A fé e a razão

Napoleão de Araujo

A encíclica do papa João Paulo II

“Fé inabalável só o é a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”  Kardec

O Papa João Paulo II, com certeza, é um espírito missionário que veio trazer grandes transformações no seio da Igreja Católica.

Temos admirado sua capacidade e determinação de levar aos mais distantes países do mundo a sua mensagem, dizendo muitas vezes coisas que incomodam os governantes mas que são necessárias do ponto de vista cristão.

Seu esforço para se dirigir aos povos que visita, em suas respectivas línguas, demonstra o respeito que tem pelas suas culturas.

Em agosto de 1999 o Papa surpreendeu o mundo ao declarar que, em suas reflexões, chegou à conclusão que o céu e o inferno não são locais predeterminados mas sim estados de consciência de cada pessoa.

Aliás, Frei Leonardo Boff já havia declarado em seu livro “Vida para além da morte” que: “Se eu pudesse, anunciaria essa novidade: o inferno é uma invenção dos padres para manter o povo sujeito a eles. É um instrumento de terror excogitado pelas religiões para garantirem seus privilégios e suas situações de força. ...O inferno é o endurecimento de uma pessoa no mal. É portanto um estado do homem e não um lugar para o qual o pecador é lançado onde há fogo, diabinhos   com enormes garfos a assar os condenados sobre grelhas.”

No dia 14 de setembro de 1998 o Papa João Paulo II expediu a sua carta encíclica, denominada “Fé e Razão”, dirigida aos bispos da Igreja Católica.

Nesta encíclica vemos uma grande abertura para encarar as questões da filosofia e da ciência contemporâneas.

Já no preâmbulo da introdução ele afirma:

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.”

Na introdução consta o sub-título “Conhece-te a ti mesmo”.

“... A recomendação conhece-te a ti mesmo estava esculpida no dintel do templo de Delfos, para testemunhar uma verdade basilar que deve ser assumida como regra mínima de todo homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua qualificação de “homem”, ou seja, enquanto “conhecedor de si mesmo”.

“Aliás, basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? De onde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que é que existirá depois desta vida? “ .... A Igreja não é alheia, nem poderia sê-lo, a esse caminho de pesquisa.”

Diga-se de passagem que é exatamente isto que o espiritismo esclarece de maneira clara e cristalina. 

Lembra João Paulo II a importância da filosofia:

“Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade.”....

“A Igreja, por sua vez, não pode deixar de apreciar o esforço da razão na consecução de objetivos que tornem cada vez mais digna a existência pessoal. Na verdade, ela vê, na filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem ainda.”

Mais adiante: “....pela razão o homem alcança a verdade, porque, iluminado pela fé, descobre o sentido profundo de tudo e, particularmente, da própria existência.”

...“a verdade que nos vem da Revelação tem de ser, simultaneamente, compreendida pela luz da razão”.

Transcreve também uma afirmação de Santo Tomás de Aquino: “A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus, por isso não se podem contradizer entre si”.

Kardec em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo I, ítem 8 assevera: “A ciência e a religião são as duas alavancas da inteligência humana; uma revela as leis do mundo material e outra as leis do mundo moral; mas umas e outras, tendo o mesmo princípio que é Deus, não podem se contradizer;...”

João Paulo II realça muito bem como a filosofia teve diminuída a sua  importância:  “Por outro lado, é preciso não esquecer que, na cultura moderna, foi alterada a própria função da filosofia. De sabedoria e saber universal que era, foi-se progressivamente reduzindo a uma das muitas áreas do saber humano; mais, sob alguns dos seus aspectos, ficou reduzida a um papel completamente marginal.” ....“creio justificado o meu apelo veemente e incisivo para que a fé e a filosofia recuperem aquela unidade profunda que as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no respeito da recíproca autonomia. Ao desassombro da fé deve corresponder a audácia da razão.”

Nas conclusões de sua encíclica João Paulo II dirige-se aos teólogos, aos filósofos e aos cientistas:

“Não posso concluir esta carta encíclica sem dirigir um último apelo, em primeiro lugar aos teólogos... exorto-os a recuperarem e a porem em evidência o melhor possível a dimensão metafísica da verdade, para desse modo entrarem num diálogo crítico e exigente quer com o pensamento filosófico contemporâneo, quer com toda a tradição filosófica, esteja esta em sintonia ou contradição com a palavra de Deus.” (grifo nosso)

“Aos filósofos e  a quantos ensinam a filosofia, para que, na esteira duma tradição filosófica perenemente válida, tenham a coragem de recuperar as dimensões de autêntica sabedoria e de verdade, inclusive metafísica, do pensamento filosófico. ... De modo particular, quero encorajar os fiéis empenhados no campo da filosofia para que iluminem os diversos âmbitos da atividade humana, graças ao exercício de uma razão que se torna mais segura e perspicaz com o apoio que recebe da fé.”

“Não posso, enfim, deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas,  que nos proporcionam, com as suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve do seu progresso atual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial em que aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana.”

Com seus pronunciamentos, com seus atos, inclusive aquele em que ao visitar o seu agressor na prisão teve com ele uma conversa particular  e com esta carta encíclica João Paulo II demonstra a natureza de seu espírito e de sua missão. E,  apesar de manter os dogmas tradicionais da Igreja Católica, seus rituais e pompas, ainda assim, na minha opinião, sua missão pode ser comparada, levando em conta naturalmente as diferenças de época, à do próprio apóstolo Paulo, por suas inúmeras viagens, coragem ao assumir posturas cristãs e, mesmo com a sua  saúde abalada, persistência na sua tarefa.

Bibliografia:

Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo.

João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio. Paulinas, 4a Edição. 1999.

Leonardo Boff, Vida para Além da Morte. Vozes, 1985 

(Jornal Mundo Espírita de Março de 2000)