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Religiosidade e preceCristian Macedo "Ele (Deus) assiste os que ajudam a si mesmos, de conformidade com esta máxima: 'Ajuda-te que o céu te ajudará', não assiste, porém, os que tudo esperam de um socorro estranho, sem fazerem uso das faculdades que possuem. Entretanto, as mais das vezes, o que o homem quer é ser socorrido por milagre, sem despender o mínimo esforço." O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVII, item 7. Na imensidão cósmica espraia-se, em onipresença divina, o bendito hálito da Inteligência Suprema a nos envolver e incitar ao sumo bem. Imerso nessa amplidão, encontra-se o pensamento da criatura humana que, apesar de não se comparar ao do Criador, edifica e desestrutura elementos, dilatando-se de acordo com as capacidades que lhe são próprias. Alavancador de todas as ações nos variados campos da vida, o pensamento é matéria mental que dá ao homem o nobilitante ensejo de tornar-se co-criador, auxiliando na gênese e manutenção de preciosas manifestações de Deus no Universo. Alimentando e alimentando-se da psicosfera que habita, o ser detém a possibilidade de exercitar o poder mental, a fim de mais facilmente elevar-se aos altiplanos celestiais. A oração, sendo uma salutar projeção das vibrações da alma, tem papel essencial no processo religioso do homem, no entanto, ainda é mal compreendida por aqueles que a desejam e acreditam proferir. Marcel Mauss, notável etno-sociólogo francês, ocupa-se da oração e da sua importância no conjunto de fenômenos religiosos, em seus estudos referentes ao sagrado. Ele percebe que o caráter da oração diferencia-se de acordo com o contexto em que é realizada. Em momentos que se busca dirigir à Divindade e a sua influência, a oração tem cunho religioso, porquanto nasce e se resolve in interiori hominis, realçando o labor da religação. Por outro lado, se é portadora de intencionalidade pragmática e imediatista, assume um valor mágico, ou seja, encharca-se do desejo de intercessões miraculosas e fantásticas, intentando esvanecer as problemáticas da vida a partir de palavras ou rezas específicas. *** Realizando petitórios infindáveis, na tentativa de barganhar com o Criador, nas áreas da cura de enfermidades, dos romances mal resolvidos, dos empregos e das posições sociais, o ser se envolve no mundo mágico dos pajés e xamãs arcaicos, que acreditavam que a finalidade da relação com o transcendente era a solução das questões materiais cotidianas. Ao invés de orar, muitas vezes utiliza-se da reza (recitare), que nada possui de interior, repetindo louvaminhas memorizadas sem conteúdo plenificador. Procedimentos desse jaez efetuam-se, hodier-namente ainda, pela ignorância dos que se julgam religiosos e acreditam estar realizando ato piedoso quando, em verdade, estagnam-se em atitude de finalidade mágica perturbadora, instaurada devido à interferência da mentalidade pagã na "religião oficial" de antanho. Sendo a prece ação do pensamento humano, dá-se em nível mental, não se tornando imperiosa a observância de posturas corporais, nem havendo a necessidade de que as mãos estejam aqui ou ali, tampouco de que as pernas permaneçam ou não encruzadas, porquanto não se corre o risco de "cortar" nenhuma "corrente" ou interromper qualquer conexão com o divino. A voz daquele que ora pode estar serena, não chorosa; pode externar sentimentos que proponham ternura e harmonia contagiantes, nunca, porém, apresentar teatralidade exacerbada, geradora de inquietação e desconforto. Sob esse ângulo, divisamos a prece como atitude sublime de todo aquele que busca religar-se ao Pai, genuflexando-se em espírito e alteando-se em sentimentos de arrependimento, gratidão ou plenitude, abrindo mão de figurações exteriores dispensáveis. Aquele que ama pensa em Deus, louvando-O; o avarento, lembra-se Dele de acordo com as conveniências. O religioso pede ao Criador o necessário para a jornada terrena; o interesseiro procura com Ele "negociar". O ser consciente eleva-se em agradecimentos pela vida; o insciente realiza promessas, costumeiramente de cunho material, cumpridas de acordo com a dádiva alcançada. Oremos, portanto, conforme a finalidade religiosa, na certeza de que alçaremos vôo rumo aos Cimos Luminescentes, onde nutriremos nosso psiquismo com esperança, entusiasmo e amor estesiantes, espraiados por Deus, Universo afora. (Jornal Mundo Espírita de Dezembro de 2001) |
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