A Prece

José Argemiro da Silveira

de Ribeirão Preto, SP

"Quando quiserdes orar entrai para o vosso quarto e, fechada a porta, orai ao Pai, no íntimo, e o Pai que vê no íntimo, vos recompensará" - Jesus (Mateus 6:6)

Há pessoas que duvidam da eficácia da prece, achando que, se Deus conhece nossas necessidades, não é preciso expô-las. Entretanto, embora o Criador de fato conheça tudo o que vai no nosso íntimo, bem como o de que necessitamos, a prece proporciona, a quem ora, um bem-estar muito grande. E sempre contribui para a solução de nossos problemas, para minorar as dores de quem sofre.

Nem sempre recebemos o que pedimos, mas a prece não fica sem resposta. Informam os benfeitores espirituais que a resposta de nossas orações vêm para atender nossas reais necessidades, e não de acordo com o pedido, pois, às vezes, o que pedimos não é o que mais nos convém. Diz Emmanuel (Livro da Esperança, lição n.° 88): "Pediste em oração a cura de doentes amados e a morte apagou-lhes as pupilas; solicitaste o afastamento da prova e o acidente ocorreu; suplicaste a sustação da moléstia e a doença chegou; imploraste suprimentos materiais e a carência te bate à porta". Mas prossegue o instrutor espiritual: "Se não abandonares a prece, aliada ao exercício das boas obras, granjearás paciência e serenidade para entender que a desencarnação foi socorro providencial; o desastre se constituiu em medida de emergência para evitar algo pior; e a mutilação física é defesa da própria alma contra quedas morais". Isto significa que os infortúnios da vida, que queremos tanto evitar, muitas vezes são as lições de que necessitamos para o nosso aperfeiçoamento espiritual. Assim, a prece não os removerá, mas nos trará o entendimento, a compreensão necessária para os aceitarmos, entendendo o benefício que eles nos proporcionam. A sabedoria popular diz "há males que vêm para o bem", e é verdade. Se os problemas continuam, mesmo com as orações, é bom insistir na prece que ela pode não afastar o fardo do ombro do sofredor, mas lhe dará forças e bom ânimo para carregá-lo. Jesus nos recomenda orar sempre e nunca deixar de orar. Para nos esclarecer bem a respeito do assunto, contou-nos a parábola do Juiz Iníquo.

Uma pobre viúva explorada por um ricaço prepotente, procura o juiz e lhe pede: Faze-me justiça contra meu adversário. O juiz, porém, que não observa as Leis de Deus, nem respeita homem algum, não quer atendê-la. A viúva insiste e, mesmo não sendo atendida, continua a insistir, a tal ponto que, por fim, o Juiz resolve atendê-la, não por causa dela, mas para se livrar da importunação. (Lucas, 18:1 e seguintes). Parece estranha a parábola, será que Deus seria como aquele juiz iníquo? Certamente que não, mas nós, muitas vezes achamos que sim. Achamos que Deus não nos ouve. Então Jesus nos recomenda a, mesmo assim, não desistir da oração.

Entretanto, alguém poderá argumentar: E por que essa necessidade de pedir, se Deus é onisciente, e sabe perfeitamente de que necessitamos, mesmo antes de lho pedirmos? Ocorre que a oração não tem por fim lembrar Deus que precisamos disto ou daquilo. A finalidade da prece é fazer modificação em nós mesmos; criar em nós uma atitude tal que Deus nos possa atender, pois só "quando o discípulo está pronto o Mestre aparece".

Se vamos ao mar pegar água, pegaremos determinada quantidade conforme o tamanho de nossa vasilha. quanto maior a vasilha, maior a quantidade de água. Se consigo pegar pouca água, ou mesmo quase nenhuma, isto ocorre pelo tamanho de minha vasilha pequena, ou mesmo porque não levo nada para recolher a água. E não pelo oceano que é imenso. Poderíamos comparar o oceano com a misericórdia do Pai celestial, e as vasilhas são as nossas condições desiguais; cada um detém uma certa receptividade, possui a vasilha de determinado tamanho. O pedir, orar, buscar, bater, têm por fim alargar cada vez mais o recipiente humano.

Se alguém estiver, em pleno meio-dia, numa sala às escuras, e quiser receber um pouco de claridade, deverá abrir uma porta, ou uma janela, para que entre a luz solar. O sol não é afetado por isto. A misericórdia divina jorra com abundância, em favor de todos. Mas para recebê-la precisamos criar condições, receptividade em nós. Vamos conseguindo isto, se não abandonarmos a prece, aliada ao exercício das boas obras.

(Jornal Verdade e Luz Nº 172 de Maio de 2000)