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Não Há Toxicómanos Felizes

Manuela Vasconcelos

«Revista de Espiritismo» nr. 40, Julho/Setembro 1998

Eurípedes Kuhl no seu livro “Tóxicos - duas viagens”, entre outros pontos igualmente importantes.

Refere-nos ele alguns dos sintomas e comportamento observável nos toxicómanos, que vão desde a mudança constante do estado de espírito, sem motivo aparente, à inapetência; ao rir perdidamente de algo sem nenhuma graça; ao desleixo e falta de higiene pessoais; à falta de interesse ou diminuição pelo sexo oposto; às reacções lentas - semiletargia -, olhar vago no espaço e desinteresse em conversar; ao impulso à leitura de livros sobre tóxicos; à dilatação das pupilas e olheiras; ao vermelhão no branco dos olhos, disfarçável com o uso constante de óculos escuros; às marcas de picadas em qualquer parte do corpo mas principalmente nos braços, escondidas com as camisas ou camisolas de mangas compridas, ao aparecimento de manchas escuras, chagas e feridas que não se param de coçar, à irritabilidade sem motivo, angústias e depressões... à repentina queda do aproveitamento escolar e abandono dos estudos; à recusa em sair-se do quarto, isolando-se de tudo e de todos, dormindo de dia e passando as noites com insónias que tentam “matar-se”, com músicas que se ouvem em sons altíssimos, à presença de seringas, comprimidos e cigarros estranhos espalhados ou escondidos pelos móveis... às companhias com as quais está andando e que poderão ser as indutoras do vício e o desaparecimento de valores no lar - destinados à aquisição do produto que o traficante vende.

Todos estes pontos de referência foram escutados, porque repetidos, pelo Dr. António Pais de Lacerda que, a pedido da COMUNHÃO ESPÍRITA CRISTÃ DE LISBOA, participou de uma reunião que teve lugar no dia 7 de Junho no salão de conferências da FEP, gentilmente cedido para o efeito e representada ali pelo seu presidente, João Xavier de Almeida.

O Dr. Pais de Lacerda é médico no Hospital Civil de Santa Maria, em Lisboa, e clínico da “Comun. Terapeuta Nova Fronteira”, na qual presta assistência, conjuntamente com outros colegas, a toxicodependentes e sidaicos procurando, dentro do seu melhor, ser um apoio confiante para os que, tendo resvalado na estrada do vício, tentaram reerguer-se e libertar-se do abismo onde se afundaram e afundam.

Feita a apresentação do orador pela signatária, ele mesmo, depois, a reforçou firmando a sua disponibilidade no momento (e não só); e tendo comentado a viabilidade de se dar início à reunião com uma primeira pergunta por parte de alguém da assistência presente, elas tornaram-se sequentes, ainda que ordenadas, revelando cada uma o interesse, atenção e a preocupação de quem a fazia. E embora não tivessem comparecido todas as Associações convidadas, da área da grande Lisboa e arredores, os presentes - sem distinção de idades ou sexos, demonstraram bem o quanto o tema preocupa a todos, estejamos onde estivermos, sejamos o que formos!

Fomos escutando também. Não há motivos taxativos para que alguém se torne dependente: há curiosidade, primeiro, desinteresse pela vida que se vive, depois, e, mais tarde, ansiedade em se repetir os estados de euforia conseguidos e que duram sempre menos conforme o organismo se vai habituando, e que levam a uma procura sempre maior que a anterior da dose usada. Foram referidos os nomes das drogas mais e menos procuradas, aquelas cujo efeito é maior ou menor, mais ou menos durável.

Deve tentar encontrar-se primeiramente no lar a justificativa para a “fuga” e busca da droga - o que não significa que esteja ali, realmente, a chave do problema, que muitas vezes nem existe. Mas terá e deverá haver sempre, quando seja “descoberto” alguém nestas condições, dentro de uma família, deverá haver sempre a tentativa de comunicação dos “lúcidos” pelos que o não estão - e isto porque tanto podem ser os pais, irmãos ou cônjuges a tentarem ajudar, como poderá acontecer precisamente o contrário e serem, os filhos a ampararem os mais velhos. Terá que haver tolerância, compreensão, muito amor - e não repressão ou expulsão do reduto familiar, porque cada um dos que resvala deverá sentir, nos que o rodeiam, o apoio de que necessitará quando compreender e/ou quiser “voltar”. Ele terá que ter confiança nos que o olham e não sentir nos seus olhares, se não nos seus gestos ou palavras, a recriminação que o condena.

Insistir na desintoxicação quando o próprio interessado a não peça será uma atitude infrutífera, mas deverá ser-lhe dada a possibilidade da presença de um psicólogo, que ele procurará sempre que queira, enquanto a própria família deverá também ser acompanhada por um - seja ou não o mesmo. E não vale a pena que o familiar, sendo psicólogo, insista em desempenhar ele mesmo a sua função com o toxicodependente, pois, por muito que o queira, não conseguirá abdicar nunca do seu papel consanguíneo.

Não há, insistiu o Dr. Pais de Lacerda, toxicómanos felizes, da mesma maneira que o não são os seus familiares.

Conseguida a “libertação” (recuperação) de um, em vez de se temer o seu regresso ao vício porque continua a acompanhar-se do mesmo grupo onde se encontrava inserido quando deixou que as teias da droga o envolvessem, é necessário ajudá-lo e fazê-lo compreender - não pela imposição mas pela sua compreensão, análise, aceitação e conclusão - que se ele caiu estando no grupo agora, recuperado, o grupo não o serve mais porque em nada o beneficia. Terá, portanto, de partir dele o afastamento, o corte dos laços que o prenderam ou prendiam aos outros.

Esclarecendo ainda que, tal como o tuberculoso ou qualquer outro doente do foro contagioso, os descendentes do toxicómano terão sempre a propensão para a droga, pelo que terá que haver uma vigilância constante ainda que não doentia.

Na sequência de perguntas e respostas, duas horas passaram, rápidas, não tendo havido a possibilidade de se entrar no segundo tema anunciado: a sida, que ficará para uma próxima vez.

Entretanto, convidados alguns jovens presentes a participarem, eles não o quiseram fazer, respondendo ao orador convidado que os interrogava que as suas palavras os tinham tocado, por esclarecedoras.

Porque o Dr. António Pais de Lacerda não é espírita, não foram feitas perguntas nem relacionados estados de dependência com o esclarecimento que a doutrina espírita sempre pode completar, mas terminámos a reunião mais ricos de conhecimentos do que ali chegáramos e com certeza que mais preparados também para auxiliarmos os familiares que, futuramente, nos possam procurar.

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