Os Excluídos

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Era uma vez...

Num país bem distante, vivia um rei com os seus súditos.

Era um país onde todos os seus habitantes não tinham qualquer tipo de problema. Não havia pobreza, nem miséria, todos eles possuíam casa para morar, emprego fixo, escola, etc., mais parecia um paraíso. A vida média daquele povo ficava por volta de 70 anos.

Um dia, chegaram dois visitantes de terras ainda mais distantes. Um era você, meu caro leitor, o outro eu. Passamos a passear por este reino e observamos que todos os habitantes viviam alegres e em perfeita harmonia uns com os outros. Numa volta pela cidade notamos que a arquitetura dos prédios era de uma rara beleza, feita por mãos de verdadeiros artistas. Andando pelo campo, vimos que não havia nenhuma propriedade improdutiva, todos os camponeses produziam alguma coisa, não existia um lugarzinho sequer que não houvesse uma cultura, principalmente, a de gêneros alimentícios. Era exatamente por isso que não havia fome no reino.

Continuamos a andar pelo campo quando nos afastamos em demasia, e fomos parar nas redondezas desse reino. Chamou-nos a atenção uma placa indicativa com os seguintes dizeres: “Vale dos Excluídos”. Curiosos nós seguimos aquela indicação e fomos deparar com os muros que cercavam todo o reino. Ao aproximarmos, um portão foi aberto e, sem que pudéssemos parar para pensar, nós já estávamos do lado de fora. Era um ambiente terrível, de muita miséria, dor, e sofrimentos.

As pessoas que viviam naquele lugar eram em número muito maior que as que existiam no reino, tão evidente isso, que não era necessário nem contar. Ao aproximarmos de um velhinho, este foi logo nos cumprimentando, e nos perguntou:

- Como vão as coisas lá no reino?

- Tudo bem, dissemos.

- Como? Será que vocês não perceberam que lá quase não há crianças.

- Realmente, não as notamos em grande quantidade, respondemos. Mas por que isso?

- Bom, é porque o rei exige que nossas crianças ao completarem os 7 anos de idade devem se matricular num estabelecimento escolar.

- Ora, isso é o que se deve esperar de um rei que se preocupa com seu povo.

- Seria, se o nosso rei não exigisse que todas as crianças aprendessem tudo o que os adultos sabem somente no primeiro ano de escola, sob pena de serem enviados para este Vale.

- Mas isso é um absurdo. Não há a mínima possibilidade de que uma coisa dessa aconteça.

- Concordamos. Entretanto, não podemos fazer nada, pois nosso rei é todo-poderoso. E cabe-nos apenas nos resignarmos diante dessa situação. Mas o melhor é vocês irem embora bem rápido, pois correm sério risco de ficarem presos aqui para sempre.

Saímos daquele estranho lugar, sem nem mesmo olhar para trás. Voltamos o mais rápido que conseguimos ao nosso país de origem.

Sei, que tanto você quanto eu, estamos indignados diante da atitude desse rei, pois estava sendo muito exigente com as crianças. Era uma, digamos, missão impossível. Esse rei tinha mais súditos no Vale dos Excluídos que dentro dos muros que cercavam seus domínios.

Mas, vamos pensar um pouco. Não é o mesmo que as religiões dizem, que Deus faz conosco, ou seja, quer que atinjamos a perfeição em apenas uma vida? Perceba que uma só vida não é praticamente nada para um espírito que é imortal, que viverá para toda a eternidade. Analisando a situação, vemos que a quantidade de pessoas que não conseguiram se tornar “santos” é muito superior aos que o são. Assim, também, Deus teria mais filhos na exclusão (inferno?) do que no seu reino.

Pense nisso!

Nov/2001.