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Religião: sim ou não?Revista de Espiritismo nº. 37, Outubro/Dezembro 1997 Alerta: Os temas sujeitos a debate
reflectem pontos “(...) o ponto crucial do problema religioso chama-se hipocrisia. E a
hipocrisia resulta das atitudes A hipocrisia é um vício que consiste em fingir qualidades ou bons sentimentos. O hipócrita age de forma desleal, falsa e fingida, ocultando os seus defeitos, ‘disfarçando-se’ de qualidades e sentimentos que não possui. A hipocrisia é reveladora da imperfeição moral do espírito. Hipócritas são todos os falsos moralistas, todos aqueles que se apresentam vestidos de uma falsa capa de santidade; todos os que dizendo uma coisa, fazem outra, jogando com a verdade; todos os que julgam sumariamente os outros, pela mais pequena infracção, mas que são incapazes de se julgarem a si mesmos de forma imparcial; todos os que fazendo-se juízes, severos e exigentes, dos seus irmãos de caminhada, agem com extrema indulgência para com os seus próprios defeitos e imperfeições. “A hipocrisia resulta das atitudes egoístas”, pois o egoísta vive exclusivamente para si mesmo e para os seus interesses próprios; tudo subordina à sua pessoa e ao cego amor por si mesmo. Altruísmo, desinteresse e dedicação ao próximo não fazem parte do seu proceder natural. O egoísta, pelo seu procedimento, é um ser espiritualmente imaturo. Toda a felicidade na Terra é passageira. Mas, inquestionavelmente, para ser feliz é preciso saber amar. Aquele que ama, encontrou, no seu íntimo, a paz, a harmonia, a serenidade. Só há felicidade no amor: só amando descobrimos a genuína fonte da alegria onde privamos, por instantes, de alguma felicidade. Por isso, ninguém é feliz sozinho; por isso, vivemos em grupo. Porque não dão um passo na direcção do próximo, o egoísta e o orgulhoso dificilmente descobrem a felicidade. Para ser feliz, igualmente, é necessário ao homem conhecer-se, descobrir-se, aperfeiçoar-se. Somos constantemente estimulados ao progresso que age na estrutura do nosso mundo mental e afectivo. Crescemos espiritualmente, pela experiência e pelo conhecimento acumulados. Todo o conhecimento e toda a experiência são acompanhados de uma reflexão contínua e permanente que analisa, compara, relaciona, integra e assimila quanto vivemos àquilo que já somos. Estamos, assim, em perpétua mudança: a experiência de uma vida traduz-se num progresso realizado. O egoísta e o orgulhoso revoltam-se porque não compreendem como pode a “sua vida” estar sujeita à mesma Lei geral que disciplina toda a Humanidade. Gostariam de ser privilegiados, de ter regalias, atenções e deferências, porque se consideram seres superiores, e se vêem tratados, a todo o momento, com a mesma imparcialidade e a mesma justeza com que o são tratados todos os outros. Pelo contrário, todos aqueles que encontraram alguma paz interior, desejam sinceramente compreender, por trás de todos os acontecimentos, bons e maus, o que a vida lhes quer, com isso, ensinar. Por isso, permanecem tranquilos e confiantes; aceitam a vida física como experiência necessária, subordinada a uma vontade superior, a uma Lei. Essa Lei, justa e perfeita, não funciona ao sabor do acaso: tudo obedece a uma razão, já que “todo o efeito tem uma causa”, tudo tem um sentido e uma finalidade. Compreendem, assim, que, estando sujeitos a uma Lei de Amor universal, lei justa e imparcial, todos os eventos e experiências surgem para seu próprio benefício e progresso, como necessidades de crescimento e aprendizado espiritual, atendendo às responsabilidades que assumirão em sua vida futura. Compreenderemos, assim, que o egoísta e o orgulhoso, preocupando-se em exclusivo com os seus interesses e com as suas pessoas, verão nos bens materiais a primeira e última finalidade das suas existências. Estes, apenas vêem e compreendem o seu benefício; vivem exclusivamente para satisfazer as suas necessidades imediatas. Aqueles, para quem a vida significa mais que um acumular de simples coisas materiais, aspiram a um mundo solidário, de justiça e de verdade. Estes, valorizarão sempre mais o bem comum, a verdade, a justiça e a solidariedade, como as imperecíveis riquezas da Humanidade. Podemos, com propriedade, chamar-lhes “homens de boa vontade”. Os orgulhosos e egoístas usarão de todos os meios e recursos para atingirem os seus fins egoístas, abusando, se preciso for, da liberdade, dos direitos e da dignidade de todos os outros. Os homens de boa vontade, viverão de forma positiva e justa para que se edifique o bem comum; sentirão enorme repulsa pela injustiça, pela mentira, pela fraude. Devido ao seu carácter vertical, à sua formação moral e ética, preferem ser prejudicados a prejudicarem, ser perseguidos a perseguirem, ser caluniados a caluniarem, ser odiados a odiarem, porque têm forte convicção no futuro e na justiça. A sua fé é sólida e inquebrantável porque assenta na razão. Enquanto os primeiros reivindicam posições, títulos, poder e autoridade, os segundos permanecem atentos aos problemas humanos que é preciso resolver, vêem o trabalho urgente que é necessário realizar para minorar a dor e o sofrimento da sociedade, servindo com humildade e desinteresse, movidos, simplesmente, pela piedade e pela caridade ao próximo. Se os orgulhosos e os egoístas se sentem feridos no seu amor próprio e tocados no seu orgulho, na sua vaidade e nos seus interesses, imediatamente fazem a guerra, movidos por sentimentos de vingança e ódio contra os seus adversários. Os homens de boa vontade quando perseguidos, injuriados e incompreendidos, tudo toleram, perdoam e esquecem; compreendem como tudo isso é vão e pequeno, comparado, com a grandeza da Lei de Amor universal que nos move pela eternidade. Os egoístas e orgulhosos não olharão a meios para atingirem os seus fins, usarão e abusarão, inclusive, daquilo que é mais santo e sagrado, sem quaisquer escrúpulos. Para os homens de boa vontade a verdade é soberana e essencial: não há verdade sem justiça e toda justiça se fundamenta no sentimento de amor ao próximo. Os primeiros tentarão permanentemente conquistar o mundo pela violência; os segundos, porque nada desejam dos bens do mundo, serão, na realidade, quem impelirá a Terra no sentido da perfeição, pois são tocados no coração pelo divino sentimento do amor. Certamente o sofrimento e a dor serão agentes de transformação interior, alertando para as verdades eternas a que todos nos subordinamos. Assim, a lei do progresso, comum a todos, actuará sempre, impelindo-nos a evoluir. Mas a Lei de Amor universal, ao dar-nos responsabilidades perante os outros, traça limites à nossa liberdade, quando nos diz “ama ao teu próximo como a ti mesmo”. Não há liberdade sem responsabilidade pelo que é de toda a justiça que obrigatoriamente colhamos, sempre, todos os frutos do nosso bom ou mau proceder. A dor e o sofrimento são consequência dos nossos desvios à Lei: melhorando-nos pelo amor, não mais teremos necessidade de sentir tão agudamente a sua presença em nossas vidas. Compreendemos, como é óbvio, que todo o progresso espiritual traduzirá, de acordo com o seu grau de maturidade, uma compreensão diferente do que é Deus. O Espiritismo vem, desta forma, reflectir, também, sobre o problema religioso, à luz da razão. Compreendendo a essência espiritual do homem como a única e verdadeira realidade eterna, alavanca do seu progresso e felicidade, não se prende com a dogmática, os cultos, as liturgias e os cerimoniais, mas realça o bem, entendido na sua expressão universal, comum a todos os homens, apresentando-o, claramente, como uma obrigação moral do homem para com o homem. Assim procedendo, busca educar o espírito, para que este, descobrindo-se, caminhe no sentido da perfeição, já que o egoísmo e o orgulho são em tudo contrários ao sentimento de amor ao próximo. Igualmente demonstra a realidade espiritual como a única realidade eterna, pelo que destrói pela raiz as sementes do materialismo, ao acender o fogo de um ideal de fraternidade universal. O problema religioso está, assim, colocado no estrito campo da moral. Sendo as leis morais uma expressão da Lei de Amor universal, elas são pertença comum de todos os povos e sociedades. O bem será sempre o bem, em qualquer latitude da Terra. O bem será, ainda, no futuro, um território neutro, comum a toda a Humanidade, que todos deverão entender e praticar da mesma forma, pelo que, um dia, todos se encontrarão irmanados pelo mesmo ideal. Por isso, o Espiritismo faz da máxima “fora da caridade não há salvação” a sua bandeira. Lembra a cada um de nós a sua obrigação para com todos os outros. É uma regra de bem proceder fundamentada na realidade do espírito eterno que só o Espiritismo pôde racionalmente explicar pela força inquestionável dos factos e pela lógica incontornável dos argumentos. Neste sentido, entende a religião como um movimento dinâmico, evolutivo, perpétuo, através do qual o homem se vai espiritualizando na direcção infinita de Deus. (1)-Pires, José Herculano.“A Agonia das Religiões”, Editora Paideia, S. Paulo, Brasil, 3ª edição, 1989. pág. XIII. O espiritismo é uma religião?«Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes (...)». O LAÇO estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objectivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o facto de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunidade de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família. Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos não sobre uma convenção mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza. Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com o seu cortejo de hierarquias, de cerimónias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública. Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral. As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos com que se ocupa. Pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto as tomem por assembleias religiosas. Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada ideia. Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade (...)». (De «Revista Espírita», Ano XI, Dezembro de 1868, Discurso de Abertura de Allan Kardec na Sociedade Espírita de Paris, em 1 de Novembro de 1868). |
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