Curso de Introdução ao Espiritismo

Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec

Parte 10

O corpo físico, a alma e o perispírito

Na sua negação da existência da alma, os materialistas têm freqüentemente argüido da dificuldade de conceber um ser privado de forma. Os próprios espiritualistas não explicavam como a alma, imaterial e imponderável, podia se unir estreitamente e comandar o corpo material, de natureza essencialmente diferente. Essas dificuldades têm encontrado sua solução nas experiências do Espiritismo.

Os fenômenos espíritas têm demonstrado que a alma é imortal, quer dizer que, quando o corpo que ela habita durante sua passagem sobre a Terra estiver destruído, ela não será atingida por essa mudança, conservará sua individualidade e poderá ainda manifestar sua presença por intervenções físicas. Aqui se apresenta uma dificuldade. Como compreender a ação da alma sobre o corpo?

Segundo a filosofia e os Espíritos, a alma é imaterial, dito de outra forma, ela não tem nenhum ponto de contato com a matéria que conhecemos. Não se pode conceber que a alma tenha propriedades análogas à dos corpos da natureza, pois o pensamento, que dela é a imagem, a emanação, escapa a toda medida, a toda análise física ou química. Mas é preciso tomar a palavra imaterial em seu sentido absoluto? Não, porque a imaterialidade verdadeira seria o nada; mas esta alma constitui um ser cuja existência é tal que nada aqui em baixo poderia dela nos dar uma idéia. A palavra imaterial significa que nenhum estado da matéria, tal como nós a conhecemos, pode nos fazer compreender o estado da alma.

Nós constatamos no homem a aliança desses dois elementos: o corpo e a alma. Eles estão unidos de maneira íntima e reagem um sobre o outro, assim o demonstra o testemunho dos sentidos e da consciência. Depois do que dissemos sobre a alma, parece que há uma contradição, mas ela é mais aparente do que real, porque o homem não é formado somente do corpo e da alma, mas ainda de um terceiro princípio intermediário entre um e outro chamado perispírito, isto é o envelope do espírito.

A necessidade desse mediador vai ser compreendida em seguida ao se colocar em paralelo a espiritualidade da alma e a materialidade do corpo.

A alma é imaterial porque os fenômenos produzidos por ela não podem se comparar a nenhuma propriedade da matéria. O pensamento, a imaginação, a memória não têm nem forma, nem cor, nem duração, nem maleabilidade; essas produções do espírito não estão restritas a nenhuma lei que rege o mundo físico, elas são puramente espirituais e não podem ser medidas, nem pesadas. A alma escapa, por sua natureza, à destruição pois ela se manifesta em toda sua plenitude após a desagregação do corpo, então a alma é imaterial e imortal.

O corpo é este envelope do princípio pensante, que vemos nascer, crescer e morrer. Os elementos que o compõem são tirados da matéria que forma nosso globo. Após terem permanecido durante um certo tempo no organismo, são substituídos por outros. Essas operações se renovam até à morte do indivíduo; então os átomos que compunham em último lugar o corpo humano são tomados pela circulação da vida e entram em outras combinações, em virtude desta grande lei de que nada se cria e nada se perde na natureza.

O corpo e a alma são então essencialmente distintos: um notável por suas transformações incessantes, o outro pela imutabilidade de sua essência. Eles apresentam qualidades radicalmente opostas, e entretanto constatamos que vivem em uma harmonia perfeita e exercem influências recíprocas. O ódio, a cólera, a piedade e o amor se refletem sobre o rosto e imprimem um caráter particular à fisionomia. Nas emoções violentas, é todo o organismo que está perturbado; uma alegria súbita ou uma dor imprevista podem determinar abalos tais que a morte se segue. A imaginação age também sobre o físico com uma grande violência: é o que demonstram as obras da medicina que tratam desta questão, de sorte que se de uma parte esses efeitos estão bem constatados, de outra parte, a alma sendo imaterial, o problema de sua ação mútua permanece insolúvel para os filósofos.

De numerosas observações feitas no mundo inteiro, resulta que o homem é formado pela reunião de três princípios:

A morte é a desagregação do envelope carnal, daquele que a alma abandona ao deixar a Terra; o perispírito segue a alma à qual está sempre ligado. Ele é formado por matéria em um estado de rarefação extrema. Esse corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, existe assim durante a vida terrestre. É o intermediário pelo qual passam as sensações físicas percebidas pelo eu, e é por este intermediário que o espírito pode comunicar ao exterior seu estado mental.

Tem sido mencionado que o espírito é uma chama, uma centelha, etc., isso deve ser entendido em relação ao espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, ao qual não se poderia atribuir uma forma determinada; em qualquer grau que se encontre, na animalidade ou na humanidade, ele está sempre intimamente associado ao perispírito, cuja eterização está na proporção de seu adiantamento moral. De sorte que, para nós, a idéia do espírito é inseparável da idéia de uma forma qualquer, e não concebemos um sem o outro. "O perispírito faz então parte integrante do espírito, como o corpo faz parte integrante do homem mas o perispírito sozinho não é o espírito do mesmo modo que o corpo sozinho não é o homem, porque o perispírito não pensa e age por si só, ele é para o espírito o que o corpo é para o homem: o agente ou o instrumento de sua ação".

A alma durante a vida corporal, como após a morte, está constantemente revestida de um envelope fluídico, mais ou menos sutil ou etéreo: o perispírito, ou corpo espiritual. O perispírito serve de laço entre o corpo e a alma; transmite àquela as impressões dos sentidos e comunica ao corpo as vontades do espírito. No momento da morte, se destaca da matéria tangível, abandona o corpo à decomposição da tumba, mas, inseparável da alma, hospeda a forma exterior de sua personalidade.

O perispírito é então um organismo fluídico; é a forma preexistente e sobrevivente do ser humano, o substrato sobre o qual é modelado o envelope carnal, como uma vestimenta invisível, formada de uma matéria quintessenciada, que penetra todo o corpo, por mais impenetrável que ele nos pareça.

A matéria grosseira, incessantemente renovada pela circulação vital, não é a parte estável e permanente do homem. É o perispírito quem assegura a manutenção da estrutura humana e dos traços da fisionomia, e isso em todas as épocas da vida, do nascimento à morte. Ele exerce assim a função de um molde compressível e expansível, sobre o qual a matéria terrestre se incorpora.

O corpo fluídico não é entretanto imutável; ele se depura e enobrece com a alma; segue-a através suas encarnações sem conta, sobe com ela os degraus da escala hierárquica, tornando-se mais e mais diáfano e brilhante, para resplandecer um dia com esta luz deslumbrante de que falam as Bíblias antigas e as testemunhas da história relativamente a certas aparições.

A elevação dos sentimentos, a pureza da vida, os impulsos para o bem e o ideal, as provas e os sofrimentos pacientemente suportados, afinam cada vez mais o perispírito, estendendo e multiplicando as vibrações. Como uma ação química, eles consomem as partículas grosseiras e não deixam subsistir senão as mais sutis.

Vale a pena anotar:

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