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O que é o Espiritismo?

«Revista de Espiritismo» nr. 25, 1994

O espiritismo já foi definido como o grande desconhecido, por Herculano Pires. Mas a evidência é tanta que isso extrapolou o autor e hoje é património universal. Por isso o próximo Congresso Espírita tem esse mote. Dificilmente encontramos palavra tão conhecida e de significado tão ignorado.

Antes de mais, apuremos os factos.

Perante as opiniões, são eles que norteiam quem se deseja aproximar do que é verdadeiro. E o facto é consagrado pela mestra dos mestres: a própria História. A cronologia do tempo é irreversível, por muito que a ficção o desdiga, e o que aconteceu consumado está.

Esse neologismo - espiritismo - foi criado por Allan Kardec, em meados do século XIX, quando deparou com o edifício doutrinário que entreviu através das manifestações mediúnicas, qualquer que fosse a maturidade dos espíritos desencarnados comunicantes. Assim ele atribuía uma palavra nova, extremamente útil, a uma doutrina nova.

Mas o fulgor da mediunidade - um instrumento e não a finalidade - ofuscou muitos espíritas pouco sensatos. E passou esta doutrina a ser reduzida às manifestações mediúnicas, que, aliás, existem em religiões que, de modo algum, nem por isso são ou se tornam espiritistas.

Quando a doutrina espírita - ou espiritismo - começou a ser estudada por alguns espíritas, estes redescobriram as obras de Kardec, o seu codificador. Elas, mais do que qualquer tempo histórico, falam por si, vertendo, para quem se quiser informar bem, a realidade daquilo de que trata e é o espiritismo. A História consumou-se. Quem quiser fazer misturas, distorcê-lo em interpretações personalizadas, por muito que queira aproveitar-se dessa palavra - espiritismo -, seja honesto: crie outro nome novo para designar essa nova formulação ou chame-lhe apenas espiritualismo, mediunismo ou qualquer coisa assim ajustada. Mas espiritismo, isso não.

Facto histórico - definição

O espiritismo é uma doutrina filosófica de consequências morais. É ciência, é filosofia e é ética (ciência do bem).

Este corpo doutrinário foi codificado por Allan Kardec, que compilou «O Livro dos Espíritos», «O Livro dos Médiuns», «O Evangelho Segundo o Espiritismo», «A Génese», «O Céu e o Inferno». «Obras Póstumas» também é de considerar, assim como a «Revue Spirite» (Revista Espírita). Este conjunto de obras é a codificação espírita.

O conceito de codificação é o constante da Biologia - código genético - e do Direito.

Kardec foi um grande pedagogo, homem notável, de cultura até mesmo acima da sua época. Viveu em Paris, na França, em meados do século passado. O seu papel foi tão importante que é impossível falar de espiritismo sem nos reportarmos à sua obra (por estranho que pareça, ainda tão desconhecida dos próprios espíritas).

Ele mesmo, Allan Kardec, no seu livro «O que é o espiritismo», elucida-nos, sinteticamente: «O espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.

Podemos defini-lo assim: o espiritismo é uma ciência que trata da origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal».

Este, afinal, o objecto desta doutrina.

Os seus pontos estruturais essencialmente são a existência de Deus, imortalidade da alma, a comunicabilidade dos espíritos desencarnados (estes são pessoas que deixaram o corpo pelo fenómeno da morte), as vidas sucessivas, a lei de acção e reacção (responsabilizamo-nos pelo que fazemos, devendo repará-lo na presente ou em futuras vidas, físicas ou não), a pluralidade dos mundos habitados.

Pesquisa sem fim

Muito ainda desconhece o esforço de pesquisa humana. E fora do movimento espírita também encontramos extraordinários reforços dos seus pontos estruturais. Questões como a continuidade da vida após a morte do corpo, ou até a reencarnação, continuam a ser estudadas, hodiernamente, por cientistas audaciosos. Apenas dois ou três exemplos dos mais conhecidos: Dr. Raymond Moody Jr. (licenciado em Filosofia e em Medicina, EUA) que tem um dos seus livros editado em Portugal pela Livraria Bertrand («Vida Após a Vida»); Drª. Edith Fiore, licenciada em Psicologia, com o seu livro («Já Vivemos Antes») editado pelas Publicações Europa-América. O Dr. Ian Stevenson, da Universidade de Virgínia, EUA, seleccionou de um dos seus arquivos de pesquisa só (!) 20 casos e publicou um livro, ainda não editado em Portugal, intitulado «20 Casos Sugestivos de Reencarnação». O engenheiro Hernani Guimarães de Andrade e sua equipa, possui hoje um arquivo excelente, desde os fenómenos que sugerem intervenção de espíritos desencarnados a casos de «poltergheist» e sugestivos de reencarnação. E muitos, muitos mais...

Mediunidade... não é espiritismo

Há confusões absurdas que estão a ser desfeitas, graças ao maior estudo deste assunto. É bem o caso de espiritismo não ser mediunidade. Ele é doutrina. Ela é fenómeno - que está bem longe de só existir ligado aos espíritas. Tanto a diferença é notória que, em referência concreta da doutrina e do fenómeno às pessoas, foram criados por Kardec os neologismos ESPÍRITA e MÉDIUM, naturalmente com significados bem distintos. O primeiro é o adepto da ideia. O segundo é a pessoa que tem faculdades mediúnicas (a mediunidade é o que se chama percepção paranormal; o médium é o intermediário entre duas dimensões: a espiritual e a material).

O espiritismo não só em nada se assemelha a bruxarias, superstição ou crendice, como não é (já o dissemos!), também, mediunidade.

A mediunidade, enquanto fenómeno paranormal não utilizado, é neutra, serve para o bem ou não. O espiritismo aponta sempre a edificação do bem.

Mas, na prática, há sempre uma utilização do fenómeno mediúnico! Aqui devemos falar de MEDIUNISMO: é o já dito fenómeno praticado de acordo com as ideias próprias de quem o pratica, quaisquer que sejam.

Existem, por exemplo, os chamados sincretismos afro-religiosos (como a umbanda e outros) e existem também pessoas habituadas às religiões tradicionais que, talvez por se sentirem insatisfeitas, verificando a existência concreta do fenómeno mediúnico, passam a praticá-lo, juntando-lhe as suas ideias pessoais.

Mas isso pouquíssimo tem a ver com espiritismo. E porquê «pouquíssimo»? Simplesmente porque o elo comum, único e singular é a mediunidade. Mediunidade que é neutra, não tem valores próprios, ou seja, ela depende dos valores e dos fins com que é utilizada.

Assuntos claros tantas confusões

Razões históricas explicam tudo isso. Numerosos personagens, muito distintos, no princípio do nosso século, foram espíritas confessos: médicos (Dr. Sousa Martins, Dr. J. Freire, Drª. Amélia Cardia), advogados (Dr. Martins Velho), militares (general Passaláqua, coronel Faure da Rosa), artistas, entre outros.

O regime ditatorial, derrubado em 1974, algumas décadas depois do seu advento, por repressão, dissolveu as associações espíritas existentes, apropriando-se injustamente de considerável património, fruto de doações por falecimento de espíritas endinheirados que por idealismo ofertavam parte do seu património.

Importa esclarecer aqui que todo e qualquer serviço espírita não admite, em qualquer circunstância, remuneração. É imperioso dar de graça o que de graça se recebeu (e a ideia espírita e até a faculdade mediúnica são paradigmas dessa situação).

Por isso todo o espírita tem a sua profissão e só nos tempos livres colabora em tarefas próprias do seu ideal de fraternidade. Nem tão-pouco coloca anúncios a oferecer serviços!...

Retirado o direito de reunião, de associação e a própria liberdade de consciência, um só caminho restou - reuniões restritas aos lares, que se prolongaram durante os anos possíveis. Já não havia mais estudo participado por um maior número de pessoas, e, a breve prazo, o que continuou a existir transformou-se num mediunismo caseiro - pessoas que se reuniam à volta de uma mesa, com aquele cenário trôpego e desfasado.

Enfim, algo que prosseguiu e se fez sentir, de algum modo, mesmo após o 25 de Abril de 1974 E QUE NADA TEM A VER COM ESPIRITISMO!

O papel do espiritismo

A natureza do espiritismo é eminentemente cultural. Liga-se muito à arte, particularmente à arte mediúnica, nas suas expressões poéticas, pictóricas e musicais, sobretudo.

Vários filósofos - distingue-se o caso do professor J. Herculano Pires - o têm desenvolvido apoiando-se nele como plataforma de reflexão. E também, por sua natureza, ainda, evolucionista, ou então não existiria a sua codificação.

Ora, a cultura espírita é o que, a nível nacional, a Federação Espírita Portuguesa vem fazendo por implementar. Promovendo ou apoiando para tanto encontros nacionais, inclusive de jovens, que são um êxito, estabelecendo programas de conferências, concretizando contactos interassociativos, realizando cursos. Já em 8, 9 e 10 de Dezembro de 1994 organiza o II CONGRESSO NACIONAL DE ESPIRITISMO, que poderá ser mais um acto de ligação com o imenso valor do passado do movimento espírita reprimido por Salazar, para projecção num futuro de mais amplas actividades e informações.

Entretanto, como sempre, o movimento espírita será aquilo que dele os espíritas fizerem.

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