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Primórdios do período espirítico

Hernâni Guimarães Andrade

Revista de Espiritismo nº. 33, Outubro/Dezembro 1996

O mesmo é em nós vivo e morto, desperto e dormindo, novo e velho; pois estes, tombados além, são aqueles e aqueles de novo, tombados além, são estes.

Heráclito de Éfeso (540-470 a.c.)

Ao iniciar o seu livro «História do Espiritismo», Arthur Conan Doyle diz ser impossível fixar uma data para as primeiras manifestações «de uma força inteligente exterior, de maior ou menor elevação, influindo nas relações humanas».

Embora os espíritas considerem a data de 31 de Março de 1848 (início dos acontecimentos de Hydesville) como o começo do movimento que culminou com o espiritismo, "não há época — diz ele — na história do mundo em que não se encontrem traços de interferências preternaturais e o seu tardio reconhecimento pela humanidade". (Doyle, A. C. — História do Espiritismo, São Paulo: O Pensamento, 1960, p.33).

Conan Doyle, antes de abordar o episódio de Hydesville, faz um interessante estudo biográfico de três grandes sensitivos, Emmanuel Swedenborg, Edward Irving e Andrew Jackson Davis, cujas actuações precederam aquele período.

Swedenborg

Emmanuel Swedenborg (1688-1772) nasceu na Suécia. Ele era não somente um grande vidente, mas além disso, um génio que abarcava praticamente toda a ciência e a técnica de seu tempo. Seu pai foi um bispo. Graduou-se em Engenharia na Universidade de Upsala e estudou no exterior sob a orientação dos mais famosos matemáticos e físicos: sir Isaac Newton, Flamsteed, Halley e De Lahire. Tornou-se uma autoridade em mineração, Metalurgia, Engenharia Militar, Astronomia, Física, Zoologia, Anatomia, Economia Política e Finanças. Era um profundo estudioso da Bíblia, um teólogo. Fez também projectos de máquinas voadoras, submarinos, canhões de tiro rápido, bombas de ar e máquinas a vapor. E, ainda mais, escreveu vários poemas em latim.

Swedenborg esteve fora de seu país cerca de cinco anos, durante os quais desenvolveu os seus inúmeros conhecimentos. Ao retornar à Suécia, foi indicado como assessor do «Real Colégio de Minas». A rainha Ulrica concedeu-lhe um título de nobreza. Quando se encontrava no pináculo da carreira científica, abandonou toda aquela posição para dedicar o resto de sua vida à divulgação do espiritualismo, acreditando-se encarregado desta missão, por Deus.

Desde a infância, Swedenborg já manifestava sinais de ser um dotado paranormal. Possuía notável capacidade de clarividência. Achando-se, certa vez, em Gothenburg, percebeu e descreveu fielmente um incêndio que ocorria à distância de 300 milhas, em Estocolmo. Emmanuel Kant interessou-se por este caso e estudou-o minuciosamente.

Em Abril de 1744, na cidade de Londres, sentiu o desabrochar de suas faculdades em toda a plenitude: «Na mesma noite — diz ele — o mundo dos espíritos, do céu e do inferno, abriu-se convincentemente para mim, e aí encontrei muitas pessoas de meu conhecimento e de todas as condições. Desde então, diariamente o Senhor abria os olhos de meu espírito para ver, perfeita-mente desperto, o que se passava no outro mundo e para conversar, em plena consciência, com anjos e espíritos» (Opus cit. p. 37).

Em uma de suas obras, A Verdadeira Religião Christã (São Paulo: Freitas Bastos, 1964) lê-se o seguinte e curioso trecho: «Todo homem, quanto a seu espírito, é consociado a seus semelhantes no mundo espiritual, e é por assim dizer um com eles; e muito frequentemente me foi dado ver, aí nas sociedades, espíritos de homens ainda vivos, alguns em Sociedades Angélicas e alguns outros em Sociedades Infernais; e também me foi dado falar durante dias inteiros com eles, e eu ficava admirado de que o homem, mesmo vivendo ainda em seu corpo, nada soubesse absolutamente; por isso eu vi claramente que, aquele que nega a Deus, está já entre os danados e que depois da morte é recolhido entre os seus». (Opus cit. p. 25).

Swedenborg, após referir-se à sua primeira visão, descreveu o fenómeno de exudação do ectoplasma: «...uma espécie de vapor que se exalava dos poros de meu corpo. Era um vapor aquoso muito visível e caía no chão, sobre o tapete». (Doyle, A.C. - História do Espiritismo, p. 37).

As descrições do mundo espiritual, feitas por Swedenborg, apresentam duas categorias distintas. Uma tem carácter mais místico e metafísico, parecendo sobretudo criações de uma mente exaltada de ardor religioso e produto de elaborações subconscientes. A outra mostra notável semelhança com os relatos espíritas mais recentes e parecem resultado de experiências pessoais mediúnicas, durante as quais o sensitivo devia ter estado em contacto directo com o mundo dos espíritos. Swedenborg deixou copiosa produção escrita e lançou as bases de uma nova religião, que até hoje tem seus adeptos em várias nações, inclusive no Brasil. (Sociedade da Nova Jerusalém - Rua das Graças, 45, Rio de Janeiro).

Irving

O rev. Edward Irving (1792-1834), nasceu em Annan, em 1792, de pais pertencentes à classe de trabalhadores braçais escoceses. Casou-se com a filha de um ministro protestante. Mais tarde, tornou-se assistente do famoso clérigo escocês, dr. Chalmers. Posteriormente foi-lhe oferecida a direcção de uma pequena igreja escocesa em Hatton Garden, fora de Holborn, em Londres.

Irving era um homem fortíssimo e de porte agigantado, o que, certamente, favorecia sua influência sobre os fiéis. A sua eloquência e as suas brilhantes pregações evangélicas logo lhe granjearam numeroso público. Devido ao número muito grande de ouvintes que acorriam à igreja aos domingos, lotando o pequeno templo e atravancando as ruas com carruagens, foi removido para um local maior, em Regent Square, com acomodação para duas mil pessoas.

Em 1831 surgiu na comunidade de Irving um surto de pessoas tomadas por espíritos e que falavam línguas estranhas.

Os atingidos pelo fenómeno algumas vezes entravam em convulsão e pronunciavam, com voz cavernosa, frases em latim ou outras línguas, algumas desconhecidas.

Posteriormente começaram a surgir aparentes possessões por «maus espíritos», levando a cessar as manifestações.

Comentando a ocorrência das vozes surgida na congregação de Irving, sir Arthur Conan Doyle teve as seguintes palavras: «Nas vozes de 1831 há sinais de verdadeira força psíquica. É uma reconhecida lei espiritual que toda a manifestação psíquica sofre uma distorção quando apreciada através de um médium de estreito sectarismo religioso. É também uma lei que as pessoas presunçosas e enfatuadas atraem espíritos malévolos e são alvo do espírito do mundo, dos quais se tornam joguetes através de grandes nomes e de profecias que as tornam ridículas.

Tais foram os guias que desceram sobre o rebanho do rev. Irving e produziram diversos efeitos, bons e maus, conforme o instrumento empregado». (Doyle, A.C. — História do Espiritismo, p. 51).

Andrew Jackson Davis

Andrew Jackson Davis (1826-1910) foi cognominado o vidente de Poughkeepsie, o profeta de uma nova revelação. Nasceu em Blooming Grove, às margens do Hudson.

Ao contrário dos dois precedentes — Swedenborg e Irving — A. J. Davis originava-se de meio humílimo e precário. Sua mãe era criatura deseducada e seu pai um beberrão que inicialmente trabalhou como tecelão e mais tarde como curtidor de couros, ganhando sempre um parco salário.

Davis, como seria de esperar, desenvolveu-se mal física e mentalmente.

Além dos livros da escola primária, Davis lembrava-se apenas de um livro que ele lia sempre até aos 16 anos de idade.

Porém, desde a sua infância ele já manifestava dons de clarividência e ouvia vozes. Nele havia tanta força espiritual que, «antes dos 20 anos, tinha escrito um dos livros mais profundos e originais de filosofia jamais produzidos» — diz Arthur Conan Doyle.

A conselho das vozes que o inspiravam, Davis convenceu seu pai, em 1838, a mudar-se para Poughkeepsie. Até à idade de 16 anos não recebeu educação além da primária. Trabalhou como aprendiz do sapateiro Armstrong, durante dois anos.

Em 1843, o dr. J. S. Grimes, professor de jurisprudência no Castleton Medical College, visitou a cidade de Poughkeepsie e fez uma série de palestras sobre mesmerismo. Davis achava-se entre os ouvintes e, convidado a submeter-se à acção magnética do conferencista, não manifestou ter sentido a menor influência. Entretanto, algum tempo depois, um alfaiate local, chamado William Livingstone, fez novas tentativas com o jovem Davis e conseguiu mergulhá-lo em sono magnético. Aí, então, deu-se o inesperado: em estado de transe, o corpo humano era como se fosse transparente para os olhos de Davis, permitindo-lhe fazer diagnósticos precisos de pessoas doentes.

Na tarde de 6 de Março de 1844 Davis sofreu uma experiência inexplicável: caiu em estado de transe em sua casa e, quando voltou à consciência no dia seguinte pela manhã, encontrava-se nas montanhas de Catskill, a 40 milhas de distância de sua casa.

Ele disse que lá se encontrou com dois homens de aspecto venerável, os quais ele mais tarde identificou como sendo Swedenborg e Galeno. Davis experimentou naquela ocasião um estado de iluminação mental. Daí em diante ele passou a ensinar e a escrever.

Davis relacionou-se com um músico de Bridgeport, dr. Lyon, e com o rev. Fishboug.

Lyon encarregava-se de magnetizá-lo. Durante o transe, Davis punha-se a ditar e o rev. Fishboug funcionava como secretário, registando por escrito as comunicações. Este trabalho teve início em Nova Iorque em Novembro de 1845, quando Davis começou a ditar sua grande obra: The Principles of Nature, Her Divine Revelation, and a Voice to Mankind. O ditado prosseguiu por um ano e três meses. O livro, contudo, não teria sido editado, não fosse o entusiasmo de algumas testemunhas.

O dr. George Bush, professor de Hebraico na Universidade de Nova Iorque foi uma das testemunhas quando eram recebidas as mensagens durante o transe. Ele declarou que ouviu «Davis citar correctamente a língua hebraica em suas palestras, e demonstrar um conhecimento de Geologia muito admirável numa pessoa da sua idade, ainda quando tivesse devotado anos a esse estudo. Discutiu com grande habilidade, as mais profundas questões de arqueologia histórica e bíblica, de Mitologia, da origem e das afinidades das línguas, da marcha da civilização entre as várias nações da Terra, de modo que fariam honra a qualquer estudante daquela idade, mesmo que, para as alcançar, tivesse consultado todas as bibliotecas da Cristandade». (Doyle, A.C. — História do Espiritismo, p. 63).

É também digno de atenção a descrição que E. Bush fez de Andrew Jackson Davis: «A circunferência de sua cabeça é demasiadamente pequena. Se o tamanho fosse a medida da força, então a capacidade mental desse jovem seria limitadíssima. Os pulmões são fracos e atrofiados. Não viveu num ambiente refinado; as suas maneiras eram grosseiras e rústicas. Não tinha senão um livro. Nada conhece de gramática ou das regras de linguagem nem esteve em contacto com pessoas dos meios literários ou científicos. (Opus cit. p. 63).

Este é o retrato de Davis aos 19 anos de idade, do qual — segundo A. C. Doyle — «jorrava então uma catadupa de palavras e de ideias, abertas à crítica, não por sua simplicidade, mas por serem demasiado complexas e envoltas em termos científicos, conquanto sempre com um fio consistente de raciocínio e de método». (Opus cit. p. 63).

Davis escreveu inúmeros livros, todos compendiados sob o nome de Filosofia Harmónica. Trata-se de uma obra grandiosa e polimorfa em que se assinalam, além de ensinamentos profundos, algumas profecias. Em seu livro, Penetrália, ele precognizou o aparecimento do automóvel, do avião, da máquina de escrever e outras invenções.

O aparecimento do espiritismo foi predito em os Princípios da Natureza, publicados em 1847, desta forma: «É verdade que os espíritos se comunicam entre si, quando um está no corpo e outro em esferas mais altas — e, também, quando uma pessoa em seu corpo é inconsciente do influxo e, assim, não se pode convencer do facto. Não levará muito tempo para que essa verdade se apresente como viva demonstração». (Opus cit. p. 67).

Davis passou os últimos anos de sua existência como director de uma pequena livraria em Boston. Faleceu em 1910, com a idade de 81 anos.

Em 31 de Março de 1848 pressentiu o episódio de Hydesville, escrevendo em suas notas: «Esta madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz suave e forte dizer: Irmão, um bom trabalho foi começado — olha! Surgiu uma demonstração viva». (Opus cit. p. 69).

Sabemos que o episódio de Hydesville foi o marco inicial do movimento espírita.

Os Shakers

Em inglês "Shaker" significa sacudidor, agitador, convulsionário, etc. Era o nome que se dava aos membros da seita religiosa chamada a Igreja do Milénio.

Os "Shakers", ao que parece, ligavam-se aos Quakers de um lado, e do outro, aos refugiados de Cevennes, vindos para a Inglaterra para se subtraírem à perseguição de Luís XIV.

Apesar de inofensivos, eles eram perseguidos e molestados pelos fanáticos.

Por esta razão, resolveram emigrar para os Estados Unidos, por ocasião da Guerra da Independência. Uma vez em seguro solo americano, trataram de fundar suas comunidades religiosas em diversos lugares. Os "Shakers" viviam de maneira simples e pura. Em 1837 contavam-se cerca de 60 grupos religiosos desta seita.

Começaram então a ocorrer com os "Shakers" fenómenos semelhantes aos que se deram com os adeptos da igreja do rev. Irving. Durante as primeiras ocorrências de pessoas tomadas por espíritos e que se punham a falar, eles mantiveram certa discrição e procuraram guardar para si próprios a experiência obtida. Temiam ser tomados por loucos e trancafiados em hospícios. Mas pouco tempo depois surgiram dois livros contando as suas experiências: Santa Sabedoria e O Papel Sagrado.

A "invasão" de espíritos só se dava após solicitarem permissão, incorporando-se antes em um ou dois pres-bíteros. Sir Arthur Conan Doyle assim descreve o que se passava após ter sido concedida a permissão: «Dada a licença, toda a tribo de espíritos de índios invadia a casa e em poucos minutos por toda a parte ouvia-se o seu "Whoop! Whoop!".

Os gritos de "Whoop", aliás emanavam dos órgãos vocais dos próprios "Shakers". Mas, ainda sob o controlo dos índios, conversavam na língua destes, dançavam as suas danças e em tudo mostravam que estavam realmente tomados por espíritos de peles-vermelhas». (Opus cit. p. 54).

Nos Estados Unidos, como aqui, os espíritos dos povos primitivos tiveram um papel importante.

Raros eram os médiuns americanos que não tivessem como guia o espírito de um pele-vermelha. No Brasil vemos ocorrer o mesmo fenómeno, quase todo médium tem como guia ou um "preto-velho" ou um "índio". Qual a razão disso?

Parece que essas entidades, muito embora possam ser evoluídas no sentido do bem, carecem ainda do desenvolvimento intelectual dos ditos civilizados. Por este motivo acham-se mais próximas de nós.

Além disso, o seu trato com a natureza deve facilitar-lhes o controlo sobre as forças paranormais, permitindo-lhes um intercâmbio maior com o plano dos encarnados.

Entre os "Shakers" destacava-se pela sua inteligência um homem chamado E. W. Evans, o qual, juntamente com alguns companheiros, procurou entender os fenómenos que então ocorriam.

A conclusão a que chegaram era obviamente que os espíritos dos índios tinham vindo para aprender, a fim de se prepararem para uma missão mais importante. De facto, após cerca de sete anos os espíritos os deixaram, já consciencializados de sua situação e preparados para uma outra missão mais importante.

Eis o que diz Doyle a propósito deste facto: «Quando os espíritos os deixaram, disseram-lhes que se iam, mas que voltariam, e que, quando voltassem, invadiriam o mundo e tanto entrariam nas choupanas quanto nos palácios». (Opus cit. p. 56).

Quatro anos mais tarde começaria o episódio de Hydesville, e A. C.

Doyle acrescenta: «E quando se iniciaram» — as batidas em Hydesville — «Elder Evans e outros "Shakers" foram a Rochester e visitaram as irmãs Fox.

A sua chegada foi saudada com grande entusiasmo pelas forças invisíveis, as quais proclamaram que aquilo era realmente o trabalho que tinha sido predito.» (Opus cit. p. 56).

Conclusão

Como pode ver-se, a eclosão do movimento espírita, que teve início em Rochester, no vilarejo de Hydesville, parece ter sido precedido de um preparo por parte do plano espiritual.

É digno de nota que, lá nos Estados Unidos, surgiu a primeira avalancha como manifestação das forças espirituais nos meios mais humildes e menos intelectualizados.

Em pouco tempo o movimento alastrou, passando para a Europa, onde iria suscitar o interesse dos cientistas.

No próximo número, vamos prosseguir, relatando o episódio de Hydesville. Aguardemos.

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