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Centro Espírita: assistência social ou espiritual?Cirso Santiago Sem qualquer sentimento de grandeza, vamos lembrar que, na atualidade, a primazia de assistência social deve ser creditada, por justiça, ao movimento espírita. Se não houvesse outros motivos, somente esse já justificaria, até de maneira enfática, a inclusão desse tema na pauta do presente Entrade, 4º Encontro de Trabalhadores e Dirigentes Espíritas, realizado em São José do Rio Pardo. Vamos, porém, alertá-los, de que nossa proposta é levantar aqui a discussão do assunto quase que exclusivamente em termos filosóficos, já que o emaranhado técnico que o envolve deve ser, a nosso ver, abordado por especialistas em áreas do conhecimento social humano como, por exemplo, o sociólogo e o assistente social. Cremos mesmo que a questão técnica de assistência social espírita deva ser preocupação para um próximo Encontro, quando, então, complementar-se-ia a exposição e os debates. A temática é importante e exige um maior aprofundamento para que tenhamos o ensejo de mapeá-la a partir de suas ramas até as suas mais profundas raízes. Alguém, entretanto, habituado a fazer assistência social, ao ouvir nossas palavras, poderá indagar: "Se a assistência social espírita é tão ampla e respeitada até mesmo por criaturas contrárias ao Espiritismo, por que tanto empenho em analisar e debater esse tema?". Questionamentos assim procedem. Fazem parte de jogo democrático que sempre impera em fóruns como este, cujo objetivo maior é o de buscar na discussão um senso comum em torno de cada assunto proposto. E isso só se pode tornar realidade quando se respeita os pensamentos antagônicos. Partamos, então, do princípio de que todas as indagações que venham a surgir aqui têm um único propósito: buscar ampliar nosso conhecimento sobre o assunto em tela, a fim de que suas nuanças positivas possam vir à baila, assim como as negativas também, para que, posteriormente, possamos trabalhá-las de modo a diminuí-las e até mesmo extingui-las a bem do perfeito sucesso de nossa prática assistencial. A importância da qualidadeA abrangência da assistência social espírita é de fato espantosa. Apenas para reavivarmos o cenário atual, citemos algumas das iniciativas nesse campo de trabalho: creches, hospitais, abrigos, albergues, casas de recuperação física e mental, casas para mães solteiras, clínicas para aidéticos, escolas etc. A cada dia, florescem em lugares diferentes outras atividades sob a bandeira da Doutrina Espírita com o objetivo estritamente filantrópico. A validade desse trabalho em tempos tão difíceis como os atuais, onde a pobreza e a miséria medram de maneira pródiga, é inquestionável. Nossa abordagem crítica não visa, portanto, questionar a assistência social espírita quanto ao seu crescimento quantitativo. Claro que do ponto de vista sociológico, o melhor seria que a assistência social na Terra, fosse reduzida a proporções ínfimas e mesmo extirpada de vez, o que significaria um enorme avanço da justiça social. Por sua vez, retrataria uma melhor postura moral do ser humano. Mas enquanto isso não acontece, abençoada será toda e qualquer ação que minore o sofrimento material do próximo. Contudo, não podemos deixar de relembrar todo esse trabalho assistencial espírita para pôr em relevo aquilo que deveria ser a sua essência: a qualidade. Esse fator, muito mais do que a quantidade, é que deve merecer de todos nós atenção acurada e responsável. Pois será, principalmente, da qualidade alcançada nesse serviço que surtirão os frutos espirituais que sonhamos em maior abundância. Será que essa verdade já está totalmente identificada em nosso meio? Cremos que não! E essa convicção não é gratuita. Ela nasceu da observação. Notamos que a maioria dos espíritas pensa que assistir o próximo consiste tão-somente suprir-lhe a carência material. Esse é o grande engano que outros humanistas e religiosos já cometeram. Qual a origem desse equívoco? Vamos procurar destacar para nós essa questão com alguns dos argumentos de que dispomos e que foram sedimentados nesses anos de militância em áreas de assistência social espírita. A cada um será dado segundo sua obraPraticamente, toda criatura que aporta no cais do cristianismo é, logo, despertada para a prática do bem. A essência da prédica de Jesus coloca o exercício do bem como condição "sine quan non" para as criaturas galgarem os degraus da evolução espiritual. "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento" - mas eu te dou um segundo também muito importante: "Amarás o teu próximo, como a ti mesmo" - disse o Cristo. E entre os demais ensinos e apelos do Mestre, que nos sugerem o relacionamento amoroso para com o próximo, está esta outra máxima: "A cada um será dado segundo suas obras", o que significa dizer que o avanço espiritual está condicionado à nossa maior ou menor dedicação à prática do bem. Alertado, o cristão, de um modo geral, logo parte a beneficiar, como pode, os menos aquinhoados pela sorte. Durante séculos, vários meios vêm sendo usados por eles a fim de atender essa necessidade de exercício no bem. Os procedimentos individuais até a formação de organismos comunitários filantrópicos são testemunhos dessa preocupação cristã. Ainda num tempo não muito distante, a Igreja Católica, de Roma, mantinha espalhados em grande número, pelos recantos da Terra, os padres franciscanos, sempre muito atuantes na promoção da assistência social. A Igreja também manteve por muito tempo incontáveis "Associações Benemerentes São Vicente de Paulo" e as chamadas "Caixas de Auxílio Mútuo", entre outros serviços. Os protestantes também apresentaram suas versões assistenciais, embora em número pouco expressivo, porque são propensos a acreditar que a salvação da alma se dá muito mais pela fé do que pela obra. Esse pensamento hoje se apresenta muito mais radicalizado naqueles que se intitulam "evangélicos". A fé para eles é tudo e não querem nem ouvir falar em obra. E, portanto, não cogitam sobre assistência social. Essa só tem validade para o corpo. E esse - dizem eles - é o pecado. O importante é cuidar do Espírito. Defendem essa idéia com fervor, principalmente quando se trata do corpo do próximo. Voltando aos católicos e às primeiras seitas protestantes, podemos dizer que o trabalho assistencial desses religiosos teve sua fase áurea. E vamos lembrar que se esse trabalho não foi de todo infrutífero, também não conseguiu acabar com a miséria no mundo. Tão pouco acrescentou à sociedade valores morais substanciosos, porque apenas visou o homem material. Esse serviço filantrópico emergido nos seios das igrejas católicas e protestantes se não faliu de vez, hoje já não tem quase nenhuma expressão no contexto social. Fora da caridade não há salvaçãoOs neófitos espíritas, vindos quase sempre de meios cristãos, conhecem os apelos de Jesus em relação à prática do bem, e ao se introduzirem no conhecimento espírita, renovam sua aptidão em assistir ao próximo, principalmente quando observam que Allan Kardec resume, sabiamente, o ensino do Cristo em duas vertentes básicas: humildade e caridade. E, quando tomam conhecimento da máxima "fora da caridade não há salvação", os novatos são ainda mais envolvidos pelo interesse da prática do bem. Porque, no fundo, o que mais desejam é a sua salvação espiritual. Vêem, então, a palavra caridade como a chave que lhes abrirá a porta do céu. O seu lado místico fala alto e, assim, esperançosos em encontrar uma salvação fácil, esquecem-se de analisar o verdadeiro sentido do ensino "Fora da caridade não há salvação". Mais uma vez confundem caridade com beneficência e se lançam a promover esta, esquecendo, porém, na maioria das vezes, de praticarem aquela. De modo que a oferta material dos espíritas aos carentes, em muitas oportunidades, é deveras polpuda. Mas, infelizmente, nem sempre se apresenta imantada pelo verdadeiro amor. Do amor desinteressado, do amor que se sustenta apenas no desejo de servir. A caridade, portanto, na sua expressão mais lídima. Atrás da nossa beneficência reside, quase sempre, um forte desejo de ganhar um pedacinho do céu ou um lugarzinho na Colônia "Nosso Lar", tão bem descrita por André Luiz. Assim, matamos a fome, cobrimos o nu, medicamos o doente etc... E tudo isso é feito de forma até brilhante. Mas, não nos lembramos de que Paulo, o Apóstolo, compreendendo bem a mensagem do Cristo quanto à verdadeira caridade, disse: "... ainda que eu distribuísse todos os meus bens para alimentar os pobres e não tivesse caridade de nada isso me valeria". Procurando definir a caridade, acrescentou: "A caridade é paciente; é branda e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é temerária, nem precipitada; não se agasta, nem se azeda com coisa alguma; não suspeita mal; não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre" (E.S.E., cap. XV, item 6). Em suma, damos muita ênfase à assistência social. Mas, há ocasiões em que esquecemos de prestar também ao assistido a contraparte de sua necessidade: a evangelização. E sem a educação evangélica, tanto o assistido quanto nós temos dificuldade para entender e praticar essa caridade apontada por Paulo de Tarso. Nessa ignorância reside, na maioria das vezes, os problemas do carente. Compreendamos bem isso! Se a miséria material nos sensibiliza, a espiritual pede-nos maior urgência no auxílio. O exemplo da Casa do CaminhoPretendemos, até inconscientes às vezes, que a nossa tarefa filantrópica esteja embasada no exemplo da "Casa do Caminho", que, como se sabe, fora criada pelos Apóstolos em Jerusalém, nos primeiros tempos do cristianismo. A inspiração não poderia ser melhor. A "Casa do Caminho" é realmente o grande marco de trabalho humanitário já realizado na Terra em nome de Jesus. Mas quase nunca nos lembramos de aplicar às nossas tarefas assistenciais a metodologia completa usada pelos apóstolos. Na "Casa do Caminho" os necessitados eram, pois, assistidos durante o dia com as bênçãos dos bens nutritivos, aconchegantes e até mesmo com os curativos. Mas, à noite, eram iluminados com as instruções cristãs. Ajustado a esse sábio desempenho apostolar é que Emmanuel registrara em uma de suas obras: A maior caridade que se pode fazer é divulgar a Doutrina Espírita. Sabe, pois, esse mentor espiritual que uma vez iluminado o homem com os ensinos do Espiritismo que, na essência, são os mesmos do Cristo, terá ele, o homem, condições para percorrer o seu roteiro com suas próprias forças. Conseqüentemente, toda a humanidade crescerá espiritual e moralmente. Perdendo, então, a assistência social a razão de existir. Organização e planejamentosA assistência social espírita será ainda mais digna de elogios se tivermos também a preocupação em organizá-la, de modo a permitir replanejamentos conforme as necessidades do momento. Com isso, queremos dizer que o nosso trabalho assistencial, não importa a área que estejamos atuando, não deve ser estático; mas, sim, dinâmico. Não deve essa tarefa cair no marasmo ou nos vícios da chamada e indesejável "obra acabada". Sua vocação deve estar sempre afinada com o aperfeiçoamento não só no sentido quantitativo, mas, acima de tudo, no sentido qualitativo. Não queremos negar que haja no meio espírita trabalhos assistenciais que preencham esses quesitos. Outros há que até mesmo superam essa pálida proposta de prática assistencial. Mas, lamentavelmente, também existem instituições que pararam no tempo. Os seus serviços assistenciais são de má qualidade. Temos por aí depósitos de crianças, de idosos, de doentes, em que estes "assistidos" recebem apenas o mínimo para subsistir. No entanto, seus diretores, inconscientes, apresentam-se ufanisticamente como cultores da caridade. Para concluirmos (e apenas como exemplo), vamos passar em revista alguns dos itens básicos que não podem ser omitidos na organização da assistência social espírita. Outros podem e devem ser incorporados à vontade e, conforme a necessidade, ao potencial de cada local: - Espaço físico condizente com cada tarefa; - Fontes de recursos perenes e moralmente adequadas (evitar jogos, vendas de bebidas alcoólicas, cigarros e outros, assim como o assédio aos cofres públicos, para não se perder a liberdade da ação espírita); - Triagem (entrevistas, visita à família etc.) - Avaliação periódica do trabalho (reunião, entrevista etc.) - Grupos de voluntários para atender às necessidades; - Quadro de funcionários (se necessário, médicos, professores etc.) - Salários compatíveis com o mercado de trabalho; - Treinamento periódico do pessoal: - Tarefas doutrinárias com suporte ao serviço assistencial; - Engajamento de assistidos com aptidão às tarefas da instituição criando, assim, o ensejo para um coroamento ideal à assistência social espírita. |
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