Os Expoentes da Codificação
João Evangelista
Jornal Mundo Espírita - Maio
de 2001
Da família Zebedeu, ou Zabdias, de um "pescador bem-sucedido e empresário
de vários barcos"4, foram escolhidos por Jesus dois apóstolos:
Tiago Maior e João. A cidade era a pequena Betsaida.
Segundo Ernest Renan, "eles estavam imbuídos de energia e paixão. Jesus os
havia apelidado, com graça, de `filhos do trovão', por causa do zelo excessivo
com que, muitas vezes, teriam feito uso do raio se dele pudessem dispor."4
João era adolescente, portanto idealista. Com Tiago, seu irmão, e Pedro forma
um comitê íntimo que se faz presente em momentos muito especiais, durante a
trajetória terrena de Jesus.
Os irmãos conheciam as pregações do Batista e foi no Tiberíades, no dia em
que a primavera bordava rendados pela praia, que o Rabi os convidou a participar
das alegrias da Boa-Nova, transformando-se em "pescadores de homens".4
Humberto de Campos, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, os descreve
como "de temperamento apaixonado. Profundamente generosos, tinham carinhosas
e simples, ardentes e sinceras as almas."3
Magnetizados pelo olhar enérgico e carinhoso de Jesus, aderem ao sublime
convite. No idealismo quente da sua juventude, João falava de seus planos de
renovar o mundo, de pregar o Evangelho às nações. Sentia-se forte e bem
disposto.
Mais tarde, ao derramar a cornucópia da sua saudade no seu Evangelho, ele
falaria dos tantos momentos de êxtase e aprendizado com Jesus.
Ao descrever o encontro do Mestre com Nicodemus, demonstra, com certeza, ter
sido testemunha ocular. Uma testemunha que talvez estivesse à porta, como quem
se encontra à espreita, velando pela eventual proximidade de alguém que pudesse
surpreender o esclarecedor colóquio entre o Rabi Galileu e o doutor da lei.
Quando narra o episódio das Bodas de Caná, João parece reviver o adolescente,
maravilhado ante um Rabi pleno de sabedoria, que abençoa a união esponsalícia
com a água lustral da Sua presença e a doçura do Seu amor.
Com Jesus, ele adentra "a casa de Jairo, o chefe da sinagoga, cuja filha
se encontrava nas malhas da agonia..."1 Há pouco, surpreendera o
olhar agradecido de Verônica, a hemorroíssa, curada ao tocar o manto do Mestre.
E quando agosto "derrama sua taça de luz e calor sobre a terra"1,
ele acompanha o Rabi na íngreme subida de 562 metros até o cume do Tabor. Após
as 4 horas de marcha, ele dorme junto a Pedro e Tiago. A canícula, o cansaço os
vence.
Na madrugada que avança, vozes vibram no ar. A visão sublime de Jesus, com as
vestes brilhantes, dialogando com Moisés e Elias, o faria mais tarde, evocando a
cena inesquecível, iniciar a sua narrativa evangélica, escrevendo: "Nele
estava a vida e a vida era a luz dos homens, a luz resplandecente nas trevas e
as trevas não a compreenderam."1
O seu Evangelho foi especialmente dirigido aos cristãos que já conheciam a
Mensagem. É o Evangelho espiritual, no dizer do espírito Amélia Rodrigues.
João, jovem, assiste com Maria, os instantes de agonia e morte do seu Mestre
e Senhor, a cuja dedicação Jesus entrega sua mãe: "Filho, eis aí a tua mãe!"
E desencumbiu-se da missão, oferecendo-lhe "o refúgio amoroso de sua
proteção".3
João foi com Pedro à Samaria, depois da ascensão de Jesus, e mais tarde
voltou a Jerusalém, trabalhando na Casa do Caminho. Mereceu a prisão com Pedro
e, libertado, prosseguiu nas atividades.
Após se instalar em Éfeso, busca Maria e a abriga em sua casa, doada por
membro da família real de Adiabene. "No alto da pequena colina, distante dos
homens e no altar imponente da Natureza, se reuniriam ambos para cultivar a
lembrança permanente de Jesus. Estabeleceriam um pouso e refúgio aos
desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os espíritos de boa
vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade
universal."3
Perseguido por Domiciano, foi enviado para Roma, sendo depois exilado na ilha
de Patmos, onde teve ocasião de escrever o Apocalipse. Depois da morte de
Domiciano, voltou para Éfeso e aí morreu quase centenário.
É o único dos apóstolos a desencarnar de forma natural. A ele são atribuídas
também 3 epístolas: a primeira dirigida aos fiéis da Ásia menor e que, segundo
alguns, parece ter sido escrita como prefácio ao quarto Evangelho; a segunda à
senhora Electa e seus filhos, qualificando-o alguma Igreja na Ásia menor e a
terceira, a Gaio, um rico cristão. É uma carta íntima e repleta de gratidão.
No ocaso do século XII, João retorna ao cenário do mundo, na figura de
Francesco Bernardone, para se tornar "o pobre de Assis".
"Francisco, ao largo da sua trajetória corporal, tudo de si investiu para que
o modelo crístico fosse a sua referência, na sede que demonstrava de segui-Lo,
de imitá-Lo.
Trabalhou, sofreu, chorou muito, sem que tivesse imposto a ninguém qualquer
dor, qualquer sofrimento. Ao contrário, ocultava suas lágrimas pessoais, quando
se tratava de atender a terceiros. Ele conhecia e convivia com o Espírito do
Cristo, mas entendia que o semelhante deveria ver o Cristo por meio das suas
ações amorosas."2
Como o cantador de Deus, escreveu os doces versos que o espírito Camilo
denomina A carta magna da Paz, que inicia com o "Senhor, faze-me um instrumento
da tua paz... Daí, desdobram-se rogativas corajosas e estelares, desvelando a
pujança das acrisoladas virtudes do Pobrezinho, virtudes que marcariam sua
existência até os momentos finais da sua vida terrena."2
É este mesmo João/Francisco/Amor que assina em primeiro lugar os "Prolegômenos"de
O livro dos espíritos. O instrumento de Deus atende, outra vez, ao chamado do
Pastor e vem oferecer ao mundo o Consolador.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VIII, item 18, recorda a doçura do
encontro de Jesus com as crianças em que o Príncipe da Paz se detém a
atendê-las. Nas suas linhas podemos reconhecer o autor do 4º Evangelho e
especialmente quando assim se expressa, referindo-se ao Mestre: "Ele foi o
facho que ilumina as trevas, a claridade material que toca a despertar.(...)"
Fontes de consulta:
1. Franco, Divaldo P. As primícias do reino, Sabedoria, 1967, cap. 12, 15 e
22.
2. Teixeira, J. Raul. A carta magna da paz,Fráter, 2002.
3. Xavier, Francisco Cândido. Boa nova, FEB, 1963, cap. 4 e 30.
4. Renan, Ernest. Vida de Jesus, Martin Claret, 1995, cap. 9.
5. Reader's Digest. Depois de Jesus. O triunfo do cristianismo, 1999,cap. 1, 2,
3.
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