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Vida abundanteRichard Simonetti Quando criança, conta o escritor Ardis Whitman, vivia numa aldeia da Nova Escócia no Canadá. Certa feita uma senhora, mãe de família, morreu. O marido, alcoólatra irresponsável, cuidava pessimamente dos filhos. Passavam até fome. Compadecida daquela situação, uma piedosa mulher resolveu ajudar. Com autorização paterna, levou o menino mais débil e doente para sua casa. Mirradinho e sofrido, a vida parecia esvair-se dele, com sombrias perspectivas. A mãe adotiva era viúva, pobre e inculta. Não obstante, tinha o essencial - muito amor e energia para dar à frágil criança. Em pouco tempo ocorreu o milagre. O menino literalmente começou a desabrochar, corpo e espírito sustentados e fortalecidos pelo carinho aconchegante daquele meigo coração de mulher. Mas ainda havia uma dificuldade. Algo atrapalhava seu crescimento como ser humano. Algo o perturbava. Como era um estranho e muito tímido, as crianças da redondeza não lhe davam atenção e até zombavam dele. Um dia sua mãe adotiva encontrou a garotada brincando enquanto ele permanecia num canto, repelido e choramingando. Ela o mandou para casa e depois falou com as crianças: - Neste exato momento está sendo decidido se aquele menino será alguém ou não. Estou fazendo tudo por ele. Mas, cada vez que consigo empurrá-lo um bocadinho para frente, vocês o mandam de volta. Não querem que ele viva? Que cresça, que seja um garoto forte e alegre? Ajudem-me, por favor! Brinquem com ele! Falem com ele! Sejam bondosos com ele! Comenta Whitman que nunca esqueceu o episódio. Foi seu primeiro contato com o conhecimento de que todos possuímos o espantoso poder de edificar ou destruir o semelhante. Influenciamo-nos uns aos outros como o sol e a geada sobre campo verde. É um processo permanente. Nunca deixamos de transmitir convites de vida ou morte, triunfo ou capitulação. Há pessoas que parecem ter o talento infeliz de sugerir uma existência sem finalidade nem esperança. São severas e frias, matam o sonho, paralisam a esperança e mutilam a alegria. O marido que zomba dos esforços da mulher por aprender a cozinhar: - Está horrível! Você não vai aprender nunca! Por que não desiste?! A mulher que critica acremente o marido desempregado: - Você não tem jeito! É um fracassado congênito. Falta-lhe um mínimo de iniciativa! Não presta para nada! O professor que se detém em comentários críticos e irônicos diante do aluno: - Sua redação está horrível, sem conteúdo. Há erros primários, letra de debilóide. Será que terei que abrir sua cabeça para você aprender?! Esses adeptos do pessimismo e da má-vontade projetam horizontes sombrios. Diante deles sentimo-nos incompetentes para enfrentar a vida, menores e menos capazes do que julgávamos. Somos dominados pelo medo, conduzidos à inércia. Mas há também pessoas maravilhosas e inesquecíveis que nos convidam a viver. Com elas crescemos e nos renovamos. Elas transmitem poderosa energia. Estimulam-nos a aperfeiçoar tudo o que somos e o que podemos ser. O teatrólogo Edward Sheldon, figura lendária nos palcos de Nova York, no fim do século passado, era um homem assim. Tinha o dom de doar vida! Aos trinta anos foi atacado por uma artrite progressiva, tão terrível que o paralisou por completo e acabou por torná-lo cego. Normalmente, um doente em tão desoladora situação ficaria entregue a uma vida vegetativa, ansiando pela morte. Mas em Sheldon havia tanto amor à vida que ele fazia de sua provação um exemplo marcante de como enfrentar a adversidade. Atraídos por aquele espírito indômito, disposto a viver embora tivesse tudo para morrer, muitos o visitavam, em peregrinação constante. Sheldon a todos escutava com absoluta atenção, interessado, animador. Censurava, quando necessário. Sofria com as tristezas dos visitantes, alegrava-se com suas menores alegrias. Mas, sobretudo, exigia deles o melhor de que eram capazes, ensinando-os a amar a vida e a viver intensamente, fazendo o melhor. Alguém disse a seu respeito: - Saíamos revigorados e estimulados do quarto de Sheldon, com cem novos caminhos abertos ao Espírito e a tranqüila certeza de que dispúnhamos de tempo infinito que chegava para percorrer a todos. Gloriosas perspectivas abriam-se para nós, sob inspiração daquele homem inesquecível Pessoas assim livram-nos do ceticismo, do enfado, do desinteresse. Derrubam a apatia que toma conta de nós com o passar do tempo. São abençoadas! Certamente todos desejamos ser assim. Doadores de vida! Mas como? Como se consegue esse dom divino? Bem, meu caro leitor, é elementar que ninguém pode dar o que não possui. Para que possamos doar vida é preciso, antes de mais nada, que a produzamos em abundância. Que tenhamos entusiasmo, espírito de iniciativa, capacidade de realizar, vibração positiva voltada para o Bem, alegria de viver. E como inundar de vida nosso espírito? A resposta está no capítulo décimo das anotações do evangelista João. Palavras de Jesus: "Vim para que tenhais vida e vida em abundância. " Supremo doador de bênçãos, Jesus nos oferece, com a poesia de suas lições e a sublimidade de seus exemplos, os recursos para que a vida brote em nós e se derrame sobre aqueles que nos rodeiam. Curiosamente, não obstante as indicações de Jesus, raros conquistam a vida abundante. Por quê? Talvez seja um problema de bússola. Sim, é preciso verificar qual estamos usando para encontrar os mananciais desejados. Geralmente usamos aquela cujo norte está voltado para nós mesmos. É a bússola do egoísmo. Acostumados a orientar nossas ações pela ótica dos interesses pessoais, geralmente nos preocupamos com o que possamos receber em favor de nosso bem-estar. Pensamos muito nos deveres do próximo diante de nós. Raramente cogitamos de nossas obrigações diante dele. Com isso a vida murcha ao nosso redor. O marido que critica a esposa porque não sabe cozinhar está defendendo seu paladar. A mulher que agride o marido desempregado pensa na própria segurança. O professor que critica acremente o aluno disfarça sua incompetência, sua incapacidade de motivá-lo para o aprendizado. Sheldon usava a bússola certa. A bússola evangélica, que mostra um outro norte - o semelhante. Tendo suficiente justificativa para mil frustrações, preferia preocupar-se com os problemas alheios, distribuindo otimismo e coragem, minimizando seus próprios sofrimentos e vivendo em plenitude. Era por isso um doador de vida, embora ela fosse, aparentemente, tão escassa nele. Assim é o cristão autêntico, aquele que faz do empenho de servir o seu ideal, a sua meta, a sua alegria. Doador de vida, reanima os combalidos, incentiva os lutadores, consola os aflitos, ampara os fracos, cuida dos enfermos, faz sempre o melhor! E quanto mais a distribui, mais ela brota em seu espírito, estuante e gloriosa. Deveríamos em todos os dias de nossa vida orar com fervor. Suplicar a Deus que nos ajude a usar a bússola certa para encontrarmos as Fontes da Vida. Como deveria ser essa oração? O importante, sem dúvida, é que tenha a adesão do coração. A partir desse empenho fundamental, temos na maravilhosa oração de Francisco de Assis, um dos grandes discípulos de Jesus, o roteiro precioso para que a vida cresça em nós e transborde em favor de nossos semelhantes:
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