Eusapia Paladino. Entusiasmado com as palavras de Lombroso, ele dirigiu uma carta aberta a este último, publicando-a num periódico de Roma, em 9 de Agosto de 1888. Nesta carta, Ercole Chiaia elogiou a posição e convidou-o a assistir a sessões levadas a efeito com Eusapia. Eis um excerto da carta de Chiaia a Lombroso: Refiro-me a uma enferma de uns 30 anos de idade que pertence à classe mais humilde da sociedade, e que é bastante ignorante. O seu olhar não é nem fascinante nem dotado daquela força que os criminalistas modernos denominam de irresistível; porém, em virtude de fenómenos surpreendentes, próprios da sua enfermidade, pode, se o desejar, divertir durante uma hora, tanto de noite como de dia, a um grupo de curiosos mais ou menos cépticos, mais ou menos fáceis de contentar.

Atada a uma cadeira, ou segura com força pelos braços dos curiosos, atrai os móveis que a rodeiam, levanta-os, sustém-nos no ar como o féretro de Mahomet, e os faz descer, com movimentos ondulatórios, como se obedecessem a uma vontade estranha; aumenta ou diminui o seu peso; golpeia as paredes, o tecto e o chão, com ritmo e cadência, respondendo aos convites dos assistentes; clarões parecidos com os da electricidade saem do seu corpo, envolvem-na ou rodeiam os assistentes dessas cenas maravilhosas; desenha o que se deseja sobre o papel, números, assinaturas, nomes, frases, estendendo apenas a mão para o sítio indicado; coloca-se num lugar qualquer da habitação uma bacia com argila húmida, encontram-se depois de alguns instantes a impressão de uma mão grande ou pequena, a impressão de um rosto de admirável precisão, visto de frente ou de perfil, e de cada qual pode tirar-se um molde.

Esta mulher eleva-se no ar, sejam quais forem os laços que a retenham, ficando como que deitada no vazio, contrariando todas as leis da estática e parecendo franquear as da gravidade; faz soar instrumentos de música, órgãos, campainhas, tambores, como se estivessem sendo tocados por mãos, ou agitados pelo sopro de gnomos invisíveis.

A carta aberta de Chiaia a Lombroso faz um intervalo, tecendo algumas considerações sobre as possíveis reacções de Lombroso diante dessas revelações, e prossegue acrescentando mais o seguinte: Porém, permita-me continuar; esta mulher, em certas condições, pode aumentar a sua estatura mais de 10 centímetros; é como uma boneca de guta-percha, como um autómato de novo género; adquire formas raras; quantas pernas e braços tem? Não o sabemos.

Enquanto os seus membros estão seguros pelos assistentes mais incrédulos, vemos aparecer outros sem saber de onde saem. O seu calçado torna-se muito pequeno para conter os pés aumentados, e esta circunstância faz supor a intervenção de um poder misterioso.

Quando se ata esta mulher, vê-se aparecer um terceiro braço, que ninguém sabe de onde vem, o qual tira chapéus, relógios, dinheiro e demais jóias, devolvendo-as com alegre familiaridade.

Muda de lugar algumas peças da indumentária dos concorrentes, acaricia e retorce os bigodes, dando ocasião a que reparta algum estalo, pois tem os seus momentos de mau humor.

É sempre uma mão grosseira e calosa (já se disse que a de Eusapia é pequena) com grandes unhas e humedecida, fazendo estremecer ao seu contacto, porque passa do calor ao frio glacial do cadáver. Esta mão deixa-se apertar e observar com atenção, tanto como permite a luz do ambiente, e acaba por erguer-se, ficando suspensa no ar, como se estivesse amputada à raiz do antebraço, parecendo as mãos de madeira que são expostas nos mostruários das casa de luvas.

Concluímos aqui a transcrição do trecho da carta do professor Ercole Chiaia ao professor Cesare Lombroso.

Escolhemos este importante documento porque ele retrata com grande riqueza de detalhes a extensa fenomenologia produzida graças à mediunidade de Eusapia, justamente quando a médium se encontrava no início da sua carreira e quando se mostrava no apogeu da sua energia mediúnica.

É desnecessário dizer que Lombroso aceitou o desafio, mas investigou o caso de Eusapia somente em 1891, tendo-se rendido à evidência dos factos. Converteu-se e escreveu o seguinte: «Estou cheio de confusão, e lamento haver combatido com tanta persistência a possibilidade dos factos chamados espíritas».

A conversão de Lombroso teve como consequência despertar a atenção de um grande número de cientistas europeus famosos, levando-os a investigar os fenómenos da Eusapia Paladino.

Os cientistas interessam-se

O prestígio de Cesare Lombroso era enorme no meio científico. Isto fez com que inúmeros sábios de renome internacional se dispusessem a investigar os fenómenos de Eusapia Paladino. Após as sessões em que tomou parte Lombroso, em 1891, foram constituídas várias comissões integradas por nomes famosos que passaram a estudar tais ocorrências.

A comissão de Milão, em 1892, era integrada pelo professor Schiaparelli, director do Observatório de Milão; prof. Gerosa, catedrático de Física; prof. Emarcora, doutor em Filosofia Natural; dr. Alexandre Aksakof, conselheiro de Estado do czar da Rússia; barão Carl Du Prel, doutor em Filosofia, de Munich; e prof. Charles Richet, da Universidade de Paris. Realizaram 16 sessões.

Sucessivamente, foram constituídas outras comissões de investigação, as quais, por ordem de data, são as seguintes: em Nápoles, 1893; em Roma, 1893 e 1894; em Varsóvia e França, 1894; a de França, em 1894, foi controlada pelo prof. Charles Richet, sir Oliver Lodge, mr. F. W. H. Myers e doutor Julien Ochorowicz. Em 1895, Eusapia foi a Inglaterra, onde, na casa de F. W. H. Myers, foi observada pelo prof. Henry Sidgwick e sua esposa, por sir Oliver Lodge e o dr. Richard Hodgson. Em 1895 foram realizadas em França, em casa do coronel Eugene Auguste Albert De Rochas, uma série de sessões, as quais inspiraram a obra de De Rochas: «Exteriorização da Motilidade». Neste óptimo trabalho ele faz um relato muito minucioso acerca da mediunidade de Eusapia. É uma das obras mais completas a respeito desta notável médium.

Outras sessões foram levadas a efeito: em Tremezzo, Auteil e Choisy Yvrac, em 1896; em Nápoles, Roma, Paris, Montfort e Bordéus, em 1897; em Paris, em Novembro de 1898, perante uma comissão composta dos seguintes cientistas: Camille Flammarion, Charles Richet, De Rochas, Victorien Sardou, Jules Claretie, Adolph Bisson, Gabriel Delanne, Guy de Fontenay e outros; finalmente, em 1901, no Clube Minerva, em Genebra, com a presença dos seguintes observadores: professores Porro, Morselli, Bozzano, Venzano, Lombroso, Vassalo e outros. Além dessas, Eusapia produziu muitas outras sessões, na Europa e na América do Norte, quase todas assistidas por cientistas.

A ilha Roubaud

Em 1894, na residência do prof. Charles Richet, na Ilha Roubaud, sir Oliver Lodge e Frederich W. H. Myers presenciaram fenómenos físicos impressionantes, aparentemente autênticos e muito bem controlados.

Oliver Lodge fez um relatório e encaminhou-o à Society for Psychical Research, de Londres. O dr. Richard Hodgson nesta ocasião residia em Boston, nos EUA, mas assim mesmo criticou o trabalho de sir Oliver Lodge, asseverando que as precauções assinaladas não teriam sido suficientes para ter evitado uma possível fraude. A atitude de forte cepticismo manifestada por Hodgson provocou a reacção de Lodge, Myers e Richet. Os quais responderam cada um a seu turno. As respostas de Myers e Lodge foram publicadas em periódico da própria SPR.

Damos abaixo um extracto da resposta de Richet: «Dizer a mão está bem segura, que significa, primeiro, que não se tem nenhuma dúvida sobre o lado da mão que se retém. Se, prendendo a mão enquanto um fenómeno se produzia, eu não estivesse mais absolutamente seguro de que era a mão direita (no caso em que eu tinha por missão prender a mão direita) logo eu parava tudo dizendo Eu soltei a mão, e todos os experimentadores faziam o mesmo.

«Nós havíamos combinado prender a mão fortemente, todos os dedos em nossa palma, ou o punho e uma parte dos dedos.

«Tínhamos cuidado, a cada fenómeno, de chamarmo-nos, uns aos outros, para a observação exacta. Dez vezes, cem vezes, no curso de uma sessão, de maneira a tornarmo-nos insuportáveis, ad nauseam, nós repetíamos Eu seguro bem a mão direita, eu seguro bem a mão esquerda.

«Não tínhamos outra preocupação senão impedir que uma das mãos de Eusapia se nos escapasse. Pois bem!

«Sem nos acreditarmos mais perspicazes e mais hábeis do que convém, parece-me que após três meses de exercício e meditação, pode chegar-se à certeza de que se agarra bem uma mão humana» (Richet, C., «Traité de Métapsychique», Paris: Félix Alcan, 1923, p.543).

Apesar do testemunho de Richet, Myers e Lodge, o cepticismo dos membros da SPR, particularmente de Richard Hodgson, não arrefeceu. Eusapia foi convocada para ser observada em Cambridge, Inglaterra.

As experiências de Cambridge

Eusapia Paladino chegou a Cambridge em Agosto de 1895. Foi hospedada na residência de Myers, onde permaneceu várias semanas, pois as experiências prolongaram-se pelo mês de Setembro.

O objectivo era submetê-la à observação de alguns membros da SPR (Society for Psychical Research), de Londres.

Parece que Eusapia se ressentiu com o clima inglês ou, talvez, com a atmosfera do frio cepticismo e excessiva desconfiança de alguns dos investigadores ingleses; nem todos, evidentemente. Eusapia adoeceu.

Henry Sidgwick e Richard Hodgson continuaram a insistir na tese da fraude. Um dos principais recursos usados pela médium seria a libertação de uma das mãos da mesma, que os vigilantes pensavam estar a segurar.

Infelizmente, Eusapia não foi bem sucedida em Cambridge.

Em 11 de Outubro de 1895, Henry Sidgwick apresentou uma comunicação à assembleia geral da SPR, afirmando «que a médium havia empregado ou tentado empregar esses diversos recursos nas experiências de Cambridge, que deviam ser considerados como fraudulentos, e que pelo mesmo motivo não havia lugar a que se inserissem entre os Proceedings da Sociedade». (De Rochas, A. «Exteriozación de la Motilidad», Barcelona; Maucci, 1896, p. 139).

Myers, que houvera assistido às sessões de Cambridge, concordou em parte com o relatório de Sidgwick. Ao que parece Eusapia foi mesmo apanhada a tentar usar uma das suas mãos liberta, para simular um dos fenómenos. Mas ele afirmou que as experiências feitas com Richet, na ilha Roubaud em 1894, foram perfeitamente controladas e os fenómenos indubitavelmente genuínos. E procedeu à leitura de uma carta remetida por Lodge, o qual não pudera comparecer à reunião. Vamos transcrever um trecho dessa carta: «Não assisti, em Cambridge, a mais que duas sessões que tiveram lugar depois da descoberta da fraude. Na primeira, acreditei ver alguns fenómenos autênticos; a segunda foi completamente fraudulenta».

«Procurei examinar com a maior atenção a dita fraude e estou convencido da sua existência, embora não possa determinar se Eusapia procede consciente ou inconscientemente.

«Sejam quais forem as condições fisiológicas em que a médium se encontre, o facto material é que, na sessão que nos ocupa, ficou em liberdade uma das suas mãos.

«Resta agora por examinar até que ponto pode modificar-se a minha primeira comunicação, inserida no «Journal» da SPR, do mês de Novembro de 1894. Aos olhos do público (se é que o público o leu) parecerá uma nota de descrédito, porém, ante o juízo de todo o homem prudente e investigador da verdade, os principais factos determinados no dito documento não podem aparecer como fantasias do meu espírito. Até atrevo-me a dizer que alguns dos fenómenos observados em Cambridge, não creio possam explicar-se cientificamente por uma hipótese tão simples como a de uma mão livre, desprovida de algum mecanismo.

«Admito, sem embargo, a conveniência de apurar, até o final, qualquer explicação normal e, por esta razão, considero que a decisão mais prudente é deixar de lado muitos factos que não podem explicar-se racionalmente.

«Sem embargo, se olvidarmos as condições em que se colocava Eusapia na ilha de Roubaud, dentro das quais resultava dificílima a substituição das mãos, expor-nos-emos a sacrificar muitos factos autênticos.

«E quando me recordo do facto da chave metida na fechadura, da quantidade de luz que penetrava pela janela, e da atenção com que todos dirigíamos as vistas para o espaço que ficava livre entre a porta e Eusapia; quando acode à minha mente o transporte da chave desde a porta até à mesa e vice-versa, não posso menos que considerar muito absurda a suposição de que Eusapia chegasse a realizar estes transportes, sem que algum de nós se desse conta.

«Quando me recordo da levitação da caixinha de música enquanto Eusapia se apoiava em mim, achando-se fora do alcance do instrumento; quando penso nos movimentos daquela cadeira perceptíveis à luz da Lua; o inflar da cortina, o tinteiro que se afastava gradualmente do nosso círculo, etc., não posso ver de nenhum modo semelhança alguma entre as miseráveis sessões fraudulentas de Cambridge, e as manifestações da ilha de Roubaud.

«E a personalidade chamada John (John King) que se revela no transe da médium? Na sessão de Cambridge apenas se manifestou, enquanto na ilha de Roubaud tivemos ocasião de reconhecer uma direcção invisível que dava testemunho do seu zelo, fazendo com que se repetissem os fenómenos quando algum dos assistentes expressava as suas dúvidas» (De Rochas, opus cit, pp.140 e 141).

A carta de sir Oliver Lodge prossegue aceitando a classificação de fraudulentas dada às sessões de Cambridge, mas reafirmando a autenticidade e o correcto controlo havido nas sessões da ilha de Roubaud.

A sessão de 1908

Em 1908, Everard Feilding, Hereward Carrington e W. W. Baggally levaram a efeito uma série de doze sessões com Eusapia Paladino. Para isso fizeram uma preparação prévia do local e um plano praticamente perfeito de controle. Contrataram um taquígrafo para anotar minuciosamente o desenrolar das sessões, inclusive aquilo que fosse dito durante as mesmas.

Submetida ao mais rigoroso controle, Eusapia logrou produzir nada menos de 470 fenómenos, os mais variados, sem haver conseguido fraudar nem uma só vez. Foi esta, talvez, uma das mais rigorosas séries de sessões a que Eusapia foi submetida.

Feilding assinalou, com surpresa, que quanto mais perfeito era o controle sobre a médium tanto mais fenómenos autênticos ela produzia, reduzindo-se significativamente as suas tentativas de fraudar. Ao que parece, as sessões de Cambridge foram levadas a cabo numa ocasião em que Eusapia se achava na sua fase negativa. O desejo da médium de realizar os fenómenos esperados levou-a a tentar efectuá-los, usando os meios naturais facilitados de que ela dispunha na ocasião; por exemplo, se lograva libertar uma das mãos, instintivamente Eusapia procurava utilizar-se deste membro livre. Em Cambridge, a médium achava-se enferma e acuada por uma atmosfera de frio cepticismo e extrema desconfiança. Ocorreu aquilo que ela sempre afirmara: «Se me pedem que eu fraude, assim eu procedo...». O médium é, antes de tudo, um sensitivo, e não uma máquina de produzir fenómenos maravilhosos.

Conclusão

Aqui encerramos esse rápido relato a respeito de Eusapia Paladino. Infelizmente o espaço de que dispomos apenas permitiu-nos dar uma pálida ideia desta extraordinária médium.

A parapsicologia jamais resgatará a sua dívida para com esta mulher humilde, sofrida, e tantas vezes injustiçada que, não obstante, sacrificou a sua existência a serviço desta disciplina científica.