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Um negócio de morteJosé Lucas Revista de Espiritismo nº. 37, Outubro/Dezembro 1997 “A imortalidade da alma é uma coisa de tal A morte é uma companheira inevitável, tanto quanto indesejável. A maioria nem quer falar dela, ponderar a sua perspectiva no horizonte, num processo de auto-ilusão. Depois dela, começa o culto da morte, com todo um conjunto de rituais e despesas com o cadáver, que as pessoas teimam em continuar. Mas, será que isso tem alguma validade? Será que é importante para os falecidos? Como encara o espiritismo esta situação? Acabámos de ver o noticiário numa das televisões. A notícia valia pelo seu inedetismo, conseguindo o seu objectivo: prender o telespectador ao ecrã. Dava-nos conta de que numa cidade do centro do país os terrenos do cemitério estavam mais caros (o metro quadrado) do que no centro da cidade. A reportagem continuava com todo um rol de acontecimentos excêntricos, desde pessoas que se zangavam por causa de um negócio perdido... no cemitério! Apareceu-nos um testemunho de um coveiro, um senhor simples e com pouca instrução mas pelos vistos cheio de bom senso, em que determinada personalidade da referida cidade teria dado 1.000 contos (um milhão de escudos) por um pedaço de terreno para uma campa, no cemitério. Paralelamente outro tipo de comércio vai vicejando ao redor dos cemitérios e dos funerais. Só falta as pessoas matarem-se por causa de um pedaço de terra no derradeiro paradeiro do corpo físico. Mas por que será que acontece tudo isto? Falta de formação espiritual? Excesso de carinho pós-morte pelos familiares (por vezes em oposição ao que se passava quando estavam ainda na Terra)? Preconceito humano levado ao exagero? Comércio? Respeito pelos falecidos? O que leva as pessoas a “investirem” nos cemitérios? Perguntas para cada um de nós meditar... Mas o que pensa o espiritismo desta situação, do culto dos mortos, do exagero desse mesmo culto e da situação dos desencarnados (fora do corpo de carne pelo processo da morte física)? Vejamos o que nos diz “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, uma das obras básicas da doutrina espírita: «320. Sensibiliza os espíritos lembrarem-se deles os que lhes foram caros na Terra? «Muito mais do que podeis supor. Se são felizes, esse facto aumenta-lhes a felicidade. Se são desgraçados, serve-lhes de lenitivo. «322. E os esquecidos, cujos túmulos ninguém vai visitar, também lá, não obstante, comparecem e sentem algum pesar por verem que nenhum amigo se lembra deles? «Que lhes importa a Terra? Só pelo coração nos achamos a ela presos. Desde que aí ninguém mais lhe vota afeição, nada mais prende a esse planeta o espírito, que tem para si o Universo inteiro. «326. Comovem a alma que volta à vida espiritual as honras que lhe prestem aos despojos mortais? «Quando já ascendeu a certo grau de perfeição, o espírito acha-se escoimado de vaidades terrenas e compreende a futilidade de todas essas coisas...». Tentando aferir da validade de tais atitudes, hoje em dia, e tendo em conta os relatos dos desencarnados (falecidos), sabemos que o que mais lhes importa são os nossos bons pensamentos a eles direccionados, as nossas preces, que lhes servem de amparo, de estímulo para o seu reerguimento ou para as suas tarefas no plano espiritual. De nada lhes importa se tal pensamento é enviado deste ou daquele local, nem se é acompanhado deste ou daquele ritual. Ficam contentes se nos lembramos deles com amor e como tal se sentem bem. Tudo o resto são exteriorizações criadas pelo homem para manifestar o seu apreço pelos «falecidos». Apenas um espírito ainda muito preso à matéria poderá ficar lisonjeado pelas honrarias prestadas, muitas vezes acompanhadas de sentimentos contrários. No entanto, o homem tem o direito de se lembrar dos seus afectos já falecidos da maneira que mais lhe aprouver, de acordo com a sua maneira de pensar. Apenas todo o excesso é condenável, raiando muitas vezes o ridículo como é o caso em pauta. |
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