Curso de Introdução ao Espiritismo

Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec

Parte 9

Origem dos Espíritos: a evolução anímica

Em O Livro dos Espíritos, os Espíritos se definem como os seres inteligentes da criação, que povoam o universo em torno do mundo material. Tendo sido criados imortais por Deus, os Espíritos tiveram um começo, e assim não são de todo eternos como Deus.

Encarnados na matéria, os Espíritos formam a humanidade tal como a conhecemos; o corpo físico é então uma vestimenta para o Espírito que dele se separa quando estiver gasta.

As leis que dirigem as evoluções tão variadas da matéria física ou vivente mostram que nada aparece subitamente e em estado perfeito. O sistema solar, nosso planeta, a linguagem, as artes, as ciências, longe de eclodirem espontaneamente, são o resultado de uma longa e gradual ascensão, desde as formas rudimentares até às formas mesmas que conhecemos nos dias de hoje.

A alma humana não poderia fazer exceção a esta lei geral e absoluta; constatamos sobre a Terra que ela passa por fases que abraçam as mais diversas manifestações, desde as mais humildes e mesquinhas concepções do estado selvagem, até às magníficas eflorescências do gênio.

Nosso exame retrospectivo deve se deter aí? Devemos crer que esta alma, que governou no homem primitivo um organismo tão complicado, tenha podido subitamente adquirir propriedades tão variadas e tão bem adaptadas às necessidades do indivíduo? Nossa indução deve se deter aos seres que têm exatamente as mesmas características anatômicas que as nossas? Não o cremos, porque as transições insensíveis, que nos conduzem fisicamente da matéria ao homem, encontramo-las no domínio intelectual com as mesmas gradações sucessivas. Então é no início da vida inteligente que precisamos atacar para encontrar, se não a origem da alma, ao menos o ponto de partida aparente de sua evolução através a matéria.

Constatamos experimentalmente, por meio do Espiritismo, a necessidade da reencarnação da alma humana; e a lei de continuidade, que temos assinalado nos seres viventes, nos permite crer que a alma animal está submetida à mesma obrigação. O princípio inteligente viria assim habitar sucessivamente os organismos mais e mais aperfeiçoados, à medida que se tornava mais capaz de os dirigir.

Eis um exemplo que vem confirmar a teoria da encarnação animal:

Se em uma estrebaria se faz o leito dos cavalos com a palha que serviu na jaula de leões ou tigres, quando os cavalos sentirem o odor desta palha, serão tomados de um terror exagerado, e se esforçarão para fugir. Muitas gerações de cavalos domésticos devem ter se sucedido desde que o cavalo selvagem foi exposto aos ataques desses felinos. Entretanto esses cavalos que, depois de numerosas gerações, nasceram nas estrebarias, reconhecem ainda o odor desses terríveis predadores de seus longínquos ancestrais.

Como explicar o medo desses animais? Se supusermos que haja um princípio intelectual no animal, que esse princípio está revestido de um perispírito no qual se armazenam os instintos, as sensações, e que a memória provém de um despertar desses instintos e dessas sensações, tudo se torna compreensível. As mesmas causas produzindo os mesmos efeitos, os animais domésticos são os mesmos seres que viviam antigamente no estado selvagem, e o odor das feras desperta em seu envelope fluídico as lembranças que se relacionam ao sofrimento e à morte, sob os dentes dos carniceiros; daí seu pavor.

O Espiritismo demonstra a existência do perispírito, mostrando que este órgão reproduz fluidicamente a forma corporal dos animais, que é estável em meio ao fluxo perpetuo das moléculas vivas, resultando que é nele que se incorporam os instintos. Como é imutável a despeito das mudanças incessantes das quais o homem é o palco, ele contém, por assim dizer, o estatuto das leis que dirigem a evolução do ser. Na morte, não se dissolve, constitui a individualidade do princípio inteligente e registra cada modificação que as numerosas e sucessivas existências nele determinam, de modo que após haver percorrido toda a série, ele se torna apto a conduzir, a dirigir, mesmo sem conhecimento do espírito, organismos mais complicados. Há neste automatismo qualquer coisa de análogo ao que se nota quando um pianista treinado decifra, à primeira vista, uma partitura nova; como tem flexibilizado por um longo exercício o mecanismo do cérebro, do braço e dos dedos, aos movimentos mais diversos de sua vontade, não tem mais que se preocupar com essas dificuldades materiais, que são intransponíveis para o iniciante; tem apenas que ler a partitura, e seus órgãos obedecem automaticamente ao seu espírito. Mas quanta pena e trabalho antes de chegar a este resultado! Esta maneira de encarar a utilidade indispensável do perispírito se tornará ainda mais clara, à medida que compreendermos melhor a natureza das ações tão complexas que têm por resultado a vida física e intelectual dos animais e do homem.

O instinto é a forma mais inferior sob a qual a alma se manifesta. O animal tem uma tendência de reagir contra o meio exterior, e a sensação determina nele emoções de prazer ou de dor; quando procura uns e foge de outros, ele cumpre atos instintivos que se traduzem por ações reflexas das quais pode ter consciência, sem poder, com freqüência, impedi-las, mas que são admiravelmente adaptadas à sua existência. Assim uma lebre foge ao mínimo ruído que se produz, seu movimento de fuga é involuntário, inconsciente, em parte reflexo, e em parte instintivo, mas esse movimento está adaptado à vida do animal: ele tem por objetivo sua conservação.

Nós pensamos que esses instintos são o resultado de atos realizados um grande número de vezes nas vidas anteriores da alma do animal e que se acham incrustados no perispírito desta mesma alma encarnada em um novo corpo. As sensações nervosas que o animal sente repercutem no perispírito. Uma repetição freqüente da mesma sensação dará nascimento ao instinto.

Tomemos a medusa como exemplo. Esses animais não se dirigem nunca para a terra senão quando o vento para aí as empurra, dir-se-ia que elas sentem os perigos que as esperam. A despeito das precauções tomadas pelas medusas elas, entretanto, encalham em quantidade e não tardam a se dessecarem. Seu temor pelo calor é então absolutamente justificado e basta para lhe criar um instinto, porque a medusa que tiver assim perecido um grande número de vezes, terminará por se afastar instintivamente, nas encarnações seguintes, dessas margens tão funestas para ela.

A luta pela vida, os esforços perpétuos dos seres reagindo contra as influências destrutivas, para se adaptarem ao seu meio, para lutar contra as espécies inimigas, fizeram evoluir os instintos em inteligência. Inteligência que foi primeiramente confundida com o instinto, mas que se diferenciou, com o tempo e a experiência, até o desabrochar do pensamento e da consciência de si mesmo, de seus atos e de suas conseqüências.

Os tesouros do intelecto se tornam claros, lentamente, através a obscura carapaça dos apetites. O egoísmo, o pensamento do eu, nascido pela lei de conservação que tem sido tão longamente sua única soberana, vê diminuir lentamente sua onipotência, porque já no reino animal, a maternidade implantou na alma o sentimento de amor, sob suas formas mais humildes e rudimentares. Mas esses pálidos clarões, que rompem com dificuldade o sonho animal, irão crescendo de intensidade e irradiarão à medida que a transformação se produza e, nas almas superiores, serão a luz cintilante, o farol que nos dirigirá nas trevas da ignorância.

A lei do progresso não se aplica somente ao homem. Ela é universal. Em todos os reinos da natureza existe uma evolução. Desde a célula verde, desde o impreciso embrião flutuante sobre as águas, através de sucessões variadas, a cadeia das espécies se desenvolveu até nós.

Sobre esta cadeia, cada anel representa uma forma de existência que conduz a uma forma superior, a um organismo mais rico, melhor adaptado às necessidades, às manifestações grandiosas da vida. Mas sobre a escala da evolução, o pensamento, a consciência, a liberdade não aparecem senão após muitos degraus. Na planta, a inteligência dorme; no animal, ela sonha; somente no homem se desperta, se conhece, se possui e se torna consciente. Desde então, o progresso, fatal em qualquer modo nas formas inferiores da natureza, não pode mais se realizar senão pela conformação da vontade humana com as leis eternas.

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