Os Expoentes da Codificação
Lacordaire
Jornal Mundo Espírita -
Junho de 2001
Em junho de 1853, quando as mesas girantes e falantes agitavam os salões da
Europa, depois de terem assombrado a América, em missiva a Mme. Swetchine,
datada de Flavigny, ele escreveu: "Vistes girar e ouvistes falar das mesas? _
Desdenhei vê-las girar, como uma coisa muito simples, mas ouvi e fiz falar.
Elas me disseram coisas muito admiráveis sobre o passado e o presente. Por
mais extraordinário que isto seja, é para um cristão que acredita nos
Espíritos um fenômeno muito vulgar e muito pobre. Em todos os tempos
houve modos mais ou menos bizarros para se comunicar com os Espíritos;
apenas outrora se fazia mistério desses processos, como se fazia mistério
da química; a justiça por meio de execuções terríveis, enterrava essas estranhas
práticas na sombra.
Hoje, graças à liberdade dos cultos e à publicidade universal, o que era
um segredo tornou-se uma fórmula popular. Talvez, também, por essa divulgação
Deus queira proporcionar o desenvolvimento das forças espirituais ao
desenvolvimento das forças materiais, para que o homem não esqueça, em presença
das maravilhas da mecânica, que há dois mundos incluídos um no outro: o
mundo dos corpos e o mundo dos espíritos."
O missivista era Jean-Baptiste-Henri Lacordaire, nascido em 12 de maio de
1802, numa cidade francesa perto de Dijon.
A despeito de seus pais serem religiosos fervorosos, o jovem Lacordaire
permaneceu ateu até que uma profunda experiência religiosa o levou a abraçar a
carreira de advogado, na Teologia.
Completando os estudos no Seminário, na qualidade de professor pôde constatar
o relativo descaso dos seus estudantes pela religião. No intuito de despertar a
afeição pública para a Igreja, como colaborador do jornal L'Avenir, passou a
lutar pela liberdade daquela da assistência e proteção do Estado.
Vigário da famosa Catedral de Notre-Dame, em Paris, a força da sua oratória
atraía milhares de leigos para o culto.
Em 1839 entrou para a Ordem Dominicana na França, trabalhando pela sua
restauração, desde que a Revolução Francesa a tinha largamente subvertido.
Discípulo de Lamennais, preocupou-se em afirmar que a união da liberdade e do
Cristianismo seria a única possibilidade de salvação do futuro. Cristianismo,
por poder dar à liberdade a sua real dimensão e a liberdade, por poder dar ao
Cristianismo os meios de influência necessários para isto. Insistia que o Estado
devia cercear seu controle sobre a educação, a imprensa, e trabalho de maneira a
permitir ao Cristianismo florescer efetivamente dentro dessas áreas .
Foi Membro da Academia Francesa e o Codificador inseriu artigo a seu respeito
na Revista Espírita de fevereiro de 1867, seis anos após a sua desencarnação,
que se deu em 21 de novembro de 1861. Nele, reproduz extrato da correspondência
que inicia o presente artigo, comentando: "Sua opinião sobre a existência e a
manifestação dos Espíritos é categórica. Ora, como ele é tido, geralmente, por
todo o mundo, como uma das altas inteligências do século, parece difícil
colocá-lo entre os loucos, depois de o haver aplaudido como homem de grande
senso e progresso. Pode, pois, ter-se senso comum e crer nos Espíritos."
Em sessão realizada na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 18 de
janeiro daquele ano, o médium "escrevente habitual" Morin, descreveu a presença
do espírito do padre Lacordaire, como "um Espírito de grande reputação
terrena, elevado na escala intelectual dos mundos (...) Espírita antes do
Espiritismo (...)" e concluiu:
"Ele pede uma coisa, não por orgulho, por um interesse pessoal qualquer,
mas no interesse de todos e para o bem da doutrina: a inserção na Revista do que
escreveu há treze anos. Diz que se pede tal inserção é por dois motivos: o
primeiro porque mostrareis ao mundo, como dizeis, que se pode não ser tolo e
crer nos Espíritos. O segundo é que a publicação dessa primeira citação fará
descobrir em seus escritos outras passagens que serão assinaladas, como
concordes com os princípios do Espiritismo."
Mas ele mesmo, Lacordaire, retornou de Além-Túmulo, para emprestar à obra da
Codificação a sua inestimável e talentosa contribuição.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos 3 mensagens, ditadas no
Havre e Constantina, todas datadas do ano de 1863, discorrendo sobre "O bem e
mal sofrer" - cap. V, item 18; "O orgulho e a humildade" - cap. VII, item 11 e
"Desprendimento dos bens terrenos" - cap. XVI, item 14.
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