Os Expoentes da Codificação
Chateaubriand
Jornal Mundo Espírita -
Agosto de 2001
"Eu pressentira, mau grado a prejuízos de infância e de educação, mau
grado ao culto da lembrança, a época atual. Sou feliz por isso(...)" , é
como se expressa Chateaubriand na mensagem, inserida em O Livro dos médiuns, 2.
parte, cap. XXXI, item II.
Com certeza, estaria a pensar nas próprias reformas que ele presenciara e
vivera no seu período de vida física, findo em 4 de julho de 1848, na capital
francesa.
Ele conheceu o exílio e a glória, provações e homenagens, o desprezo e o
poder. Político e escritor, participou de grandes momentos da História, que
registrou em sua obra Recordações de além-túmulo, publicada em forma
seriada, em Paris, de 21 de outubro de 1848 a 3 de julho de 1850, portanto
depois de sua morte.
Escrita após a revolução de 1830, num período de completo isolamento, a obra
apresenta uma galeria brilhante de personalidades da época, de dimensões
históricas, políticas, sociais e literárias, cimentando o prestígio permanente
de Chateaubriand na literatura francesa.
"Da primeira à última página das Mémoires sente-se a presença do autor,
com as suas fraquezas, a sua coragem, o seu orgulho, a sua grande força de
escritor"1 , tanto quanto o difícil caminho de um aristocrata e
intelectual após a Revolução.
Esse mágico do verbo e infatigável viajor dos séculos, nasceu François René,
visconde de Chateaubriand, no dia 4 de setembro de 1768, em Saint-Malo, último
filho de uma família católica. Freqüentou o Colégio, engajou-se no Exército,
freqüentou a corte e a sociedade de Paris. Espírito irrequieto e aventureiro,
embarcou para a América do Norte aos 23 anos, tendo percorrido vastas regiões de
florestas virgens e estabelecido contatos com tribos indígenas.
Seu retorno à Europa se deu imediatamente após saber da fuga e prisão do rei
Luís XVI, em Varennes. Diante da queda da monarquia, alistou-se no exército dos
príncipes emigrados, que combatiam as forças revolucionárias. Ferido no cerco de
Thioville, refugiou-se na Inglaterra em 1793, onde se sustentou dando lições de
francês e fazendo traduções.
Trabalhou ali numa epopéia indígena publicada em 1826, Os Natchez. Sua
primeira obra, contudo, Ensaio histórico, político e moral sobre as
revoluções antigas e modernas, consideradas em suas relações com a Revolução
Francesa, viria a lume em 1797.
Também é na capital londrina que ele reconquista sua fé perdida, inicia sua
obra de apologia da religião cristã e resolve dedicar seu gênio literário à
defesa e reestauração das crenças religiosas, que a Revolução havia abalado.
Retornou à França em 1800 e em 1801 publicou um episódio retirado de Os
Natchez, Atala, ou Os amores de dois selvagens no deserto. Ali, a jovem
Atala salva o herói e prefere a morte ao casamento com Chactas, a fim de não
ferir um voto que fizera à Virgem Maria.
Quatro anos depois, outro episódio seria publicado: René, onde se
evidencia sua qualidade de discípulo de Rousseau, pintando através do seu
personagem, o retorno do homem civilizado à Natureza. É um combate à lassidão, à
impotência dos `tempos modernos', com significação moral.
Uma apologia da fé cristã, publicada em 1802 é sua obra mais famosa: O
espírito do cristianismo, com a qual ele conquista Napoleão, que desejava
oficializar a religião católica como religião do Estado. Nela se encontra emoção
religiosa e poesia, consagrando o escritor como uma espécie de guia espiritual
de sua época.
Em tributo de gratidão, Napoleão o nomeia secretário da Embaixada em Roma e
depois ministro no cantão suíço de Valais, em 1804. Nesse ano, a 21 de março, a
execução do duque de Enghien desperta os sentimentos monárquicos adormecidos em
Chateaubriand. Ele se demite da carreira diplomática e se encerra numa oposição
prudente, mas tenaz, ao imperador, apesar de todas as tentativas daquele para o
reconquistar.
Eleito para a Academia Francesa de Letras, é impedido de pronunciar seu
discurso de posse, considerado abertamente provocador.Mais tarde, em 1811
publicou um panfleto contra Napoleão e em 1816 define seu ideal político,
defendendo a tese de que o rei deve reinar, mas não governar.
Após a ruptura com Napoleão, já célebre em toda a Europa, Chateaubriand
medita em coroar exitosamente a sua obra de apologista da religião cristã,
através de uma epopéia de seus mártires. Viaja a Jerusalém e no retorno, publica
Os mártires ou O triunfo da religião cristã, e depois Itinerário de
Paris a Jerusalém..., Vida de Rancé (relato da vida do Reformador da Ordem
dos Trapistas no século XVII).
Chateaubriand firmou-se como um dos grandes precursores do Romantismo, pelo
conteúdo das emoções variadas de sua obra, pela intensidade e poder dos muitos
momentos exemplares do seu estilo.
Fontes de consulta:
- 1. Enciclopédia Mirador Internacional, vol. 5.
- 2.
http://www.france-ouest.com/chateaubriand
- 3.
http://www.newadvent.org/cathen/03640a.htm
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