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O Prato PrincipalRichard Simonetti Certo homem deu uma grande ceia e convidou a muitos. Temos aqui uma das famosas parábolas de Jesus, pequenas histórias de fundo moral, com imagens do cotidiano. O anfitrião é Deus. A ceia, a comunhão com os valores espirituais. O convite divino manifesta-se de duas formas: Objetivamente. Envolve a tradição familiar, a crença do berço. Subjetivamente. Exprime-se nas dúvidas existenciais, na inquietação inexprimível, no indefinível anseio do sagrado. Poucos são receptivos. Jesus reporta-se a três escusas: O que comprou um campo e vai vê-lo. Está envolvido com o cotidiano, num somatório de atividades, interesses e prazeres. Impedimentos se sucedem – a novela, o cinema, o futebol, a visita, o passeio, o contratempo, o compromisso inadiável… Não tem tempo. O que comprou uma junta de bois. Enrosca-se na atividade profissional, o ganha-pão, o dinheiro do mundo. O expediente que se prolonga, o compromisso marcado, a convocação inesperada… Não tem tempo. O que acabou de se casar. Prende-se às solicitações familiares. Ficam comprometidos os espaços vazios na agenda…Há sempre alguém a atender. Não tem tempo. Parecem ignorar o óbvio: Tempo é uma questão de preferência. Sempre encontramos tempo para fazer o que realmente desejamos. Vendo que seus apelos são inúteis, o Senhor decide convidar os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Lembra um pensamento corrente nas lides espíritas: Aproximamo-nos dos valores espirituais por convite do amor ou por convocação da dor. Amor ao conhecimento: a vontade de aprender, desdobrar horizontes, equacionar a existência… Há, também, o amor romântico. No jogo da sedução vale tudo, até a adesão à crença do ser amado. Isto até o casamento. Depois, é outra história… A maioria vem pela dor. Têm problemas, estão doentes, perturbados, desajustados, infelizes, deprimidos… Estão representados pelos estropiados da parábola. São mais acessíveis, receptivos ao convite. Diríamos, lembrando expressão popular: Ói nóis aí! Talvez você, leitor amigo, tenha procurado o Espiritismo por amor. Saiba que é uma exceção. Lembro minha própria experiência. Embora filho de família espírita, até os vinte anos estive totalmente alheio. Foi a partir de grave lesão num olho que me aproximei. Como toda mãe espírita diante de um filho com problema de saúde, minha genitora logo procurou, em reunião mediúnica, o apoio de um mentor espiritual. Ele se propôs a ajudar. Fiquei animado, até saber a condição imposta: Era preciso que eu comparecesse às reuniões públicas do Centro, que eram diárias. – Todos os dias?! – Sim. – Poxa, mamãe! Nenhuma folga! Nem mesmo no domingo? – Meu filho, a dor e a necessidade não escolhem dias. Sempre há gente precisando de socorro. Achei absurda a exigência. Não obstante, a enfermidade é extremamente persuasiva, principalmente quando envolve um dos dons mais preciosos – a visão. Cumpri minha parte. O guia cumpriu a dele. Sarei. Melhor – tomei gosto pela atividade espírita. Hoje participo por amor, com ajudazinha da dor, de vez em quando, que é para a gente não se distrair. Segundo a parábola, os convidados desinteressados não provarão a ceia. Acrescentaríamos que isso ocorrerá até que estejam também estropiados, o que, certamente, modificará suas disposições. No banquete da espiritualidade, oferecido no Centro Espírita, temos as entradas. É o alimento leve e imediato: o atendimento fraterno, o passe magnético, o tratamento espiritual, o receituário mediúnico, as vibrações dirigidas… Curioso que muitas pessoas ficam apenas nesse antepasto. Melhoram, experimentam algum bem-estar; o problema de saúde parece superado, mente pacificada… E logo procuram a saída. Deixam o melhor, o prato principal, representado pelo conhecimento espírita. É esse que realmente nos alimenta e fortalece, ajudando-nos a viver de forma mais tranqüila e feliz. Se estamos dispostos a experimentá-lo, é preciso saber que esse maná dos céus deve ser bem mastigado, para ser digerido, envolvendo atenção, no legítimo desejo de aprender, superando a mera intenção de receber benefícios. Freqüentemente, nas reuniões doutrinárias, vemos pessoas de olhos fechados. Dizem estar concentradas… Só se for em Morfeu, o deus do sono. Quando fechamos os olhos, não há atenção que se segure. A própria voz dos expositores vira cantiga de ninar. Dorme o corpo, mas a Alma está atenta – justifica alguém. Equivoca-se. É a Alma desatenta que faz o corpo adormecer. Há quem reclame do obsessor, agindo para que não preste atenção, não aprenda a livrar-se de sua influência. Pobres obsessores! Têm costas largas! Com raras exceções, o problema é de desatenção, filha dileta do desinteresse. No Japão há curioso costume. As pessoas compram, em restaurantes e supermercados, determinados alimentos, acondicionados em pequenas caixas, o que lhes permite tomar sua refeição na rua, na praça, no local de trabalho, no metrô… Algo semelhante podemos fazer com o banquete da espiritualidade. Acondicionar o prato principal em prática embalagem – o livro espírita! A qualquer momento, em qualquer lugar, podemos mangiare, como diz o italiano, finas iguarias que saciam nossa fome de espiritualidade, proporcionando-nos momentos de leitura edificante. Ao comentar a importância de ter o livro espírita ao alcance das mãos, uma senhora comentou: – Infelizmente não tenho o hábito da leitura. Bem, sabemos que hábito é uma tendência adquirida com a repetição de determinadas ações. Há maus hábitos, extremamente prejudiciais: Fofocar. Impressionante o prazer mórbido que as pessoas sentem em comentar aspectos negativos do comportamento alheio. É uma auto-afirmação às avessas. Em vez de se realizarem pelo que são, pretendem fazê-lo depreciando os outros. Esbravejar. Há quem resolve tudo no grito. Ergue a voz, impondo medo, sem conquistar respeito ou estima. Quando detém cargos de mando, sai de perto! Xingar! Há pessoas que escovam os dentes, sem escovar a conversa. Principalmente quando irritadas pronunciam obscenidades, que se expandem como vibrações virulentas que conturbam qualquer ambiente. Mentir! Parece segunda natureza. Está tão incorporado ao comportamento humano que o profeta Isaías proclama, taxativo: todo ser humano é mentiroso. A leitura de obras espíritas nos ajuda a mudar esse quadro. Em princípio, talvez tenhamos dificuldade, mas, ficará fácil e será prazeroso se adquirirmos esse maravilhoso hábito, a partir do empenho diário. Inicialmente, um minuto apenas. Se nos parecer muito, deixemos por trinta segundos… Se insistirmos, aos poucos iremos ampliando a capacidade de nos fixarmos na leitura, substituindo as horas vazias, desperdiçadas, jogadas fora, por uma excursão no deslumbrante universo espírita. Tenhamos ao alcance das mãos as abençoadas caixas com o alimento principal, capaz de saciar nossa fome de paz e conforto, a qualquer momento, em qualquer lugar! (Richard Simonetti é escritor, palestrista e colaborador da Revista Literária Candei) |
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