Internet: O Centro Espírita Virtual

Entrevista com Sérgio Freitas

Revista de Espiritismo nº. 33, Outubro/Dezembro 1996

Sérgio Freitas, licenciado em Engenharia Informática pela Universidade Federal de Uberlândia, é Mestre em Ciência da Computadorização pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre). É colaborador do Centro Espírita Perdão e Caridade, de Lisboa. Encerramos neste número a entrevista inicada no número anterior.

«Revista de Espiritismo» — O que é o centro espírita virtual?

Sérgio Freitas — O centro espírita virtual seria algo muito parecido com um centro espírita actual, promovendo a divulgação doutrinária do espiritismo através dos livros espíritas, das reuniões de estudo e dos trabalhos assistenciais. São justamente os trabalhos assistenciais (fisicamente falando) que vão necessitar ainda de mais algum tempo para se solidificar dentro do centro espírita virtual. Antes disso, o grande trabalho vai ser aproximar os centros espíritas e os espíritas ao redor do mundo, criando laços de fraternidade.

RE — O que é que descobriste acerca do espiritismo na Internet?

SF — Com excepção do material já disponibilizado por espíritas, localizámos livros espíritas em grandes livrarias electrónicas (em inglês), encontrámos definições sobre espiritismo em outras fontes e citações sobre espiritismo em textos da Embaixada Brasileira disponíveis na Internet. Com clareza, notámos que sem a mobilização dos espíritas e centros espíritas, o material sobre espiritismo na Internet é irrelevante. Fica aqui um alerta para todos nós pensarmos.

RE — O que tens feito no campo da divulgação espírita na Internet?

SF — Tivemos a oportunidade de ingressar, em finais de 1993, no primeiro grupo espírita na Internet, o Grupo de Estudos Avançados Espíritas (GEAE). O GEAE foi fundado em 1992 por Raul Franzolin Neto ao enviar um convite à rede brasileira de informações, convidando as pessoas a discutirem assuntos espíritas. Esta discussão tomou forma num boletim, que é distribuído semanalmente e gratuitamente a todas as pessoas inscritas. A distribuição é electrónica e, portanto, as pessoas necessitam ter um endereço electrónico. Actualmente o grupo conta com aproximadamente 600 pessoas ao redor do mundo, do Japão e Austrália, passando pela Europa e envolvendo as Américas e não possui propriamente uma direcção, porém elementos que são encarregados de certas tarefas. O GEAE é o resultado do esforço das diversas pessoas que o compõem, mas não nos sentiríamos confortáveis se não citássemos o nome de José Cid, que foi, após a volta de Raul Franzolim ao Brasil, durante muito tempo, o incansável editor semanal do Boletim GEAE.

Dentro do âmbito do grupo, sou responsável pela manutenção página WWW, que foi criada em Maio de 1995 (é a primeira página WWW espírita da Internet). A página WWW contém todos os boletins GEAE desde a sua criação (actualmente estamos no número 191), endereços de centros espíritas ao redor do mundo, biblioteca para consulta de referências a livros espíritas (2058 livros cadastrados) e endereços de editoras e revistas espíritas. Também temos uma relação de biografias de espíritas (em diversos países), com fotos.

O GEAE tem ainda autorização da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP), para a disponibilização electrónica de seus livros. Desde o Natal passado já está disponível «O Livro dos Espíritos» em português e actualmente já temos implantados «O Espiritismo na sua mais simples expressão» (Allan Kardec), «Grandes Vultos do Espiritismo». Também estamos em fase de implantação de «O Evangelho Segundo o Espiritismo» e de «O Livro dos Médiuns».

Num projecto conjunto com a Casa Editora O Clarim, o Instituto de Difusão Espírita e a Editora Lachâtre, estamos realizando o projecto «Entrevista Electrónica». O que é o projecto? Durante um período de dois meses, as pessoas enviam-nos (electronicamente) as suas perguntas para um determinado entrevistado. Nós colectamos as perguntas e findo o prazo enviamos ao entrevistado que as responde e devolve-nos. A seguir o resultado é disponibilizado a todas as pessoas da Internet. O projecto já realizou entrevistas com Hermínio C. Miranda e Richard Simonetti, actualmente (até dia 31 de Julho) o entrevistado é Divaldo Pereira Franco. Logo a seguir o nosso próximo entrevistado vai ser Jacob de Melo (autor do livro «O Passe»).

Estamos também, de uma maneira fraternal, disponibilizando outros periódicos espíritas; é assim que a «Revista Internacional de Espiritismo» e o jornal «Candeia Espírita» de São José dos Campos estão a ser disponibilizados dentro da página WWW do GEAE.

Para inscrever-se no GEAE, envie um e-mail para: dgeae@kholosso.fct.unl.pt

RE — Tens descoberto novos contactos?

SF — Sim, muitos. É difícil enumerar todas as formas em que isto ocorre, porém na sua maioria são pessoas que entram em contacto com o GEAE. Depois é prosseguir e o conhecimento mútuo. Muitas pessoas escrevem, inclusive querendo ajudar.

RE — Que tens ganho com isso?

SF — Tenho ganho muito: a cada dia fazemos novos amigos e a amizade nunca é demasiada. Por outro lado, acabamos por conhecer as pessoas do outro lado, pelo que elas dizem e pelo que elas fazem. Acho que é a mesma coisa que aconteceu com Kardec: ele conversava com os espíritos, não os via, porém analisava-os pela coerência do que diziam. A Internet permite a mesma coisa.

RE — Tens notado receptividade, por parte dos utilizadores da Internet, em relação aos artigos espíritas?

SF — É difícil medir a aceitação dos utilizadores no geral para com as ideias espíritas. Usando ainda da analogia da biblioteca, as pessoas vão buscar numa biblioteca os livros que lhes interessam, e não se preocupam com o restante.

Assim acontece com a divulgação espírita na Internet. Nesta fase a maioria das pessoas que procuram as informações espíritas ou já são espíritas ou simpatizantes. As outras pessoas chegam a pesquisar, mas raramente dizem alguma coisa. A Internet é livre.

RE — Já existem centros espíritas ligados à Internet, quer em Portugal quer no estrangeiro?

SF — Antes de dizermos algo a respeito, temos que esclarecer que de acordo com a noção de Internet, nela muitas das vezes não é necessária a ideia de algo "físico" e localizado. É por exemplo o caso do GEAE: as páginas WWW estão actualmente situadas num servidor em Portugal. Porém, a geração dos boletins é feita no Brasil, os índices actualizados no Reino Unido, as contribuições vêm de toda parte do mundo. Assim não poderíamos dizer que o GEAE está em Portugal, mesmo as páginas que actualmente estão aqui possam de futuro ser movidas para qualquer outra parte do mundo, sem prejuízo das pessoas ligadas ao grupo.

Assim, existem duas coisas distintas a serem tratadas: os centros espíritas que sabemos possuírem uma localização física e que disponibilizaram informações através da Internet:

Pessoas e grupos espíritas que não têm uma localização física:

RE — Que meios achas poderem ser utilizados para uma melhor divulgação do espiritismo dentro da Internet?

SF — Os meios passam sempre por tentar colocar a informação (textos, etc.) sempre disponíveis, acessíveis gratuitamente e com uma boa apresentação gráfica. De resto a minha opinião pessoal é esta: devemos disponibilizar o máximo de material espírita e deixar que o tempo e o interesse das pessoas se encarregue fazer o resto.

RE — Não achas que com a Internet se corre o perigo de qualquer pessoa falar em nome do espiritismo, percebendo pouco dele e dando má imagem do mesmo? Como tornear esse problema?

SF — Até há seis meses eu era um verdadeiro obcecado por questões de segurança. Em moldes semelhantes aos que apresentas acima, preocupava-me muito com a maneira de disponibilizar livros espíritas na Internet.

Novamente, através de conversas com dois amigos (via Internet) eles convenceram-me do seguinte aspecto: problemas hão-de sempre haver, porém, por mais que "inventássemos" protecções, sempre haveriam possibilidades de as ultrapassar.

Além do mais, no caso dos livros, hoje em dia é muito fácil reproduzir comercialmente um livro, basta-se comprar um "scanner" ter um pouco de paciência, e em pouco tempo consegue-se digitalizar qualquer coisa. Qual foi então a solução que eles apontaram?

Chegar primeiro e fazer divulgação, ou seja, estabelecer sítios onde os livros sejam confiáveis e estabelecer uma "tradição", assim as pessoas não vão buscar outros lugares menos fiáveis.

No caso específico dos livros existe ainda outra protecção natural: é que tirando de lado os difamadores, aqueles que querem lucrar com a reprodução de livros espíritas, eles vão sair desiludidos, pois este é muito barato e com uma margem de lucro mínima (sempre revertida em fins assistencias).

O caso da divulgação espírita na Internet é um caso geral na questão dos livros.Concluindo, o melhor é que as instituições espíritas entrem logo na Internet e façam um programa sério de divulgação. Com o tempo as pessoas vão saber distinguir o joio do trigo.

Não devemos ter medo da Internet, como a Inquisição teve medo dos livros. Tal como Kardec, devemos aprender a enfrentar as investidas, sempre com a intenção de procurar a verdade e de esclarecer.

RE — O que é preciso para estar ligado à Internet?

SF — Um computador pessoal (386 ou de maior versão), um modem e uma linha telefónica. O custo maior do equipamento é o do computador, porém mesmo o preço destes tem vindo a cair. Depois de adquirir o equipamento, deve-se procurar um provedor.

Actualmente em Portugal existem algumas firmas que prestam este tipo de serviço (Telepac, IP, etc.). Procure um provedor que tenha um ponto de entrada mais próximo, pois assim a conta telefónica é menor.

Infelizmente não estou a par dos preços praticados no mercado, porém, creio que eles giram em torno de 2500$00 para a inscrição inicial e mais cerca de 1500$00 para 15 horas mensais (os valores mensais são relativos à quantidade de horas utilizadas).

Os valores acima são os valores pagos ao provedor, porém, tem-se ainda que pagar a conta telefónica.

RE — A Internet poderá ser o fim do livro espírita?

SF — Tenho as minhas sérias dúvidas de que isso ocorra, e se ocorrer vai ser a longo prazo.

As razões para que isto não ocorra agora são, entre outras, as seguintes: ainda é mais prático (e às vezes até mais barato) comprar um livro espírita do que o custo total de buscar um livro espírita (completo) via rede, imprimido em casa; apesar da Internet estar a crescer muito, infelizmente somente as classes sociais com mais poder aquisitivo têm acesso a ela; o livro espírita tem uma função social, pois é da venda destes que muitas instituições assistenciais sobrevivem. Assim as editoras espíritas vão naturalmente restringir a disponibilização integral de seus livros na Internet.

Não pensem, porém, que a Internet então não tem função para espiritismo, pelo contrário, a grande vantagem da Internet é a velocidade de divulgação da informação. Como certas editoras já fazem hoje, elas não disponibilizam todo o material do livro, apenas alguns trechos, índices etc. Isto faz com que as pessoas se interessem mais pelo livro e acabem por adquiri-lo.

Neste âmbito, serviços como o da biblioteca do GEAE, podem ajudar muito, pois quando estiver plenamente implementado, os resumos dos livros estarão disponíveis, permitindo que uma pesquisa no conteúdo de determinado livro antes da aquisição do mesmo.

RE — Uma palavra e um conselho aos espíritas (e não só) portugueses?

SF — Apostem na Internet como meio de divulgação espírita. Em breves anos a Internet vai ser o maior meio de intercâmbio do meio espírita. Vai ser através da Internet que vão ser possíveis os estímulos de fraternidade entre as diversas instituições espíritas a nível mundial.

E é através da Internet que vai nascer um novo momento para o movimento, a directriz dada por Ismael: fraternidade. Se Paulo teve que ir de cidade em cidade divulgar a boa nova, hoje a Providência dá-nos a oportunidade de estarmos no conforto da nossa casa e espalhar a boa nova aos quatro cantos do planeta.

Saibamos aproveitar esta oportunidade, pois "havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará. Porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, o que então é em parte desaparecerá".

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1- URL é o endereço para utilização no WWW; e-mail é o endereço electrónico para correspondência. Para escrever a entidades ou pessoas, utilize o endereço electrónico.

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