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Tolerar... ou ser tolerado

Revista de Espiritismo nr. 28, 3º. trimestre de 1995

Mais importante do que ser tolerado é ser tolerante. Quando os educadores, os pais, na teoria e na prática, exemplificarem este tópico aos mais novos, as mentalidades melhorarão.

A ausência da tolerância quase sempre dá lugar à agressividade. Venha esta na embalagem violenta do fanatismo religioso ou da xenofobia. Por exemplo, a meio deste ano ocorreu o crime racista do Bairro Alto. Os órgãos de comunicação social empolaram-no tanto, ao repetirem a notícia diariamente, que, dias depois do homicídio, um mancebo no cumprimento do serviço militar obrigatório (careca por disciplina marcial) levou pancada de criar bicho ao ser tomado como skin-head (cabeça-rapada racista). Esta vertente foi explorada à exaustão, sem haver uma análise demonstrativa do potencial de perigo que encerra também o fanatismo religioso, que é quase sempre proselitista.

Aprender a pensar

As decisões emocionais rebentam rápidas como torrentes. Sem a participação do bom senso, são capazes de danificar a harmonia de muita gente. Essas atitudes vêem-se no dia a dia de muitas pessoas com dificuldade em articular raciocínio com alguma clareza, dentro e fora do movimento espírita. Apesar de saberem somar 2 + 2 ou até 1500 + 1353, não distinguem as águas apaixonadas das suas opções, incapazes de perceberem que é conveniente para si próprias e para todos canalizá-las, sem pseudoargumentos, através da via da sensatez, da capacidade e da possibilidade de pensar. São os fanáticos, mais ou menos camuflados.

Já para não referir as seitas milagreiras, por exemplo, que se regem pelo apelo emocional, em que a razão sofre um demorado ocaso, veja-se algo mais clássico: nessa altura do crime racista, no norte, numa aldeia para as bandas da serra do Caramulo, o fanatismo religioso ficou à margem das notícias. Mas a intolerância vertida em forma de violência, por parte de crentes da religião tradicional, contra uma ali recém-instalada religião evangélica (minoritária, claro) ocorreu e gerou vítimas. Houve ofensas corporais, contando-se entre os atingidos uma criança. A queixa infelizmente não foi apresentada, pois as vítimas, na certa por entenderem que era assim que deviam vivenciar a sua convicção, acharam preferível não o fazer.

Espíritos tolerantes

Quando ponderávamos sobre o gosto de beneficiar da tolerância alheia, alguém nos disse que para uma criatura ter necessidade de ser tolerada basta ser nem mais nem menos do que parvo. Para tolerar, é preciso ter algo mais: alguma capacidade de dar. De dar na ciência e na arte de se ser tolerante.

Está-se longe de fazer a apologia da manutenção de situações injustas que nos fazem sofrer ou a outrem.

Mas, a nível familiar, antes de clamar pela tolerância alheia mais importante talvez seja aferir até que ponto temos sido tolerantes. Por que não passar a ter isso presente? Uma forma de semear este propósito é afirmar no imo do ser: «Dia após dia, eu sou mais tolerante!». É programação positiva, que serve mesmo para aqueles que se consideram tolerantes.

Ano Internacional

A nomeação de 1995 como Ano Internacional da Tolerância deveria servir para se reflectir na prática dessa virtude. Na verdade, em nós próprios temos feito algo nesse sentido? O mais provável é que, se nos examinarmos bem, chegamos à conclusão de que sempre poderemos ser mais tolerantes do que temos sido.

Que o processo de tolerar tenha como efeito real a paz e a justiça.

É muito fácil ser tolerante com quem não nos pisa os calos... Não escasseiam oportunidades. Começando por aí, diante do ensejo de tolerar quem nos incomoda, não nos perturbemos e exerçamos esse privilégio: tolerar. É forma de guardar a nossa paz. O caminho vai por aí.

Mas tolerar certas imposições pode ser a aceitação de vida interior menor, que poderia crescer de uma forma bem mais positiva. Há coisas que socialmente não são de tolerar, como a violação dos direitos humanos ou a destruição do planeta. Aqui, porém, talvez já não se trate de tolerância, mas de outras coisas diferentes. Há atitudes que podem ser confundidas com tolerância. Se esta visa o interesse geral, o bem comum, há comportamentos que, vestidos de pele de cordeiro, fazem o oposto. É o caso da omissão, do comodismo, da pactuação ou do estímulo à asneira evidente. Contudo, isso não é tolerar: o tolerante não é, de certeza, nem inconsciente nem desinteressado. O poder de optar esteve sempre nas nossas mãos.

Tolerar é Diferente

Não confundir tolerância com:

Comodismo e desleixo – atitude de quem não quer saber de nada que não seja andar ao sabor da corrente, entendendo que o leme de suas opções é mero artigo decorativo.

Preguiça e inconsciência – atitude de quem não está «para se chatear», porque isso dá trabalho e às vezes até exige alguma abnegação. Uma constante carência de perceber o que é essa coisa a que chamam responsabilidade.

Ausência e omissão – carência de participação por timidez ou receio de reacções desfavoráveis que surgiriam se dissesse o que pensa, sobretudo quando há abertura para o fazer. No fundo e na superfície, sempre, participação igual a zero.

Conluio e pactuação – aguenta-se isso para se conseguir aquilo, mesmo que não haja nenhuma afinidade de perspectiva, se bem que se partilhem interesses mais ou menos casuais, com quem se pactua.

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