A morte de Saul

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Pouco depois que os hebreus saíram do Egito, após os 430 anos de escravidão, já no deserto, dois meses e pouco após iniciar o êxodo (aproximadamente 1.250 a.C.), os amalecitas os atacam, tentando, com isso, impedi-los de passar pelo seu território. Sob o comando de Josué, o povo israelita, derrota Amalec (neto de Esaú), e passa a fio de estada toda a tropa do inimigo.

Neste dia, Javé faz um juramento: “Escreva isso num livro como memória e diga a Josué que eu vou apagar a memória de Amalec debaixo do céu”, por que ficou completamente indignado com a ação dos amalecitas de fazerem guerra ao “povo escolhido”, vindo a prejudicar a chegada dos hebreus à Terra prometida.

Entre os anos de l.030 a 1.010 a.C, no reinado de Saul, primeiro rei de Israel, é que Javé resolve levar adiante seu plano de vingança, contra Amalec, e determina Saul como Seu executor: “Assim diz Javé dos exércitos: Vou pedir contas a Amalec pelo que ele fez contra Israel, cortando-lhe o caminho, quando Israel subia do Egito. Agora, vá, ataque, e condene ao extermínio tudo o que pertence a Amalec. Não tenha piedade: mate homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos”.

Saul atende à determinação de Javé e ataca os amalecitas, passando a fio de espada todo o povo. Mas, ao invés de matar, captura a Agag, rei dos amalecitas. E, além disso, poupa o gado gordo e os cordeiros, só matando os que não tinham valor.

Javé, pela boca do profeta Samuel, alega não ter gostado da atitude de Saul, e diz: “Estou arrependido de ter feito Saul rei, porque ele se afastou de mim e não executou as minhas ordens” (1 Sm 15, 11). E, apesar de Saul ter-se justificado que o gado e os cordeiros que não tinha matado eram para se oferecerem em sacrifício a Javé, e que o rei dos amalecitas fora capturado, não aceita a justificativa, e diz: “Javé arranca hoje de você o reinado sobre Israel e o entrega a outro mais digno do que você” (1 Sm 15, 28).

Os filisteus reuniram-se para atacar Israel. Diante disso, Saul ficou desesperado, fazendo de tudo para saber o que lhe aconteceria diante da iminente guerra. Consultou a Javé, e não obteve nenhuma resposta, resolve, então, procurar uma necromante, indo até Endor. Junto à necromante, Saul pede para ela adivinhar o futuro, evocando o espírito de Samuel, que morrera, havia algum tempo. E Samuel se manifesta, por intermédio da necromante, e repete o que já lhe havia dito quando vivo, ou seja, que Javé iria entregá-lo juntamente com seus filhos e seu povo ao inimigo.

Mesmo depois disto, Saul entra em guerra com os filisteus. Foi uma fulminante derrota, pois os filisteus ganharam a batalha, matando muita gente, entre eles os filhos de Saul. Os arqueiros atingiram a Saul, e ele, não querendo cair vivo nas mãos dos inimigos, pede a seu escudeiro que o mate com uma espada, como não foi atendido, pois o escudeiro se recusou a matar o seu rei, não lhe restou outra alternativa, pegou a própria espada e lançou-se sobre ela, morrendo em seguida. Assim, a morte de Saul foi por suicídio.

A segunda versão diferente da morte de Saul, nós vamos encontrá-la em 2 Sm 1, 1-10, quando um homem dizendo-se amalecita relata a Davi a morte de Saul e seus filhos, da seguinte forma: “Eu estava casualmente no monte Gelboé e vi Saul apoiado em sua própria lança, enquanto os carros e cavalheiros se aproximavam. Saul virou-se, me viu, e me chamou. ...Então Saul me disse: ‘Aproxime-se e mata-me, pois estou agonizando e não acabo de morrer’. Então eu me aproximei dele e o matei, porque eu sabia que ele não iria mesmo sobreviver depois de caído”.

A terceira versão, da morte de Saul está narrada em 2 Sm 21, 12: “Então Davi foi pedir os ossos de Saul e de seu filho Jônatas aos cidadãos de Jabes de Galaad, que os tinham levado da praça de Betsã, onde os filisteus os haviam enforcado, quando venceram Saul em Gelboé”.

Até aqui ficamos sem saber como realmente Saul morreu: suicidou-se? A seu pedido, um amalecita o matou? Ou será que foi enforcado? Três versões diferentes para um mesmo episódio. Por isso, se dissermos que toda a Bíblia é de inspiração divina, teremos que admitir que o próprio Deus tenha ditado as três versões, não há como sair deste absurdo.

No primeiro livro de Crônicas (10, 1-12), é relatada a morte de Saul, exatamente como a narrada em 1 Samuel, capítulo 31, primeira versão. Entretanto, nos versículos 13 e 14, foi colocada como causa da morte de Saul, o seguinte: “Saul morreu por ter sido infiel a Javé: não seguiu a ordem de Javé e foi consultar uma mulher que invocava os mortos, em vez de consultar a Javé. Então Javé o entregou à morte e passou o reinado para Davi, filho de Jessé”.

Nessa última narrativa, apesar de ela vir a coincidir com uma anterior, a causa da morte de Saul não corresponde ao fato ali narrado. E vejam a que conclusão nos leva essa narrativa. Por ela nós temos a impressão de que Saul morreu porque não cumpriu a determinação divina de não evocar os mortos, fato completamente contrário ao acontecido, pois acreditamos que a questão da infidelidade de Saul que o cronista queria passar seria a de que Saul não tinha exterminado os amalecitas exatamente como Javé tinha ordenado. Quanto à questão de não ter consultado a Javé, está narrado que ele consultou-O. Nesse caso, deve ter havido uma interpolação, para associar a morte de Saul ao fato de que ele teria ido consultar a necromante, interpolação esta, com o objetivo de se fazer da morte de Saul um castigo de Javé, por ele, Saul, ter-se comunicado com o espírito Samuel, já falecido.

Quem quer que busque a verdade, encontrará essas e muitas outras incoerências na Bíblia. Mas, ainda existem muitos que querem, a ferro e fogo, manter a Bíblia como sendo toda ela de total inspiração divina. Não se apercebem de que, com esse exagero, o número dos incrédulos aumenta cada vez mais. E esse número só não é maior, porque ainda existem muitas pessoas que preferem serem encabrestadas por líderes religiosos, os quais insistem, a todo custo, em fazer com que, por medo de Deus, não se ponham a questionar alguns pontos da Bíblia, sob o argumento de ser ela de “inspiração divina”, esquecendo-se de que foram os homens que a escreveram e nela colocaram seus pensamentos conforme ao seu conhecimento da época, incluindo nela lendas, coisas da mitologia antiga, misturadas, é óbvio, as muitas revelações provindas de Deus. E é pelo “temor” de desagradarem a Deus, que, quando buscam a verdade que possa estar contida na Bíblia, não enxergam essas falhas dos seus autores. E isso, com a complacência de muitos de seus dirigentes que, muitas vezes, apercebem-se dessas falhas, mas preferem o silêncio – para manterem na ignorância interessada os seus fiéis – ao esclarecimento deles, pois que tal esclarecimento poderia causar prejuízos aos interesses particulares desses dirigentes.

Entretanto, temos por nós, que se Deus dotou o homem de inteligência, é para que ele a use em plenitude, não podendo nós, pois, agir como se fôssemos “avestruzes”, escondendo nossa “cabeça” diante da verdade!

Fev/2002.

Bibliografia: