Os milagres existem?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Vamos fazer uma leitura dinâmica na Bíblia para ver se nela encontramos algo em que possamos nos apoiar para responder a essa pergunta.

O primeiro milagre que nos surge na Bíblia é Deus criando do nada, a Terra e o Universo num período fantástico de seis dias. Ora, hoje a ciência vem provar que esses dias são, na realidade, períodos de bilhões e bilhões de anos, e não, como até há pouco tempo se pensava, serem dias de 24 horas.

A criação do homem não deixa também de ser um fenômeno milagroso, já que Deus faz que um monte de barro se transforme num ser humano. Entretanto, não vemos grandes diferenças entre nós e os animais. Veja que os elementos que compõem nosso corpo físico são os mesmos que formam o corpo dos animais. Os órgãos e suas respectivas funções são muito semelhantes nesses dois seres. Tanta semelhança assim só, por questões de lógica, pode existir se eles tivessem a mesma origem, ou seja, surgiram duma mesma maneira. Não entendemos porque ainda se diz que o homem foi criado diferente. Bom, a verdade é que a narrativa bíblica deve ser tomada no sentido simbólico, qual seja, a de que o corpo humano se formou dos elementos que já existiam na natureza, da mesma forma que o corpo dos animais.

Arrependido de ter criado o homem - como se fosse possível - Deus resolve eliminá-lo da face da terra. E, para isso, inunda toda a terra de água, através do dilúvio universal. Sabemos hoje, pela ciência, que não existe água suficiente em nosso planeta para cobrir o mais alto monte. Devemos ver nessa passagem apenas um sentido figurado: quem está com Deus, vence todos os tormentos da vida.

O homem vê no arco-íris um sinal da aliança que Deus faz com a humanidade de nunca mais destruir a terra com água. Mas, a ciência nos diz que o arco-íris é apenas a decomposição da luz solar em sete cores básicas, e que podemos, inclusive, reproduzir com um prisma de cristal.

A mulher de Ló virando estátua de sal, pode ser explicada “a chuva desloca numerosos blocos de sal que rolam até a base. Esses blocos têm formas caprichosas e alguns deles são eretos como estátuas. Às vezes em seus contornos a gente pensa distinguir, de repente, formas humanas”.(1)

Encontramos, agora, o povo hebreu cativo no Egito. Deus resolve escutar o clamor desse povo e envia alguém para libertá-los. Aparece a Moisés em meio à sarça ardente escolhendo-o para essa missão. Entretanto, “O fenômeno da ‘sarça ardente’ existe, pois, na natureza, literalmente em plantas com um grande conteúdo de óleos voláteis. O naturalista alemão Dr. M. Schwabe comprovou em repetidas observações a inflamação espontânea: a mistura de gás e ar inflama-se algumas vezes por si só no calor intenso e no ar parado, ficando o arbusto intato” (1).

Moisés, para convencer o faraó que vinha da parte de Deus, manda várias pragas aos egípcios. “Mas, as pragas não são coisa inverossímil nem incomum. Ao contrário, fazem parte da cor local do Egito. A água do Nilo “converteu-se em sangue”. “E as rãs saíram e cobriram a terra do Egito”. Vieram mosquitos, moscas, uma peste dos animais e úlceras – vieram depois granizo, gafanhotos e trevas (Êxodo 7 a 10). Coisas como essas mencionadas pela Bíblia, o Egito experimenta até hoje, como, por exemplo, “o Nilo vermelho”.

“Às vezes os aluviões dos lagos abissínios colorem a água do rio, sobretudo no seu curso superior, de uma pardo avermelhado, que pode dar a impressão de sangue. No tempo das enchentes, as rãs e os mosquitos multiplicam-se às vezes de tal modo que chegam a transformar-se em verdadeiras pragas. A categoria de moscas pertencem sem dúvida os moscardos. Freqüentemente, eles invadem regiões inteiras, penetram nos olhos, no nariz, nos ouvidos, causando dores lancinantes”.

“Por toda parte há peste dos animais. Pelo que se refere às úlceras, ocorrem tanto nos homens como nos animais”. Poderá tratar-se da chamada fogagem ou sarna do Nilo.(...)

“O granizo é, com efeito, raríssimo no Egito, mas não desconhecido. A época do ano em que isso ocorre é janeiro ou fevereiro. As nuvens de gafanhotos são, entretanto, um flagelo típico das regiões do Oriente. O mesmo se dá com as trevas súbitas. O chamsin, também chamado simum, é um vento ardente que arrasta consigo grandes massas de areia. Estas escurecem o sol, dando-lhe uma cor baça e amarelada, chegando a ficar escuro em pleno dia. (...) E contra toda explicação científica se opõe também, naturalmente, a indicação da Bíblia de que a praga das “trevas egípcias” apenas afetou os egípcios, mas não os israelitas que viviam no Egito...”(1)

Sobre a morte dos primogênitos dos homens e dos animais, encontramos a seguinte explicação: “Cereais guardados em celeiros ainda úmidos podem desenvolver um bolor altamente tóxico. Como no Egito antigo os primogênitos (tanto humanos quanto dos animais) tinham a precedência na alimentação, em tempos de escassez eles foram os primeiros a ser fatalmente intoxicados pelo bolor” (2).

Moisés, após libertar o povo hebreu, tem à sua frente o Mar Vermelho, que após abrí-lo em duas muralhas, passa por entre elas a pé enxuto. “A primeira dificuldade está na tradução. A palavra hebraica “Yam suph” é traduzida ora por “mar Vermelho”, ora por “mar dos Juncos”. (...)

“Às margens do mar Vermelho não crescem juncos. O mar dos juncos propriamente ficava mais ao norte. ...Nos tempos de Ramsés II, existia ao sul uma ligação do golfo de Suez com os lagos amargos. Provavelmente chegava mesmo até mais adiante, até o lago Timsah, o lago dos Crocodilos. Nessa região existia outrora um mar de juncos. O braço de água que se comunicava com os lagos amargos era vadeável em diversos lugares. A verdade é que foram encontrados alguns vestígios de passagens. A fuga do Egito pelo mar dos Juncos é, pois, perfeitamente verossímil”(1).

No deserto o povo hebreu passa a fazer determinadas exigências a Moisés, que pede a Deus para atender-lhes, Deus envia-lhes as codornizes e o maná. “Repetidamente tem-se discutido com mais ou menos base a questão das codornizes e do maná. Quanto ceticismo têm provocado! A Bíblia fala de coisas maravilhosas e inexplicáveis. Mas codornizes e maná são inteiramente naturais. Basta consultar um naturalista ou os naturais da terra, que ainda hoje podem observar o mesmo fenômeno”.

“A saída de Israel do Egito começou na primavera, a época das grandes migrações das aves. Partindo da África, que no verão se torna insuportavelmente quente e seca, as aves seguem, desde tempos imemoriais, duas rotas para a Europa: uma pela extremidade ocidental da África, para a Espanha, e a outra pela região oriental do Mediterrâneo, para os Bálcãs. Entre essas aves encontram-se codornizes, que nos meses da primavera voam por cima do mar Vermelho, que têm de atravessar em sua rota para leste. Cansadas do grande vôo, deixam-se cair nas planícies da costa a fim de recobrarem forças para a viagem por cima dos altos montes até o Mediterrâneo. Flávio Josefo (Ant. III, 1.5) relata uma experiência semelhante, e ainda em nossos dias os beduínos dessa região apanham com a mão, na primavera e no outono, as codornizes exaustas”.

“No que se refere ao famoso maná, recorramos aos botânicos. Anteciparemos que quem quer que se interesse por maná poderá encontrá-lo na lista de exportações da península do Sinai”. (...)

(...) “O fenômeno do maná é um exemplo verdadeiramente clássico de como certas idéias e conceitos preconcebidos se mantêm por vezes obstinadamente através das gerações e como é difícil fazer prevalecer a verdade”.

(...) “O dito pão do céu cai pela manhã, ao amanhecer, exatamente como o orvalho ou a geada, e pende como gotas na erva, nas pedras e nos ramos das árvores. É doce como o mel e gruda aos dentes quando se come...”

(...) “o famoso maná não era outra coisa senão uma secreção das árvores e arbustos da tamargueira, quando picados por uma espécie de cochonilha característica do Sinai”.

(...) “Esses pequenos insetos vivem sobretudo nas mencionadas tamargueiras, nativas do Sinai, que pertencer às acácias” (1).

Sem água para saciar a sua sede, novamente, o povo hebreu reclama a Moisés que, inspirado por Deus, toca num rochedo, fazendo jorrar água pura. “Nessa aflição Moisés teve de tomar da sua vara e ferir um rochedo para fazer brotar água (Êxodo 17.6), o que é considerado completamente inconcebível pelos céticos e por outros, embora, também nesse caso, a Bíblia apenas descreva um fato natural”.

(...) “Um de seus golpes atingiu a rocha. A superfície lista e dura que se forma sempre sobre a pedra calcária exposta ao tempo rompeu-se e caiu. Com isso ficou exposta a rocha mole embaixo, e de seus poros brotou um grande jorro de água”(1).

Após os quarenta anos no deserto, finalmente o povo consegue sair chegando às margens do Rio Jordão, que também se divide em dois montes. “De fato, é isso o que acontece também no caso em questão; a mais notável dessas repetições é a referente ao “milagre da travessia do mar” (Êxodo 14), contada na “miraculosa passagem do Jordão” (Josué 3, 4 a 17)”.

(...) “Quando Israel chegou ao Jordão, o rio estava cheio”. ... “El Damiyeh, um vau muito usado no curso médio, lembra esse sítio de Adom. Se as águas crescerem subitamente, poderá se formar nesse lugar raso, durante um breve período, uma espécie de açude natural, enquanto o curso inferior se mantém quase inteiramente seco”.

“Entretanto, o represamento da água do Jordão, que tem sido testemunhado diversas vezes, é devido sobretudo a terremoto. O último dessa espécie aconteceu em 1927. Devido a um violento abalo desmoronaram-se as margens do rio, e grandes massas de terra das pequenas colinas que se erguem ao longo de todo o curso serpeante rolam para o rio. A água ficou inteiramente represada durante vinte e uma horas” (1).

Atravessando o rio Jordão chegaram à cidade de Jericó. “As casas mais antigas de Jericó têm sete mil anos e lembram ainda, com seus muros circulares, as tendas dos nômades”.

“Foram postas a descoberto duas muralhas concêntricas, sendo a interna ao redor da crista da colina. Trata-se de uma obra-prima de fortificação estratégica, feita de tijolos secos ao sol e constituída de dois muros paralelos três a quatro metros distantes um do outro. A muralha interna, que é particularmente maciça, mede três metros e meio de espessura. O cinturão externo passa pelo fundo da colina e consiste num muro de dois metros de largura e de oito a dez de altura, com sólidos alicerces. Tais são as célebres muralhas de Jericó!”

(...) “Segundo os achados, durante a Idade do Bronze, as célebres muralhas foram reconstruídas nada menos que dezessete vezes; sempre tornaram a ser destruídas, ou por terremotos, ou pela erosão. Quem sabe, essa pouca resistência das muralhas teve sua ressonância na lenda transmitida pela Bíblia, que conta como os filhos de Israel somente tiveram de soltar seus brados de guerra e fazer soar suas trombetas para conquistar Jericó. A cidade de meados de Idade do Bronze, surgiu nos tempos dos hicsos, aos quais acompanhou no seu ocaso, por volta de 150 a.C. Em seguida, Jericó deixou de ser habitada, durante aproximadamente um século e meio”. ... “Se, de fato, somente na época da “tomada de terra”, ou seja, em meados ou fins do século XIII a.C., os israelitas alcançaram Jericó, então nem precisavam conquistá-la, pois ela já havia sido abandonada por seus habitantes! Somente no século IX a.C, no reinado de Acab, Jericó tornou a ser reedificada (Reis 16.34)”.

Temos, também, Josué fazendo o sol ficar parado no meio do céu, e um dia inteiro ficou sem ocaso. Interessante, que tal fato extraordinário não foi registrado por nenhum outro povo da terra, já que essa ocorrência iria refletir na Terra inteira. E, mais, como esse fenômeno não causou nenhuma desordem no universo.

Outro fenômeno ocorrido com o sol, foi quando, por invocação de Isaías, Deus faz a sombra do sol recuar dez degraus da escada do quarto superior da casa de Acaz. Como no primeiro, também não foi registrado por nenhum povo. A sombra voltar para trás poderia ser por que o próprio sol retornou em sua órbita? Se isso for verdadeiro, esse fato seria impossível de acontecer sem que causasse um verdadeiro caos no universo.

Muitas outras coisas existem na Bíblia, que querem passar por milagres. Mas, “é verdade que existem fábulas na Bíblia, puras fábulas como a história do feiticeiro Balaão e a jumenta falante (Números 22), a história de Jonas, que foi engolido por um grande peixe (Jonas 2), ou a história de Sansão, a quem dava força a cabeleira longa (Juízes 13 a 16)” (1).

Especificamente quanto a história de Jonas, sabemos que a baleia é um peixe cuja garganta é muito pequena, por isso sua alimentação é de peixes pequenos, um homem não caberia nela. E, esquecendo-se, por um momento, que isso é um absurdo, como um ser humano conseguiria viver dentro de uma baleia por três dias e três noites sem se alimentar?

Narra Mateus que Jesus caminhou sobre o mar. Ora, isso bem que poderia ser um fenômeno de levitação, reconhecido hoje pela Parapsicologia.

Encontramos também Jesus realizando ressurreições, entretanto, podemos, pelo conhecimento atual da medicina, identificar casos de catalepsia ou letargia em que a pessoa toma toda a aparência de morta. Devemos ressaltar que no caso da filha de Jairo, Jesus disse que a menina não estava morta, apenas dormia.

Podemos, para efeito deste estudo, buscar a definição teológica de milagre como uma manifestação da presença de Deus, caracterizada sobretudo por uma alteração repentina e insólita dos determinismos naturais, ou seja, revogação de alguma lei natural.

Mas, aceitando esse conceito iremos esbarrar num absurdo teológico, pois, se Deus revogar algo que Ele tenha criado, pressupõe que Ele não tenha criado perfeito, se não criou prefeito, então não seria Deus.

Pelo que colocamos no início, podemos deduzir que tudo que consta da Bíblia como milagre, ou são fenômenos de ordem natural ou são fatos simbólicos interpretados ao pé da letra.

Milagre seria uma ocorrência de ordem natural, sobre a qual o homem não tem a mínima noção de como, quando, e em que circunstância possa ocorrer, porém, nada foge das leis da natureza.

Antigamente, quando da colonização dos índios, o homem branco lhes oferecia bugigangas, entre elas, espelhos. Como o índio nunca tinha visto tal objeto, ficava encantado em se ver num pedaço de vidro, deveria pensar até que isso era puro “milagre”. É o que querem fazer conosco ao apresentar algumas ocorrências para as quais ainda não se encontrou a explicação científica, como por exemplo, corpos de santos incorruptos como prova de que Deus tenha escolhido a essa corrente religiosa para se manifestar. Como se Ele não considerasse ninguém mais do que os que seguem essa corrente, contrariando “Deus não faz acepção de pessoas”.

Contam, que determinado bandeirante diante de uma tribo indígena, atirou para o alto com sua espingarda, daquela boca de sino. Incontinenti os índios abaixaram em reverência, pois imaginavam que aquele homem era um Deus, já que conseguia tirar fogo de um pau. Muitos de nós ainda se comportam como esses índios que, por não conhecer uma arma de fogo, imaginaram que aquilo era um pedaço de pau.

Respondendo, agora, à pergunta inicial, diremos que não. Os milagres não existem. O que existe é nossa ignorância a respeito das leis que regem certos fenômenos. Leis, diga-se de passagem, divinas, que nunca vimos serem derrogadas por motivo algum.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Julho/2002.

(1) e a Bíblia tinha razão..., Werner Keller, tradução de João Távora - Cia Melhoramentos de São Paulo, SP, 22ª edição 2000.

(2) SUPER Interessante, edição 178, julho 2002.