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Curso de Introdução ao Espiritismo

Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec

Parte 4

Dificuldades do estudo dos fenômenos espíritas

Raros têm sido durante muito tempo, na França, nos meios oficiais, os experimentadores liberados das rotinas clássicas e dotados das qualidades necessárias para bem conduzir estas delicadas observações. Todos aqueles que têm procedido com perseverança e imparcialidade puderam constatar a realidade das manifestações dos defuntos. Mas, tão logo publicam os resultados de suas pesquisas, encontram, mais freqüentemente, apenas incredulidade, indiferença ou escárnio. Os homens de ciência, para explicar os fatos espíritas, têm acumulado sistema sobre sistema e recorrido às hipóteses mais inverossímeis, torcendo os fenômenos para os fazer entrar em suas concepções.

É assim que vimos surgir tantas teorias estranhas, como a do nervo crepitador de Jobert de Lamballe, a das articulações estalantes, a dos automatismos psicológicos, a das alucinações coletivas, até aquela subliminar. Essas teorias, mil vezes refutadas, renascem sem cessar. Dir-se-ia que os representantes da ciência oficial nada temem tanto quanto serem obrigados a reconhecer a sobrevivência e a intervenção dos Espíritos.

O estudo dos fenômenos é de uma importância capital ; é sobre ele que repousa o espiritismo por inteiro ; mas, muito freqüentemente, a falta de método, a falta de continuidade e de direção nos experimentos, tornam estéreis a boa vontade dos médiuns e as legítimas aspirações dos pesquisadores. É a essas causas que é preciso atribuir os resultados pouco concludentes que se obtém em tantos meios. Experimenta-se ao acaso, febrilmente, sem cuidar das condições necessárias ; tem-se pressa de obter os fenômenos transcendentes. Por conseqüência mesmo do estado de espírito com que se conduzem as pesquisas, acumulam-se as dificuldades e, por fim, após algumas tentativas, obtém-se apenas fatos insignificantes, banalidades ou mistificações, desencorajando e afastando os experimentadores.

Os homens de ciência querem impor à essas pesquisas as regras da ciência ortodoxa e positiva, que consideram como os únicos fundamentos da certeza, e se essas regras não forem adotadas e seguidas, rejeitam sem piedade todos os resultados obtidos.

Entretanto, a experiência nos demonstra que cada ciência tem suas regras próprias. Não se pode estudar com sucesso um nova ordem de fenômenos inspirando-se em leis e condições que regem fatos de uma ordem diferente. É somente por meio de pesquisas pessoais ou graças à experiência adquirida nessa via pelos pesquisadores conscienciosos, e não em virtudes de teorias à priori, que se pode determinar as leis que governam os fenômenos ocultos. Essas leis são as mais sutis e complicadas. Seu estudo exige um espírito atento e imparcial. Mas como exigir imparcialidade para aqueles cujo interesse, renome e amor-próprio estão ligados estreitamente a sistemas ou a crenças que o Espiritismo poderia abalar ?

Não é necessário ser um matemático, um astrônomo, um médico de talento, para empreender, com chance de sucesso, as investigações em matéria de Espiritismo ; basta conhecer as condições a preencher e submeter-se a elas. Essas condições, nenhuma outra ciência poderia indicar. Somente a experimentação assídua e as revelações dos Espíritos-guia, nos permitem estabelecê-las de uma maneira precisa.

Em muitos casos, o fenômeno espírita se produz com uma espontaneidade que excede todas as previsões. Pode-se apenas constatá-lo. Ele se impõe e escapa à nossa ação. Chame-o, ele se furta. Mas se você não pensa mais nele, reaparece. Isso ocorre em quase todos os casos de aparições à distância e nos fenômenos de casas assombradas. Os fantasmas vão e vêm, sem se preocupar com nossas exigências e nossas pretensões. Espera-se durante horas e nada se produz. Faz-se menção de partir, as manifestações começam.

À propósito da imprevisibilidade dos fenômenos, recordemos o que disse o Sr. Varley, engenheiro chefe dos serviços de postes e telégrafos da Grã-Bretanha1 :

"A Sra. Varley via e reconhecia os Espíritos, particularmente enquanto estava em transe (estado de sonambulismo lúcido) ; ela é também uma médium muito boa de encarnações, mas não tenho sobre ela quase nenhuma influência para provocar o transe, de modo que me é impossível servir de sua mediunidade para fazer experiências. "

É um ponto de vista errôneo e grosseiro, de conseqüências impertinentes, considerar o Espiritismo como um domínio onde os fatos se apresentam sempre idênticos, onde os elementos de experimentação podem ser disponibilizados à nossa vontade. Fica-se exposto com isso a ter pesquisas vãs ou a resultados incoerentes.

Os sábios têm em pouca conta as afinidades psíquicas e a orientação dos pensamentos, que constituem entretanto um fator importante no problema espírita. São levados a considerar o médium como um aparelho de laboratório, como uma máquina que deve produzir os efeitos à vontade, e usam para com ele de uma cerimônia excessiva. As Inteligências invisíveis que o dirigem são comparadas por eles a forças mecânicas. Em geral, se recusam a ver nelas seres livres e conscientes, cuja vontade entra em grande parte nas manifestações, que têm suas idéias, seus desejos, seu objetivo, que desconhecemos, e que não estão sempre com o propósito de interagir ; umas porque a desenvoltura e a visão muito material dos experimentadores as afastam ; as outras porque, muito inferiores, não sentem a necessidade de demonstrar aos homens as realidades da sobrevivência.

Vale anotar:

  • Não se pode repetir à vontade o fenômeno que se quer estudar, porque os Espíritos têm sua vontade própria. Estuda-se então o fenômeno Espírita em condições outras do que as das ciências clássicas como a Química, a Biologia, a Física, etc…

Para saber mais:

  • No Invisível Léon Denis (1ª parte, cap. IX, Condições de experimentação)
  • No Invisível Léon Denis (1ª parte, cap. II, Os modos de estudos)

1Proceedings of the Society psychical research, v. II.

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