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Heresia e Ortodoxia

Paulo A. Ferreira

Conforme aquele caminho que chamam seita ("heresy" - heresia -
na versão inglesa do Rei Jaime), assim sirvo ao Deus de nossos pais,
acreditando em tudo o que esteja de acordo com a lei, e nos escritos
dos profetas, tendo esperança em Deus de que haverá ressurreição,
tanto de justos como de injustos."
Paulo, Atos, 24:14 e 15.

Todos os movimentos religiosos foram heresias em sua origem. Da mesma forma podemos chamar de hereges todos os pioneiros de religiões, filosofias e ciências. A resistência a algo novo é sempre causada pelo apego e inércia a sistemas que, na época, eram considerados como sendo a verdade final. A ortodoxia de hoje foi a heresia de ontem e a heresia de agora se tornará a ortodoxia de amanhã.

Um espírito que tenta buscar a verdade pode chegar a um ponto em que transcende a ortodoxia e a heresia, procurando conciliar os opostos, sem se contentar com as convenções passadas e presentes. Compreende que as contradições são apenas aparentes e que as incompatibilidades não passam de mera demonstração descuidada de hostilidade que no máximo tentam esconder a própria ignorância de aspectos do assunto.

Abaixo temos um trecho extraído dos textos de um escritor e filósofo do Séc. XIX, S. Mead, que exemplifica a divergência que costuma ocorrer entre um ortodoxo e alguém que já se libertou da barreira dos opostos:

"Muitos de meus leitores devem conhecer bem a tirania de uma Igreja cuja resposta estereotipada a toda contestação da sua autoridade é: - 'Isto é orgulho intelectual, meu filho; o mais sutil de todos os pecados. O que está lhe faltando é a virtude da humildade, a maior de todas as virtudes. Sua afirmação de humildade é vã, já que é justamente esse orgulho intelectual que o está levando agora, neste momento, a se recusar a se submeter à autoridade da Igreja' ".

" O que esse tipo de mente nunca pode entender é que há um uso correto e um uso errôneo do orgulho, bem como um uso correto e um uso errôneo da humildade. O orgulho da humildade é orgulho como qualquer outra forma desta paixão. O uso humilde do divino dom da razão constitui mais autêntica adoração de Deus do que a degradação pessoal ante a tirania do interesse egocêntrico, que se arroga o domínio da alma do Homem".

"Foi o ciúme desse espírito de monopólio das coisas divinas que deu origem a todos os horrores da perseguição religiosa. Os homens não se envergonham de orar ao seu Deus pedindo que os livre dos infiéis e hereges, como num anátema. E inúmeras vezes cuidaram que sua oração se tornasse realidade por meio do fogo, da espada e da tortura. E a ironia disso tudo é que os seus mais chegados companheiros de fé são invariavelmente encarados como os mais condenáveis. É realmente notável o fato de que, ao surgirem diferenças entre aqueles que antes haviam estado unidos em fé e aspiração religiosas, a hostilidade seja mais amarga e cruel. Isto pode ser observado em toda parte. Qual é o motivo dessa amargura?"

"Não será que, em algum grau, aqueles que estiveram tão intimamente associados em assuntos religiosos, que tão intensa e cegamente acreditaram que a sua crença era a única, que o seu meio de salvação era válido para todos os homens, que estão convictos de que só deve haver uma Igreja, e que essa Igreja deve ser a sua, fiquem extremamente enraivecidos com a desvinculação de seus companheiros, que consideram como únicos responsáveis pelo ultraje que então sofrem, ao invés de reconhecerem que estiveram todo o tempo vivendo num paraíso hipotético, de modo que seus ex-companheiros merecem sua mais profunda gratidão por lhes terem aberto os olhos?"

No fundo o ortodoxo teme que sua crença seja alterada pela introdução de conceitos novos, mas não seria tolice temer pela Verdade que no final prevalecerá por si mesma? E no fundo o herege vê erros nas crenças, porque se esquece que todas terão pontos de incertezas enquanto a humanidade ainda não tiver evoluído o suficiente para tudo compreender e que, quando isso acontecer, todos os opostos serão conciliados e ver-se-á então que todas as crenças contém uma parcela da verdade. Para um espírita não deve haver temor, mas apenas a fé na infinita bondade e sabedoria divinas e a certeza de que todo questionamento só pode terminar em um maior entendimento da Verdade. Afinal, que valor teria para ele a heresia e a ortodoxia a partir do instante em que compreendesse sua pequenez perante a infinita sabedoria divina?

Mantenhamo-nos vigilantes para não cairmos na tendência tão limitante e personalista de achar que a nossa compreensão atual é a palavra final e que o futuro não traria novas revelações que pudessem nos aproximar cada vez mais da Verdade, acompanhando a lenta evolução da humanidade. Portanto, que nossa ortodoxia seja a de nos atermos primeiro ao que foi transmitido pelos espíritos nas obras básicas e que a nossa heresia seja a de procurarmos abordar as novas questões da atualidade utilizando as comunicações modernas de espíritos de escol; com isso estaríamos contribuindo para reduzir em nosso meio toda forma de personalismo e exercitando o tão aconselhado esquecimento de nós mesmos1. Não seria demais reafirmar que os princípios contidos nessas mensagens, só deveriam ser considerados como parte acessória da Doutrina, quando transmitidos através de médiuns reconhecidos, ou após terem passado pelo Controle dos Espíritos2 ou pelo Controle da Mediunidade3; as demais deveriam ser vistas como contribuições de boa vontade, mas ainda sujeitos a confirmação futura.

Lembremo-nos sempre destas sábias palavras de nosso mentor Bezerra de Menezes4 :

"... que a base kardequiana permaneça em tudo e todos, para que não venhamos a perder o equilíbrio sobre os alicerces em que se nos levanta a organização".

1 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. X Item 14 - FEB.
2 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Introdução - FEB.
3 - Artigo Controle da Mediunidade de Jean Bazerque
4 - Ontem e Hoje - Bezerra de Menezes - 1ª Ed., 2000, FEB, págs. 84 e 95.

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