Comunicação com os mortos

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Introdução

Não sei porque razões nós os profitentes da Doutrina Espírita não temos o hábito de rebater os artigos que de alguma forma combatem o Espiritismo. Tarefa que a meu ver poderia estar com os grandes nomes do movimento espírita. Na verdade estes artigos podem não trazer nenhuma confusão aos que tem um conhecimento da Doutrina Espírita, adquiridos, principalmente, através dos estudos. Entretanto, acho que alguns artigos trazem enorme prejuízo à nossa imagem, possibilitando aos vacilantes e aos que não possuem nenhum conhecimento terem uma visão distorcida da Doutrina. Minha preocupação reside no “quem cala consente”, por isso, tenho por mim, que deveríamos rebater qualquer artigo que venha manchar nossa Doutrina, não querendo com isto dizer que devemos partir para a agressão.

Apesar de não me considerar a altura de tais contestações, me atrevo a rebater um ou outro artigo que surge.

O texto em exame

Retiramos do jornal Estado de Minas, do dia 11.09.95, na coluna Testemunho Cristão o artigo do médico Evaldo Alves d’Assumpção, do qual transcrevemos os seguintes trechos:

“Ganha cada vez mais espaço a questão da chamada “Transcomunicação”, ou seja, a imaginária comunicação com os mortos, através de aparelhos eletrônicos: gravadores, televisão, computadores, etc..” (...)

“Quem morreu pertence a uma outra natureza, intangível pela nossa razão e menos ainda pelos nossos sentidos”. (...).

“Resumindo, podemos dizer que a Transcomunicação acontece, exclusivamente, por uma ação paranormal de uma pessoa que utiliza aparelhos eletrônicos, como uma espécie de estímulo para a sua paranormalidade e para a expressão de uma energia chamada “Telergia”, gerada por essas pessoas, que recebem o nome de médium, paranormal ou matagnomo. Através dessa energia, hoje muito bem estudada pela Parapsicologia, são capazes de criar sons ou imagens em aparelhos, os quais serão atribuídos a pessoas já falecidas, sem contudo o ser. Curiosamente, tais aparelhos nunca funcionam sem a presença desses paranormais e as imagens apresentadas sempre reproduzem alguma fotografia previamente existente do falecido e que seus parentes trazem consigo ou que são apresentadas ao paranormal. E nunca a imagem da pessoa, tal e qual era em seus últimos momentos, como seria de se esperar.” (...)

“Contudo, não se manifestam espontaneamente nem conscientemente. Por isso mesmo, a fraude quase sempre está associada a estes espetáculos de transcomunicação. Quando os fenômenos não ocorrem naturalmente, seus organizadores recorrem à fraude, para não decepcionar a assistência. (...) Curiosamente, também, sempre que falam de “cientistas” que estudam tais fenômenos, somente se referem aos seguidores de doutrinas espíritas ou espiritualistas, não abrindo qualquer espaço para os que contestam tais “fenômenos”. E os “cientistas” que fazem parte daquele grupo não se importam em transmitir notícias tendenciosas, que confundem os leitores.” (...)

“Até hoje, todas as tentativas de se provar, de maneira metodologicamente correta, sem sectarismos filosóficos ou religiosos, que os mortos se comunicam através de aparelhos ou de qualquer maneira, redundaram em enorme fracasso”.(...).

Os argumentos científicos

Iniciando nossos argumentos, iremos buscar no livro Transcomunicação de Clóvis S. Nunes um trecho do livro “O Desconhecido e os Problemas Psíquicos, de Camille Flammarion:

“Assistia eu, certo dia, a uma sessão da Academia de Ciências, dia esse de hilariante recordação, em que o físico Du Moncel apresentou o fonógrafo de Edison à douta assembléia. Feita a apresentação, pôs-se o aparelho docilmente a recitar a frase registrada em seu respectivo cilindro”.

“Viu-se então um acadêmico de idade madura de espírito compenetrado, saturado mesmo das tradições de sua cultura clássica, nobremente revoltar-se contra a audácia do inovador, precipitar-se sobre o representante de Edison e agarrá-lo pelo pescoço, gritando: “Miserável, nós não seremos ludibriados por um ventríloquo.” Senhor Bouillaud, chamava-se este membro do instituto. Foi isso a 11 de março de 1878. Mais curioso, ainda, é que seis meses após, a 30 de setembro, em uma sessão análoga, sentiu-se ele muito satisfeito em declarar que, após maduro exame, não constatara no caso mais do que simples vintriloquia, mesmo porque, não se pode admitir que um vil metal possa substituir o nobre aparelho da fonação humana. Segundo esse acadêmico, o fonógrafo não era mais do que uma ilusão de acústica.”

É impressionante o comportamento do ser humano face ao desconhecido, como o pré-julgamento não nos permite deslumbrar diante do novo, mesmo que ele tenha sido apresentado por pessoa de comprovada capacidade intelectiva.

Assim também ocorre com Transcomunicação que ao fundo nos trás a comunicação dos mortos. É de se espantar que em pleno final do século XX, pessoas ainda se comportam desta maneira, condenam coisas, que com absoluta certeza não pesquisaram ou não persistiram em buscar as leis a que se submetem tais fenômenos, e como talvez nem tenham capacidade para compreender, passam a combatê-las sistematicamente.

E o que é pior, chegam a tal disparate de dizer que tudo é falso, ora diante de tamanha leviandade não sabemos nem o que dizer, mas poderíamos lembrar que por ter surgido algum falsário nunca poderíamos generalizar, até mesmo porque nem todas as pessoas são iguais. E em qualquer meio em que nos encontremos, teremos pessoas que não possuem a honestidade desejada. Vemos também no meio religioso padres, pastores e líderes religiosos que agem frontalmente contra aquilo que pregam, nem por isso nos atrevemos a generalizar dizendo que todos eles agem da mesma maneira.

Mas felizmente nem todos pensam como o articulista, que se mostra completamente desatualizado do assunto, e para provar que não são somente os espíritas que levam a efeito tais experimentos citamos o Padre francês François Brune, que através de pesquisa científica e séria, sem sectarismo filosófico ou religioso, sobre o assunto chegou à conclusão da possibilidade da comunicação com os mortos, vejam não fracassou, nem nos traz notícias tendenciosas, já tendo, inclusive editado um livro “Os Mortos nos Falam”, que foi traduzido para o português do original em francês “Les Morts nous Parlent”, editora Edicel, e mais ele ainda pertence à Igreja Católica.

Citaremos, para conhecimento, um resumo bibliográfico deste autor: O Pe. François Charles Antoine Brune é bacharelado em Latim, Grego e Filosofia. Cursou seis anos de “Grand Seminaire”, sendo cinco no Instituto Católico de Paris e um na Universidade de Tubingen. Tem cinco anos de curso superior de Latim e Grego na Universidade de Sorbone. Estudou as línguas assírio-babilônico, hebreu e hierógrafos egípcios. Foi licenciado em Teologia no Instituto Católico de Paris em 1960, e em Escritura Sagrada, no Instituto Bíblico de Roma, em 1964. Foi professor de diversos “grands Seminaires” durante sete anos. Estudou a tradição dos cristãos do Oriente e dedica-se a estudos dos fenômenos paranormais.

O Pe. François Brune vem defendendo de público, em seminários e palestras, o resultado de suas pesquisas. Em seu livro diz: “Escrevi este livro para tentar derrubar o espesso muro de silêncio, de incompreensão, de ostracismo, erigido pela maior parte dos meios intelectuais do ocidente. Para eles, dissertar sobre a eternidade é tolerável; dizer que se pode entrar em comunicação com ela é considerado insuportável.”

Para mostrarmos ainda mais a comprovação científica da comunicação dos mortos, citaremos o Livro do Prof. Carlos Augusto Perandréa, intitulado “A Psicografia à Luz da Grafoscopia”, editora Jornalística Fé, onde ele analisa mensagens recebidas dos mortos aplicando as técnicas desta ciência que tem como objeto a grafia, e na sua qualidade de renomado perito atesta a veracidade das comunicações que passaram por sua análise.

Os argumentos filosóficos

Mas como não queremos ficar só nas comprovações científicas, vamos mostrar a incoerência destas pessoas que aparentam ser conhecedoras das escrituras e dos ensinos das correntes religiosas de que fazem parte, senão vejamos:

a) Pedidos aos Santos

Não há sentido algum em ficarmos pedindo isto ou aquilo aos chamados “santos” se não existe comunicação com os mortos, pois se não há, nunca poderiam saber o que lhes estamos pedindo e assim sendo, também nunca poderiam nos atender.

b) Proibição da “evocação” dos mortos

Em Deuteronômio 18, 9-12 existe a proibição de evocar os mortos, só gostaríamos de saber se há alguma lógica em proibir algo que não pode acontecer. Ora se houve a proibição de evocá-los é porque uma vez evocados poderiam atender-nos. Está aí o maior atestado desta possibilidade. E mais, para os que têm esta proibição como ordem direta de Deus, a coisa fica pior, pois Deus, a eterna sabedoria, proíbe a evocação dos mortos apesar de saber que eles não podem se comunicar, isto é um absurdo.

c) A Bíblia

Somente quem não quer mesmo ver, ou atribuir como obra do demônio, o que podemos ver claramente em I Samuel 28, 7-20, onde o rei Saul foi procurar uma pitonisa em Endor para se aconselhar com Samuel, que já se encontrava morto, sobre o que deveria fazer, pois estava cercado pelo exército dos filisteus e não sabia como agir.

Mas não bastasse esta, temos uma bem mais recente que aconteceu na época em que Jesus esteve em nosso meio. A narrativa é de Mateus 17, 1-9, nos mostrando Jesus, no alto do monte Tabor, após transfigurar-se conversa com Moisés e Elias. Sabemos que estes dois profetas já haviam morrido muito antes deste episódio. E se os mortos não se comunicam como então estavam eles, Moisés e Elias, conversando com Jesus, fato presenciado por Pedro, Tiago e João. Expliquem-nos, se puderem.

d) Aparições dos mortos

Existem inúmeros relatos, reconhecidos pela própria Igreja Católica, de pessoas que depois de mortas apareceram aos vivos. Quantas destas pessoas foram classificadas de “santas” após terem aparecido em algum lugar, conversando ou orientando aos fiéis.

Será que existe uma lei que regula isto tudo ou somente é permitido aparições de pessoas que pertenceram a esta ou aquela corrente religiosa? Bem sabemos que Deus é justo e o que faz para um de seus filhos fará a todos, assim estas aparições vem, também, confirmar que os mortos se comunicam com os vivos.

e) Pedidos de preces das Almas do Purgatório

Recorremos ao artigo de Henrique Rodrigues, publicado na revista Visão Espírita n.º 4, onde diz: “Um missionário apostólico francês, o Padre Jonet, fundou em Roma, no final do século passado, o Museu das Almas do Purgatório, no n.º 12 do Lungo Tevere Prati.

Esse museu está no subsolo da Igreja do Sagrado Coração do Sufrágio, onde estivemos, mas que é muito difícil que permitam visitá-lo, mesmo sacerdotes, e muito menos permitam fotografá-lo. (...) Lá estão expostas peças oriundas dos fenômenos. Em algumas molduras nas paredes, elas estão em quadros grossos, protegidos por vidros. Ao todo são 280, com a identificação de nomes, datas, lugares em que os fatos aconteceram. Mais de 40% acontecidos antes da Codificação. (...).

O problema é que, pelos próprios relatos dos fenômenos passados dentro dos conventos e igrejas, com freiras, irmãs, confessores e até padres e bispos, eles vinham suplicar socorro, em preces, orações e missas. O fenômeno mediúnico acarretava e patenteava a existência de leis da Eternidade.” (...)

f) Mediunidade dentro da Igreja Católica

Sabemos que a mediunidade não é exclusividade da Doutrina Espírita, ela existe desde ao aparecimento do homem na terra, pois é uma faculdade inerente aos seres humanos, variando apenas no grau que cada um a possui.

Assim para nós dentro de toda e qualquer corrente religiosa vamos encontrar médiuns, o único problema existente é quem vai aceitar tal coisa, pois os atribuem somente ao Espiritismo.

Mas sempre haverá uma pessoa mais, digamos, corajosa, que assume o seu papel, mesmo diante de muita incompreensão, pois achamos um padre católico que recebe o espírito Frei Fabiano de Cristo.

A Revista Visão Espírita n.º 1, publicou esta matéria com o Padre Miguel Fernandes Martins, de Sobradinho, uma das cidades satélites do Distrito Federal onde ele dá uma entrevista, gravada em fita de vídeo, ao Alamar Régis, que entre outras coisas temos:

Alamar – Mas a mediunidade em um padre, é uma coisa muito esquisita, do ponto de vista tradicional, considerando os dogmas da Igreja. O senhor não fica sem jeito quando enfrenta os seus próprios companheiros de doutrina?

Padre Miguel – Não é que eu tenha vergonha da minha espiritualidade – vocês chamam de mediunidade, mas eu chamo de espiritualidade . Eu venho aceitando ela porque eu só tenho visto caridade no Espiritismo. Eu tenho visto pessoas que não acreditam em Deus e passaram a acreditar, pessoas que se afastaram por muito tempo de Deus e voltaram, pessoas que nunca leram o Evangelho e passaram a ler, porque o Frei deu o Evangelho Kardecista (?), porque ele não aceita outro Evangelho. Eu até brigo com ele porque ele diz que o “Evangelho Segundo o Espiritismo” é muito mais explicado e mais profundo que o da Igreja Católica. Apesar de eu não ver dessa maneira, ele acha isso.

Alamar – Como a Igreja vê essa sua situação, Padre Miguel?

Padre Miguel – A Igreja nunca aceitou. Já me ameaçaram até de expulsão. Uma vez eu saí na revista “Incrível”. Por isso ameaçaram rasgar minha batina. Tudo que eles querem fazer comigo, eles fazem. Eu sofro muita agressão por causa disso. Mas eu deixei correr. Se o Frei Fabiano quer realmente me ajudar, ele tem que dar o jeito de me proteger, que ele faça com que a Igreja aceite.

Conclusão

A coisa parece bem simples, se o espírito pode agir sobre uma matéria, nosso corpo físico, como não poderia agir sobre outras matérias, independemente de estar ou não encarnado.

Sabemos que o caminho é árduo, mas mais cedo ou mais tarde a ciência oficial provará de maneira abrangente e peremptória a comunicação com os mortos, que difícil será negá-la. A não ser que até lá ainda existam “sábios” do tipo que contestou o fonógrafo de Edison, e roguemos a Deus não permita ter os que tentam amordaçá-la, como fizeram com Galileu Galilei, quando disse que o sol não girava em torno da terra, mas a terra é que girava em torno daquele astro.

Fev/2000

Bibliografia: