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O jovem na casa espíritaCarlos Campetti «Revista de Espiritismo» nr. 25, 1994 Conscientes de que o assunto apresenta outros aspectos que necessitam de ser analisados, registramos que o tema da presença do jovem na casa espírita precisa de ser tratado de forma aberta, sem que nos deixemos levar pelo excesso de considerar os jovens tão imprescindíveis, tão capazes, pelo simples facto de serem jovens, que podem substituir e dispensar os adultos ou, por outro lado, tão complexos, metediços e inconvenientes que o melhor será que os adultos se livrem deles. A ideia de juventude normalmente está relacionada com energia vital, força, capacidade de realização, promessa de melhor porvir... A juventude, no corpo físico, é uma etapa de um processo que começou com a concepção e seguirá o seu rumo, terminando com a morte do veículo que serve de manifestação para a realidade transcendente, o ser pensante, ou seja, o espírito. Madureza, sendo quase sempre sinónimo de experiência; capacidade para dirigir, orientar, coordenar... representa um passo a mais dentro do mesmo processo. Nessa etapa, o mesmo espírito já deve ter adquirido mais condições de aproveitar a oportunidade que recebeu para chegar aos resultados almejados e que foram, muitas vezes, planificados antes do início de sua ligação com o corpo somático. Na verdade, não existe uma cisão entre uma etapa e outra desse processo. Manda o bom senso que o espírito, espírita, encare essa realidade de forma diferente do comum das pessoas. Se o espírita se dedica a estudar o espiritismo com afinco e verdadeiro interesse, já deve ter-se dado conta de que não é possível crescer, fazer-se maior, superar-se, desenvolver-se, ser feliz sem solidariedade, sem fraternidade, cooperação, dedicação ao crescimento e ao bem dos demais, enfim, sem o amor ao qual se referiu Jesus. Lógico é que se conhecemos um pouco de psicologia ou se somos educadores, não podemos ignorar a realidade de que o espírito reencarnado sofre as limitações da matéria; e, por isso, apresenta características e necessidades muito peculiares em cada uma das etapas do desenvolvimento do seu corpo físico. Aliás, nem é necessário ser psicólogo ou educador para saber disso. Ao estudar «O Livro dos Espíritos», encontramos na questão 368 a seguinte afirmação: «o exercício das faculdades (do espírito) depende dos órgãos que lhes servem de instrumento. (...)»; e na 369: «os órgãos são os instrumentos da manifestação das faculdades da alma, manifestação que se acha subordinada ao desenvolvimento e ao grau de perfeição dos órgãos...». No corpo de uma criança, os órgãos ainda estão em desenvolvimento e o espírito ainda está em fase de adaptação à matéria. A sua condição de entendimento e compreensão das coisas é limitada, devendo receber as informações em linguagem e em dosagens adequadas à sua capacidade. No período da adolescência, conforme nos informa o livro já citado, na questão 385: «... o espírito retoma a natureza que lhe é própria e se mostra qual era (...)». Ou seja, quando está a passar ou a sair da adolescência, o espírito depara-se com a sua realidade íntima, com o que ele foi antes de reencarnar. Toda essa bagagem multissecular entra em confronto com as informações e a educação que recebeu desde que se iniciou a sua actual reencarnação. Diversas hipóteses podem ser anotadas. Vamos citar apenas algumas: 1. se já havia predominância das qualidades nobres, e se recebeu boa educação no actual estágio, será mais fácil para o espírito que seguirá naturalmente a sua marcha no rumo do bem; 2. se já havia conquistado boas qualidades e recebeu má educação, poderá prevalecer uma ou outra coisa, sendo mais provável que o espírito siga a sua tendência para o bem, apesar das dificuldades do meio; 3. se prevaleciam nele as imperfeições e recebeu boa educação e influências positivas, será viável corrigir-se e seguir pela boa luta no sentido do seu aperfeiçoamento, principalmente se continuar a ser assistido por pessoas amigas e que o amem. No entanto, pode também decidir ignorar o bem que recebeu e entregar-se às suas más tendências, arcando com as consequências de sua opção; 4. se estava entregue ao equívoco e recebeu má orientação nesta encarnação, dificilmente encontrará o bom caminho, passando pela vida infeliz e deslocado, causando mal para outros e para si mesmo. Diante de tudo isso, compreendemos que a sabedoria divina nos posiciona na vida em situações de interdependência para que aprendamos a ser solidários uns com os outros. No caso, os adultos necessitam saber apoiar e estimular os jovens e estes precisam aprender a respeitar e aproveitar as experiências dos que viveram mais e, na maioria das vezes, já assumiram maiores responsabilidades. Evidentemente as situações da vida são complexas e muitas vezes exigem esforço e verdadeira dedicação para serem solucionadas de forma favorável e positiva para todos. Dentro dessa complexidade, observamos que a autoridade não implica necessariamente questão de idade, mas sim de preparação e maturidade do ser. É por isso que vemos jovens assumindo responsabilidades que muitos adultos não assumirão na actual reencarnação. Logicamente, neste caso, não podemos ignorar que também conta a programação que o espírito fez antes de voltar à vida física. Conscientes de que o assunto apresenta ainda outros aspectos que necessitam de ser analisados, registamos que o tema da presença do jovem na casa espírita precisa de ser tratado de forma consciente e aberta, sem que nos deixemos levar pelo excesso de considerar os jovens tão imprescindíveis, tão capazes, pelo simples facto de serem jovens, que podem substituir e dispensar os adultos ou, por outro lado, tão complexos e difíceis, metediços e inconvenientes que o melhor será que os adultos se livrem deles. Cada pessoa que se liga a uma instituição espírita pode ter o seu papel, uma tarefa a desempenhar. De todos será exigida a disciplina, sem a qual não é possível a continuidade do trabalho. A todos se solicitará colaboração para o desenvolvimento das tarefas, cada um de acordo com as suas aptidões e possibilidades. Normalmente, a todos se dará igual oportunidade de estudar e participar na casa, sem importar excessivamente a idade que possuam. O que verdadeiramente importa é saber se a pessoa a quem se vai atribuir uma responsabilidade está habilitada, tem condições e preparação para assumi-la ou se, no mínimo, demonstra interesse e capacidade para aprender. Quando a instituição, por ser demasiado fechada, não admite novos colaboradores, chegará um momento em que terá que mudar ou fechar as suas portas, porque pela lei natural todos desencarnam um dia. Os dirigentes, que estão atentos a essa realidade, se não o faziam antes, começam a trabalhar em equipa, deixando de assumir todos os papéis e tarefas, dividindo as suas responsabilidades para dar hipótese a outros de aprenderem a servir também, ao mesmo tempo que estimulam os seus colaboradores directos para que também exercitem a divisão do trabalho e a formação de novos cooperadores. Já o jovem espírita, estudioso e atento às oportunidades de convivência, será paciente e diligente, dando a si mesmo tempo para observar e analisar como trabalham os que se responsabilizam pelos destinos da instituição. Assim, na cooperação activa e disciplinada, aprenderá das experiências dos demais para planear e executar novos projectos baseados nas realizações anteriores, buscando não repetir erros e evitando cometer outros por falta de observação, paciência e humildade. Regra geral é que quase todos os trabalhos de um centro espírita podem ser desenvolvidos conjuntamente por adultos e jovens. No entanto, e apesar de poderem estar juntos numa reunião pública por exemplo, sempre será necessário manter reuniões específicas de estudo para atender a cada faixa etária. Essa divisão para o estudo possibilitará a compreensão e apreensão gradual dos conceitos doutrinários, dando condições ao espírito de ir assumindo responsabilidades de acordo com o seu grau de maturidade e capacidade de realização. |
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