A foto Kirlian

Ricardo di Bernardi

«Revista de Espiritismo» nº. 32
Julho-Agosto-Setembro 1996
Federação Espírita Portuguesa

O doutor Ricardo Di Bernardi, médico pediatra e homeopata, interessa-se muito pela investigação do chamado efeito-kirlian. Trata-se de uma energia que rodeia os corpos e que é atribuída por muitos à irradiação da aura dos seres vivos. Em circuito de palestras e seminários no nosso país, no passado mês de Junho, encontrámo-lo no Porto e a entrevista aconteceu.

Este médico não vem a Portugal pela primeira vez: residindo em Florianópolis, Santa Catarina (Brasil), Ricardo Di Bernardi já visitara Portugal e o seu movimento espírita em Março de 1994. Não é, assim, um novato nesta área, bem pelo contrário, pois note-se que, nos seus tempos livres, há alguns anos, participou na fundação do Instituto de Cultura Espírita de Florianópolis, sem esquecer que é o bem-quisto autor de dois livros: «Gestação, Sublime Intercâmbio» e «Reencarnação e Evolução das Espécies». No futuro, acalenta a ideia de fundar um Colégio Espírita e a Associação de Médicos Espíritas da sua cidade.

Em Portugal, palestrou sobre dois temas: Efeito-kirlian - fluido vital, a sua movimentação pela homeopatia e pelo passe com estudos kirliangráficos e Gestação, reencarnação e evolução das espécies. Chegando a Lisboa no dia 15 de Junho, conferenciou em 16 de Junho em Loulé, em Lagos, no Hotel Golfinho, a 18 Junho, um dia depois no Porto (Núcleo Espírita Cristão), no dia 19, em Leiria, dia 21 Viseu e dia 22, no auditório da FEP, ministrou um seminário.

A nossa conversa, contudo, estendeu-se em torno das «fotografias da aura». Lembramos que uma das experiências mais interessantes com esta tecnologia ocorreu quando alguns investigadores - como a doutora Thelma Moss, nos EUA - obtiveram fotos do chamado efeito-fantasma: a reconstituição energética de uma ponta de folha cortada a nível kirliangráfico. E aí residiu o apogeu desta pesquisa.

Em Florianópolis, a equipa de trabalho que Ricardo Di Bernardi integra conta uma média de fotos estudadas difícil de contar: 20 mil.

«Revista de Espiritismo» - A kirliangrafia foi abandonada por vários pesquisadores. Por que é que se interessa por ela?

Dr. Ricardo Di Bernardi - A foto-kirlian, na realidade, é questionável. Há muitos factores que interferem na interpretação, na avaliação dessa foto. Ela mede muito a quantidade de água existente no dedo, a maior ou menor pressão do dedo, que altera a foto, e esta foto também representa muito o momento do indivíduo. A foto-kirlian, é bom que se diga, não é a fotografia da alma, nem do perispírito, ela é uma foto de uma emanação energética que o conjunto indivíduo produz, e nesse conjunto existem n factores a considerar.

Apesar disso, nós temos observado que elas são úteis na avaliação antes e após o passe, na transfusão de energia (ver caixilho na próxima página).

Apesar disso, as fotos às 20h00, antes da sessão mediúnica, e às 22h00, após a sessão mediúnica, ela difere de uma forma significativa. Por exemplo, diminuem as irregularidades da foto, as cores tornam-se mais claras, as fotos ficam mais homogéneas e ganham mais em energia, em campo de vibração. Então, como isso se repete, nós continuamos trabalhando, sabendo embora que esses senões subsistem.

Nós temos feito também trabalhos interessantes, apresentados em congressos médicos, antes da prescrição homeopática e após. Nós fazemos a foto antes de ingerir o medicamento homeopático, 5 minutos, 10, 15 e 30 minutos após a ingestão desse remédio. E nós comprovámos que a aura cresce em energia. O diâmetro da energia aumenta significativamente, demonstrando que movimenta o campo de energia da pessoa. Se é o fluido vital, é questionável, eu até acredito que também seja. Mas o que é importante é que eu consigo observar nessas fotos uma acção do remédio homeopático, inclusive apresentei um trabalho, num congresso, com um placebo e com remédio homeopático. Nós colocámos um frasco com água e álcool e outro frasco com remédio homeopático, nem eu, nem o paciente, nem quem bateu as fotos sabia qual era o frasco do remédio(Licopodyum clavato, a 10 mil dinamizado, uma verdadeira bomba energética) e do placebo. Vinte e um dias depois o paciente voltava e tomava outro frasco B, abria-se os envelopes e verificou-se que, quando ele tomava o placebo, a foto dele permanecia igual; quando ele tomava outro frasco com aquele remédio, as fotos-kirlian demonstravam que havia um ganho de energia importantíssimo, aos 5, 10, 15 e 30 minutos. Quer dizer, não é o efeito psicológico que funciona aqui. Outro detalhe: as fotos foram feitas graciosamente, bem como todos os envolvidos nas experiências. Portanto, a foto- kirlian ainda tem utilidade. Há críticas sérias, por pessoas de alto nível, como Guimarães Andrade, que é uma pessoa respeitabilíssima sob todos os pontos de vista. No entanto, não nos parece que este fenómeno mereça ser abandonado em termos de investigação.

É de evitar o que está a acontecer: pessoas inescrupulosas trabalham com foto-kirlian sem nenhuma responsabilidade, comercializando-a de uma forma absurda, com interpretações igualmente absurdas. Então, com isso nós não compactuamos. Mas não podemos generalizar. É como se um médium fraudasse, enganasse, não poderíamos dizer que a mediunidade é, por isso, um mal.

RE - Como é recebido com exposições sobre o efeito- kirlian em congressos médicos?

RB - Nós apresentámo-los só em congressos homeopáticos: num congresso Brasil-Argentina, em Curitiba, e num congresso em Gramado, no Rio Grande do Sul. Nos dois locais houve uma aceitação muito grande e muita dúvida, mas todos ficaram até entusiasmados com os efeitos. A grande maioria dos colegas desconhece completamente o fenómeno, mas em princípio a documentação apresentada impressionou positivamente.

RE - Pode citar um caso da sua clínica em que o efeito kirlian possa ter ajudado a fazer o diagnóstico?

RB - Nós tivemos uma paciente que apresentava um quadro de distúrbio de conduta emocional e que, além do psicólogo, ela procurou-me como médico homeopata. Então foi feita a foto-kirlian e notou-se (pense num relógio, ponteiros na altura das 2h00 da tarde), uma massa avermelhada, de uma energia que lá de fora e adentrava na parte interior da aura dela, assim como uma imagem de amendoim (alguns consideram complexo de culpa, outros chamam a isso energia intrusa). E realmente, a partir desse momento, nós conversámos com a paciente e observámos que ela tinha um processo obsessivo. Então, não estamos convencidos ainda disso, mas parece repetir-se no caso de obsessão. Ainda está em estudo. Mas nesse caso era evidente o processo, e como ela não era espírita, nós abordámos o assunto como energia intrusa, pensamento, magnetismo, mente, e falámos-lhe da importância de ela mudar a frequência do pensamento dela, para não sintonizar com aquela energia. E então ela dizia mas que energia é essa? Eu disse-lhe Nós podemos conversar sobre isso noutra oportunidade, mas agora, precisa mudar de frequência, etc.. Depois de algum tempo, nós até emprestámos uns livros para ela, adequados para não a assustar com a ideia dos espíritos obsessores. Ela depois veio a entender que aquele processo obsessivo assentava na sua atitude mental.

Entrevistá-la bastava, obter dados anamnésicos, mas se se pode dispor de uma imagem, é mais um dado. Contudo, nós não somos de opinião de se deva usar a foto-kirlian para diagnosticar mediunidade ou obsessão: nós acreditamos que é um dado complementar. É como alguém que pensa Ah, médium agora vai deixar de existir, não vai trabalhar mais « por causa da transcomunicação instrumental » isso é utópico (e há gente que reage à transcomunicação por isso).

A kirliangrafia só por si não vem resolver o problema de ninguém, mas é um dado complementar. Um filho meu esteve com pneumonia e a radiografia estava normal; eu diagnostiquei pneumonia não pela radiografia, mas pelo estado clínico do paciente.

RE - Há quem defenda que a foto-kirlian pode assinalar uma doença antes que ela atinja o corpo físico. Como comenta isso?

RB - Muitos investigadores consideram isso. Na União Soviética foram feitos trabalhos e obtiveram imagens que depois se constataram pragas consequentes, que não tinham ainda fisicamente, mas que já eram assinaladas nas kirliangrafias.

No nosso grupo de trabalho, a pessoa principal, mais estudiosa, é o físico Walter Lange. Ele está convencido de que certas imagens na foto-kirlian parecem representar determinados quadros: por exemplo, depressão tem uma imagem específica, há uma lacuna, um buraco na aura; angústia, tristeza, a aura fica estreitinha, fina; em estafa mental ocorre uma dilatação; no conflito emocional vê-se como se fosse um orifício no centro da aura, e assim por diante.

Portanto, repetem-se muito as imagens e há uma correspondência com os quadros clínicos.

Então, se não estamos, neste grupo, convencidos ainda, estamos propensos a admitir que realmente a imagem energética preexiste à imagem física (mesmo que seja electricidade, electrostática, não interessa).

RE - Ao voltar a visitar algumas associações portuguesas, como comenta o movimento espírita?

RB - Vemos, felizes, o movimento a crescer, até pelos periódicos de imprensa espíritas portugueses.

Parece-me que para o norte existem algumas características um pouco diferentes do sul, mas todas elas compatíveis com a doutrina espírita. O pessoal do sul parece-me mais solto, mais aberto para outros assuntos, mas parece-me que os do norte têm mais receio de fugir das bases kardecistas, e longe de nós recomendarmos que fujam, mas acredito que algumas informações adicionais poderão enriquecer essa base.

Eu lembro aquela frase de Kardec que diz que quando a ciência demonstrar que o espiritismo está errado num ponto, o espiritismo se modificará nesse ponto.

O espírita, hoje, não está ao nível de Kardec, está muito abaixo, eu gostaria que fosse só a metade. Quando a ciência demonstrar que o espírita está certo num ponto, ele que use esse ponto, já estava muito bom. Tão avançado como Kardec, ninguém vai ser.

Eu posso até estar errado sobre essas diferenças entre o norte e o sul...