Inconsciente e subconsciente

Carlos Bernardo Loureiro
(Jornalista, escritor e advogado)

«Revista de Espiritismo» nr. 41, Outubro/Dezembro 1998

A revista “Estudos Psíquicos”, periódico de saudosa memória, de Setembro de 1951, que se editava em Lisboa, estampa em interessante artigo de autoria de Otto A. Prado, a discutidíssima questão do inconsciente e do subconsciente.

O que o autor escreveu, a respeito, há mais de 40 anos, ainda se questiona com o mesmo destaque de outrora, tanto nos arraiais psicológicos, quanto genéticos, e particularmente (sem projecção académica) no ambiente espírita.

O certo é que em todos os tratados de psicologia se emprega ambos os vocábulos como se tivessem igual significado. Afirma, porém, o ilustre articulista: “São inconscientes as reacções primitivas que se ocultam sob o verniz do civilizado, assim como os sentimentos de ódio ou ira e os movimentos automáticos instintivos.

São subconscientes as aquisições conscientes que implicam tendência evolutiva, as capacidades inatas, o génio, a ânsia de superação que reside no íntimo, como parte da actividade supranormal.

Quanto ao consciente, é o estado actual em que se encontra o espírito na vida de relação. É o agir no presente com inteiro conhecimento do que se faz ou pensa”.

De nossa parte, consideramos o inconsciente, o subconsciente e o consciente como estados da actividade espiritual, como maneiras de agir do espírito. O inconsciente deve ser claramente separado do subconsciente e por isso deve ser encarado como um ressurgimento do primário, de épocas passadas do ser.

O subconsciente é a compreensão de todos os conteúdos conscientes na larga trajectória do espírito durante o processo da sua evolução biológica e o seu evolver anímico; captação que regista e arquiva minuciosamente todos os pormenores de factos ocorridos, deixando como síntese um pensamento orientado, um ensino proveitoso para o ser.

Assim sendo, os vocábulos inconsciente e subconsciente não são homónimos, são, pelo contrário, antónimos.

O primeiro significa estancamento, regresso a um processo psíquico anterior, e o segundo é progresso, evolução. Acrescenta, então, Otto A. Prado: “O inconsciente é o lastro acumulado que se deve ir perdendo na ascenção espiritual. O subconsciente é o conhecimento que se acrescenta para aproveitamento ulterior. O inconsciente é o acto psíquico não deliberado proveniente da nossa anterior experiência orgânica, trófica ou vital”. E conclui:

“Se dizemos o ser inconsciente referimo-nos ao indivíduo organicamente considerado, a um aspecto intranscendente do seu psiquismo. Se falarmos do ser subconsciente referimo-nos ao espírito na sua função evolutiva, ao aspecto transcendente ou imanente do psiquismo”.

De facto, Gustave Geley, do Instituto de Metapsíquica de Paris, adverte que o subconsciente foi realização consciente em época anterior, deliberação cabal, cuja repetição habitual deu origem a um automatismo; por isso o inferior, já superado pelo esforço intelectual, é escala evolutiva, pertence ao passado. (1)

O subconsciente, finalmente, é a actividade permanente eterna do ser individual, domina o passado e o presente e, por efeito do transe psíquico (voluntário ou acidental), pode inferir o futuro.

Este último é comprovado pelo dr. Eugénio Osty na sua obra “A Utilização Prática dos Sujeitos Dotados de Conhecimento Supranormal”.

Em conclusão: inconsciente, consciente e subconsciente são formas de comportamento do espírito; o terceiro suplanta a ambos, porque age sem limite espacial-temporal.

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(1) Considerando o eu como um dínamo-psiquismo essencial, Gustave Geley destruindo as já frágeis noções da psicologia clássica, conclui que o progresso espiritual e psicológico não é outra coisa que não a conversão dos conhecimentos em faculdades, as quais se adquirem por experiências, através das vidas sucessivas, na evolução palingenésica do ser.