A Obsessão e a Mediunidade

Jean Bazerque

Traduzido por Paulo A. Ferreira

Todos os espíritas sabem que um ser humano é a associação de três elementos: o corpo físico, o perispírito (ou corpo astral) e o espírito.

Podemos dizer (esquematizando) que a mediunidade intelectual é a faculdade que um ser humano possui de separar seu perispírito de seu corpo físico, em maior ou menor extensão, deixando as alavancas de comando deste último aos Espíritos desencarnados que o rodeiam.

Ocorre que os resultados obtidos pelo médium dependem do meio espiritual no qual ele se situa. Se ele for de pouca elevação espiritual estará rodeado de Espíritos da mesma ordem, o que pode levar à obsessão e à possessão. Se ele estiver em um nível espiritual elevado, estará rodeado de Espíritos guias ou protetores, ajudando-o em sua missão mediúnica e protegendo-o das agressões de Espíritos que freqüentemente são mais inconscientes que mal intencionados, mas que são, entretanto, perturbadores e nefastos.

Todos os espíritas o sabem. Nós também vamos nos ater a essas explicações teóricas para dar exemplos, vividos, dos inconvenientes que um médium pode encontrar antes de atingir o estado da mediunidade benéfica. Para isso, citarei minhas próprias experiências, mesmo assim me escusando a fazê-lo de modo pessoal, definitivamente mais simples e claro.

Alguns meses após minha entrada no grupo espírita que freqüentava, fui advertido por um sonho premonitório de que seguiria (sem que o soubesse) o curso de uma escola espiritual de mediunidade, onde iria ser médium, o que me surpreendeu fortemente, pois nada me faria supor isso, não tendo formulado esse desejo nem em pensamento, nem por palavras. Nosso grupo não tinha escola de mediunidade e após o sonho, o desenvolvimento se fazia no lado de lá, conduzido pelos guias espirituais, portanto, suponho, durante o sono normal. A separação corpo físico - corpo astral passou a se fazer cada vez mais facilmente, o aluno médium se tornando como uma habitação da qual se houvesse retirado a porta de entrada, não importando quem pudesse aí entrar, gente boa ou mal intencionada.

Os Espíritos protetores têm a tarefa de vigiar e afastar esses últimos, mas o médium tem o dever de não freqüentar os lugares malsãos onde eles pululam. Não é a leitura de alguns livros espíritas que lhe evitarão os inconvenientes de sua empreitada, mas somente a aplicação dos ensinamentos dos irmãos espirituais o que alguns chamam por brincadeira: o lado moral do Espiritismo.

Esta é a parte do desenvolvimento mediúnico exclusivamente reservada ao médium, à qual não pode se subtrair, e que ninguém pode fazer por ele. Aprendi assim, por experiência, que ao longo de minha vida quotidiana, profissional ou de lazer, precisava evitar certas pessoas, que são normais para todo o mundo, mas em realidade estão cercadas de espíritos inconscientes: colegas de escritório fanatizados em política, no plano esportivo, no plano sexual, etc.; necessitava evitar certos lugares: espetáculos, cinemas, estádios esportivos, bares, etc. Eu "recebia" espíritos errantes com uma facilidade espantosa, o que se traduzia em pensamentos obsedantes ou dores de cabeça tenazes. Remediava isso pela leitura de algumas páginas do livro "O Evangelho segundo o Espiritismo" de Allan Kardec (eles não gostam muito desses textos), por uma prece para os espíritos obsessores, do mesmo livro, por uma pequena ducha sobre a nuca pela manhã ao levantar. Geralmente ficava desembaraçado após cada sessão do grupo. Mas, na primeira ocasião, os "amontoava" de novo. Isso durou um ano e meio aproximadamente, sobre todo o período da guerra, com interrupções. Sabe-se, do que se costuma duvidar, do quanto as hostilidades eram nefastas ao ambiente espiritual de nosso planeta terrestre.

Eis aqui um exemplo de obsessão de que fui vítima:

Encontrei um conhecido na rua, um homem de negócios; trocamos algumas palavras sobre a saúde, a família, os negócios e nos despedimos. A partir desse momento uma dor de cabeça lancinante começou a se fazer sentir. Eu sabia que ele me tinha passado uma má influência espiritual. Meus esforços para me livrar foram vãos.

No terceiro dia, o peso sobre a cabeça e sobre as têmporas era tão grande que mal podia abrir os olhos. Decidi ver o irmão Botella para que ele me livrasse dessa entidade. Para o leitor que ainda não sabe, diremos que o irmão Botella era médium curador e vidente (que vê os Espíritos). Dirigindo-me para seu domicílio, vi bem de longe que ele estava conversando precisamente com aquele homem de negócios que me tinha passado seu acompanhante. O homem partiu quando chegava. O médium e eu começamos a tagarelar sobre a saúde, o trabalho, o tempo e toda sorte de coisas; mas notei que em seu primeiro olhar ele viu aquele quem obsedava. Ele fez menção de seguir nossa conversação porque não queria me fazer sofrer ao me dizer o que via; seu olhar tornou-se sem expressão dirigido para minha fronte e seus lábios moviam-se imperceptivelmente porque estava em vias de recalcar o perturbador por uma injunção ou uma prece. Senti o peso insuportável se desprender de minha testa, de minha nuca e de minhas espáduas, como por encanto.

Agradeci ao médium rindo; ele sorriu por ter sido compreendido. Disse-me: "aquele que o tinha pegado era um negociante; ele retornou para quem o passou". Com o polegar, me mostrou a direção do homem que já ia longe, precisamente o que me havia transmitido a entidade perturbadora. Suponho que ele já havia visto esse Espírito em sua companhia, em outra ocasião.

O irmão Botella ria enquanto lhe contava meus aborrecimentos e me respondia que ele havia tido idênticos. « Um dia, me disse, fazia calor e tinha sede, entrei na cozinha e me servi um grande copo de água. No momento de o levar à boca, escutei muito distintamente estas palavras: é bom esse pequeno vinho branco. Tinha recebido um amante de um trago. »

Um outro dia, seu genro entrando na sala de jantar vê o médium estirado sobre o solo, aparentemente desmaiado. Ele saltou para o cômodo vizinho para chamar um médico. Voltou ao doente. Não havia mais ninguém. Enquanto ele telefonava, o irmão Botella, que estava em transe, tomado por um espírito errante tinha se recuperado, levantou-se e saiu pela porta de trás para tomar ar e escapar ao domínio da entidade perturbadora, sem saber que seu genro chamava o médico nesse momento. Este último sorriu ao saber do incidente; ele devia conhecer o problema; fora isso, ele agora faz parte dos espíritos guias de nosso grupo.

Eis um segundo exemplo de obsessão que me foi permitido observar:

Um amigo veio me ver e explicou que uma pessoa sua conhecida, uma mulher charmosa em seu comportamento normal, ao longo de uma crise de neurastenia, trancou-se em casa e se pôs a beber de maneira intempestiva; ele me perguntou se eu não poderia fazer qualquer coisa por ela porque supunha que estivesse tomada por um espírito vicioso. Acompanhei-o até a casa de sua amiga e constatei o estado em que esta mulher tinha caído, um verdadeiro porre. Aconselhei-o a levá-la à casa do médium curador Botella que a tiraria dessa influência malévola. Pedi-lhe que viesse me ver com sua amiga após sua visita ao médium.

Na manhã seguinte, esta dama veio me ver no escritório, toda sorridente,descontraída, me estendeu a mão e nesse momento preciso, senti um choque no rosto, como se houvessem me lançado um pesado travesseiro na face. Compreendi que ela acabara de me passar a entidade que a possuíra para beber. Não disse nada, entrei em meu domicílio, fiz minha refeição noturna e, para não satisfazer os baixos instintos desse espírito bebedor, nada bebi, nem mesmo um copo de água. Tempo perdido, quando me levantei da mesa, dirigindo-me para meu quarto, titubeei indo de uma parede à outra do corredor e caí sobre minha cama, a cabeça girando, as paredes de meu quarto dando a impressão de ficar de pernas para o ar. Deixei passar um bom tempo para poder constatar bem o efeito produzido por essa entidade, depois invoquei meu guia e fiz uma prece para esse obsessor que então me deixou de um só golpe. Recuperei a posse de meus sentidos normais, muito contente de ter podido livrar essa mulher de semelhante calamidade.

Essas pequenas experiências, por vezes aborrecidas, por outras divertidas, mas freqüentemente instrutivas para o médium neófito, normalmente fazem parte do desenvolvimento da faculdade mediúnica. Isso por duas razões:

v por um lado, o principiante não conhece a doutrina espírita senão bastante superficialmente, não está suficientemente engajado no caminho da reforma moral e sem saber atrai Espíritos de mesma elevação espiritual;

v por outro lado, é necessário que os Espíritos menos evoluídos os quais possuem fluidos mais grosseiros, possam agir sobre a matéria (o corpo do médium), amaciando os órgãos de retransmissão do instrumento (o corpo do médium) que, mais tarde, permitirão aos Espíritos mais elevados se comunicar.

No início do desenvolvimento da faculdade mediúnica, durante as sessões, os Espíritos guias do grupo deixam agir Espíritos menos evoluídos, mas cheios de boa vontade, que manipulam os médiuns e facilitam o amaciamento dos membros ou dos órgãos (nós os chamamos de exercícios). É assim que se pode apreciar os desenhos do médium A. intitulados "trabalho de amador" pelo espírito guia do médium desenhista.

Eis, a título de exemplo, uma experiência pessoal interessante sobre os assuntos desenvolvimento de uma faculdade mediúnica e controle de mediunidade; este último será objeto de um outro artigo.

Nossas reuniões espíritas ficaram interditas por causa da guerra e nos encontrávamos com alguns membros de nosso grupo, em um de nossos domicílios, onde conversávamos sobre a doutrina e a espiritualidade. Entre os recém chegados, um casal exprimiu o desejo de ver uma prancheta de ouija e seu funcionamento.

A hóspede arrumou a mesa, colocou sua mão sem resultado, embora alguns anos antes a prancheta funcionasse normalmente. Ela me propôs tentar; isso excedeu todas as expectativas; uma força impetuosa passeava rapidamente o braço em todos os azimutes. Ela me pediu para pegar o lápis e escrevi a primeira mensagem de uma entidade que se dizia meu guia. A partir desse dia, nos encontramos todos os domingos, nesse grupo restrito. Esse foi o início de uma possessão de todas as partes de meu corpo, experiência muito interessante pelas sensações sentidas e os resultados obtidos.

A força espiritual se manifestava começando na base da coluna vertebral, subia lentamente por golpes até a nuca (o guia fazia alusão à serpente kundalini querida aos hinduístas), depois a insensibilização se expandia a todos os membros superiores, seguido dos inferiores, finalmente todo o corpo, exceto os olhos, como se toda minha personalidade consciente aí estivesse localizada. Nesse momento, ele me levava a fazer poses plásticas durante longo tempo sem que eu sentisse a mínima fadiga. Por exemple: sentado sobre uma cadeira, com o peito ereto, os braços em cruz horizontalmente no prolongamento das omoplatas, ele levantava minhas pernas lentamente paralelas ao soalho, horizontalmente, minhas pernas e meu peito fazendo um ângulo reto tendo como ponto de apoio meu posterior sobre a cadeira. Fazia-me manter esta pose durante cinco minutos aproximadamente. Eu não fazia nenhum esforço e não sentia nenhuma fatiga. Suponho que o guia mantinha possessão dos centros motores; não posso dizer do proveito disso porque ele não dava nenhuma explicação.

Depois o guia agia da mesma forma sobre o órgão da visão. Dizia-me para olhar um quadro fixado na parede e de um só golpe, como por uma batida, eu não via mais o quadro e via o papel de parede uniformemente claro como se o quadro tivesse sido levantado. Depois, de repente, a visão voltava ao normal. A mesma experiência era repetida com o desaparecimento de objetos diversos colocados sobre a mesa e mesmo de um ou dois dedos da mão pousada sobre uma toalha branca enquanto que via perfeitamente os outros dedos. A anulação da visão não se fazia sobre o olho ou sobre o nervo ótico, pois que havia a reconstituição da imagem do papel de parede; eu ignoro o processo.

Depois o guia nos informava pela escrita que iria me adormecer; ele tentou ao longo de várias sessões sem o conseguir. Então me fez ficar inicialmente no meio da sala e, com os olhos fechados, me fez girar sobre mim mesmo como um peão, cada vez mais rapidamente, como os derviches giradores. Eu não sabia mais onde estavam o piso e o teto, mas na altura dos olhos fechados tinha sempre consciência de meu eu. Sem o saber, ele me dirigia para uma poltrona para me fazer cair dentro dela, mas tendo caído do braço da poltrona, retornei ao exterior; um grito de terror da hóspede me fez retomar a consciência; eu estava estirado sobre o solo, apoiado sobre a palma das mãos e a ponta dos sapatos, sem dor. Amedrontada, a hóspede não queria mais recomeçar esta experiência. Ela teve a idéia de fazer vir um médium (que se dizia como tal) seu conhecido para me magnetizar; seus passes não tiveram nenhum efeito, exceto o de que minha cabeça pesava como chumbo, com uma impressão de volume, enorme como uma abóbora.

Vendo que não dava nenhum resultado, fez vir o médium curador Botella que nós não havíamos chamado até então, porque ele já começava a sentir os primórdios de sua doença e nós não o queríamos fatigar. Desde que a sessão começou, a entidade, se dizendo meu guia, não escreveu senão três ou quatro palavras e me deixou. O médium vidente nos assinalou que ele não tinha se retirado definitivamente porque de vez em quando se percebia sua cabeça passando por uma porta entreaberta, esperando que o médium partisse para me retomar em suas mãos, se assim o podemos dizer. Ele o descreveu com um turbante em volta da cabeça como um hindu. Depois, caindo em transe, o médium tomado por um espírito guia do grupo, nos felicitou por havermos continuado o trabalho espiritual malgrado as dificuldades do momento; ele nos explicou a necessidade da utilização de um espírito inferior para a preparação da mediunidade, depois terminou com esta frase simbólica: "Um bom operário deve ter boas ferramentas para fazer um bom trabalho". O que precisa ser traduzido: os Espíritos elevados, para fazer seu trabalho espiritual devem ter bons médiuns, donde a necessidade para estes últimos de uma melhora constante sobre o plano moral.

Evidentemente, estando prevenido, eu recusava categoricamente as solicitações desse Espírito errante e me colocava seriamente no trabalho de limpeza moral; o que durou algum tempo até uma outra experiência que foi o início de uma mediunidade efetiva.

De maneira geral, a palavra obsessão é empregada em sentido pejorativo porque a obsessão por Espíritos inconscientes é aquela que é a mais freqüentemente constatada. Em um sentido mais amplo, dizemos que a mediunidade é uma obsessão por Espíritos elevados na escala de elevação espiritual. A mediunidade é uma porta aberta ao Invisível. O médium está envolvido por Espíritos protetores que repelem as más influências, se tem consciência da alta importância de sua missão mediúnica. Caso se deixe levar por seus próprios instintos, os Espíritos guias não podem mais protegê-lo e ele cai sob a influência de Espíritos obsessores.

Allan Kardec falava dos escolhos da mediunidade: o orgulho e a cupidez (nós diríamos: o personalismo). Essas são duas formas de obsessão.

A instrução espírita compreende não somente o ensinamento moral dado pelos Espíritos, mas também o estudo dos fatos; é a ela que compete a teoria de todos os fenômenos, a constatação do que é e do que não é possível; em resumo, a observação de tudo o que pode fazer avançar a ciência. Ora, isso seria limitar-se a crer que os fatos sejam restritos aos fenômenos extraordinários; que aqueles que atingem mais os sentidos sejam os únicos dignos de atenção; a cada passo, eles são encontrados nas comunicações inteligentes e assim não devem ser negligenciados pelos homens reunidos para o estudo; esses fatos, que seria impossível enumerar, surgem de uma enormidade de circunstâncias fortuitas; quaisquer que sejam os meios em destaque, eles não são menos dignos do mais alto interesse para o observador que neles vai encontrar seja a confirmação de um princípio conhecido, seja a revelação de um princípio novo que o faz penetrar mais adiante nos mistérios do mundo invisível; isso também é filosofia.

Extraído do « Livro dos médiuns » de Allan Kardec

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