História do Cristianismo II

Maurício Júnior

Aula 2 - Evolução do Pensamento Religioso

O Antigo Testamento e os Profetas
As Leis Mosaicas
O Monoteísmo e o Decálogo

1 - O Antigo Testamento e os Profetas

A Bíblia é uma coletânea de diversos livros, subdivididos em Antigo e Novo Testamentos. Para a maior parte das igrejas cristãs a Bíblia é a suprema autoridade, constituindo-se na Palavra de Deus.

São livros escritos por autores vários através dos tempos que, segundo o entendimento, teriam sido ditados por Deus aos homens. Livros escritos originariamente em hebraico e aramaico, até o surgimento da imprensa, em 1450, as duplicações de qualquer texto eram manuscritas e naturalmente eivadas de erros de transcrição, tais como: omissão de letras e palavras, substituição de locuções por um só vocábulo, separação de uma palavra em duas, ou o inverso, unindo duas palavras em uma, negligência do escriba, falta de atenção, interpolações para completar a idéia segundo o critério do copista, ou ainda por tomarem uma letra por outra muito semelhante, tudo isto ocasionando alteração das idéias originais, algumas vezes deliberadamente em busca de outros propósitos.

A Bíblia não é fácil de ser entendida, porque seu linguajar arcaico leva outras correntes doutrinárias a impropriamente interpretá-la ao pé da letra com as naturais distorções, donde provém sua rejeição, de um lado pelos mais exigentes e de outro, pelos acomodados.

Entre as traduções da Bíblia, as mais antigas e famosas são: a Versão dos Setenta e a tradução feita por Jerônimo, chamada Vulgata. Recentemente, após as descobertas dos Manuscritos do Mar Morto, processou-se sua tradução por especialistas de diferentes religiões cristãs, procurando-se eliminar os desvios semânticos, decorrentes das modificações da língua através dos tempos e de diferentes interpretações, para que se chegasse a um denominador comum. Essa tradução foi designada de A Bíblia de Jerusalém.

Ao se consultar o Antigo Testamento, são inúmeras as passagens em que Deus se manifesta aos homens, constituindo as diversas Teofanias, ou seja, a aparição, a manifestação de Deus às criaturas. Aqui cabe questionar:

As Teofanias, ou seja, as manifestações de Deus aos homens, ou ainda os fenômenos e fatos relatados nas escrituras, séculos ou milênios atrás, mandam a lógica e a razão que necessariamente não só possam como devam repetir-se hoje exatamente com as mesmas características, dentro das mesmas leis.

Não admitir isto, é o mesmo que admitir a mutabilidade de Deus. Deus teria comportamento emotivo com o correr dos séculos. Estaria sujeito a tratar diferentemente os homens conforme simpatizasse ora com uns, ora com outros. Deus seria inconstante nos seus critérios de assistência aos seus tutelados.

Ora, é sabido que Deus é imutável, soberanamente bom e justo. O mesmo ocorre com suas leis. Os homens, sim, mudam, porque evoluem e se aprimoram. Leis outrora desconhecidas vão sendo aos poucos descobertas, sejam elas científicas, filosóficas ou morais.

Assim, não se pode comodamente classificar os fatos bíblicos como milagres e muito menos como sobrenaturais, o que seria aceitar uma derrogação das leis divinas.

A palavra profeta deriva do grego prophetes que quer dizer pessoa que fala em lugar de outra como intérprete e significa também pessoa que prediz o futuro. Esta, a palavra, que nas páginas do Antigo Testamento, servia para designar todos aqueles que faziam predições atribuídas a inspiração divina. Os profetas de Israel extremamente obedientes e obstinados defensores do Decálogo sobrepuseram-se aos demais povos pela sua pureza, pela sua moral.

A mais antiga manifestação histórica do profetismo é a que se dá entre os judeus, corporificando aspectos fundamentais tanto do próprio judaísmo como, mais tarde, da religião cristã. Os profetas de Israel têm por característica principal servirem de mediadores entre um deus e um povo determinado, isto é, entre Javé e os hebreus. O fenômeno remonta à fase de nomadismo das tribos hebraicas, quando se limitava à expressão oral. Ainda na época de Samuel, de Saul (séx. XI a.C.), o chamado ou inspirado (navi) era um vidente extático e andarilho, suscetível de arrebatamentos, desmaios, êxtases, flagelações, empenhando-se na defesa de Javé e contrapondo-se à influência de outros cultos, como o da religião cananéia.

O aparecimento e o caráter do profetismo, entre os hebreus, têm relação estreita com a obra e o papel desempenhado por Moisés -- referido (Deut. 34,10) como o maior dos profetas -- na condução do povo de Israel à terra de Canaã.

Dos profetas eram exigidos presságios de acontecimentos futuros, parte importante de suas tarefas tidas como sinais incontestáveis de serem representantes de Deus. Tinham que abordar acontecimentos atuais e passados e simultaneamente instruir o povo nos caminhos de Deus.

O primeiro profeta de que se tem notícia nas escrituras hebraicas é o próprio Abrahão (Gn. 20-7), fundador da tribo de Israel.

De toda a longa tradição do profetismo hebraico, em que se manteve inalterável o denominador comum da defesa de Javé e de sua ética, pelo menos 21 profetas se tornaram conhecidos: na primeira fase, monárquica, dos hebreus, Samuel, Elias, Eliseu, Natã; no séc. VII a.C., Amós, Oséias, Isaías, Miquéias; no séc. VII, Sofonias, Naum, Habacuque; no séc. VI, Jeremias, Ezequiel e o Segundo Isaías; nos seçs. V e IV a.C., Ageu, Abdias, Zacarias, Malaquias, Joel, Jonas e Daniel.

Os Livros Proféticos, de modo geral, registram as principais profecias dos missionários de Israel. Assim, tem-se:

2 - As Leis Mosaicas

Segundo vários teólogos, há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus, promulgada sobre o monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida por Moisés; uma é invariável; a outra, apropriada aos costumes e ao caráter do povo, se modifica com o tempo.

Esta lei é de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, um caráter divino. Todas as outras são leis estabelecidas por Moisés, obrigado a manter, pelo temor, um povo turbulento e indisciplinado, no qual tinha que combater os abusos enraizados e os preconceitos hauridos na servidão do Egito. Para dar autoridade às suas leis, ele deveu atribuir-lhes origem divina, assim como o fizeram todos os legisladores de povos primitivos; a autoridade do homem deveria se apoiar sobre a autoridade de Deus; mas só a idéia de um Deus terrível poderia impressionar homens ignorantes, nos quais o senso moral e o sentimento de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos. É bem evidente que, aquele que tinha colocado em seus mandamentos: Tu não matarás; tu não farás mal ao teu próximo não poderia se contradizer fazendo deles um dever de extermínio. As leis mosaicas, propriamente ditas, tinham, pois, um caráter essencialmente transitório.

As leis mosaicas estão compiladas em cinco livros (Pentateuco), conhecidos pelo nome de Torá, e contém um conjunto de prescrições e postulados que orientam a vida moral, social e religiosa do povo judeu e se divide em:

3 - O Monoteísmo e o Decálogo

As cinco obras básicas atribuídas à autoria de Moisés representam as tônicas do pensamento religioso dos judeus. Uma parte caracteriza-se como de origem nitidamente espiritual, conteúdo permanente e de interesse geral, universal, transcendendo limitações de tempo e espaço, raça e culto. A essência de tal pensamento está sumarizada no Decálogo. Uma certa unanimidade existe em torno da considerável importância desse documento. É ele a base, o ponto de partida, a estrutura de todo o desenvolvimento posterior de uma ética para as multidões que viriam integrar a tradição judeu-cristã. Quando o Cristo dizia que não veio derrogar a lei e sim fazê-la cumprir, é certo que se referia a esse conteúdo espiritual, intemporal e universal do Decálogo.

O restante da obra de Moisés é desdobramento, detalhamento daquele código básico com a finalidade de adaptá-lo aos costumes e caráter do povo hebreu. É como se fossem a lei e a sua regulamentação.

Há, pois, no Pentateuco, um código permanente de ética ao lado de uma legislação mais ou menos variável e adaptada à época e aos hábitos bem como às crenças específicas do povo hebreu.

É indisputável a autoridade do Decálogo. Reconhecendo isto, a própria Igreja Católica resolveu aceitá-lo e incorporá-lo aos seus ensinamentos, exatamente por entender que a sua moral é sólida e que seus preceitos estão acima da posturas meramente sectárias. Qualquer religião que se preze há de recomendar o que ali está exposto: o respeito a Deus, à verdade, aos pais, à vida a aos bens alheios.

Um exame atento dos textos nos leva, não obstante, a admitir que o decálogo não é um documento de amor e sim de comando. Não é sem razão, pois, que seja também conhecido como os Dez Mandamentos. O primeiro preceito não nos convida a amar a Deus - identifica-o e determina secamente: Não tereis, diante de mim, outros deuses. Aliás, quase todo o decálogo é vazado em forma negativo-imperativa: não mates, não cometas adultério, não roubes, não prestes falso testemunho, não desejes a mulher do próximo, não cobices os bens alheios. Somente dois dos preceitos são escritos de forma positiva - a santificação de um dia por semana e o respeito aos pais, este último, mesmo assim, não tanto por amor, mas para que se possa viver longo tempo na Terra que Deus daria ao povo hebreu.

A doutrina do amor, mantido a respeito pelas determinações do decálogo, seria introduzida alguns séculos depois pelo Cristo.

Estas observações não têm o caráter de uma crítica que, obviamente, nada retiraria do mérito incontestável que todos reconhecem no decálogo. Entretanto, a um povo rude, ainda turbulento e heterogêneo como os hebreus nômades dos primeiros tempos, seria totalmente inócuo um código que apenas fizesse apelo ao amor fraterno, à mansuetude, à obediência consciente e voluntária.

O Decálogo figura duas vezes no Pentateuco: em Êxodo 20:2-17 e em Deuteronômio 5:6-18. Há variações substanciais entre um texto e outro, mas não tão significativas que invalidem as colocações nele contidas. Os exegetas do Antigo Testamento acham que os textos, tal como hoje os conhecemos, resultam da expansão posterior de uma versão original e primitiva bem mais sintética.

O decálogo e a crítica histórica - Até o aparecimento da crítica histórica, aplicada às Escrituras na segunda metade do séc. XIX, poucos punham em dúvida a autoria mosaica do Pentateuco, sobretudo de textos considerados fundamentais, como é o caso do decálogo. Desde 1880, porém, até a atualidade, os problemas da origem, da forma e da transmissão dos dez mandamentos têm preocupado grande número de pesquisadores. Em 1889, Julius Welhausen abriu a discussão com a obra Composição do Hexateuco e dos livros históricos do Antigo Testamento, negando que Moisés tivesse promulgado leis como as do decálogo, de caráter permanente e universal. Desde então, questões como essa permanecem em debate, em alto nível, entre estudiosos de renome, tanto nos meios católicos e protestantes como judaicos.

Sigmund Mowinckel (O Decálogo, 1927) defende a teoria de que o decálogo é fruto do pensamento profético de discípulos de Isaías, dos tempos pré-exílicos, mas relaciona todo o trecho de Ex 19-24, no qual o decálogo, na forma em que se apresenta hoje, veio posteriormente a ser inserido, com objetivos de culto e, particularmente, com as mais antigas festas religiosas relativas ao velho pacto da aliança entre Deus e o seu povo.

Posteriores hipóteses, principalmente de Albrecht Alt, a respeito do caráter apodíctico (1) do decálogo, enfraqueceram as teorias de Mowinckel, mas tentaram deixar claro que era impossível admitir a origem mosaica do documento, a qual poderia atribuir-se somente às cláusulas relativas à casuística (2) da legislação contida no Êxodo. Para Alt, a legislação desse último tipo era comum a outros povos, mas o decálogo seria genuína criação israelita. Entretanto, descobertas arqueológicas mais recentes levaram G.E. Mendenhall à conclusão de que a legislação de tipo apodíctico existia já entre os hititas e outros povos, exatamente com a mesma estrutura do Decálogo e seu contexto: um preâmbulo histórico, cláusulas proibitivas, e prescrições quanto à guarda e leitura do documento.

As discussões prosseguem. Não é possível negar a semelhança entre o decálogo e velhos códigos de povos antigos contemporâneos do povo de Israel. Por outro lado, é nítido o paralelismo entre algumas leis religiosas da Babilônia, bem como o Livro dos Mortos (cap. 125) dos egípcios e alguns dos preceitos do decálogo. Há neste, porém, como diferenças essenciais, o culto exclusivo ao Deus único (monoteísmo) e a proibição da feitura de imagens: os dois aspectos que de fato caracterizam a espiritualidade da religião bíblica.


NOTAS

(1) Apodíctico - Diz-se do que é demonstrável ou do que é evidente, valendo, pois, de modo necessário.
(2) Casuística - Estudo dos casos de consciência, isto é, dos problemas concretos que se apresentam à ação moral.


QUESTIONÁRIO

  1. Comumente se diz que a Bíblia é a palavra de Deus aos homens. Quais seriam os argumentos para que assim não a considerássemos em seu inteiro teor?
  2. Quais as versões mais antigas da Bíblia e em que línguas foram traduzidas estas versões?
  3. Qual a versão mais moderna da Bíblia?
  4. O que vem a ser uma Teofania?
  5. Qual a principal característica entre os profetas de Israel?
  6. Na história do povo hebreu, quantos foram os profetas? Cite 7 deles?
  7. Segundo o seu entendimento, o que seriam as leis mosaicas?
  8. Em quais livros do Antigo Testamento estão compiladas as leis mosaicas?
  9. O que é o decálogo e o que ele contém?
  10. Por que razão o decálogo é transcrito em forma negativo-imperativa?

TEXTOS EXTRAÍDOS DE:

(Publicado no Boletim GEAE Número 409 de 23 de janeiro de 2001)