Os Expoentes da Codificação
Blaise Pascal
Jornal Mundo Espírita -
Setembro de 2001
Certo dia, um menino de 10 anos bateu com uma colher num prato e escutou
atentamente o som, que continuou a vibrar por algum tempo, parando, no entanto,
quando o pequeno pôs a mão sobre o prato.
Com certeza, em muitos lugares do mundo, outros tantos garotos terão feito o
mesmo e observado o fenômeno. Mas, só um gênio como Blaise Pascal resolveu
investigar o mistério e escreveu um tratado sobre o som: "Traité des sons".
Nascido aos 19 de junho de 1623, em Clermont (Auvergue), cedo demonstrou a
sua genialidade. Certo dia, o pai o encontrou a riscar, com um pedaço de giz,
"rodas e barras" no soalho do seu quarto. Rodas e barras eram na verdade os
círculos e as linhas retas da Geometria, traduzidos na linguagem infantil.
Logo mais provaria que a soma dos ângulos de um triângulo perfaz dois retos,
resolvendo num passatempo, o 32º teorema de Euclides, cujo nome ignorava.
Na adolescência, aos 16 anos, escreveu um Tratado sobre as secções dos cones
"Traité des sections coniques", um problema de alta Geometria, que assombrou o
mundo profissional da época. O próprio Descartes, ao lê-lo, se recusou a
acreditar tivesse sido escrito por um jovem dessa idade.
Dois anos mais tarde, construiu o jovem matemático uma máquina de contar, com
o principal objetivo de aliviar seu pai dos complicados cálculos que necessitava
fazer na sua lida com as finanças do Município.
Numa época em que não estavam aperfeiçoadas as tábuas logarítmicas, este
engenho prestou grandes serviços aos que se ocupavam com a aritmética e mereceu
numerosas reproduções.
Oportunamente, Pascal presenteou com uma dessas máquinas ao célebre Condé e a
Rainha Cristina da Suécia, quando ela esteve na França. Mais tarde, entre seus
23 e 25 anos, interessou-se pelos estudos da Física, escrevendo sobre o "espaço
vazio": "Nouvelles experiences touchant le vide".
Foi também nesta época que o pai de Blaise sofreu um acidente e, por
permanecer longo período na cama, teve a lhe servir de enfermeiros dois
fervorosos discípulos de Cornélio Jansênio que, ao se despedirem, deixando
Etienne Pascal curado, deixaram toda a família Pascal profundamente
impressionada com o ideal religioso.
Em outubro de 1654, estando Blaise Pascal a passear de carruagem por uma
ponte, assustaram-se os cavalos, tendo dois deles se precipitado da ponte, após
rompidos os arreios. Os outros, com a carruagem ficaram suspensos sobre o
abismo, salvando a vida do cientista. Dizem alguns de seus biógrafos que este
fato lhe teria produzido um violento abalo, fazendo-o se dedicar às questões
religiosas.
Contudo, depois de sua morte foi encontrado, cosido no forro de sua
vestimenta, um bilhete datado de 23 a 24 de novembro de 1654, em que ele relata
uma espécie de êxtase que teria experimentado, e demonstra um desejo ardente de
se consagrar às coisas espirituais.
Escrevendo suas "Cartas Provinciais", Pascal apresenta a verdadeira Igreja do
Cristo não circunscrita a uma determinada organização eclesiástica, menos ainda
a determinados homens de um certo período, representando casualmente a Igreja,
mesmo porque, falíveis os homens, insegura seria a fé. Em 1657, suas "Cartas",
dezoito ao todo, foram relacionadas no Index, da Igreja. São consideradas um dos
maiores monumentos da literatura francesa e o atestado de uma grande sinceridade
cristã.
A respeito, pronunciou-se Pascal: "Roma condenou as minhas Cartas; mas o que
nelas condenei está condenado no céu _ apelo para o teu tribunal, Senhor Jesus!"
Relata que pediu a Deus 10 anos de saúde para poder escrever sua apologia do
Cristianismo, que o mundo viria a conhecer com o nome de "Pensées", contudo,
confessa, Deus lhe deu quatro anos de enfermidade.
Nessa Apologia, ele apresenta Cristo não como o "Senhor morto" de tantos
cristãos, mas o Cristo vivo, sempre-vivo, aquele Cristo que segue com os homens,
todos os dias.
Amar era para ele a melhor forma de crer, a "razão do coração que a razão
ignora". Deus é, antes de tudo o Sumo Bem, o alvo do amor, e ele afirmava não
poder crer senão num Deus que pudesse amar sinceramente. A mensagem para a
humanidade de sua época, para os melhores homens do século, foi uma mensagem de
vasta, profunda e panorâmica espiritualidade cristã. Uma espiritualidade que
brilha em todas as páginas do Evangelho, a espiritualidade do Cristo.
Tal espiritualidade transcende das suas mensagens, inseridas pelo Codificador
em O Evangelho Segundo o Espiritismo: a primeira, datada de 1860, recebida em
Genebra, que alude à verdadeira propriedade e a segunda, do ano 1862, de Sens,
da qual destacamos especialmente: "(...) Se os homens se amassem com mútuo amor,
mais bem praticada seria a caridade;(...) " e , logo adiante, "(...)
esforçai-vos por não atentar nos que vos olham com desdém e deixai a Deus o
encargo de fazer toda a justiça, a Deus que todos os dias separa, no seu reino,
o joio do trigo."
Não menos oportunas as observações em sua mensagem "Sobre os médiuns" (O
livro dos médiuns, cap. XXXI, item XIII) de excelente atualidade para os dias
que estamos vivendo, onde a mediunidde tem sido levada, muita vez, à conta de
exclusiva projeção pessoal e destaque social: "Que, dentre vós, o médium que não
se sinta com forças para perseverar no ensino espírita, se abstenha; porquanto,
não fazendo proveitosa a luz que ilumina, será menos escusável do que outro
qualquer e terá que expiar a sua cegueira."
Sua morte se deu a 19 de agosto de 1662, aos 39 anos, sendo que os dois
últimos anos de sua vida foram de intenso sofrimento. A enfermidade que o tomou
lhe furtou qualquer possibilidade de esforços físicos e intelectuais.
Fonte: ROHDEN, Huberto. Pascal,São Paulo, 1956.
Enciclopédia Mirador Internacional, vol 16, verbete : Pascal.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo, Rio de Janeiro, 1987.
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